Unicam-Suri: a bioconstrução coletiva de uma universidade popular campesina

Jovens do campo, da cidade e indígenas se somam à experiência de luta e à sabedoria ancestral no MoCaSE-VC e levantam sua própria universidade no noroeste argentino

 

Por Michele Torinelli / Vida Boa

Tango com as crianças no novo alojamento

 

 

Recordar é volta a passar pelo coração.

[trecho do livro Raimundo Gómez: caminante de los montes]

 

Uma universidade comprometida com a realidade, que surge de dentro do movimento social. Eis a Unicam-Suri (Universidade Campesina – Sistema Universitário Rural Indígena), localizada em Villa Ojo de Água, município no sul da província argentina de Santiago del Estero, quase na fronteira com Córdoba.

Suri, nome de origem Quéchua, é também uma ave local, o “avestruz andino”, que foi adotado como símbolo da universidade. A ave existe no Uruguay, onde a chamam de ñandu, palavra Guarani. No Brasil, é conhecida como ema. Diz a lenda que a ave, que não voa, ao ser perseguida por um jovem caçador, alçou voo e deu origem a uma constelação – o Cruzeiro do Sul (veja essa história aqui).

Cerca de 30 pessoas vivem na Unicam, em sua maioria jovens – alguns filhos de camponeses que participam do MoCaSE-VC (Movimento Campesino de Santiago del Estero – Via Campesina), outras dos subúrbios das cidades, algumas de movimentos parceiros e ainda aqueles que chegaram de maneiras variadas e resolveram ficar, sem contar as visitas que são recebidas de braços abertos e convidadas a se somar à labuta diária. Eles vivem em comunidade, plantam, criam animais, gerenciam seu cotidiano e, pouco a pouco, levantam a universidade.

Trabalho na lavoura. Agroecologia na prática.

Construir comunidade. Suas moradas. Seus espaços comuns. Construir uma outra vida que não a pautada pela competição, pelo lucro, pelo individualismo, pela exploração de seres humanos sobre outros seres, humanos ou não. Outras pedagogias, outras formas de produzir e distribuir. Para isso, é preciso recordar. Retomar alicerces sólidos como as culturas indígenas, camponesas, suas formas de cultivo, de criar animais, de edificar a partir de recursos locais, de repartir, de viver junto e resolver questões comuns, de compartilhar a vida em equilíbrio com todos os seres e o fluxo cósmico.

Conectar os conhecimentos e informações com o fio da sabedoria popular, que lhes confere sentido, como diz Ángel Strapazzon, coordenador da Unicam e grande referência do MoCaSE:

“Eu acho que a sabedoria é o que amarra o conhecimento e a informação. Se informação e o conhecimento não estão envolvidos pela sabedoria, de nada valem a informação e o conhecimento. A sabedoria é que a vida tem que ter um sentido desde o princípio, do começo ao fim, e a sabedoria não tem a ver com quanto dinheiro tenho e então sou melhor que o outro, nem quanta riqueza tenho, nem com a propriedade privada. A sabedoria está longe disso. A sabedoria é, justamente, escolher o que está longe daquilo que ata o homem às suas posses. A sabedoria é libertação, a sabedoria é voar, a sabedoria é desprender-se sempre, a sabedoria é a alegria, a sabedoria é a poesia, os sonhos. Isso é ser um velho sábio, um homem ou uma mulher que de repente com o seu olhar, com os seus olhos, com sua maneira de viver, mostra que a alegria não está nas coisas, nem em quanto dinheiro tenho, nem em quanta riqueza tenho, nem em quanto luxo tenho; a sabedoria está em saber que a vida passa por outro lado.”

Ángel refere-se ao seu mestre e companheiro já falecido, o velho sábio Raimundo Gómez, caminhante do monte, que junto com ele e outras tantas pessoas fundou o MoCaSE. Por todos os lados se vê o rosto de Raimundo – no SUM, Salão de Usos Múltiplos, galpão que foi a primeira coisa a ser construída no terreno da Unicam e que ainda hoje serve de alojamento para a maioria dos moradores e visitantes; também nas paredes da Escola de Agroecologia, iniciativa do MoCaSE e da Via Campesina que já formou 4 turmas de agroecólogos na cidade de Quimilí, uns 200 km ao norte dali.

Da rodovia que passa em frente à universidade se pode ler, acima do rosto de Raimundo pintado na parede: Unicam-Suri. Assim fica fácil chegar. Uma das tarefas atuais é a construção das salas de aula hexagonais com pedras da região.

Eu soube da Unicam no seminário de 11 anos da ELAA – Escola Latino Americana de Agroecologia, iniciativa do MST e da Via Campesina no interior do Paraná, sul do Brasil. Uma das coordenadoras da Unicam, Paola Escudeiro, estava lá e fez uma apresentação sobre a experiência – e eu não tive dúvida de que precisava conhecer. Uma universidade popular bioconstruída coletivamente! Ela disse que eu seria bem vinda, me passou o contato do Ángel mas disse que não precisava avisar nem nada: “é só chegar”.

