Caminhos de Vida Boa

Arte de Juliana Deslandes

Faz quase dois anos que botei o pé na estrada – ou melhor, em tantas estradas e trilhas, caminhos de Latinoamérica, essa Abya Yala terra de sangue vital. Em busca de formas práticas de bem viver. Ancestrais, contemporânes, modernas, ancestrofuturistas. Atuais, reais. Preferentemente, rurais. A cidade não cabe mais em mim.

E foi de uma experiência rural no sul do Brasil que resolvi partir para essa andarilhança. Depois de um ano e meio numa tentativa de construir comunidade em Morretes, interior do Paraná, em que tentamos aplicar permacultura, autogestão e agroecologia no dia a dia, a experiência me mostrou que ainda havia muito o que descolonizar, muito o que aprender – e que o caminho não era se isolar.

Não se trata apenas de construir a própria casa com recursos locais, ter autonomia energética e plantar de maneira ecológica: trata-se de outras formas de se relacionar, com as pessoas, mas também com todas as forças e seres. De nos organizar enquanto redes, enquanto movimentos, enquanto comunidades. De não renunciar a atuar nessa sociedade, por mais maluca e injusta que ela seja. Pelo contrário. Por isso mesmo. Se queremos um mundo melhor, onde caibam muitos mundos, é preciso criá-lo(s) – e reconhecê-los. Conectá-los.

O contato com a cosmovisão Guarani foi importante para que eu me desse conta disso, e resolvesse que ainda não era hora de fincar raízes, mas de caminhar. Quem me abriu essa porta foi o povo da Tekowa Xiin’gui, a partir dos encontros circulares ao redor do fogo e do contato com os ciclos da natureza em meio às araucárias, aos pés do monte Anhangava.

Cultura Guarani reapropriada e vivida no Uruguay, na Tekowa Ñandu Retã

E assim, mais uma vez, deixei “tudo” pra trás – tudo não, porque o mais importante a gente sempre leva com a gente. Mas abandonei um plano que parecia definitivo, como tantos planos que parecem definitivos e nunca são, assim vai nos ensinando a vida. Já havia me desconectado dos meios ativistas nos quais estive intensamente envolvida durante anos para ir atrás do sonho de comunidade no mato. Terminei um mestrado consciente de que a academia, suas abstrações, seu discurso de poder, suas promessas de estabilidade e carreira, não poderiam me dar o que eu queria ou precisava – e, ouso dizer, o que precisamos, enquanto humanidade à beira de um (ou em pleno) colapso. E segui a intuição para traçar um novo plano, mas dessa vez sabendo que ele era provisório, que era quase uma desculpa para seguir e materializar o que sussurrava essa tal de intuição, e seguir os caminhos do coração.

Circular por onde haja organização, resistência, equilíbrio, conexão, beleza e afeto. Aprender com as mais experientes ao invés de tentar criar soluções do nada, batendo a cabeça na parede. Ouvir, ver e conhecer os saberes. Pensar com os pés na terra, a mão na lavoura. E retomar algo muito caro para mim que eu havia deixado de lado: viver e contar histórias coletivas. Talvez traduzindo em termos mais inteligíveis (ou na verdade menos): retomar essa intersecção prática entre cultura, política e comunicação, a qual me dediquei por tantos anos. Mas agora agregando pitadas “espirituais” e “ecológicas” – e percebendo que na verdade essas divisões em categorias não fazem sentido algum. Tá tudo interconectado, é o que chamamos de vida.

Foi assim que surgiu essa talvez contraditória jornada solitária em busca do comum, o projeto Vida Boa – andarilhança por experiências de Bem Viver. Não tão solitária, porque sempre perpassando coletividades. E desde o início deixei bem claro para mim e para os outros: não é um “projeto”, é a minha vida. Resolvi começar por caminhos já conhecidos, fortalecer e estreitar laços com amigas e amigos, experiências e movimentos pelos quais já tinha admiração e carinho. Não precisava sair correndo, não havia nada do que fugir, podia usufruir das relações à minha volta no sul do Brasil, meu habitat.

E, na dinâmica das trocas, contribuindo com o que pratico já há algum tempo e gosto, que é a comunicação, pude aprender um pouco com iniciativas que já conhecia e que apostam não só na agroecologia e na permacultura, mas reconhecem a importância das relações. Amizade e aprendizado, natureza e coletividade no Sítio Aborígene e na Nova Oikos, experiências que se dedicam a ressignificar seus espaços familiares apostando na conexão com os ciclos da vida e no fazer comum.

Roda de gentes, mudas e sementes no Sítio Aborígene

Participei de encontros de agroecologia, esses momentos catárticos de trocas de saberes e vivências, de fortalecimento de redes e retroalimentação: o ERGA-Sul (Encontro Regional dos Grupos de Agroecologia) em Florianópolis, e a Jornada de Agroecologia, organizada pelo MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) há anos no Paraná. Já tinha contribuído nas edições anteriores da Jornada com processos de comunicação compartilhada e também pude facilitar algo nesse sentido no ERGA-Sul.

