Uma tijolada na testa e um afago no peito

Choques e encontros no III Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos

Por Michele Torinelli / Vida Boa

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Oferenda à Pachamama, a Mãe Terra.

Quinta-feira, 10 de novembro. Ponho minha grande mochila nas costas, a mochila dos equipamentos no peito, a barraca na mão, e vou ao encontro da Patrícia Martyres, assessora de imprensa do III Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos. Ela que fez a mediação para que eu fosse cobrir o evento pelo projeto Vida Boa e com quem combinei uma carona para ir até a chácara em São José dos Pinhais onde abriu-se o portal dos sagrados saberes das mulheres. Me deparo com um pequeno carro lotada de gente, mochilas e frutas. E já no caminho começam as conversas que vão desde alimentação à agricultura e espiritualidade.

Chegamos. Cadastro e uma pequena volta para reconhecer o espaço – com muito gramado, árvores, um lago e algumas construções. Pessoas caminham tranquilas. Algumas barracas já estavam armadas, e fui decidir onde montar a minha, antes que escurecesse. Queria um lugar tranquilo, longe das conversas e badalações, e Mariana, que também estava no carro, soterrada por mochilas, me acompanhou. Achamos um bom local, sossegado, plano e embaixo de árvores, e armamos acampamento.

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No lusco-fusco, esse horário nem noite nem dia em que tudo acontece, começou o ritual de abertura. Uma oferenda à Pachamama, Mãe Terra, coordenada pela abuela Marialuna, do Chile. Fogo, oferendas, tambores, cantos, rodas, mãos dadas – elementos que seriam corriqueiros nos próximos dias. Na sequência, uma roda em volta do fogo para apresentação das abuelas (“avós”, em espanhol, termo utilizado para indicar aquelas que carregam os saberes ancestrais) e das organizadoras, Anna Sazanoff e Noélle Bonacin.

“Agradeço a parceria com a Anna, a gente nem sabe como consegue organizar tudo isso, mas a coisa flui”, disse Noélle. Já Anna ressaltou a importância das medicinas sagradas, porque afinal quem precisa de cura não é a Mãe Terra, mas nós, seres humanos, e esses presentes que ela nos oferece auxiliam no caminho de sanação.

Transmutar, como o fogo. A primeira edição do Festival foi dedicada à terra; a segunda, à água; e, nessa terceira edição, o elemento mobilizador foi o fogo. Em roda em volta da fogueira, cada uma recebeu um pouco de pó de cedro e foi convidada a reconhecer e firmar seu propósito para o Festival, e lançar o pó ao fogo (sim, havia homens também, mas assim como somos incluídas num genérico masculino cotidianamente, peço aos homens que se sintam incluídos num genérico feminino). Pedi que eu pudesse me curar, que as chamas me ajudassem a transmutar tudo o que precisa ser transmutado, e que eu possa ser livre canal de amor, receber do cosmos e distribuir vida afora.

 

Caminho de cura

Dormi bem, acordei tranquila, abri minha barraca e fiz meu ritual matinal, tradição guarani, fumando o petyn (tabaco), agradecendo Ñamandu pelo sol que me iluminava, pelas bendiciones, por me levar quase que magicamente aonde sempre preciso estar. Hae’wei! Viva! A manhã começou com mais uma roda ao redor do fogo, dessa vez para apresentação das “mulheres medicina”. Estavam Pedra Rosa, de Florianópolis, e Nádia Akauã Tupinambá, da Bahia.

Pedra Rosa e Nádia Tupinambá.

Nádia Tupinambá e Pedra Rosa.

Nádia é parteira e curandeira, diz que aprendeu tudo de sua vó e sua mãe, e contou da luta de seu povo. Da dor ancestral das mulheres violentadas, tão intrínseca à história do massacre indígena no continente, Abya Yala, terra de sangue vital, que os invasores rebatizaram de América. Como é lindo e duro ser índia. Bela guerreira Nádia. Sua dor é um pouco minha, meus olhos marejam. Minha ancestralidade negada no “sul europeu” – tentaram cortar minhas raízes, mas a cada dia me reconheço mais índia.

Dor ancestral, essa dor que eu preciso curar dentro de mim, que precisamos curar no mundo. A desequilibrada relação entre brancos e índios, brancos e negros. Entre homens e mulheres, desequilíbrio que tanto fere, que é preciso emparelhar. Nádia recomendou que nos conectemos com nossa história, com nossas avós, que conheçamos sua trajetória, que também é nossa, para que assim possamos curar. A elas, a nós.

