Uruguay Guarani: a busca da terra sem mal dentro e fora de si

Eis um relato-estudo-vivência do Ñande Reko, o modo de vida Guarani, e do Guata Porã, a caminhada sagrada, realizada em janeiro deste ano no Uruguay. Como não podia deixar de ser, fazem parte dessa pequena história a grande história da trajetória Guarani e a de outros povos indígenas nesse território. Cada seção desse texto daria não só um livro, mas uma biblioteca inteira, sendo um trabalho de síntese um tanto árduo, apesar de longo para os padrões noticiosos. Palavras, passos, sentidos, recortes históricos, pesquisas, entrevistas e intuições entrelaçados pela vida, “esta totalidade inacabada”*.

Por Michele Torinelli (nome civil), ou Yxa Owy (nome-alma Guarani)

Veja também: Ñande Reko, a maneira de ser Guarani

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Sinto o espírito que une meu ser
à natureza de todos os mundos.
Celebro o encontro com a polaridade
que propicia surgir a luz da manhã.
Canto contemplando o grande mistério:
agradecido pela incompletude que
nos impulsiona para buscar o que nos falta,
desfrutando esta maravilha
que é a vida em movimento.

[Canção de Awaju Poty*]

 

Caminhávamos em serpente, um atrás do outro, pelos campos uruguaios. 19 pessoas – entre elas, 11 que fazíamos o Guata Porã, a caminhada sagrada, pela primeira vez. “Ao caminhar em serpente, é preciso estar sempre atento, nunca perder de vista o companheiro que segue à frente e a pessoa que segue atrás, para que a serpente não se rompa”, explicou Yxapy Rendy, a pajé brasileira que conduzia o grupo. Nos momentos em que a paisagem é ampla e o caminho fácil, a serpente se estica. Quando o terreno é acidentado e a trilha fechada, a serpente encolhe. A proposta é caminhar em silêncio, mas Yxapy ensinou as palavras-código que possibilitam avisar para que o grupo pare ou siga, que deveriam ser usadas somente quando necessário.

Caminha-se devagar. Passo a passo. De respiração a respiração. Sentindo cada perna se mover, seguidamente, a coluna vertebral sustentar o corpo. Olhando para trás de tanto em tanto, andando e parando de acordo com o ritmo da serpente. Pouco se sabia de dados objetivos que costumam definir viagens: para onde íamos, qual seria o trajeto. O propósito é outro, e exige confiança e entrega.

Não se trata de uma caminhada comum.

“O Guata Porã nos predispõe para o encontro da Terra-sem-mal, mas nada é garantia de encontrá-la, por isso tanto faz ir para o oeste ou para leste, porque o que importa na verdade é o aguyje, ou seja, o estado de encontro”, diz Awaju Poty, também pajé brasileiro, em sua tese sobre o mborayu, o espírito que nos une. “Ywy’Marã’Heim [a Terra-sem-mal] é o lugar do encontro com o divino em nós”, complementa.

Awaju e Yxapy na saída pro Guata Porã.

Awaju e Yxapy na saída pro Guata Porã.

Uma caminhada interior, metafórica, que precisa da caminhada exterior, física, para se realizar. Awaju agrega “que Hélène Clastres, em seu trabalho sobre a Terra-sem-mal, faz uma indagação: ‘De onde vem, com efeito, a necessidade da própria viagem?’ E responde (sua hipótese):

‘suas longas peregrinações através do espaço representavam também o tempo necessário para se consumar a lenta mutação dos espíritos e dos corpos, sendo apenas ela capaz de torná-los dignos de ascender ao território de sua busca. Eis aí a prova e o sentido da viagem: abandonar uma aldeia e um território é, simultaneamente, renunciar ao essencial das atividades econômicas, sociais e políticas que se enlaçam nesse espaço. (…)

O pensamento da Terra-sem-mal não se reduz, portanto, ao pensamento de um alhures estritamente espacial. Trata-se de pensar um outro homem, absolutamente isento de coerção: homem-Deus. Mas, se é talvez possível gozar dessa liberdade, isso não é dado: é necessário a mediação, a viagem ascética que mostra que se deve abandonar o humano para que, no homem, realize-se o deus.'”