Alguns meses mais tarde, já em terras argentinas, me falaram novamente do MoCaSE. Caro, estudante cordobesa que foi minha colega de vivência nos movimentos camponeses em Misiones e com quem passei alguns dias na comunidade Guarani Tekoa Arandu, me disse que realmente a Unicam era algo a se conhecer. Perguntei como chegava, ela me explicou que é só pedir pro ônibus interurbano parar na beira da estrada, antes de chegar em Villa Ojo de Água, e que da rodovia dá pra ver o letreiro, indicando a universidade. “Nem precisa avisar, é só chegar”, confirmou ela. Segunda chamada.

De qualquer maneira, entrei em contato com Ángel, com antecedência, e disse que avisaria quando estivesse chegando. Algum tempo depois postei numa famosa rede social digital que estava em Córdoba e queria indicações de onde ir – e ele comentou que eu estava a poucos quilômetros da Unicam, que eu poderia ir para lá, que podia ligar para ele, e passou seu número de telefone. Manifestar atenção assim com alguém que você nem conhece, sendo uma grande referência nacional e blá blá blá, onde mais se encontra isso? Que solidariedade é essa? Terceira e última chamada.

 

Cotidiano

Cheguei de madrugada. Não ousei ligar pro Ángel, não queria acordá-lo – peguei um taxi. Uma mulher de cabelos presos me recebeu, botou minha pesada mochila nas costas e me levou galpão adentro até minha cama, que me esperava arrumadinha, quentinha, cheia de cobertores, entre muitos outros colchões que se enfileiravam. Depois ficaria sabendo que era uma francesa, observadora de direitos humanos que se apaixonou pelo MoCaSE e ficou.

Muita gente andando de lanterna pra lá e pra cá, não entendi, eram umas 4h da manhã – até que alguém veio me dar oi. Oi mesmo, em português do Brasil – era o Ivanilso, camarada do MST que eu conheci também na vivência com os movimentos sociais em Misiones. Reencontros da estrada. Ele me explicou que um grupo estava indo para a capital da província resolver problemas burocráticos, e que voltariam no final do dia.

Além de conhecer o MoCaSE, ele está vendo a possibilidade de estudar medicina em Santiago del Estero e firmar um convênio para que outros camaradas do MST possam vir. E o MoCaSE está dando todo apoio, seja com os trâmites burocráticos, hospedagem, passagem, tudo. Solidariedade camponesa.

Da minha barraca, amanhece

Dormi umas poucas horas, acordei e fui pra cozinha. Fogão à lenha. Mate. Pão caseiro assado no forno à brasa. Animais mortos dependurados. Primeiras conversas. Fui trabalhar com um grupo que estava reformando o galinheiro. Depois fiz minha mudança, armei minha barraca debaixo de um teto, na varanda da construção a que iria me juntar – morava na obra. Era o novo alojamento, com grossas paredes de barro, muitas garrafas de vidro e invencionices bioconstrutivas.

Mica e Eva me levaram para um tour – me mostraram os reservatórios de água, os porcos, as cabras, as hortas, a rádio, a casa do Ángel/sala de reuniões/alojamento, a casinha das crianças e a casa das sementes, que é onde a Mica mora. Ela também chegou ali meio ao acaso, era uma viajante. Se encantou e ficou, e hoje é a guardiã das sementes. E, se não bastasse, convenceu sua irmã, Maca, a vir junto. Me explicaram que havia grupos de trabalho: agricultura, animais e construção, e que eu deveria escolher o que mais me agradasse. Fiquei com a obra.

Além dos grupos de trabalho, Paola me indicou que existem os grupos de tarefa, que se alternam diariamente para que todos realizem todas as funções cotidianas, tais como prover a água, lavar a louça, acender fogo para aquecer a água dos banhos, limpar banheiros, varrer o salão, entre outras coisas mais. Cada pessoa participa de um grupo de trabalho e de um grupo de tarefa. A cozinha conta com um grupo fixo, que faz o milagre da multiplicação e da saborização. Muito milho agroecológico plantado e colhido no local, além das carnes. Outro grupo fixo é o de cuidado das crianças.

Cozinha e Tupac, o cão

Dia intenso. Vento. Tempo seco. Água é milagre por ali. Há de se ir buscar com um tratorzinho, e diz que o fato das mulheres do MoCaSE dirigi-lo na cidade causou comoção entre o povo. Outra solução é captar água da chuva. Faz-se os dois. No fim do dia a galera que tinha ido pra capital chegou de volta, inclusive Ángel, que é o motorista do ônibus do MoCaSE. Disseram que ele queria conversar comigo, e lá fui eu conhecer meu amigo digital.

