Autonomia em caracol: experiências de trabalho voluntário em comunidade zapatista

Relato da minha dupla experiência de trabalho voluntário no caracol de Roberto Barrios

Companheira de cuadrilla recebendo informações

Dicen aquí que los más antiguos dicen que otros más anteriores dijeron que los más primeros de estas tierras tenían aprecio por la figura del caracol. Dicen que dicen que decían que el caracol representa el entrarse al corazón, que así le decían los más primeros al conocimiento. Y dicen que dicen que decían que el caracol también representa el salir del corazón para andar el mundo, que así llamaron los primeros a la vida. Y no sólo, dicen que dicen que decían que con el caracol se llamaba al colectivo para que la palabra fuera de uno a otro y naciera el acuerdo. Y también dicen que dicen que decían que el caracol era ayuda para que el oído escuchara incluso la palabra más lejana. Eso dicen que dicen que decían. Yo no sé. Yo camino contigo de la mano y te muestro lo que ve mi oído y escucha mi mirada. Y veo y escucho un caracol, el “pu’y”, como le dicen en lengua acá.

(Trecho de La treceava estela, que conta do surgimento dos caracóis zapatistas.)

 

Cheguei no México para o 1o Encontro Internacional Político, Artístico, Esportivo e Cultural de Mulheres que Lutam e fiquei. Meu objetivo era conhecer mais das comunidades zapatistas. Por isso, a cidade eleita foi San Cristobal de las Casas, município do estado de Chiapas para onde convergem as lutas ao redor do zapatismo.

Entre as possibilidades de aproximação estavam as brigadas de observação de direitos humanos organizadas pelo FRAYBA (Centro de Derechos Humanos Fray Bartolomé de las Casas). Por meio delas, pessoas de diversos países passam 15 dias em alguma comunidade da região que solicite esse apoio, que consiste em estar presente e fazer relatórios caso ocorra alguma agressão. As comunidades atendidas normalmente estão em conflito e sob ameaça, principalmente de paramilitares, e não são necessariamente zapatistas.

Cheguei a ir na oficina de apresentação e preparação para a brigada e conversei com gente que já tinha participado. Além de que era necessária uma carta com aval de alguma das organizações parceiras do FRAYBA (quase todas europeias, com exceção de duas argentinas, uma estadunidense e uma em San Cristobal, na época a Casa Gandhi), pessoas que já tinham ido me disseram que o negócio costuma ser meio parado, que os brigadistas ficam bastante isolados e que seria bom levar uns livros pra passar o tempo.

Confesso que tinha uma ideia mais interativa, por isso fiquei atenta a outras oportunidades. Além do mais, para conseguir o aval, precisaria ficar de voluntária na Casa Gandhi (que apoia o movimento zapatista e, entre outras coisas, atua com agroecologia), o que me pareceu uma boa ideia, a não ser o fato de que estou passando por um processo de saúde que me impede de fazer trabalho pesado, e não houve essa abertura.

Algum tempo depois, vi a divulgação da Cuadrilla de Trabajo Voluntario en el Caracol Zapatista de Roberto Barrios. Entrei em contato, a organização solicitava contribuição financeira para os gastos de transporte, alimentação e ferramentas que são usadas no trabalho e doadas à comunidade. Perguntei que tipo de trabalho seria, dada a minha limitação, e me responderam que não sabiam exatamente, que dependeria da demanda dxs compas, mas que sempre há trabalho para todes e que eu não precisava me preocupar, que poderia contribuir com o que estivesse ao meu alcance. Senti firmeza e resolvi ir.

 

Primeira brigada, junho-julho de 2018

 

Grande parte dos integrantes da cuadrilla, ou brigada, saiu da Cidade do México, de onde é o coletivo organizador Huellas de Luchas Libertárias. Eu e outra amiga que estávamos em San Cris encontramos o pessoal em Palenque, município oficial onde está localizado o caracol de Roberto Barrios. Ficamos esperando o caminhão dos compas zapatistas que viriam nos buscar. Sol de rachar.

Chegaram, e fomos em pé na parte de trás, junto com mochilas, alimentos e ferramentas. Cerca de 30 pessoas. Pau de arara. Uns quarenta minutos do centro de Palenque até o Caracol que Habla para Todos, floresta adentro.

Os organizadores intermediaram nossa comunicação com a Junta de Bom Governo Nueva Semilla que va a Producir, até por uma questão logística, pois não caberíamos todes na salinha. A verdade é que xs compas zapatistas não tinham bem claro como poderíamos contribuir, então nosso primeiro trabalho, que se estendeu por alguns dias, foi roçar a grama da área da Junta de Bom Governo no facão. Dor nas costas, bolha nas mãos e suadouro no calor do verão às margens da selva Lacandona.