Pedra Rosa incorporou a Preta Velha e benzeu-nos com ervas, uma a uma. Limpando, limpando. Me limpou. Apertou as ervas contra minha garganta, puxando minha cabeça com força pra cima. Murmurou algo, não entendi, pedi que repetisse. “Você tem um choro preso, não sei se você sente”. Às vezes sinto. E, em raras ocasiões, é irreprimível. Sim, surge da dor da relação com o masculino. Maria Madalena apedrejada, como diz uma canção de uma amiga que tanto me tocou. As bruxas queimadas na fogueira. Depois do ritual, sentei no gramado, sob o sol, para registrar as sensações em meu bloquinho:

A benção da Preta Velha.

A benção da Preta Velha.

“Enquanto escrevo essas palavras, o tambor ressoa de dentro da tenda de temazcal (tenda sagrada de suor). Sinto a força desse trabalho-limpeza da Preta Velha, a força desse encontro, desse local, de estar aqui. E o peso que o processo de cura traz também. É lindo e é foda. Libertador e doloroso. Desde que a Preta falou do choro reprimido, sinto uma tristeza, uma vontade latente de chorar, e os olhos cansados como se já tivessem chorado muito.”

Me vieram os nomes dos amores, dos homens que me encantaram e feriram nessa vida, de meu pai. “Que eu possa curar”.

 

Tijolada

Dia intenso. Fui dormir cedo, deixar o sono digerir aquilo que à razão não cabe. Cheguei na barraca e pensei como eu gosto de acampar, como um simples tecidinho pode ser tão mágico, proteger da chuva e do vento, dar privacidade. E que consegui montar um bom esquema nesses meses de viajante, tenho tudo o que preciso e quero ter comigo – e consigo carregar, o que é importante -, desde roupas a equipamento, livros, minhas medicinas naturebas, utensílios para comer e para dormir e por aí vai. Não se precisa de muito pra se ter uma vida boa.

Ventava muito. Demorei um pouco para pegar no sono, mas foi só relaxar para apagar. Estava dormindo bem tranquila, sonhando bastante, quando de repente rola um clarão branco. Acordo com muita dor, coloco as mãos na cabeça. Uma forte pancada. A primeira coisa que me ocorreu foi que tinha caído um coco – apesar de que não, não estamos na Bahia. Mas nessas horas a razão fica meio entorpecida, vai. Muita dor. Tateando a cabeça no escuro da barraca, percebo que há um corte, aparentemente não muito profundo. Sinto sangue. Bateu um leve desespero, pego a lanterna e vejo sangue em minhas mãos. Fico meio aparvalhada, sem saber o que fazer. Lavo o ferimento com água e resolvo chamar a Mari, que está na barraca ao lado. Pelo menos se eu não acordar no dia seguinte, alguém vai saber o que aconteceu, penso.

Fui chamá-la pra olhar o corte. Ela também achou que não era profundo, mas estava aberto. Bem no meio da testa, no começo dos cabelos. Chacra coronário. Fomos procurar o tal do coco, não achamos, mas sim um tijolo ao lado da barraca. Tijolada na testa.

Estávamos isoladas, só as duas barracas embaixo de umas árvores perto da cerca com o terreno ao lado. Tudo indica que foi alguém de fora, ódio gratuito, ou algum evangélico fundamentalista que foi tacar pedra nas “macumbeiras”, sei lá. Essa segunda opção ganha força porque na mesma madrugada desmontaram a tenda de temazcal.

Enquanto procurávamos o suposto coco, pensei ter visto duas luzinhas de lanterna se movendo ao fundo do pasto vizinho… Alguns dias depois, alguém me disse ter ouvido naquela noite, de longe, um grito de mulher e, em seguida, de homens “comemorando” – eu não ouvi nada, mas também, ao receber uma tijolada na cabeça, creio que não se atenta muito aos ruídos do entorno…

No fim das contas, acho que não adianta tentar desvendar o mistério, as pistas são escassas. Não gastei muita energia com isso, mas em me curar e tentar compreender o que isso significa pra mim. Resta pedir por essas pessoas, pra que evoluam e parem de disseminar seu ódio de maneira tão gratuita e agressiva – assim como ter uma visão menos inocente do mundo, ter consciência do momento em que vivemos, em que os piores monstros vêm à tona. Não se trata de ter medo, mas cuidado. Estar alerta e relaxada ao mesmo tempo, eis o desafio.

E me cabe agradecer muitíssimo pela vida. O final dessa historia poderia ter sido bem mais trágico… Gracias a la vida!