Homens-deuses. Mulheres-deusas. O divino que existe em cada um de nós. As manifestações particulares do Todo. E o Guata Porã, sua busca. Dentro e fora.

Opy, a casa de reza.

Opy, a casa de reza.

O que sabíamos é que ficaríamos cinco dias em silêncio e em jejum, inclusive de água, com exceção dos momentos de aty, as cerimônias diárias que ocorrem pela manhã e ao cair da noite, quando se toma mate e se passa o bastão da fala. Avisaram para levar o mínimo de bagagem possível, pois cada um deve ser responsável por carregar a sua, e que dormiríamos ao relento, ao redor do fogo, podendo usar isolante e saco de dormir. Os mais experientes caminhariam sete ou treze dias, a depender de sua trajetória no Ñande Reko – pois os Guata Porã são ritos de passagem.

Partimos no dia 09 de janeiro da Tekowa Ñandu Retã, na zona rural da pequena cidade de Aiguá, cerca de 200 km ao norte de Montevideo. Tekowa designa qualquer lugar onde se viva o modo de vida Guarani; Ñandu Retã significa “terra de ñandu”, uma ave nativa dos pampas que lembra uma ema, mas que é menor. Ao longo do caminho para o local, não só ñandus, mas ovelhas e gado se misturavam à paisagem.

De longe se vê uma construção retangular de alvenaria – a casa da família que zela por esse pedaço de chão -, outra circular com teto de palha, que chama atenção por seu aspecto e tamanho, e, recentemente, mais uma construção circular menor, que foi construída colaborativamente ao longo dos dois meses anteriores a este encontro da família Ñande Reko no Uruguai. São duas opy, casas de reza, e a segunda foi levantada para que se pudessem realizar duas permanências simultâneas ao Guata Porã. As permanências são ritos de passagem em que uma pessoa fica encerrada na opy por um determinado período – nesse caso, treze dias -, recebendo visitas somente do (ou da) pajé que conduz o processo.

Kuna Poty Xii, que fez a permanência na outra opy, distribuindo o típico pão uruguaio aos construtores. "Pão de campanha!", anuncia ela.

Kuñã Poty Xiĩ, que fez a permanência na outra opy, distribuindo o típico pão uruguaio aos construtores da opy’i,a casa de reza pequena. “Pão de campanha!”, anuncia ela.

O primeiro Guata Porã realizado por este grupo no país aconteceu em 2003. Desde lá, moveu-se por distintas regiões, a depender dos diversos anfitriões adeptos deste modo de vida Guarani. Tudo começou quando dois uruguaios que seguiam o Caminho do Norte, uma prática espiritual baseada nas culturas dos povos indígenas da parte de cima do continente americano – ou Abya Yala, terra de sangue vital, outro nome para a hoje chamada “América” dado por um povo que já vivia nestas terras bem antes de qualquer Vespúcio chegar -, soube de um pajé brasileiro que praticava o que eles acreditavam ser o “Caminho do Sul”. E assim foram atrás de Awaju Poty, nos arredores de Curitiba, e descobriram o Ñande Reko.

O tronco Guarani Ñandewa

Não se trata exatamente do “Caminho do Sul” – como pensaram Jaxy e Tataka, os uruguaios que foram atrás de Awaju -, mas de um desenho originário da cultura Ñandewa, vertente Guarani que dialoga com o cristianismo no sentido em que reconhece que Xumé (Tomé) teria estado no continente há dois mil anos e teria reformulado a tradição Guarani – e, para alguns, seria irmão gêmeo de Kexu Krito (Jesus Cristo). Assim que quando os jesuítas chegaram, 1500 anos depois de Xumé, os indígenas reconheciam algo do que eles falavam.

Trata-se de uma relação complexa. Awaju cita Charlevoix II quando diz que “não foi pelo poder da palavra, mas pela apreciação musical, que os Guarani se aproximaram dos jesuítas; e não foi com palavras, mas com a dança, que enfrentaram as suas doutrinas”. A tese do pajé brasileiro apresenta também o ponto de vista de Karai Poty (disponível no relato do Guata Porã em que ocorreu sua iluminação, texto conhecido como “Os treze dias memoráveis”). Por um lado, Karai Poty indica que alguns jesuítas “eram dos nossos e fumaram petyn [tabaco] e tomaram kaayu [erva mate] com nossos pais e nossas mães. E nós aprendemos também com os kexuita [jesuítas] sobre Ñamandu Tupã, o Deus dos Exércitos.” Ele conta que esse Deus os protegeu na guerra contra os brancos.

