Cultura, natureza e conflitos territoriais na aldeia Kuaray Haxa

Comunidade Mbya Guarani enfrenta o ICMBio na luta por demarcação de terra no litoral do Paraná

Por Michele Torinelli / Vida Boa

Jaxuka fuma seu petyngua, o cachimbo Guarani, junto a estudantes, indígenas, ativistas e pesquisadores

Dentre os vários ônibus nos arredores da reitoria da UFPR na manhã de 03 de novembro, um percorreria dezenas de quilômetros serra abaixo e mata adentro até chegar à divisa de Antonina com Guaraqueçaba. Dia de trabalho de campo no SINGA – Simpósio Internacional de Geografia Agrária, e uma das atividades mais disputadas foi a visita à tekoa (morada, ou como a língua do branco denominou, aldeia) Kuaray Haxa, cuja tradução aproximada pode ser “passagem do sol”*, povoada por indígenas Guarani Mbya.

O ônibus estava lotado de participantes do Simpósio que vieram dos mais diversos cantos do Brasil e da América Latina – Espírito Santo, Bahia, Cuba, Colômbia, Argentina, entre tantos mais, e de variadas etnias – Guarani Ñandewa, Kaimbé, Pankararu, Nasa e Mbya de outras regiões.

Muitas fotos foram tiradas nas janelas durante a descida da serra do mar, acompanhadas das piadas do cacique Wera Kuaray, da Tekoa Porã, no Espírito Santo. Ele é Ñandewa e faz parte da CGY – Comissão Guarani Yvyrupa, veio participar do SINGA e contribuiu na atividade de campo com histórias e músicas de seu povo.

 

Caminhada ancestral

Depois de passar por Morretes e chegar a Antonina, uma estrada de chão leva à Guaraqueçaba: logo após a placa que anuncia a divisa entre os municípios, fica a tekoa Kuaray Haxa. O cacique Vera Popygua, que também compõe a CGY, recebeu a comitiva, que se acomodou na opy, a casa de reza. Explicou que ali vivem cinco famílias e contou sua história.

“Passagem do sol”

Vera veio do sul do Paraná, e deixou sua aldeia numa longa peregrinação até achar o seu lugar. “Porque nós Guarani é assim: não sei se é Ñanderu que fala, ‘você vai ter que formar uma aldeia em outro lugar’”, relata, e saíram num grupo de 32 pessoas.

Eles foram para uma aldeia em Palmas (PR) e se depararam com um monte de jagunços que não os deixaram entrar. O filho dele se assustou e foi atropelado por uma moto. Levaram a criança ao hospital, mas recusaram atendimento: “a gente não quer índio aqui”, disseram. O dono do hospital era também dono da fazenda envolvida no conflito em questão.

Sua companheira, Jaxuka, levou o filho para ser atendido em Curitiba. Enquanto isso, um vereador disse que eles não podiam ficar na terra porque estava em disputa, tramitando na justiça – “enquanto isso o fazendeiro tava lá, mas índio não pode ficar, fazendeiro pode”, comenta – e ofereceu um caminhão para levar eles aonde quisessem ir.

O cacique Vera Popygua

Foram para um aldeia em Inácio Martins, no interior do Paraná. Apesar de o cacique de lá ter dito que eles podiam ficar o tempo que quisessem, Vera sentia que a missão dele ainda não havia terminado. Ele deixou a família e foi para São Paulo, e o presidente de um sindicato em Iguape disse que ia doar uma terra para ele. Popygua voltou para buscar sua família, mas nesse meio tempo o sindicalista mudou de ideia – sua esposa não queria que ele doasse terra para “índio”. Ficaram no meio da estrada, sem saber o que fazer. Foram parar em Curitiba e, na sequência, em Piraquara, onde uma cunhada dele casou com um Kaingang.

Enquanto ele continuava sua busca, outra pessoa chegou a oferecer terra, mas queria que trabalhassem para ele. “Eu disse ‘não, nós somos indígenas, nós vivemos livres’, e segui minha caminhada; durante quatro anos eu caminhei assim”, conta o cacique Vera. Até que um amigo indicou uma outra terra: disse que pertencia ao Bamerindus, que faliu, e que os caçadores e palmiteiros estavam aproveitando para entrar. Quando chegaram, a criançada já gostou do lugar. “Aqui é bom, aqui que nós vamos ficar”, decidiram. Acenderam um fogo e dormiram ao redor dele, em meio à mata.

Na noite em que chegaram, Jaxuka sonhou que tinha uma família de índios que morava ali. “E eles falaram pra mim: ‘agora é a vez de vocês cuidarem daqui. A gente vai se retirar, mas vocês vão ficar aqui”, conta.**

 

A sobreposição da tekoa Kuaray Haxa e da Reserva Biológica Bom Jesus

Algum tempo depois, Vera conta que chegou gente dizendo que essa área pertence ao ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade desde 2012: trata-se da Reserva Biológica Bom Jesus. Ao que ele respondeu: “a gente chegou aqui tava tudo abandonado, agora que estamos cuidando vocês aparecem?”. Foram conversando, fizeram inventário de tudo o que eles tinham ali, desde casas a animais, e o cacique relata que o pessoal do ICMBio de Guaraqueçaba disse que estava tudo bem e que eles podiam ficar ali. Mas um novo escritório surgiu em Antonina, e aí a coisa mudou de tom. “Pediram reintegração de posse, teve audiência, e deram 30 dias pra gente sair”, lembra Vera.

A CGY – Comissão Guarani Yvyrupa assumiu a causa e derrubou a liminar. Segundo Vera, o processo foi parar em Curitiba e lá o ICMBio não teve vez: “nós temos uma dívida histórica com os indígenas”, teria dito o juiz. O cacique conta que normalmente a relação com o ICMBio é bastante positiva, e que o caso do escritório de Antonina é particular – o que o leva a considerar que a postura dos órgãos depende muito das pessoas que estão trabalhando neles.