 

Ángel

Eu não conheci muitos pastores – me refiro aos de cabras, não de igrejas – , mas Ángel parece um. Voz forte e grave, dessas que ressoam. Me convidou a sentar. Trouxeram o rango pra gente e a conversa foi até altas horas. Ele começou perguntando quem eu era, o que eu estava fazendo. E ouviu. Comentou. E contou longas histórias, como é de seu feitio.

Mais tarde fui saber que ele tinha sido padre, da Teologia da Libertação – isso ele não me contou. Fez sentido pela receptividade dele à minha inquietação à respeito do necessário encontro entre política e espiritualidade. “Interessante, essa sabedoria costuma vir mais tarde”, respondeu ele ao perguntar a minha idade. Acho que não é bem sabedoria, mas uma intuição de aprender com a sabedoria dos outros. Intuição que se confirma na razão, que alimenta a intuição, que dá sentido às buscas da razão. Cabeça e coração.

Ouvir as histórias dos velhos e velhas sábias, das trajetórias de seus povos, essa história comum permeada de práticas e saberes, e recontar. Espalhar as boas sementes. Livros vivos, esses velhos e velhas. Ángel aprendeu com os seus e se tornou um.

Acho que ele não gostaria de ser chamado de dirigente, mas motorista não se pode negar que ele é

Ele me contou sua trajetória, um tanto quanto mística. Foi guiado pelo velhos sábios, ainda bem jovem, até ali. Ele é cordobês, “mas já tenho mais de trinta anos de santiagueño”, argumenta. Era músico, disse que compôs algumas canções gravadas pelo famoso Spinetta, e que estudava piano horas a fio, todo dia. Mas as “coincidências” o levaram aos campos de Santiago del Estero, e chamados muito claros o fizeram ficar. Daquelas histórias dignas de Castañeda e seu don Juan.

Quando ele foi intimado pelos camponeses a ficar em Santiago pra ajudar a organizar o movimento, sua então companheira foi nomeada para dar aula no altiplano, quase no Chile. Ela disse que topava ficar com o movimento mas queria ter essa experiência antes. E aí foram passar um ano lá, em 1988, e Ángel acabou dando aula de música. Até que um dia uma das pessoas da comunidade, que andavam junto e cuidavam deles o tempo todo (porque diziam que os poderosos não gostavam deles estarem ali), o levou montanha acima. “Querem falar com você”.

Depois de muito caminhar, chegaram. “Te esperam aí dentro, professor”, indicou o camponês (e Ángel conta que já havia desistido de que eles não o chamassem de professor). “Entre sem olhar para mim. Se encoste na parede que está aí e me espere”, disse o ser que lá dentro estava. “Eu vi só as mãos, as mãos de milhares de anos”, conta Ángel, que já tinha passado por esse caminho em outra ocasião, levando um charango, instrumento musical andino, pra um outro professor de música – uns 50 km andando. “Tá loco, você vai morrer congelado”, disseram pra ele, “e, bem, não morri congelado”, brinca.

O velho disse que tinha visto ele passar ali outro dia, que o povo dele faz esse caminho há cinco mil anos para encontrar uma comunidade no Chile: “lá eles se alimentam de frutas secas, nós temos carne seca, nos encontramos e trocamos. Às vezes nós vamos lá, às vezes eles vêm. Esse, que tu andaste, é um caminho. Mas há outro – um grande desvio de 360 km pela montanha. Por onde tu irias?”,  perguntou. “Faço o desvio”, respondeu Ángel. “Isso é o que vais fazer toda a tua vida. Não vais pegar nenhuma atalho a nenhum poder. Vais fazer um grande desvio. Compreendido?” Compreendido, respondeu Ángel. “Quer perguntar alguma coisa?” Sim, disse ele. “Já sei o que vais perguntar, já perguntaste outra vez. Já sabes que faz mais de mil anos que te esperamos.”

Pow. Mensagem clara e direta. E, de fato, um outro sábio santiagueño já havia avisado isso a ele, quando recém havia chegado nas terras que se tornaram seu lar.

E assim caminha Ángel. Sem dúvidas. Entrega total. Fala com muita emoção e intensidade, tão argentinas, desse povo que tanto lhe ensinou e lhe acolheu: “eles são meus professores”.

Às 23h, a luz se apagou. Hora em que desligam o gerador. Hora de ir dormir. Ángel me emprestou uma lanterna, perguntou se eu sabia chegar até a barraca, acabou me levando até parte do caminho. Passamos por umas pedras que ele acredita que os sanavirones, povo que habitava o local, usavam como altar. Falei que dali eu já conseguia me virar. “Qualquer coisa grita, eu ainda ouço bem, sabe como é, ouvido de músico”, disse. Logo chegando na barraca, me dei conta de que tinha esquecido minha bolsa. Mas deixei pra buscar no dia seguinte.