Kamanu e Ywytu no fogo externo.

Kamanu e Ywytu no fogo externo.

Por outro lado, Karai Poty diz que os “pajé dos jurua”, ou seja, os sacerdotes dos brancos, “vêm aqui e querem ensinar a religião deles para nós. Tudo bem, é bom aprender coisas diferentes. Mas não é bom eles acharem que nós não temos religião, ou quererem que nós sejamos da religião deles. Eu entendo que o que eles chamam de religião e o que eles chamam de ciência é o que nós chamamos de Ñande Reko, para nós é uma coisa só. Então o nosso jeito e o do jurua é bem diferente, mas precisamos nos entender.”

Portanto, ao mesmo tempo em que o cerne da tradição Ñandewa está condensada na Canção Sagrada – os 113 versos atribuídos a Xumé -, “na concepção Ñandewa não há Deus, só há divindades, porque Deus traz em si uma limitação, porque ele exclui”, escreve Awaju, para quem a mítica Guarani é dinâmica, rearticulada e reinventada sempre que necessário. Há vários deuses: Ñamandu, divindade andrógena, a natureza de todos os mundos, de cujo sonho surgiram Ñanderu, o príncipio masculino, e Ñandexy, o princípio feminino; a partir do amor dos dois, nasce a vida.

Há também Tupã, já reconhecido como divindade antes do contato com os jesuítas, relacionado ao inverno e representado pela cor vermelha; Jakaira, relacionado à primavera e representado pela cor azul; Kwaray, relacionado ao verão e representado pela cor amarela; e Karai, relacionado ao outono e representado pelo branco. Todas essas divindades possuem princípios masculinos e femininos.

Em que medida a própria atribuição dos versos à Xumé pode ser uma rearticulação após a chegada dos jesuítas, não se sabe. Awaju conta que o evangelho apócrifo de Tomé apresenta correlações com a tradição Ñandewa e que há teorias de que ele teria viajado por diversos lugares do mundo. De qualquer maneira, os versos existem, e são passados de geração em geração somente de forma oral. Eles condensam a ética, a espiritualidade e o modo de vida Guarani Ñandewa. Não se deve escrever ou ler os versos, é preciso sabê-los de cor, de coração, e recitá-los apenas durante as cerimônias.

Para além dos versos, o Ñande Reko está diretamente conectado ao plantio do milho sagrado, o awaxy ete, e, portanto, segue o calendário agrícola do hemisfério sul. Por não ser uma religião, mas um modo de vida, deve ser praticado no cotidiano, priorizando-se a vida simples, a agricultura, o respeito a todos os seres, a coletividade e a integração com os ciclos naturais.

História recente do Ñande Reko no Uruguay

Tatawa, Awaju, Yxapy, Yxa Xii, Para Poty e Krexu: a "velha guarda".

Tatawa, Awaju, Yxapy, Yxa Xiĩ, Para Poty e Krexu: a “velha guarda”.

Karai Tatawa – ou Alejandro Fernandez – estava numa longa busca espiritual. Praticava yoga, tinha sensibilidade com a natureza (também por ser professor de Biologia) e usufruía dos ensinamentos que as plantas de poder da região oferecem. Até que um dia, no final da década de 1990, alguns amigos voltaram de um ENCA (Encontro Nacional das Comunidades Alternativas), realizado na região de Porto Alegre, com informações acerca do desenho Guarani – informações apócrifas, como brinca hoje Tatawa.

Antes disso, Tatawa tinha ouvido uma entrevista com Danilo Antón, geógrafo que pesquisa as culturas tradicionais uruguaias, na qual dizia que “a utopia que estamos buscando está nas comunidades Guarani”. Essa frase ressoou na sua cabeça, no seu espírito.