 

Etnomapeamento

Junto à CGY e ao CTI – Centro de Trabalho Indigenista, eles mesmos mapearam seu território, o que resultou na publicação Ojejapo Tekoarã: etnomapemapeamento da tekoa Kuaray Haxa, litoral do Paraná. Agora só falta a demarcação oficial, que ainda não saiu.

Resultado do mapeamento colaborativo na comunidade

Na publicação consta que Vera, Jaxuka e sua família fizeram o caminho contrário da geração dos seus avós, que se afastaram do litoral rumo ao centro do estado pressionados por diversos fatores. Consta também que “a atual gestão da Reserva Biológica Bom Jesus ainda não reconhece os benefícios que uma cooperação com a comunidade Guarani da tekoa Kuaray Haxa pode gerar para a conservação ambiental da reserva, e tem se manifestado a favor de uma restrição do acesso e da permanência da comunidade […]. Trata-se de uma posição que, segundo Vera Popygua, ignora os efeitos positivos que a presença guarani já possibilita para a preservação ecológica, e não admite as limitações técnicas de monitoramento da própria gestão da Reserva, que não dá conta de uma área tão grande. Segundo os Guarani, o melhor caminho é a cooperação”.

Vera diz que o pessoal do ICMBio só coloca placa, o que não adianta. “Nós indígenas conversamos com os bichos, falamos com o Espírito, essa é a demarcação, não é com a placa ficando ali parada”, argumenta. Ele conta que desde que eles passaram a cuidar da região, e conversar com a vizinhança sobre a importância de cuidar da mata, os caçadores e palmiteiros não têm mais aparecido ali.

A tekoa Kuaray Haxa se localiza entre os caminhos do Peabiru, trilhas ancestrais que conectam o litoral ao interior do continente chegando até as cordilheiras dos Andes. “Não é à toa que a gente tá nessa terra, porque do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo todo o litoral é território Guarani”, lembra Vera.

 

Pensamento pré-histórico

É assim que Karai Mirim, genro de Vera e Jaxuka, denomina a visão de muitos não-indígenas sobre os indígenas. “O invasor quando chegou viu o indígena de uma forma e acha que ele tem que continuar do mesmo jeito”, indica. Aquela velha história de que “índio” não pode usar celular, não pode ter carro, não pode usar calça jeans. Como se fosse uma obrigação do indígena ficar parado no tempo, sendo que o invasor de hoje é, em alguns aspectos, bem diferente do invasor de 1500 – pelo menos tecnologicamente, já que a mentalidade parece ser a mesma.

Participante indígena registra o baile de fandango caiçara na abertura do SINGA

“A gente nunca pensa como seria se o jurua (modo em que os indígenas denominam os brancos) não tivesse aqui, o que o indígena teria, qual seria a evolução do indígena”, analisa Karai. “Nós temos a nossa própria medicina, das plantas, como estaria essa medicina hoje?”, questiona. Tantos modos de vida, práticas e conhecimentos, que, com o massacre civilizador, foram violentamente impactados e tiveram que voltar seus esforços para a luta pela sobrevivência. Mas que, longe da maneira que seria justa, existem. Re-existem.

“O mundo capitalista criou uma mecânica descontrolada. Por isso que o indígena não se encaixa hoje nesse governo montado, nessa rotina de que você acorda, trabalha, descansa e no dia seguinte acorda pra trabalhar de novo; o indígena não se encaixa nesse modelo. Por isso que o índígena é hoje essa pedra no sapato dos capitalistas, dos ruralistas, desse governo que existe hoje, porque a gente não se encaixa nisso. A gente não alimenta esses grandes políticos porque a gente não produz tanto, a gente produz pra sobrevivência própria”, conta Karai.

Karai contou histórias e guiou o povo mata adentro pelo “caminho da onça”

A companheira cubana María de los Ángeles Guevara compartilhou que em seu país os povos indígenas foram tão massacrados que hoje praticamente já não existem mais – exatamente o que falou Raul Zibechi sobre o Uruguay no debate de abertura do Simpósio: ele acredita que, apesar de existirem coletivos indígenas, fica difícil falar de povos indígenas no seu país. “A intenção aqui no Brasil eu creio que seja essa”, respondeu Karai, porque cultura indígena, caiçara, quilombola, não dá dinheiro, e o capitalismo quer dinheiro, “por isso o governo vem com essa história de PEC, marco temporal”, diz ele.

 

Lutas indígenas pela (T)terra

Outras pessoas compartilharam a experiência de suas comunidades, entre elas Guarani de outros territórios, Pankararu (Pernambuco) e Kaimbé (Bahia). Uma luta comum por seus territórios ancestrais, por poderem viver de seus modos, em coexistência harmônica com a natureza, da qual todas e todos fazemos parte – mesmo que alguns insistam em esquecer disso e passar com seu rolo compressor sobre seres, territórios e sabedorias em nome do desenvolvimento e do progresso.

Uma luta que tem agregado diferentes povos indígenas, caiçaras, faxinalenses, ribeirinhos, quilombolas, campesinos, pesquisadoras, estudantes, trabalhadores e ativistas em prol do bem viver, em seus muitos viveres, e do bem comum.

Aguyjevete para quem luta!

 

Mais imagens do encontro na tekoa Kuaray Haxa:

O artesanato é a principal fonte de renda da comunidade

 

* De acordo com a publicação Ojejapo Tekoarã: etnomapemapeamento da tekoa Kuaray Haxa, litoral do Paraná.

** Relato de Jaxuka em Ojejapo Tekoarã.

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