Índia

I

Mulher-pássaro

de cócoras

tem raízes.

 

Cantos.

Voos.

Vertigens.

 

Mulher-planta.

Floresce e dança.

 

A fumaça do cachimbo

conecta aos ancestrais.

 

Humanos.

Plantas.

Animais.

 

 

II

O bico do seio

encontra a pena

do colar.

 

Corpo.

Terra.

Ar.

 

Penas na cabeça,

na orelha,

no coração.

 

Antenas.

Asas.

Conexão.

 

Mulher-pássaro

na natureza de seu corpo

se ergue frente ao mundo.

 

Não mais objeto.

Não mais reprimida.

 

Forte.

Íntegra.

Índia.

 

III

Awaxy, milho,

ser andrógeno:

macho e fêmea.

 

A mulher-planta

encontra a força do masculino

dentro (e fora)

de si.

 

 

 

 

 

Do processo criativo: fotopoema, ritos e artesania

 

Invento para me conhecer

Manoel de Barros

 

15 dias para mim.

15 dias todinhos pra mim.

Era isso que eu queria.

Era tudo o que queria.

 

Nesse mundo moderno,

instantâneo, acelerado,

de tanta informação,

com tamanha tecnologia,

é tão difícil encontrar

tempo e lugar

para parar!

 

Pois era esse o presente

que eu queria me dar.

Solidão e silêncio.

Para me escutar.

Para criar.

 

E assim, quase que magicamente,

encontrei esse lugar.

Uma cabana na floresta

onde eu pudesse enfim

estar e sonhar.

 

Os dias foram transcorrendo

– mexendo nas minhas coisas,

fazendo yoga, meditando,

cozinhando, lendo, escrevendo,

contemplando,

me permitindo descansar

e desfrutar.

 

Me envolvendo com os encantos

e temores

da floresta.

 

Mistérios da meia noite,

fogueiras, ritos e louvores.

 

“É importante fazer essas rezas aqui”,

me disse meu anfitrião.

“Nessa terra já correu muito sangue”.

Coronelismo. Massacre dos povos originários.

Escravidão.

 

Comechingones.

Saravirones.

Os povos desse lugar.

 

Peço licença para entrar.

Não quero ser como os brancos que aqui chegaram

arrasando tudo.

E para isso não basta querer.

Tem que mudar a maneira de ser.

 

Aí está o (ou um) sentido dos ritos.

A conexão com os seres. Visíveis e invisíveis.

Com as forças. As naturezas.

 

Todo dia, ao levantar, me alongava,

preparava o mate,

fumava o cachimbo – meu petyngua -,

e inalava o paricá.

 

Gracias à Ñamandu,

gracias a la vida,

por estar aqui, agora, neste lugar.

 

Revirando minhas coisas

achei muitas penas

que eu havia recolhido e ganhado

ao longo do meu andarilhar.

(Já faz um ano! – me dei conta –

que estou nesse caminhar.)

 

Fios, penas, sementes.

Assim que fiz um colar.

 

Lembrei que tinha argila,

que seria bom para me purificar,

e então me veio a ideia

de fazer um rito

na beira do riacho

do pequeno vale encantado

que se tornou meu quintal.

 

“Vou esperar o sol brilhar.”

Mas, depois de muita seca,

o outono trouxe a chuva,

que veio para ficar.

 

Então, com tantas penas que me restavam,

resolvi fazer também um cocar.

“Desafio de macramê!”, me propus,

e comecei a trabalhar.

 

Concebi o projeto inicial:

o tamanho dos fios,

as penas e em que ordem as iria usar

– o planejamento objetivo

que todo sonho exige

para se concretizar.

 

Depois, nó por nó

– respiração, disciplina e meditação.

O trabalho artesanal, quase mecânico,

que se segue à fase de inspiração.

 

Até chegar ao desafio, o momento da inovação.

 

E  assim nasceu um objeto mágico

cujo processo de criação

me remeteu a feridas antigas

– e sua necessária superação.

 

“Invento pra me conhecer”,

já dizia seu Manoel de Barros.

Crio pra me transmutar.

 

Parti então para os arremates finais

das duas obras que criei.

Precisava ajustá-las em mim

e, no começo, me deu até receio

de as experimentar.

 

Timidamente as coloquei,

fiz os ajustes, terminei.

 

Improvisei um espelho,

a janela da cabana.

Vesti o colar. Vesti o cocar.

Peguei minha câmera.

 

Em imagem, a partir dos objetos,

me recriaria.

 

Me fotografei. Mas tinha algum ruído

– havia algo do que eu tinha que me libertar.

 

Tirei o casaco. Tirei a blusa.

Com o top preto, estava quase lá.

 

Olhei pros lados. Não resisti.

Precisava me desnudar.

 

Índia. Guarani.

Ser da natureza

em harmonia

com esse lugar.

 

Assim me criei.

Assim me vi.

Tirando as camadas que a civilização

me impôs

e que o patriarcado

insiste em me proibir de tirar.

 

O corpo é meu.

É só meu corpo.

E é meu.

 

Um ato simbólico

de libertação,

de auto-criação,

que se completa

ao compartilhar

– ao ter coragem de se assumir

o que se é

e dizer ao patriarcado

(esse velho escroto

que tem sangue nas mãos

e nos olhos um cifrão):

 

você não vai me impedir

de me amar!

 

Esse amor todo tomou conta de mim

e transbordou em poesia.

Com o fluir das palavras,

me assumi Índia.

 

E pensar que essas mulheres,

privadas de sua liberdade de ser,

sofreram nas mãos dos brancos por serem indígenas.

Nas mãos dos homens por serem mulheres.

 

Carregamos seu sangue – não seu sobrenome.

Os homens indígenas, quase todos mortos.

As mulheres, apropriadas como escravas.

Violadas. Dando vida a uma geração de Joãos e Marias.

Nossos avôs, nossas bisavós. Com nomes e sobrenomes do invasor.

 

Honro minha ancestralidade indígena,

seja de sangue, seja de lugar, seja de espírito.

Já não importa.

 

Honro minha liberdade de ser.

Minha liberdade de mulher.

 

Não mais objeto.

Não mais reprimida.

Forte. Íntegra.

 

Simplesmente

ÍNDIA.

 

Agora percebo que o ritual se fez

espontâneo e livre,

como a dança de amor das duas borboletas

que presencio nesse momento

 

– o presente da vida que arremata

esse rito de cura,

que dá por encerrado

esse texto.

 

 

 

 

por

Michele Torinelli

ou

Yxa Owy.

 

Água de Oro,

Córdoba,

abril de 2017.

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