Quando chegaram as informações apócrifas do ENCA, as coisas se cruzaram. Para ele fez muito sentido uma espiritualidade que estivesse diretamente relacionada com a agricultura, com as plantas e principalmente com o cultivo do milho. “E aí comecei a plantar milho como louco”, conta ele. Junto com os amigos, plantou também tabaco e fizeram seus petyngua, o cachimbo, num aprendizado empírico que rememora com carinho. Mas sentia que ainda faltava alguma coisa, e pedia para os pés de milho lhe apontarem o caminho.

Enquanto isso, Jaxy e Tataka, depois de terem plantado com Awaju e Yxapy em Curitiba, voltam ao Uruguai e começam o plantio coletivo do milho sagrado, os maity. Até que Tataka falece e aparece em sonho para Awaju, dizendo que o Uruguay precisava ser guaranizado, deixando-lhe essa missão. Assim que Awaju, mesmo sem entender muito e sem saber por onde começar, pois não tinha muitas relações no país, retoma contato com Jaxy e vem para um Ñemongarahey, a celebração da brotação do awaxy ete, o milho sagrado, que ocorre no verão.

Aí então que Tatawa – que já estava no seu primeiro ciclo do Ñande Reko num maity em La Cambicha, com muitos colegas que seguem a tradição até hoje – conhece Awaju, em primeiro de março de 2002, como bem rememora.

“Tudo que ele falava fazia sentido”, conta Tatawa, e, à medida que Awaju ia falando, seus conhecimentos até então fracionados iam se ordenando. Conectava-se o milho, a erva mate, a liberdade – um valor fundamental para os Guarani -, a cosmovisão. “Tudo que ele dizia trazia paz pro meu espírito”, relembra.

Na segunda vez que Awaju veio, para a colheita, deu-se um inusitado encontro, que Tatawa agradece por haver presenciado. O pajé conheceu Nelson Caula, autor de “Artigas Ñemoñare”, obra sobre a vida privada de Artigas, seus amores e descendentes.

 

Artigas, o Owerawa Karai, e sua aliança com os “povos livres”

Venido desnudo
En un poncho estrellado
Silencio de piedra
Corazón destrozado
Owerawa Karai

Leyó las amenazas de la noche
Descifró el espiral hilo de humo
Fue cazador
Entre las espinas
Owerawa Karai

Se quemó en las gargantas infernales
Entretuvo los pétalos del fuego
Se hizo velocidad
Luz repentina
Rayo Blanco en las tinieblas

[Canção de Awaju Poty**]

José Artigas, o Herói Oriental, líder da luta pela independência da Repúplica Oriental do Uruguay. Essa é a versão oficial da História, que se impôs sobre as várias ramificações da trajetória viva desse homem, dos povos e da constituição desse país, que ora se cruzam, ora se bifurcam.

Pouco se fala que Artigas, a quem a versão oficial aponta como nacionalista, era antes federalista, a partir de uma perspectiva regional, senão continental. E poucos sabem que ele foi iniciado na tradição Guarani, sob o nome de Owerawa Karai – que pode ser traduzido como homem raio branco, ou homem raio de Karai.

El_Protectorado_Artigas_-_Liga_FederalProtetor dos Povos Livres talvez seja uma alcunha mais apropriada, uma das muitas que a História também lhe deixou (ou as histórias? Quem conta a História?). Ao invés de protetor, quiçá melhor ainda, Guerreiro. Era parte desses povos. Não só lutava por eles, mas com eles. Não protegia desde fora.

Ele lutou e viveu com indígenas das nações Charrúa, Minuano, Guarani, Chaná, com povos negros e até mesmo criolos (como são chamados os descendentes de espanhóis que nasceram em terras de além mar) e europeus que “queriam viver sem freio”, como coloca Nelson Caula.

Artigas lutou na guerra pela independência do império espanhol no que então era o Vice-Reinado do Rio da Prata. O poder real, expulso de Buenos Aires, instalou-se em Montevideo, levando os revolucionários a sitiar a cidade. Instaurou-se uma disputa interna entre os independentistas de como as províncias se organizariam – com autonomia local ou a partir de um poder centralizado em Buenos Aires. O que hoje é o Uruguay era uma dessas províncias, a província Oriental (por se localizar a leste), e Artigas propunha a autonomia dos povos e sua conexão através de uma liga federal.