De manhã cedo, logo depois de tomar café da manhã, fui buscá-la. Como não ouvi ruído algum e tava tudo fechado, resolvi abrir de fininho a porta da sala em que conversamos. Mas consegui errar de porta – apesar de que eram só duas – e dei de cara com Ángel debaixo das cobertas, com a cabeleira pra fora, num dos muitos beliches que compõem o quarto.

“Ai, perdón!”, disse eu completamente sem jeito, fechando a porta e continuando a explicar que eu tinha ido buscar a bolsa que havia esquecido. “Não tem problema, esse é um quarto coletivo, um companheiro que estava aí acabou de ir embora e eu já devia ter levantado mesmo”, falou alto, como sempre, e em tom alegre, e seguiu me explicando onde eu podia encontrar a chave da sala. E continuava falando lá de dentro, “não te preocupe”, e coisa e tal. Apesar de ser da cidade, adotou esse jeito simples de camponês de acolher e não deixar o outro se constranger.

Das conversas com Ángel, surgiu a ideia de eu puxar uma atividade de comunicação popular junto com Cecilia Gazzera que, além de ser comunicadora, atua com Paola no projeto pedagógico do MoCaSE e está há anos no movimento. “Assim podes receber e dar, deixar algo aqui”, disse Ángel. E então reservamos algumas horas do precioso horário de trabalho coletivo para pensar, debater e construir mídia livre e comunitária – e eu pude aprender um pouco do método pedagógico do MoCaSE que, como tantos outros movimentos mundo afora, inspira-se no diálogo de saberes de Paulo Freire.

 

Comunicação e Educação Popular

A atividade consistiu em assistir dois vídeos, um que fala da realidade da mídia no Brasil e direito à comunicação, e outro que conta sobre a Lei de Meios argentina. Criada durante a era Kirschner, a lei que ataca o monopólio dos meios de comunicação no país foi um dos primeiros alvos de Macri, que assim como Temer no Brasil, está passando o trator sobre os direitos populares conquistados por lá. Por meio dessa lei o MoCaSE conseguiu quatro concessões de rádio comunitária, além de mecanismos de formação e fomento à comunicação popular. Um passado que parece distante.

Rádio Suri Manta, cujo edifício imita o animal suri, e o companheiro Ivanilso (mas o povo de lá chamava ele de Ivan, porque não conseguiam falar Ivanilso de jeito nenhum)

E foi justo na Suri Manta 89.9 FM, a rádio da Unicam, que aconteceu a atividade. Eles chegaram a ter formação com o Coletivo La Tribu, referência em rádio livre, mas atualmente a produção é pouca, restringindo-se basicamente a replicar conteúdo. Por isso um dos quatro cursos iniciais da Unicam é de Jornalismo Popular – ao lado de Arte e Música Popular, Agroecologia e Direito. Esses cursos estão sendo elaborados a partir de convênios com universidades nacionais, o que garante o reconhecimento formal de ensino superior – mas a proposta é contornar a burocracia para construir uma outra lógica acadêmica.

Mais quatro cursos já foram propostos, mas ainda não aprovados: Medicina Popular, Arquitetura Popular, Engenharia de Alimentos e Engenharia de Energias Renováveis – todos pensados a partir das demandas locais. Como nos demais cursos de longa duração do MoCaSE e da Via Campesina, a dinâmica é de alternância. No caso da Escola de Agroecologia em Quimilí, que também conta com estrutura coletiva de cozinha e alojamento, as aulas ocorrem uma semana por mês. Muitos dos que moram na Unicam, inclusive, estudam ou são da equipe pedagógica de lá. A ideia da alternância é que os campesinos não precisem deixar suas comunidades para estudar – pelo contrário, que os estudos tenham relação com as demandas e com a realidade da comunidade.

Após assistir os vídeos, o pessoal se dividiu em grupos menores para debater e depois se reuniu novamente para trocar as impressões. Eles perceberam que a criminalização das rádios comunitárias é muito mais violenta e repressiva no Brasil, mas que existe concentração nos dois cenários, no Brasil e na Argentina, e que isso faz com que nosso modo de pensar e ver o mundo seja fortemente influenciado por poucas empresas privadas, que reproduzem valores e interesses predominantes, capitalistas. Por isso a necessidade de termos nossos próprios meios e nos expressarmos a partir de outras práticas, lógicas e valores.

Pessoal se separou em grupos para debater sobre os vídeos

E como isso já acontece? Como se faz valer o direito à comunicação na Unicam? Vários elementos foram colocados: nas conversas e tomadas de decisão coletivas, em que todas e todos têm poder de voz; pela rádio comunitária; e pelo Facebook e WhatsApp, porque a internet dá mais liberdade (o que gerou comentários contrários, falando de controle e propriedade privada na internet, onde há um monopólio ainda maior que na rádio, mídia impressa e TV, só que disfarçado de liberdade).

