Mal aire

 

“Bruuruurmm!”, roncaram as pedras no temazcal. Éramos três mulheres nuas, numa espécie de sauna intensiva improvisada no quintal de uma casinha nas afueras de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, no sudeste mexicano. Três mulheres suando como fazem tantas pessoas há séculos e séculos por estas terras, uma prática que tem ganhado o mundo, envolta em rituais e mistérios. Aqui é hábito familiar, que se passa de geração em geração, para curar mas também para relaxar e estar bem. Dizem que os antigos usavam inclusive como banho, nos lugares em que água era escassa: voltava-se da roça, ao fim do dia, e a família toda entrava no temazcal. É tanto vapor e suor que limpa. De dentro pra fora.

“Nossa, me assustei, nunca vi a pedra explodir assim”, disse Antonia, a anfitriã, enquanto estávamos as três lá dentro, logo depois que jogou a primeira dose de água nas pedras incandescentes. Fez um estrondo. “Ela tá com mal aire“, disse Martha, minha nova amiga que me levou até lá, se referindo a mim. Mal aire. Mau ar. Ar ruim. [Sim, e procurando rapidamente nos entremundos digitais, parece que o termo ‘malária’ vem de ‘mal aire’ – mas, não, não estou com malária.]

Desde o começo elas estavam muito preocupadas comigo, que eu me queimasse, que eu desmaiasse. Era a primeira vez que eu ia lá, e apesar de eu ter dito que já tinha participado de outros, elas diziam que esse temazcal era diferente. Tão preocupadas que até me preocuparam um pouco também, ainda mais que realmente a estrutura era bem diferente da que eu conhecia. Não era circular, sobre a terra. Mais parecia um grande forno, elevado, retangular, abrigando no máximo três pessoas deitadas uma ao lado da outra, com tábuas de madeira como piso, forrado com papelão por fora. A porta, um cobertor grosso.

Durante o suadouro, elas me perguntavam como eu me sentia, me apalpavam para ver como tava minha pele. “Estoy bien, estoy bien”, eu dizia. E estava. “Que bom que você vai, com certeza é uma experiência bem diferente dessas que vendem pra turista”, comentou Monse, a amiga que me colocou em contato com a Martha, enquanto eu a esperava no centro de San Cristóbal para irmos juntas à casa da família de seu cunhado, onde já estava seu marido. E, no fim das contas, achei a experiência relativamente suave. E breve.

Martha é do sul do estado, quase na fronteira com a Guatemala, e sua mãe é parteira. Ela me contou que, na sua tradição, as mulheres muitas vezes têm seus filhos sozinhas, sem ajuda de ninguém, durante o temazcal. Um grande útero.

Nessa busca por conhecer as sabedorias locais e curas integrais, que não apenas atacam o sintoma com medicamentos que remediam a parte mas danam o todo (sem falar nos tenebrosos labirintos da indústria farmacêutica), já tinha ido atrás de temazcal. Uma amiga que conheci num centro de meditação nos arredores da capital do México me repassou informações sobre um curso que ensina a guiar rituais de temazcal, aqui em San Cristóbal. Achei  meio caro, três dias super intensos, e costumo desconfiar do formato (e do sentido) desse tipo de curso. Mas, dadas as circunstâncias, e já que eu queria me curar de uma dor nas costas que vem me perseguindo, achei que valia ir na conversa introdutória, gratuita, para “ver que onda” e se, pelo menos, eu conseguia informação sobre algum temazcal do qual pudesse participar.

Chegando no local, uma linda casa em que se trabalha com ginecologia natural e apoio a gestantes (e que fica ao lado de onde eu estava hospedada, assim que não me custava muito ir), um rapaz jovem vestido todo de vermelho me recebeu. Fui a primeira a chegar, e ele me levou ao quintal e foi me contando da proposta, até que chegaram três mulheres: uma mais experiente, que talvez “poderia ser minha mãe”, uma mais ou menos da minha idade, ao redor dos 30, e uma menininha linda de uns 5 anos. Três gerações. A mais velha tinha uma forte presença, o que me chamou a atenção desde que a vi.