Mesmo sem adesão unânime, a Liga Federal dos Povos Livres foi criada em 1814, reunindo, além da província Oriental, Córdoba, Corrientes, Santa Fe, Entre Ríos e a região das missões. Sua sede era em Purificación, um grande e rústico acampamento onde os povos livres conviviam entre si.

Caula cita Nicolás Shumway, em sua obra “The Invention of Argentina”, em que diz que “é especialmente notável que Artigas falasse de incluir os índios na sociedade revolucionária. Quiçá a maior tragédia da Independência foi o que fez aos índios.(…) As sociedades que surgiram depois da Independência, a favor de novas teorias da propriedade privada e livre comércio, desencadearam forças de cobiça e rapacidade que levaram à aniquilação de virtualmente todos os índios do Rio da Prata. Artigas tratou de criar uma ficção orientadora na qual o povo não fosse somente uma desculpa para homens inteligentes que reclamavam o poder em nome de um povo abstrato que ninguém nunca havia visto. O povo de Artigas era real e visível; incluía os pobres, os negros, os zambos, os gauchos e os índios. Seria essa a ‘arbitrariedade popular’ que inquietava tanto os unitários de Buenos Aires?” (tradução aproximada).

Mas, ao contrário do que aponta Shumway, Artigas não falava de um povo, mas dos povos – respeitando a unicidade de cada um, para que, tendo o direito de se autogovernar, pudessem conviver em diversidade. Os civilizados, que queriam um governo central meramente para garantir a propriedade privada e operacionalizar o comércio – ou seja, administrar privilégios -, tachavam o projeto de Artigas de barbárie. Um projeto democrático que respeitava os direitos de todos, inclusos negros e indígenas, algo tão raro naqueles tempos, e que fez a primeira reforma agrária da América Latina, expropriando terras e dando àqueles que a trabalhavam, sob sua famosa orientação de que “os mais infelizes deverão ser os mais privilegiados”.

Em carta ao governador da província de Corrientes, Artigas defende que “é preciso que se trate os índios com maior consideração, pois não é certo, quando sustentamos nossos direitos, excluí-los justamente daqueles a que correspondem. Sua ignorância e incivilização não é um delito repreensível. Eles devem, melhor, ser consolados por essa desgraça, pois não ignora Vossa Senhoria quem a causou, e nós haveremos de perpetuá-la? E nos consideraremos patriotas sendo indiferentes a esse mal? Por isso é preciso que os magistrados se esforcem para atraí-los, persuadi-los e convencê-los, e que com ações melhor do que com palavras demonstrem sua compaixão e amor filial” (tradução aproximada).

Evidentemente, o ideário de Artigas e a força inovadora da Liga Federal dos Povos Livres não agradaram às elites de sua época. “Ele apanhou de três lados”, explica Tatawa: dos portenhos de Buenos Aires, da elite conservadora de Montevideo e dos bandeirantes vindos de um Brasil ainda colônia, “que tiveram um papel exemplar a partir do ponto de vista do império português e depois brasileiro, no sentido de sua expansão, mas arrasador em relação as povos nativos”, complementa. E lembra que o Uruguay continha o Rio Grande do Sul, que o Paraguay era maior do que é hoje, e também a Bolívia… Territórios abocanhados à força pelo Brasil, vítima do imperialismo global e algoz do imperialismo regional. “A independência do Uruguay foi na verdade um acordo entre Brasil e Argentina, que disputavam esse território”, revela.

Tatawa.

Quando perguntei a Tatawa sobre os povos originários da região, ele disse que não havia – não enquanto povos organizados, somente descendentes. Ele conta que a partir de fins da década de 1980 houve um resgate dessa história, e as pessoas passaram a se reconhecer, novamente, enquanto indígenas. Surgiram várias publicações sobre o tema, entre elas o caderno “O labirinto de Salsipuedes”, publicado em 1997 pelo jornal La Repúplica***. Ele chegou em minhas mãos por Yrupe, que me recebeu em sua casa após o Guata Porã, ao lhe perguntar se sabia algo sobre a relação de Artigas com a cultura Guarani e sobre Ansinas, o poeta negro e fiel amigo de Artigas. O livro de Nelson Caula me chegou pelas mãos de Yxa Xiĩ, que também me abrigou, e que traz em seus anexos a letra da canção que Awaju escreveu para Owerawa Karai.