Mas o que isso significa pra mim, afinal? Nenhuma certeza, algumas pistas. Me lembrou muito A Torre, arcano 16 do tarot – a vida abrindo minha cabeça de forma tão repentina e surreal. E violenta. Um tijolo vindo dos céus? Pedi pra me transformar em canal no começo do Festival e, pimba! Abre-se o chacra coronário. Cuidado com o que se pede! Da próxima vez vou me lembrar de pedir que seja com amor e carinho, pois.

De volta a Curitiba, após o evento, tirei uma carta pra que me ajudar a entender o significado disso tudo. Não saiu A Torre, mas O Julgamento, arcano 20. Um anjo com uma trombeta em mãos, convocando os mortos a renascer. Um forte chamado, que deve-se ouvir. Uma abertura. Ser canal.

O canal está aberto. Fisicamente.

Tô bem, tá cicatrizando e recebi várias bendiciones e medicinas das curandeiras, sábias abuelas. Que se feche fisicamente mas que o canal energético-espiritual possa seguir aberto. Logo logo sara, a ver a cicatriz que vai deixar. Marcas do caminho. Confesso que tô achando até estiloso esse triângulo bem no meio da testa, abrindo os cabelos. Cicatriz-conceito, puro estilo. Tem gente que paga pra fazer umas marcas aleatórias no corpo. Eu aceito as que a vida me dá.

O episódio mexeu não só comigo, mas com o Festival como um todo. Algumas pessoas me disseram que seria interessante eu compartilhar minha interpretação disso tudo em roda, que seria importante pra todos. Não rolou, mas o faço aqui, nesse texto. Vieram me falar que o causo foi citado em meio ao temazcal masculino, no sentido de aproveitarmos os aprendizados mesmo quando eles são doloridos. Também na cerimônia dos 4 tabacos, que encerrou o Festival, em que foi falado do sacrifício, do sangue derramado.

Fui tão bem cuidada, recebi tanto carinho. Ana Tereza largou o leme da cozinha e, com sua experiência de parteira e paramédica, recomendou que eu fosse ao hospital levar uns pontos – e depois ficava me mimando com as delícias culinárias que a cozinha vegana maravilhosa preparava. “Qualquer coisa que você precisar, pode vir me chamar”. Como essas palavras são importantes nessas horas! Pedra Rosa aplicou reiki em mim enquanto esperava para ir pro hospital. Fabi, de Botucatu, insistiu que eu não deveria fazer esforço, que tinha que aprender a aceitar ajuda, e fez o curativo com todo o cuidado em mim, com seu óleo essencial de melaleuca (excelente cicatrizante, fungicida e bactericida). Me deu uma boa benzida e uma rápida lida na minha mão – disse que eu posso ficar tranquila, que eu tenho bastante ‘guiança’. “Faz pouco tempo que você tá nesse caminho, né?”, perguntou ela, referindo-se ao caminho espiritual. Faz. Mas alguns chamados são impossíveis de serem ignorados, e exigem entrega.

Um salve à galera da cozinha e à comida-medicina que me auxilou na cura.

Um salve à galera da cozinha e à comida-medicina que me auxilou na cura.

Além dos óleos de melaleuca, lavanda e neem, tô tomando copaíba, própolis e extrato de abelha. O médico receitou antibiótico, mas eu confio nas medicinas naturais. Aliás, não foi possível dar ponto, cheguei muito tarde, disseram que pontos somente até 6 horas após o incidente. Agradeço imensamente ao Alex, que me levou ao hospital, que baita jornada! Engarrafamento na BR, atalhos, desvios, postos de atendimento fechados. E uma boa prosa no caminho – não é todo homem que topa o desafio de ser aprendiz de parteiro! Grata também ao Rafael, bravo homem-fogo, que me deu uma confortada e foi buscar gelo pra mim de madrugada, se colocando à disposição pra o que eu precisasse. Feliz por aqueles que buscam desconstruir o machismo dentro e fora de si.

Homens também são bem-vindos ao Festival. Cacique Iradzu compartilhou seus saberes.

Homens também são bem-vindos ao Festival. Cacique Iradzu compartilhou seus saberes.

Grata também à Nádia Tupinambá, que me deu babosa in natura e uma pomada que ela mesma faz com babosa, cera de abelha e outras coisas mais. Diz que a mãe dela teve uma fratura exposta e se curou com isso. Aqui tá fazendo efeito! A cicatrização vai muito bem, obrigada. E muito agradecida à Mari, minha vizinha de barraca, por simplesmente estar lá e se preocupar. Sozinha tudo teria sido bem mais difícil. Mais um aprendizado: usufruir do coletivo ao invés de se isolar. Somos seres sociais, e mais fortes em bando. Desfrutemos das relações! Que bom que esse incidente se passou justo no Festival, em meio a um grupo tão especial.