O rapaz, que vinha de outra região do México e tem uma vida viajante, contou da sua proposta, e passou a justificar porque seria interessante para uma “curandeira” local fazer o curso – para ter certificação, o que respalda as práticas tradicionais em caso de possíveis complicações frente ao Estado, e para que os rituais sejam feitos de maneira “higiênica” (ele usou várias vezes essa palavra, o que me lembrou da Silvia Rivera Cusicanqui, que contava como na Bolivia a ideologia moderna em torno da “higiene” serviu e serve ao patriarcado, pois cabe à mulher manter tudo “limpo” sempre, e ao capitalismo, por meio da comercialização de produtos de limpeza e eletrodomésticos, além de reforçar o preconceito em relação aos muitos povos que ali já viviam e incentivar sua “modernização”).

A mulher “de forte presença” ouviu tudo, calada, mas percebi que em muitos momentos desviava o olhar, não olhava para ele enquanto falava. Quando o moço terminou sua longa apresentação ela finalmente disse: “olha, eu não concordo com nada do que você falou até agora”. Argumentou que não é o governo quem deve certificar, e nem um curso de três dias que vai habilitar alguém: trata-se de uma longa jornada de aprendizado e de um dom, um chamado, e somente a comunidade pode certificar quem está apto a atuar com as medicinas tradicionais. Explicou que há toda uma disputa das comunidades para ter suas maneiras de viver e de se auto-governar respeitadas, sem submeter-se ao aval oficial, aos modos e tempos externos, que historicamente se impõem desde cima sobre a diversidade de povos. E, pra finalizar, que não gosta de ser chamada de curandeira, pois ela não cura ninguém, quem cura é o Grande Espírito, el Gran Ajaw.

Como demonstrei interesse, no final ela me entregou um panfleto e avisou que no domingo seguinte realizaria um temazcalli (ela chama assim, o rapaz do curso também, é o termo original no idioma náuhatl, temaz = suor e calli = casa). Fui. Ela já havia falado que recebia muitos extrangeiros, e de fato me pareceu uma cerimônia “para gringo”, se bem que estávamos eu, uma japonesa e duas mexicanas, uma da capital e outra aqui da região, além dela e das duas outras “gerações” que estiveram presentes na conversa introdutória ao curso (que suponho não ter sido realizado). Foi interessante e purificador, além de ter sido meu primeiro temazcal apenas com mulheres. Mas ainda senti que gostaria de conhecer outras maneiras. Por isso pedi à Martha que me levasse junto da próxima vez que fosse.

Já esse temazcal com Martha realmente foi bem diferente de todos os que eu já tinha ido. E, novamente, apenas entre mulheres (depois de nós, foi a vez dos homens da família – o companheiro de Martha, seu cunhado e seu sobrinho adolescente).

Ao final da sessão, nos vestindo, tentei investigar o que é esse tal de mal aire. “Quando alguém faz uma limpeza com plantas, como fizemos com você, as plantas que esfregamos nas suas costas, aí depois se jogam fora”, explicou Martha. “Você deve ter pisado em plantas assim”, disse ela. Elas esfregaram arruda e outras plantas que Martha encontrou no caminho e disse que eram boas pra isso. “Hmmm, entendi. Que coisa. Mas não pode ter outro motivo?”, perguntei. “Olha, na nossa cultura aprendemos que é isso”, disse ela. A tal da urucubaca, pensei. E tentei lembrar quando poderia ter pisado nessas plantas carregadas. No Encuentro de Mujeres? Lembro de talvez ter levantado alguma planta do chão dos arredores de onde aconteciam os rituais. Será?

“É preciso cuidar para não pisar nelas”, disse Martha. É preciso estar atenta ao caminhar, complementei eu.

Faz um tempo que estou com uma dor nas costas, na lombar. Numa tentativa de traduzir como me sinto, tenho dito que parece uma inflamação, ou um “cansaço” nas costas. Posso fazer tudo o que necessito, cozinhar, caminhar, tomar banho, até mesmo yoga, mas logo me canso, sinto esse cansaço nas costas, e preciso me deitar um pouco, senão a dor vai ficando mais forte. Um deficit de energia vital, até poderia dizer.

Tudo começou quando eu voltei do Encontro de Mulheres, em meados de março. Já na ida fiquei andando pra lá e pra cá com toda minha bagagem, e não é pouca. Um mochilão de uns 20 e poucos quilos, mais uma mochila de frente pesada (com computador, câmera, livros) e uma barraca na mão. Na volta, além de todo o rolê pra sair do Encontro, chegando em San Cristóbal andei longos trechos com toda essa tralha, ao invés de pegar um taxi.