Mesmo com o massacre, mesmo que não vivam em territórios demarcados ou os reivindiquem – o que é interessante de ser verificado, pois as histórias de resistência costumam ser silenciadas – sua cultura segue existindo, re-existindo, “cómo el musguito en la piedra”, como canta Violeta Parra. Indício disso, para além dos rasgos indígenas da população (tá na cara!), é o hábito – muy indígena – de tomar erva mate, de com ela contemplar solitariamente ou confraternizar coletivamente em suas rodas, como bem destaca Tatawa. O nome dos locais – como o próprio Uruguay, que em uma das muitas possíveis interpretações, significa “rio dos pássaros pintados” – também é rastro vivo dos povos que coexistiam nessa terra antes do massacre civilizatório.

Karai Poty, o pajé dos “13 dias memoráveis”, tem uma visão muito interessante da História, segundo a qual foram os indígenas que venceram a guerra contra os brancos, com a ajuda de Tupã. “Senão, quem estaria contando essa história?”, indaga ele.*

O massacre da Nação Charrúa

Monumento em homenagem à Nação Charrúa em Montevideo, representando Senaqué, Vaimaca Pirú (ou Perú), Guyunusa e Tacuabé, que foram capturados após o massacre de Salsipuedes e levados à França para serem exibidos como animais exóticos (clique na imagem para ler essa história).

Eu tinha ouvido falar de Salsipuedes por Tatawa – local de uma emboscada arregimentada por Rivera, traidor de Artigas e primeiro presidente do que se tornou a República Oriental do Uruguay, para acabar de vez com os indígenas Charrúa. Assim como já haviam lutado pela independência, eles foram convocados com muita deferência a lutar contra os bandeirantes brasileiros, um inimigo comum. Recebidos com presentes e festa, confiantes e desarmados, foram covardemente massacrados, em 1831, pouco após o surgimento do Estado uruguaio. Os homens adultos foram quase todos assassinados; as mulheres e crianças, capturadas e distribuídas como escravas.

Na publicação do jornal La República, os historiadores Cristina Porta e Abayubá Grassi explicam que, “com a derrota da Revolução Oriental, democrática radical, e o advento de um projeto de tipo oligárquico, a Nação Charrúa passou a ser uma ameaça ao novo Estado Nacional.

O objetivo que se perseguia: a pacificação e ordem no campo, (…) em suma, a preservação da propriedade privada” (tradução aproximada). Eles complementam que poucos uruguaios sabem que o etnocídio é uma das bases da fundação desse Estado, e que a ignorância em relação às próprias raízes, como se se tratasse de povos alheios e distantes, conduziu à uma indiferença em relação à América indígena.

A versão oficial da história: a placa que acompanha as estátuas no monumento em Montevideo exalta "os heróis que lutaram pela pátria", mas omite que essa própria pátria exterminou a Nação Charrúa.

A versão oficial da história: a placa que acompanha as estátuas no monumento em Montevideo exalta “os heróis que lutaram pela pátria”, mas omite que foi o projeto de Estado que se impôs (e que hoje os exalta como seus “heróis”) que exterminou a Nação Charrúa, traiu Artigas e capturou os quatro indígenas aí representados.

Os Charrúa não conheciam a propriedade da terra, eram “nômades estacionários”. O historiador Gonzalo Abella, na mesma publicação, indica que eles “foram conscientes da proposta multicultural artiguista e se arriscaram por ela, pagando o alto preço de seu extermínio enquanto cultura organizada quando triunfou o modelo urbanizador de 1830”.

O ser indígena em cada um e entre todos

Artigas, derrotado, exilou-se no Paraguay em 1820, junto com negros, que se fixaram nos arredores de Asunción, e indígenas, com quem viveu em Curuguaty. Posteriormente, o Estado uruguaio o convidou a voltar, mandou seu filho ir buscá-lo num barco inglês. Ele não quis. Não queria participar de um projeto que não era o dele, diz Tatawa.