Colocou-se também a interessante possibilidade de pensarmos e criarmos outras culturas de comunicação – como a “comunicação popular agroecológica” experimentada na Escola Latino Americana de Agroecologia. Podemos explorar meios de comunicação mais diretos, como marchas, panfletos, comunicação oral, música, além de fomentar espaços de formação e aumentar nossa capacidade de disputa das narrativas sociais, esse imenso e sutil poder de nomear o que de fato está ocorrendo na realidade à nossa volta.

Para finalizar a oficina, os grupos se dividiram novamente para criar uma auto publicação, também conhecida como zine, bem simples: uma folha frente e verso, que dobrada parece um livrinho. O tema proposto foi contar um pouco sobre a Unicam.

As publicações produzidas

Devido ao tempo curto, a maioria dos grupos não conseguiu terminar suas publicações – teve um que só conseguiu fazer o planejamento. Mas era esse o propósito, iniciar um processo que continua com o curso de Jornalismo Popular e a comunicação comunitária no MoCaSE. A galera apresentou as criações coletivas e seus significados, e se emocionou com o trabalho dos colegas.

 

Escola de Agro

Uma semana por mês a Unicam se esvazia. Quase todos vão para Quimilí participar da Escola de Agroecologia, ou simplesmente “Escola de Agro”, como o povo chama. Os que ficam dizem que nos primeiros dias é um sossego total, mas que logo vira marasmo, e que a alegria toma conta quando os companheiros e companheiras voltam.

No busão

Correria no último dia, arrumar tudo, preparar a mochila – e o ônibus saiu com duas horas de atraso. Como estava na equipe que lavou a louça depois do almoço, fui uma das últimas a entrar no busão. “Se te atrasas assim no MST, te fuzilam!”, disse o motorista Ángel, o que me arrancou boas risadas. Ele já havia demonstrado que acha a disciplina do MST um pouco exagerada, militar demais, quando eu perguntei pra ele sobre as semelhanças e diferenças entre os dois movimentos.

De fato, Ivanilso tinha comentado comigo que achava as coisas bem mais tranquilas, ou talvez mais soltas, no MoCaSE. “Acho que os argentinos sabem aproveitar melhor a vida”, me confessou um dia. Nada como a siesta depois do almoço, das 13h às 15h. E depois trabalhar só até as 18h. Ainda assim, na minha opinião, fica faltando tempo para as atividades pessoais, lúdicas, físicas, culturais, espirituais, sendo que a manhã toda é dedicada ao trabalho, inclusive no sábado. Dia inteiro livre, só domingo. E sempre tem aquela roupa pra lavar.

Por um lado, a paranoia com a produtividade, com o relógio, heranças da colonização: cotidiano padronizado e desconectado dos ciclos naturais e das questões subjetivas. Por outro, são tantas as demandas básicas! Equilíbrio difícil de se encontrar, ainda mais em comunidade.

Na Escola de Agro, também rola todo um esquema de autogestão. A galera cozinha, limpa, se organiza e estuda. Aqueles que vão se formando se transformam em coordenadores pedagógicos, e como me explicou Patricia Pereyra, que atua na escola e é da Central Campesina de Copal, “aqui não existem professores e estudantes”.

Quadro de tarefas e as respectivas equipes responsáveis

A proposta pedagógica está baseada na complementariedade entre saberes populares e científicos. Os temas estudados têm a ver com a realidade local, e pessoas das comunidades vêm para a escola repassar seus saberes. Na matéria de criação de animais, os camponeses transmitem sua experiência; outras companheiras vêm falar sobre território, conflitos, como se organizam para se defender, e por aí vai.

Além de fornecer educação superior (ainda não reconhecida formalmente, o que é uma batalha do movimento), a escola oferece formação para os adultos que não terminaram o ensino básico, “para fortalecer os companheiros do campo”, como explica Patricia.

Tão importante quanto as tarefas de manutenção e os estudos são as místicas. Nessas atividades mais lúdicas, performáticas, se trabalha o sentido da luta, as emoções, memórias e afetos que movem o caminhar coletivo. Na abertura dessa etapa, a mística abordou a violência institucional e a proposta de anistia a torturadores da ditadura.

O grupo encarregado da mística dedicou várias horas para criar a performance coletivamente, ensaiar, ir atrás dos materiais e confeccionar os lencinhos que foram distribuídos – referência às Madres de Plaza de Mayo, reconhecidíssimo movimento de mães de desaparecidos políticos, até hoje um dos mais fortes do país.