Senti cansaço, mas depois do intenso Encontro era mais do que normal. Descansei e fui me adaptando à cidade. A coisa só ficaria feia uns dois dias mais tarde. Indo comprar pão de manhã, ao descer de uma calçada super alta, pulando de lado (caminhar pelas calçadas de San Cris é praticamente um leparcu, sei lá como se escreve, lembram dessa expressão em francês pra uma espécie de montanhismo/escalada urbana? pois), tlec, me deu uma fisgada forte na lombar. Logo depois fui acampar com duas amigas. Essa noite dormimos as três super apertadas numa barraca. Cheguei a chorar ou quase chorar de dor enquanto tentava dormir. E fiquei preocupada.

[Agora que percebo que éramos três mulheres na barraca. Nessa noite e na manhã seguinte ritualizamos ao redor do fogo. Foi bastante forte para todas nós. E, nesse último temazcal, novamente três mulheres.]

No próximo dia, na hora de ir embora, insisti para voltarmos de taxi (ou teríamos que andar uns bons quilômetros até o lugar onde passa transporte coletivo, e o taxi nem era tão caro). Assim foi. E tive consciência de que precisava descansar e me cuidar. Passei quatro noites dormindo na sala de um apartamento de um casal de amigos até encontrar um quartinho agradável e monetariamente acessível onde pudesse descansar por mais tempo.

Fiquei vários dias bem na minha, me cuidando, escrevendo, editando imagens e palavras, digerindo. Interagindo quase só com essas mulheres incríveis que conheci no Encontro e pós Encontro. Todas passando por processos intensos, e parece que esse encontro intensificou tudo. Cuidamos umas das outras, digerimos esse processo em comum. Fiquei quarenta dias nessa casa – e, agora que vejo, quarentena. Participei dos 10 dias de conversatório convocado pelxs zapatistas no CIDECI-Universidad de la Tierra. Atuei com a equipe de apoio, além de fazer meus registros fotográficos de sempre e estar atenta aos debates – tudo tão novo, tanta coisa por conhecer. Nos últimos dias, senti uma dorzinha. Mas não dei muita bola. Passou.

Até que resolvi ir acampar, novamente, dessa vez sozinha. Precisava de natureza e tranquilidade. Passei quatro dias numa cachoeira linda em Chiapa de Corzo, perto de San Cristóbal, descendo a serra, calorzinho. Chegando lá, senti que definitivamente minhas costas não estavam curadas.

Na verdade, fui pra esse lugar pra menstruar. Eu sei que nós mulheres não deveríamos falar de menstruação, mas ops, grande parte de nós menstruamos, ciclicamente, aproximadamente entre períodos que no calendário gregoriano se designam por “mês”. E já aprendi, ou pelo menos estou aprendendo, a me respeitar, sendo que esse momento é fisicamente e psiquicamente e emocionalmente intenso – e que estes aspectos, afinal, não estão separados.

Pra minha surpresa, cheguei nesse lugar, que se chama Chorreadero, e me deparei com um grande paredão de pedra com uma gruta no meio, alta; dela, sai um riozinho que se derrama em cascata. Parecia uma grande vagina menstruando. Na frente da gruta, ao entardecer, pequenos pássaros negros, que eu pensei serem morcegos no primeiro dia, dançam em enxame, cantando, voando circularmente de maneira incessante. Muitos. Um espetáculo super forte – até porque, nesse horário, o povo que vem pra passar o dia já foi embora e o espaço fica vazio. E todos os dias os pássaros faziam isso no mesmo horário, e todos os dias observei de distintas perspectivas. A última foi desde abaixo, à beira do lago que as águas formam aos pés da gruta, e eles rodopiavam sobre minha cabeça e davam rasantes sobre mim. A natureza no México é bem louca. O México é bem louco. Fuerte.

Bom, e quem menstrua e se liga um pouco nisso sabe que os dias imediatamente anteriores são meio (in)tensos, nossas insatisfações e incômodos vêm a tona, rola meio que uma avaliação dos rumos que as coisas estão tomando na vida – além de que dá pra sentir, fisicamente, que “algo” está acontecendo no útero. Troca de pele. E a dor nas costas me ressurgiu justo nesse momento…

Me fez refletir que eu preciso respeitar o meu ritmo. Que eu não posso carregar todo peso do mundo, não só fisicamente mas simbolicamente falando. Que, apesar de meu modo de vida e meu ritmo já serem bem diferentes do padrão nessa sociedade maluca hegemônica atual, eu ainda me forço pra me encaixar em certos padrões, ou me culpo por não me encaixar neles, às vezes até padrões contra-hegemônicos.