Artigas, ele mesmo, indígena. A partir do modo de vida desses povos é que criou seu projeto libertário. E, para isso, se reconheceu enquanto tal. Owerawa Karai. Eis uma outra versão da História – ou melhor, uma história, que não à toa me foi sendo contada pela trilha do Ñande Reko: primeiro por Awaju, ainda no Brasil, quando nem se havia confirmado que o Guata Porã seria no Uruguai; depois por Tatawa, que foi meu primeiro tendota, meu guia, nessas terras gauchas; e depois com o auxílio de Yrupe e Yxa Xiĩ, queridas anfitriãs que vivem no seu cotidiano o modo de vida Guarani.

Ita colocando a porta que ela mesma fez para a opy'i, que foi inaugurada com sua permanência.

Ita colocando a porta que ela mesma fez para a opy’i, que foi inaugurada com sua permanência.

E o Ñande Reko é um pouco isso. Essa rede que conecta as pessoas por um propósito maior, de servir a Ñamandu, a natureza de todos os mundos, conectando a tudo e a todos pelo mborayu, o espírito que nos une – algumas vezes traduzido simplesmente como amor. Uma inocência, uma entrega e uma simplicidade tão subversivas num mundo de acumulação, domínio e extermínio, no qual a terra é fonte de riquezas, ser selvagem a ser dominado e desapropriado. No mundo dos indígenas, a terra é mãe, que cuida e deve ser cuidada, e todos os seus seres irmãos e irmãs. E a relação com a terra revela, também, muito da relação com o feminino… Patriarcado, capitalismo e extermínio das culturas tradicionais, o tripé civilizatório.

Pois então, descivilizemo-nos. Nos neguemos a continuar com esse projeto.

Reaprender a plantar, a sonhar, a ouvir a terra, o vento e os animais, a viver de maneira simples, a não se submeter. Viver e defender a liberdade. Aprendemos um pouco disso no Guata Porã, buscando a divindade dentro de cada um mas em coletividade – pois essa busca pelo divino em tudo, segundo Hélène Clastres, “não recai sobre a relação de cada um com os deuses, não se trata de uma relação pessoal, privada, de cada humano com o mundo divino. É, ao contrário, como ser coletivo que os homens [e as mulheres] – os índios [e índias] guarani – afirmam e vivem a parte de divindade que contribui para constituí-los. Entre o Eu do indivíduo e o Eu dos deuses existe a tribo”.*

Amambaí, no auge dos seus 68 anos, saindo para o Guata Porã.

Amambai, no auge dos seus 68 anos, saindo para o Guata Porã.

E assim essa tribo contemporânea vai se constituindo – no Brasil, no Uruguay, na Argentina. E para isso não necessariamente se precisa viver junto, com as casas próximas umas das outras, convivendo todos os dias. “Somos uma aldeia com um território muito grande”, provoca Tatawa. Ele conta que chegaram a buscar uma terra comum nos arredores de Aiguá, mas hoje entende que pode-se criar formas mais livres, de “comum diversidade”, como diz Awaju. “Hoje vejo ‘comunidade’ mais como um estado de ser”, explica Tatawa, que acredita que o modo como se organizam atualmente é, por enquanto, o melhor desenho. Há vários clãs, que se reúnem periodicamente para o cultivo do awaxy e a realização de cerimônias e, em ciclos mais amplos, grandes encontros desses clãs em torno de celebrações e ritos de passagem. “Nos sentimos família”, diz Tatawa.

Redescobrir e recriar o indígena em cada um e entre nós é uma forma de resistir e, de maneira mais equilibrada e fraterna, existir. A ancestralidade pode ensinar novas-velhas maneiras de pisar sobre a (T)terra, e a vida inteira se transforma numa caminhada sagrada.

 

* Trecho da tese de Awaju Poty.
** Canção anexada à obra de Nelson Caula, “Artigas Ñemoñaré (Tomo I). Vida privada de José G. Artigas. Las 8 mujeres que amó. Sus 14 hijos. Develando su ostracismo y su descendencia en Paraguay”.
*** Redação e edição de Rodolfo Porley e Coordenação do Grupo de Trabalho Interdisciplinar de Investigação por Gonzalo Abella.

 

Mais imagens da construção da opy’i:

Clique na imagem para ampliar.

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