O processo de produção de lenços com stencil. “Nunca más” e “ni olvido ni perdón” (nem esquecimento, nem perdão), referindo-se às violências da ditadura

A mobilização em torno da educação está na gênese do MoCaSE. Raimundo Gómez tinha uma grande preocupação com isso, pois ele mesmo não sabia escrever, e queria muito que as crianças da sua comunidade tivessem acesso à educação. Através dessa luta que Raimundo conheceu Ángel, que foi levar umas telhas para a escola que com muito esforço o velho caminhante do monte conseguiu para a comunidade. As autoridades se comprometeram a mandar professor, sob a condição de que eles mesmos construíssem a escola.

Raimundo contava que não sabia nem falar espanhol quando saiu de casa para trabalhar na cidade, aos 13 anos. Apenas quéchua. Agora os jovens campesinos, além de terem acesso à educação, constroem sua proposta pedagógica, para que tenha sentido em suas vidas e que não precisem trabalhar em subempregos nas cidades – e inclusive aprendem quéchua.

Preparando a mística: os lencinhos formaram um grande lenço, em referência às Madres de Plaza de Mayo

 

Titularidade e identidade indígena

Grande parte dos integrantes do MoCaSE fala quéchua, mas entre os jovens essa memória prática estava se perdendo. Por isso, na Escola de Agro se aprende o idioma local. Junto com a luta pela terra, o movimento tem um forte apelo ao reconhecimento indígena. Por dois motivos: cultural e jurídico.

“Em Santiago del Estero, o campesino é muito indoamericano, por seus hábitos, seus idiomas, e por sua lógica não-capitalista – e o campesinato tem essa lógica pelo mundo inteiro, a Via Campesina sustenta que o campesinato tem uma lógica de produzir alimentos não-capitalista”, esclarece Ángel. Inclusive a relação com outros movimentos indígenas da América Latina, por meio da Via Campesina, fez com que os companheiros do MoCaSE problematizassem sua identidade indígena.

A Unicam recebe galera Guarani da província de Misiones, que faz parte do movimento campesino de lá

Segundo Ángel, 80% das moradas em Santiago del Estero são de autoconstrução – ou seja, a própria população constrói por conta. Existem 7.500 produtoras têxteis artesanais, que utilizam teares para tecer a partir do algodão (yuchan, o algodão de palo borracho, a paineira) e da lã de ovelha, trabalho desempenhado principalmente entre as mulheres. E há muito artesanato em couro de cabrito e vaca.

Além desses fatores culturais, foram aprovadas na Argentina, nas últimas duas décadas, leis que favorecem os indígenas territorialmente. Sendo assim, o reconhecimento da identidade indígena é também uma estratégia de resistência e de acesso legal à terra. “As únicas maneiras que temos de adquirir um título comum de terra na Argentina são por meio de condomínio ou posse indígena. Outra maneira é por meio de cooperativas, o que continua sendo muito propriedade privada, no fundo”, explica Ángel.

“O cerne da constituição argentina é a propriedade privada. Nós torcemos a lei para a nossa perspectiva coletivista da terra no MoCaSE. E esse é um pressuposto para se tornar membro do movimento”, complementa. Há uma contribuição anual que os camponeses dão pra organização, para que possa se sustentar financeiramente, e que varia de acordo com a renda do produtor. E isso garante a autonomia do movimento. “O pequeno produtor camponês, se não está coletivizado, encontra 400 tipos de problema”, diz Ángel.

Outro fator que permite que o MoCaSE assuma sua identidade indígena é que os indígenas que já se reconheciam como tal não tiveram preconceito com os camponeses. Ángel diz que existe um grave problema na América Latina, de camponeses contra índios, índios contra descendentes africanos, desses contra pescadores artesanais. “No MoCaSE isso não ocorre: há pescadores, pastores, camponeses, afros e indígenas”.

Yolanda, ou Krexu, trabalhando na obra

“Em diversos encontros e oficinas chegamos à conclusão de que o campesinato é uma forma de produzir alimentos. E o povo indígena é a sua identidade, de auto governo. Porque o político define o cultural, e o cultural define o político”, defende Ángel.

Os camponeses da região não possuíam título de posse de suas terras – como são descendentes de indígenas, nunca fizeram o documento. Por isso a necessidade de lutar pela terra, contra a ofensiva do agronegócio. E o MoCaSE fez um levantamento de todos os camponeses, são 45 mil famílias agrárias, pescadoras, indígenas e pastoras na província, nem todas filiadas ao movimento.

De uns tempos pra cá, existe uma política de salário social complementário na Argentina, uma lei distributiva para os camponeses – para que não deixem suas terras pra ir ganhar a vida nos centros urbanos, o clássico êxodo rural que inchou as cidades nas últimas décadas. E isso faz com que não tenham patrão, que possam subsistir com seu artesanato e seu cultivo, montar um negócio próprio, estabelecer suas próprias redes econômicas.

E quem, em Latinoamérica, não é indígena?