Mas ah, isso do tempo está tão arraigado… Charlie Chaplin rodopiando nas engrenagens do sistema em “Tempos modernos”. Tenho um pouco do ritmo eremita, mas nem nesse ritmo eu acho que me encaixo porque me parece demasiado regrado, impositivo (aos menos os ermitérios coletivos que vivenciei foram assim…), e os ciclos da vida não, observemos a natureza! Apesar de ter horário pra algumas coisas – no fim da tarde, os pássaros se juntam, dançam e cantam – bem que arreparei que num dia em que houve trovões e ameaçou chover feio, eles vieram se aproximando em sua dança de enxame mais cedo. No final das contas, mal choveu. Só caíram umas gotinhas. E eles voltaram pros seus costumes diários e fizeram seu ritual no horário padrão. Mas vareia.

O sol nasce todos os dias, mas cada dia é num horário levemente diferente, que responde a um ciclo maior. E tem dias que chove. Tem dias que faz frio. Tem noites que a lua tá cheia. Tem noite que não tem lua. E a dança da vida transita por distintos ritmos, que parecem responder a uma sinfonia muito maior. Sábia natureza.

E um dos grandes e profundos entraves dessa humanidade à beira do abismo me parece justo ter se considerado como algo externo à natureza, e ter se separado de seu ritmo. Eu não acredito nessa separação. E não é algo só mental. Meu corpo tem me mostrado isso, cada vez mais. Me (re)descobrir nos ritmos da natureza me levou a descobrir meu ritmo enquanto mulher e cada vez ter mais noção (e sensação) do mal que essa imposição produtivista e artificialmente metrificada do tempo faz.

Até mesmo nas lutas emancipatórias de esquerda se impõe um ritmo produtivista que a mim não faz muito sentido. Uma rigidez que me parece parte desse modo de vida que em tese se reconhece que é opressor. Os zapatistas, e as zapatistas, parecem ter consciência disso, ao menos em parte – “cada qual a seu tempo e a seu modo”, sempre repetem. Mas o que vi de sua organização me pareceu de uma disciplina rigorosa. Militar, afinal.

A mim não me cabe. A mim esse ritmo quadrado oprime. E, nesse exercício de auto-análise, até acho que “faço coisas”. Várias coisas. Mas no meu ritmo próprio… E a ênfase dada ao fazer me parece um tanto quanto perigosa nesses tempos modernos, de super produção (e consumo) sem sentido e suicida.

Isso do tempo sempre foi um tema em minha vida, desde criança. Se por um lado sempre socializei, por outro sempre desfrutei de longos períodos sozinha – brincando com os botões da vó, uma caixa de botões que sobravam das roupas velhas, de vários formatos e cores, com os quais eu montava desenhos no chão por horas e horas… Depois passei a desenhar, pintando coloridos degradês de nasceres e pores de sol, e ouvir música, e cantar, e ler, e escrever… Sozinha, por horas e horas. Isso quando não ficava simplesmente vendo as cores do céu ou a chuva cair. Vendo o escuro e suas cores antes de dormir.

Apesar dessa necessária solidão, que me nutre, sempre participei de atividades coletivas, várias. E assim segue sendo. Também me sinto nutrida com os grandes encontros, com as pequenas atividades comuns. Por isso o ermitério-clausura não me cabe. Preciso de movimento. E tanto tenho andarilhado, afinal. Mas qual o espaço da solidão no meio disso tudo? Da solitude? Essa é uma das reflexões que vêm me acompanhando, dos tateios rumo a uma solitude comunitária

Outra ideia com a qual venho brincando é a de pensar “que bicho você é?”. Que bicho eu sou? Um urso. Uma serpente. Um vagalume. Hiberno, sou forte e pesada mas posso ser ágil, pareço fofa mas posso dar umas patadas, y me gusta la soledad en la cueva. Troco de pele. Trago no corpo a sabedoria – e as dores – das ancestrais. Mergulho nas profundezas. Veneno, fere e cura. Avoo. Acendo e apago na escuridão, bicho que leva sua pequena luz em meio à noite. Que oscila. Pequeno fogo ambulante. Que vez ou outra faz lindas coreografias mágicas com outros pequenos foguinhos que dançam. E como todo fogo, exige muito cuidado. Auto-cuidado. O fogo ilumina e aquece, mas precisa ser constantemente alimentado.