Depois da Jornada, aproveitei para ir passar um tempo no Assentamento Contestado, comunidade do MST referência em agroecologia. E voltaria uma segunda vez para conhecer o cotidiano da ELAA – Escola Latino Americana de Agroecologia, e ainda uma terceira vez para contribuir com o processo de construção de uma gestão coletiva de comunicação – ou, como resolvemos denominar, uma comunicação popular agroecológica – na ELAA.

Também aproveitei para fazer aquelas coisas que tinha vontade mas para as quais “nunca tinha tempo”, como é tão comum nessa nossa vida em que nos comprometemos com uma rotina inventada, por mais que ela careça de sentido. Fiz uma viagem de canoa pelo litoral do Paraná, quinze dias remando em grupo por entre belezas naturais, comunidades caiçara e Guarani, e fui até as serras do Rio de Janeiro fazer um Vipassana, famoso retiro de meditação de dez dias organizado mundo afora.

E tudo isso faz parte desse projeto de Vida Boa: conectar com o corpo, com as naturezas, com as culturas, com as sabedorias populares, suas lutas e resistências; conectar com o que há de mais profundo dentro de si, com o silêncio, com o vazio que preenche toda matéria, que acaba conectando com tudo o que há de mais profundo no universo.

Mulheres na Agroflorelaa, agrofloresta da Escola Latino Americana de Agroecologia

E conectar com as feridas e sabedorias ancestrais das mulheres, o que me levou ao Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos. A busca por descolonizar-me e o contato com a natureza externa se deu junto com o contato com minha natureza interna, os ciclos do universo dentro de mim. Não estão separados. Isso, inevitavelmente, me levou às feridas ancestrais, feridas de mulher numa violenta e histórica sociedade patriarcal. E, em pleno Festival, onde menos esperava, levei uma tijolada na testa, que abriu minha cabeça, derramou meu sangue na terra e me fez reconhecer minha vulnerabilidade mas, principalmente, minha força. Somos todas não só sobreviventes, mas criadoras da realidade que queremos.

Segui os caminhos da espiritualidade Guarani no Uruguay e aprofundei os passos na permacultura. A busca e o encontro da Terra Sem Mal dentro e fora de mim, o convívio com mulheres guerreiras e sua guiança. Rumei para a Argentina, nessa terra gaucha artificialmente dividida entre países, e fui retribuir a possibilidade de ter meditado por 10 dias sem pagar nada: servi na cozinha para que outras pessoas também pudessem ter essa experiência de se dedicar apenas ao silêncio, com todas suas necessidades asseguradas.

Assim como aconteceu no Uruguay, fui acolhida por novas e velhas amigas em Buenos Aires. Conheci algumas experiências de educação popular e autogestão, e fui com os estudantes de agronomia para o norte argentino – por ironia, quase de volta ao Brasil. São as chamadas pasantías, organizadas semestralmente para que estudantes possam conhecer a realidade campesina no país. Fomos recebidos pela COTRUM – Coordenação dos Trabalhadores Rurais de Misiones, e me coube ir justo a uma comunidade Guarani, a Tekoa Arandu. Convivência coletiva com os estudantes e contato com essa comunidade, sua gente, sua ancestralidade que se reinventa, suas palavras, suas matas e suas lutas. Descobrir o outro em nós.

De lá fui para Córdoba, descansar numa cabana em Agua de Oro e organizar internamente o acúmulo de experiências vividas, e logo seguir para Traslasierra, onde conheci iniciativas rurais de autogestão e também belezas, ecologias e espiritualidades. Minha jornada por terras argentinas terminaria na Unicam Suri, uma universidade que está sendo bioconstruída coletivamente pelo MOCASE-VC (Movimento Campesino de Santiago del Estero – Via Campesina). Vida comunitária, justiça social, organização, agroecologia e muita generosidade.

Bioconstrução coletiva da universidade no MOCASE-VC

E então voltei pro Brasil, passando por Erechim para visitar um velho novo amigo que puxou uma roda de conversa a partir dessas minhas andanças na UFFS – Universidade Federal da Fronteira Sul. Sentamos ao redor do fogo, tomamos mate, passamos o bastão da palavra e compartilhamos experiências, desafios e sonhos baixos às estrelas numa pequena ilha, em meio ao lago que fica em frente aos prédios tão quadrados da universidade.

Hora de voltar, de cultivar os laços afetivos, de sangue, de amizade, rever a família e as parcerias. De retomar um pouco os fios da caminhada científica facilitando o módulo de Ativismo Político em Rede da pós-graduação de Comunicação e Sociedade, um respiro de inovação e humanidade em meio à tecnocrática e conservadora UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná. De viver os sombrios tempos de golpe.