É extremamente simbólico isso ter acontecido num encontro de sagrados saberes femininos. Tenho 99% de certeza de que foi um homem que jogou esse tijolo – é até questão de estatística. Há uma energia masculina muito mal canalizada nesse mundo. Uma energia de guerra, de ódio, de egoísmo, de dominação. As bruxas queimadas na fogueira, Maria Madalena apedrejada. Lilith, a primeira mulher de Adão, que se negava a transar por baixo, não abria mão do seu prazer, e foi condenada a inaugurar o inferno por isso. Como assim, sexo que não seja exclusivamente pra reprodução? “Manda uma outra mulher aqui, Deus Pai Homem Branco Monogâmico, uma que venha da minha costela e seja submissa a mim”, disse Adão. E assim veio Eva. Nos negamos a ser Eva.

Além de toda essa dor ancestral a se curar, temos que ter noção da força do que estamos enfrentando. Do patriarcado violento. Somos todas sobreviventes. Não se deixar queimar na fogueira é uma luta diária. Resistimos! E precisamos nos unir. Salve o encontro! Salve a troca, o fortalecimento, a acolhida. A transmutação.

Ser Vênus. Em meio à guerra, ser amor.

 

Sexualidade sagrada

Mónica Gimenez: sexualidade sagrada e gineterapia.

Mónica Giraldez: sexualidade sagrada e gineterapia.

Esse papo de Lilith rolou em meio à conversa sobre sexualidade sagrada, com Mónica Giraldez, argentina radicada em Florianópolis. Foi na tarde de sexta, algumas horas antes da tijolada. Ela contou de toda a transição de comunidades matriarcais para uma civilização patriarcal. Antes se adorava à terra e à grande deusa, e segundo Mónica, não há registros de guerras nem de divisão em classes sociais nesse período. Essas comunidades foram violentamente tratoradas por uma perspectiva machista, individualista, monogâmica, que não se relaciona com a terra como mãe ou irmã, mas como recurso a ser explorado – mesmo papel reservado às mulheres (ela indicou a leitura do livro “O cálice e a espada”, da arqueóloga Riane Eisler, que conta toda essa história).

Nessas sociedades matriarcais, o sexo era reconhecido como uma grande porta para a espiritualidade. Mas com a forçada transição para a sociedade patriarcal, o prazer passou a ser pecado. Impuseram-se os casamentos por obrigação, a visão do parto como um dolorido castigo por ser mulher, o trabalho como uma pesada obrigação do homem. E esse padrão ainda é vigente. Separou-se o corpo do espírito. O sagrado já não está na terra, mas é algo inatingível, que devemos penar por merecer. Mas a Grande Mãe está aqui, sob nossos pés, e, mesmo que a ignoremos, continua alimentando a todos nós.

De acordo com o Tantra, uma corrente espiritual pré-cristã e pré-védica, a mulher é a iniciadora do homem na arte do amor e da sexualidade. Esse conhecimento foi popularizado por Osho na década de 1970, e vai muito além e aquém da relação sexual em si, mas trata da nossa energia vital criativa. “Com o conhecimento do Tantra, as mulheres são empoderadas, e onde há mulheres empoderadas, não há guerra”, acredita Mónica. Empoderamento que se dá por meio da sabedoria e da compaixão.

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Para favorecer o empoderamento das mulheres (ela não gosta do termo feminino, pois diz que, em sua origem, significa ‘de menos fé’, ou seja, é um termo patriarcal de um mesmo período em que se considerava que as mulheres não tinham alma), Mónica criou a Gineterapia, que consiste numa re-educação sexual. Entende-se que o corpo é sagrado e, por isso, considera-se os 5 (possíveis) períodos vitais da mulher: 1. nascimento; 2. menstruação; 3. gestação; 4. climatério (processo em torno da menopausa) e 5. morte.

Mónica destaca que há uma certa confusão entre libertação sexual e superficialidade. Depois de muitos anos de repressão, foi-se para um excesso de expansão. “Relacionamentos descartáveis, é isso que tá na moda agora, e isso não tem nada a ver com sexualidade sagrada”, defende Mónica. Ela falou das meditações trasmitidas por Osho para ascender a kundalini – trata-se da união da energia telúrica com a cósmica: a serpente que morde a própria cauda, Oroborus.

“Nunca é tarde para começar o caminho de resgate do próprio prazer – e prazer não é pecado”, encoraja Mónica. Trata-se de tentar pensar com a vagina, provoca. E propõe duas mudanças semânticas: trocar a palavra ‘masturbação’, tão carregada, por ‘autoprazer’, e ressignificar a palavra orgasmo – não necessariamente conectá-la com a relação sexual em si. Se encher de vitalidade e superar a carência, estar plena de si, eis do que se trata a saúde sexual. E aí permitir-se compartilhá-la, como um ato sagrado.