Mas é bom cuidar pra não se distrair. Caminhar com atenção. Presente a cada passo. E cada vez tenho me distraído menos. Essa dor nas costas parece que vem me falar de uma entrega ao que eu já sei, sem melindres, e de auto-respeito, e de auto-cuidado. Atenção! Já não é possível desviar para caminhos sem sentido. Sem inteireza. Sem coração. E o Encontro de Mulheres também foi uma paulada nesse sentido, para muitas de nós.

Além da questão do tempo, tem a questão dos formatos. E um dos formatos que tenho compreendido e desconstruído e reconstruído e trabalhado em mim, e na minha maneira de ver o mundo, é o “formato-mulher”. E isso tem a ver com a menstruação. Com os ritmos e ciclos. Com as imposições. Com as opressões. Com a ancestralidade. Com as relações. E com as emoções.

Eu procurei a Martha em busca de massagem terapêutica. Ela me apertou, daquelas massagens de torcer os dedinhos do pé pra não gritar. Engraçado que o ponto que mais doeu não foi a lombar, onde tenho sentido as dores, mas dois pontos no meio dos glúteos, na altura do coccix, esse grande centro nervoso. “Emoções reprimidas”, disse ela. Me indicou tomar chá de arruda. “Fortalece a vontade”.

A serpente enroscada, kundalini, essa serpente que venho trabalhando, mas que esteve enrolada por um bom tempo enquanto eu a hidrato e carrego de um lado por outro. Sim, eu carrego uma pele de serpente – jararacuçu, pra ser mais precisa.

Agora ela já está pronta. Para se transformar no que eu criar.

Que a parte emocional é a mais complicada da minha vida, eu já sei faz tempo. Mas não será a grande dificuldade da humanidade?, penso eu. Lendo Dostoievski, fico segura de que sim. Lembro de me indagar “como é possível que as pessoas se deixem destroçar por suas paixões tanto assim? Como podem os sentimentos levarem às grandes desgraças da humanidade?” lendo suas obras. Que humanidade infantil, no pior sentido do termo! Mas, olhando as vidas humanas de perto, assim é. Por isso as coisas são tão complicadas.

Nesse aspecto, apesar de muito já ter me desenredado, continuo tendo uns emaranhados. A criança ferida que vem a tona. A mulher ancestralmente submetida e suas mágoas. Martha olhou meu “signo” no calendário maia daqui, parece que tem várias versões, e me disse que nessa eu sou “rede” (nunca tinha ouvido falar). E que o aspecto negativo é que justamente se enreda sozinha… Perguntou se eu fazia filtro dos sonhos, e disse que mesmo que eu não faça materialmente, é bom eu ter essa imagem em mente, comigo.

Entrei nessa de fazer filtros dos sonhos, como amuletos, para mim e para presentear quem me rodeia, enquanto estava na mata. Agora os filtros têm sido outros. Palavras e imagens e ideias e vidas e histórias e intuições tecidas.

Lembro de, após um Vipassana, ter conversado com uma mulher sobre um livro que se chama “a doença como caminho para a cura”, ou algo assim. Essas dores nas costas me levaram a parar e refletir sobre tudo isso – do ritmo das lutas sociais à minha menstruação e minha dança pelo mundo. E cuidar de mim. E conhecer a Martha. E ir atrás desses saberes que tanto me interessam. E viver essas práticas, essas sabedorias palpáveis, com as pessoas que dão continuidade e sentido a elas no mundo.

O temazcal foi ontem. Meus anfitriões e minhas guias me disseram que eu dormiria bastante, e assim foi. Hoje pude desfrutar e cuidar de mim. Já me sinto melhor, das costas e de uma maneira geral. Mais disposta. Ainda me falta ir, no mínimo, mais duas vezes ao temazcal. Assim me recomendaram. E assim tiro esse tempo para cuidar de mim e ir processando essas percepções que vão se abrindo. Sem distração, mas sem noia. Com auto-cuidado.

Hoje de dia eu vi uma lagarta,
uma lagarta enorme,
a maior lagarta que eu já vi.
Criará asas?

Essa noite eu vi um vagalume.
Depois de não sei quanto tempo.
Em meio ao escuro da noite, vi um vagalume.
Luciérnaga. Bichito de luz.

A serpente está estendida.

Que venham os bons ares.

Xô, urucubaca.

E cada vez mais encontro arrudas por aí.

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