Teve um dia em que fomos buscar pedras na casa de uma família – os camponeses da região contribuem juntando materiais úteis para a construção da universidade. No caso, as pedras que estão sendo usadas para levantar as salas de aula.

Quem nos recebeu foi Crispim, e em poucos minutos de conversa ele já me convidou para morar ali. “A gente dá um pedaço de terra, daqui a pouco minha senhora está chegando, você vai conhecer, e o governo dá um dinheiro”. Eu não entendi muito e continuei conversando sobre outras coisas, mas ele voltou a repetir. Era sério.

Que solidariedade é essa? Onde mais no mundo as pessoas oferecem terra assim? E não é nenhum latifundiário, que tem muito mais do que precisa, mas um camponês super humilde. E aí entendi porque Ángel se emociona tanto ao falar desses velhos e velhas, “seus mestres”.

 

Dos vícios e opressões

Quando eu comentei do causo, na volta, Ángel disse que Crispim oferece terra para as mulheres da Unicam mesmo. “Pros homens não, senão eles trocam por 20 litros de vinho em alguma aposta por aí”, ironizou. E essa é uma questão trabalhada na Unicam.

“Nós aqui também temos viciados. ‘Temos viciados’, na verdade, somos todos viciados.  Uma sociedade que tem filhos viciados, algum vício tem! O vício de não saber amar por exemplo. Normalmente é o que se busca afogar no álcool – a maconha é outra coisa, acho que a estamos maltratando, o próprio tabaco também”, comentou Ángel.

Tudo começou quando veio um pessoal levantar o galpão, construção inicial do terreno. Eles trabalhavam com construção civil na cidade, tinham seus vícios por lá, e não queriam mais voltar. A partir de então, o movimento deu atenção a essa temática, conseguiu acompanhamento psicológico e passou a receber outras pessoas na mesma situação.

Outra questão difícil e recorrente que se enfrenta é o machismo. No período em que eu estive lá, soube-se que uma adolescente foi agredida por um rapaz. Ela havia se envolvido com ele mas estava com outro. “O corpo é seu, e você faz o que quiser com ele, ninguém pode dizer com quem você pode se relacionar ou não”, escutei um companheiro, que está há mais tempo na Unicam, falar pra ela enquanto trabalhavam.

No primeiro dia da etapa na Escola de Agro, separou-se homens e mulheres. “As mulheres venham aqui na sala, os homens eu nem quero saber onde vão conversar, se virem”, disse Paola. E aí conversou-se sobre autonomia feminina, a violência ancestral de que nossas avós indígenas foram vítimas, a submissão de nossas mães; da necessidade de denunciar as opressões e não deixar o machismo ser invisibilizado, como historicamente é. E de enfrentar as violências juntas, usufruindo da liberdade a que temos direito. Imagino que a conversa entre os homens deve ter sido um pouco mais pesada.

Interessante observar a maneira como a comunidade, o movimento, toma para si os problemas cotidianos e busca resolvê-los coletivamente – o que normalmente, na sociedade como a conhecemos, fica relegado ao plano individual. Quando muito a família ou algum amigo ajuda, sem atacar a origem do problema. Mas essa corresponsabilidade é rara. Algo que se perde quando se dissolvem os laços comunitários.

 

Como o movimento se organiza*

O MoCaSE é um movimento provincial (a Argentina é dividida em províncias, que equivalem aos estados brasileiros) que surge a partir do trabalho conjunto de diferentes organizações. Sua ata fundacional, redatada em Quimilí em 4 de agosto de 1990, indica como objetivo “buscar soluções a problemas comuns, ser representante dos campesinos frente às autoridades, apoiar as petições de cada uma das organizações que o integram respeitando sua autonomia, promover a capacitação em cooperativismo e gremialismo e melhorar a qualidade de vida dos pequenos produtores”.

Em 1999 se realiza o primeiro congresso do MoCaSE, no qual começam a aparecer certas divergências de funcionamento. Em 2001 acontece uma ruptura, com uma assembleia na cidade de Santiago que dá lugar ao nascimento do Movimento Campesino de Santiago del Estero – Via Campesina (MoCaSE-VC):

“Nós decidimos que queremos um MoCaSE horizontal, participativo, sem presidencialismo, que funcione com secretarias, que siga o mandato das bases, não queremos um MoCaSE de escritório, nem servil ao governo, queremos uma organização de luta e resistência, na construção de uma sociedade justa. Queremos que no MoCaSE se tomem as decisões por consenso, com uma direção coletiva, onde todos sejamos iguais – dirigentes, membros das bases, técnicos – , que cada um tenha o seu papel dentro da organização. Queremos que se respeitem as conclusões do congresso do MoCaSE”, diz a declaração da assembleia. E ainda hoje existe outro movimento que também se chama MoCaSE, que me disseram ser bem menor.