 

Danças, cantos, ritos e medicinas

Danza Medicina e a improvisada orquestra de música transcendental.

Danza Medicina e a improvisada orquestra de música transcendental.

Logo após a conversa com Mónica, partimos para a prática. E não, não fizemos uma grande suruba (risos), apenas dançamos, ativando os centros verticais (cima, centro e baixo – céu, corpo e terra) e os centros horizontais (os quatro elementos). E antes da conversa, Morena Cardoso conduziu-nos na Danza Medicina, no gramado, ao redor do lago. Uma dança para reencontrar-se, sanar as feridas, tornar-se quem realmente se é. Difícil transmitir essa experiência em palavras. Por uma falha técnica, a falta de equipamento de som, improvisou-se uma banda. Do acaso surgiu um som transcendental, que embalou a dança-terapia. E, juntas e a sós com nós mesmas, nos reinventamos.

Após o incidente com o tijolo, não fiz mais anotações. Mudou o foco. Registrar já não era o mais importante, mas curar, compreender, aceitar e, acima de tudo, estar 100% presente. Participei de mais um ritual de limpeza com Pedra Rosa, e libertei suavemente um pouco do choro reprimido. Recebi e dei bençãos num forte círculo de mulheres – novamente, a cura da relação com o masculino. Ritual de rapé com Nádia, belos cantos coletivos ao redor da lareira. Akauã, a águia, se revelou para nós, e compartilhou um pouco da sabedoria e da árdua luta por território, sobrevivência e dignidade do povo Tupinambá (esse belo documentário conta essa história, num período em que o conflito parecia ter sido em grande medida superado, mas recentemente se agravou novamente. A luta não pára).

Abuelas Martina Mamani (Peru) e Mariluna (Chile): curando y sanando.

Abuelas Marialuna (Chile) e Martina Mamani (Peru): curando y sanando.

Poderosas medicinas que curam e sanam com a abuelita Marialuna – viramos a noite alrededor del fuego, voando alto com asas de luz. Seguimos direto para o temazcal, que sempre ocorria pela manhã – eu não participei, achei melhor não encarar essa com a cabeça partida. Fiquei ao redor da fogueira que aquece as pedras que são introduzidas na tenda, acompanhando o grupo que entraria. E, nesses momentos, em que o mental apenas segue toda a força cósmica vital, vem o ensinamento fundamental: tá tudo bem. Sim, tá tudo bem. No fundo no fundo, tudo simplesmente É. E, nos conectando com isso, podemos simplesmente Ser. “Esses momentos são para nos lembrar de manter esse estado de consciência sempre”, disse a abuela de Chile. Así es.

Pode parecer contraditório aceitar as coisas como são e reconhecer e mudar as coisas que precisam ser mudadas. Mas não é contraditório, não. Aliás, até é, mas o que é a vida senão uma grande contradição? Vida-morte-vida? Ordem e caos? Há tanto o que mudar nesse mundo justamente porque esquecemos de como as coisas realmente são. Nos desconectamos. Esquecemos quem somos. Hay que relembrar. E toda dor transmutar. Com a água fluir. Com a terra enraizar. Com o ar transcender. E com o fogo iluminar. Jallalla! Viva! Hae’wei!

Tudo o que está no alto é como o que está embaixo. Mulheres empoderadas, com as raízes fixadas na terra e os galhos tocando o céu.

Tudo o que está no alto é como o que está embaixo. Mulheres empoderadas são como árvores, com as raízes fixadas na terra e os galhos tocando o céu.

 

Para saber mais sobre o Festival, confira o site e a página.

Mais fotos aqui.

Além da organização oficial, o evento conta com várias voluntárias, que trocam sua participação por serviços – entre as quais eu me incluo, sendo o meu serviço esse registro de Vida Boa. Viva a colaboração, o compartilhamento e o fortalecimentos de outras economias!

Grata às organizadoras, aos voluntários, aos demais participantes, a todas que contribuíram com sua música, sua dança, seu artesanato, suas comidas saudáveis e deliciosas. Grata por todo o aconchego e o acolhimento geral. Essa tijolada me permitiu estabelecer muitos contatos e receber muito carinho. Então… Gratidão infinita! Até pela tijolada!

… O golpe do destino, esse eu sinto, mas não caio …

Sobrevivo e re-existo

Sobrevivo e re-existo. Há!

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