Quatro meses em Curitiba, onde vivi mais de dez anos da minha vida, ambiente de minha trajetória acadêmica, intelectual, profissional, afetiva, ativista, onde cultivei grandes laços, até que fui para Morretes reconhecer minha natureza. Tive a confirmação (como se ainda precisasse) de que esse modelo de cidade, em que grande parte da humanidade vive, é insustentável. Ambientalmente insustentável. Socialmente insustentável. Psicologicamente insustentável. Constatação que motiva a seguir as andanças de bem viver. Um outro mundo é necessário. Outros modelos de sociedade. E muitas experiências mostram que são possíveis.

Vivência na Tekoa Arandu, comunidade Mbya Guarani no norte argentino

Participei e contribuí na comunicação do SINGA (Simpósio Internacional de Geografia Agrária), onde várias lutas sociais, povos e comunidades de Abya Yala se encontraram. Aproveitei para estudar e organizar leituras e teorias junto ao mar no sul de Santa Catarina, graças à hospitalidade de amigas, e re-conhecer as agroflorestas e as amizades em Morretes – bem como reviver as subidas e descidas e os laços de família em Blumenau, minha terra natal. E, nesse tempo todo, fui traçando meus novos planos de viagem.

Meu único objetivo geográfico era o México. E ainda mais precisamente: sudeste, Chiapas, terras autônomas rebeldes zapatistas. Essa combinação de autonomia e culturas indígenas, essa maneira tão bonita de representar sua luta e sua vida em palavras e imagens, essa mistura de resistência e poesia, e de organizar toda uma rede de apoio ao seu redor, eu precisava conhecer. Mas algo apareceu no meio do caminho: a possibilidade de fazer uma cátedra livre de Sociologia da Imagem com Silvia Rivera Cusicanqui na Bolivia, nas alturas andinas, tierra hermosa de mi corazón. Descolonizar a mirada, descolonizar o conhecimento. Foi assim que comprei passagens de Curitiba a La Paz e de La Paz para México. Só de ida.

Passei um mês em Coati, Ilha da Lua, desfrutando da beleza do Titicaca e da cultura comunitária, e aproveitei a tranquilidade para fazer um balanço dessa trajetória de Vida Boa. Logo fui para La Paz, onde além de compartilhar da experiência e da sabedoria de Silvia e dx Colectivx Ch’ixi, pude conhecer pessoas lindas de várias movidas coletivas de Abya Yala. Entre elas, Lilia, que me recebeu em cidade do México.

Vivi meus primeiros terremotos e conheci um pouco de iniciativas de autogestão – urbana, com a Casa de Ondas e sua padaria coletiva, e rural, com o movimento campesino da região. Tive mais uma experiência de serviço num Centro de Vipassana  nos arredores da capital mexicana, em meio ao bosque, dessa vez na calmaria de um período entre cursos, onde conheci mais gente linda e pude aquietar um pouco o alvoroçar da mente.

Tudo isso enquanto não chegava o grande momento de vir para o sul do México, que já tinha dia e hora marcada: Encuentro Internacional de Mujeres que Luchan no Caracol de Morelia, a oportunidade perfeita de chegar junto ao movimento zapatista. E mal sabia eu que seria muito mais: a oportunidade perfeita de chegar junto de mim, da minha capacidade de ser, viver e lutar, de mulheres incríveis, de toda uma maneira de se organizar; de uma história, de um tempo e um espaço que se atualizam constantemente, em comum.

Mujeres zapatistas que luchan e jogam futebol

Um terremoto que mexeu com todas nós – e, depois do Encontro, segui em San Cristobal de Las Casas cuidando delas, sendo cuidada por elas, compartilhando, vivendo, aprendendo, nos fortalecendo. Cada uma enfrentando seus processos, todas juntas enfrentando a luta contra esse ‘pinche’ sistema capitalista e patriarcal, encarando o desafio de (re)criar formas de bem viver, cada uma à sua maneira, mas entre todas, entre todos, entre tudo. Entre nós.

Sigo aqui, já faz mais de mês, aprendendo com o Cideci – Universidad de la Tierra, com as redes de apoio ao movimento zapatista, com as mulheres que lutam, com as iniciativas autogestionárias. Agora acontece o semillero ou conversatório (ou como quer que se diga) “Proibido pensar?”. O objetivo é avaliar coletivamente a tentativa de candidatura do Conselho Indígena de Governo, por meio de sua porta voz Marichuy, que foi impedida pelo Instituto Nacional Eleitoral – tudo isso permeado pelas reverberações do Encuentro de Mujeres que Luchan e a experiência zapatista.

Sigo aqui, aprendendo. Entre fios que se encontram e se tramam, entre nós. Seguem as andarilhanças de Bem Viver. Segue o sonho vivido de uma Vida Boa. Onde vai dar, eu não sei. Nunca sabemos. Assim é a vida, não é?

 

 

Michele Torinelli, San Cristobal de las Casas, abril de 2018.

Vida Boa – http://vidaboa.redelivre.org.br/

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