Vila de barracas na Escola de Agro

O MoCaSE-VC conta com nove centrais campesinas. Cada uma delas, por sua vez, reúne um número variável de comunidades de base, que são o nível mais básico de organização das famílias campesinas.

As camponesas e camponeses participantes do MoCaSE-VC criaram três níveis de organização, com instâncias próprias de reunião, deliberação e ação: as comissões de base, as centrais e as assembleias. Além disso, existem as secretarias, que trabalham de maneira transversal sobre problemáticas específicas e que são formadas por membros de cada central campesina: Saúde, Formação, Território, Comunicação, Produção e Comercialização.

O MoCaSE-VC, por sua vez, faz parte do Movimento Nacional Campesino Indígena (MNCI) e da Coordenação Latino Americana de Organizações do Campo – Via Campesina (CLOC-VC), nas quais atua organicamente.

O Movimento Nacional Campesino Indígena (MNCI) nasce da articulação politica em torno da Mesa Nacional de Organizações da Agricultura Familiar em 1996 e vai tomando corpo orgânico e político a partir de 2003, quando várias organizações se dedicam a construir um movimento de caráter nacional e autônomo com desenvolvimento territorial.

Assim surge o MNCI, com a soberania alimentar e a reforma agrária integral como horizontes no caminho para a transformação social, rumo a um mundo onde não existam explorados nem exploradores. Atualmente, segue se desenvolvendo e crescendo como movimento nacional, com a participação ativa de mais de 20 mil famílias campesinas indígenas e de bairro, através de organizações do campo e da cidade, e uma ação territorial que incide em mais de 100 mil famílias.

Já a Via Campesina é um movimento internacional que nasceu em 1993 e agrupa a milhões de campesinos e campesinas, pequenos e médios produtores, povos sem terra, pescadores artesanais, indígenas, migrantes e trabalhadores agrícolas de todo o mundo. Defende a agricultura sustentável em pequena escala como um modo de promover a justiça social e a dignidade. Se opõe firmemente ao agronegócio e às multinacionais que estão destruindo os povos e a natureza.

Cerca de 150 organizações locais e nacionais em 70 países da África, Ásia, Europa e América compõem a Via Campesina. É um movimento autônomo, pluralista e multicultural sem nenhuma afiliação política, econômica ou de qualquer outro tipo. A Coordenação Latino Americana de Organizações do Campo (CLOC) se constitui formalmente no congresso realizado em 1994, com a participação de cerca de 84 organizações procedentes de 18 países da América Latina e do Caribe.

*texto adaptado da apresentação do livro Raimundo Gómez, caminante del monte.

 

O poder de que o poder não te alcance

“É da idiossincrasia santiagueña compartilhar a terra. Compartilhar a comida. A hospitalidade. Mas é algo muito campesino, de qualquer maneira, no mundo inteiro”, diz Ángel. No MoCaSE, como em tantos outros movimentos, esses campesinos se organizam para poder continuar compartilhando.

“Dizem os políticos que o MoCaSE tem governos paralelos. É verdade. Quimilí já aprovou uma lei ‘fora agrotóxicos’, para que esses venenos não entrem num raio de 3 km ao redor da cidade. Coisa que, mesmo sem ter vereadores, nós conquistamos. Conquistamos também que nas festas pátrias os primeiros que desfilam são os indígenas do MoCaSE. Em três municípios de Santiago. Carregando a wiphala. Disse um candidato do macrismo, num discurso em Santiago del Estero, sobre o fato de o MoCaSE estar querendo formar um partido político, ‘como será quando cheguem ao poder, se eles já têm poder sem ter poder?'”, conta entusiasmado.

Em Misiones foi criado o PAYS – Partido Agrário e Social, uma iniciativa dos movimentos sociais que já conseguiu eleger um deputado provincial. E estão fundando o partido em Santiago também (para se tornar partido nacional, precisa estar estabelecido em cinco províncias, segundo a lei argentina).

Cartada ousada. Entrar na disputa institucional direta. Mas o que é ter poder? “Raimundo nos dizia: ‘nós vamos caminhando, e vamos crescendo. E os de fora creem que a gente tem mais poder do que temos. E nós temos mais poder do que nós acreditamos. Qual é o poder que temos? Temos poder quando os inimigos disparam balas e nós já passamos desse lugar.’ Que impressionante concepção de poder: nada de ser prefeito, governador, poder é quando os mesquinhos atiram e já não conseguem te atingir. Já estás mais longe do que o lugar onde te veem”, se empolga Ángel.

Quando pensam que vão te pegar, já não te encontram. Já estás mais adiante, já caminhaste um pouco mais.

“Por isso não se pode parar de caminhar”, disse eu.

Ao que ele respondeu: “Claro! Aqui também se tem que caminhar (apontando pra cabeça). Aqui também é preciso estar mais longe de si mesmo. Por isso é necessário incorporar um ‘nós'”.

“Nós” do MoCaSE

 

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