Além do trabalho voluntário, existia uma outra rotina, a de autogestão, cuja principal demanda era preparar nossa comida. Os compas nos davam a lenha e liberaram uma das cozinhas coletivas pra gente. Nós criamos um esquema de rodízio, em que todes participavam, e a organização já tinha o cardápio e os ingredientes. Também éramos responsáveis pela limpeza dos espaços comuns que utilizávamos – além da cozinha, o dormitório (uma sala de aula) e os banheiros. A ideia é interferir, e incomodar, o mínimo possível, por isso barracas não são permitidas. Também está proibido o uso de álcool e de substâncias ilegais.

É terminantemente proibido tirar fotos, sendo que o movimento zapatista conta com um exército clandestino, ou seja, não reconhece e não é reconhecido pelo Estado. Não à toa usam pasamontañas em público, seus gorros pretos que só deixam os olhinhos pra fora, mas evidentemente, não no seu cotidiano. Por isso o único momento para tirar fotos é um tour coletivo pela Junta no último dia, com o cuidado de não fotografar xs compas zapatistas.

A Junta de Bom Governo é, simultaneamente, um espaço físico e uma estrutura política. Explico: existem basicamente 3 níveis de organização política entre xs zapatistas, as comunidades, os MAREZ – Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas (que congregam comunidades), e os caracóis (que reúnem alguns MAREZ). São cinco caracóis, todos no estado de Chiapas, um deles é o de Roberto Barrios, em Palenque.

Cada caracol conta com uma Junta de Bom Governo, formado por representantes dos MAREZ que, por sua vez, são formados por representantes das comunidades. Esses cargos não são remunerados, são rotativos e em teoria podem durar 3 anos, mas na prática os representantes podem ser destituídos em qualquer momento, se assim demandarem as assembleias comunitárias. Também existem comissões temáticas como de saúde e educação.

 

Cada Junta de Bom Governo conta com uma sede, um espaço construído coletivamente com estrutura de alojamento, reunião, formação, lazer etc. Em Roberto Barrios, havia a pequena sala de reunião da Junta, algumas “salas de aula”, que são usadas para diversos fins, outros espaços coletivos (como dos “tercios compas”, o coletivo de comunicação zapatista), cozinhas, banheiros, salão, quadra desportiva, espaço verde e casas. Muita gente das comunidades e colaboradores passam por ali, por tempos que variam de dias a meses, seja para contribuir politicamente na Junta, ou participar de algum espaço de formação, reunião ou trabalho.

Uma compa foi designada para nos acompanhar: Romilda, junto de sua filha Cristina, de 7 anos. Esse foi nosso contato mais próximo entre xs zapatistas, com quem pudemos compartilhar trabalhos, conversas amenas e comidas. Cristina, crescida em meio ao movimento, era super sociável e ganhou nossos corações – além de práticas de acroyoga, tranças, cantorias e pseudo jogos de basquete entre mujeres que somos.

Aliás, os compas adoram jogar basquete. Os meninos levaram bastante a sério e tive que passar óleo de melaleuca em pés e mãos de muitxs brigadistas, tanto pelas animadas partidas quanto pelo trabalho na roça.


Entre as trocas com a Romilda, falei que morria de saudade de mandioca (ou yuca), e ela disse que tinha um pé no terreno atrás da cozinha, já tomado por mato. Ela sugeriu roçarmos a área e fazermos uma milpa, o famoso consórcio ancestral usualmente de milho, abóbora e feijão. Ganhamos um novo e agradável trabalho e trocamos conhecimentos sobre plantas. Sara, a companheira mexicana que mora em Barcelona e é a protetora dos bichinhos, me apresentou a “hoja santa”, usada principalmente pra temperar feijão. Romilda me mostrou a malanga, uma outra raiz similar à mandioca e ao inhame.

Encontramos a mandioca e fui arrancá-la da terra com Romilda. Nesse meio tempo tivemos uma bonita conversa sobre como é ser mulher no mundo, intercambiando trajetórias. Ela me contou também que haviam recém decidido que o próximo Encuentro de Mujeres que Luchan seria ali em Roberto Barrios, o que já entrou na minha agenda e me deixou cheia de alegria. Mas, ao final das contas, foi cancelado.

Outro trabalho que descolaram para nós foi de pintar umas casinhas de madeira por fora. Mas é claro que, mais que a pequena contribuição que podemos dar, quem mais aprende somos nós que chegamos. De estar nesse espaço organizativo, poder conviver informalmente com alguns compas e entender um pouco do que passam no seu cotidiano.

Estivemos ali bem no período eleitoral, e estávamos no caracol no dia de votação para presidente. Por isso, mais do que nunca, era proibido que saíssemos do espaço da Junta, somente com exceções acompanhadas pelos compas, que consistiram em ir tomar banho de rio duas vezes. Aquele calorão e a gente sem poder sair, ouvindo o barulho do rio a poucos metros… Dava uma dó. Mas o perigo é real – existem vários grupos não zapatistas e até mesmo priistas na região (adeptos ao PRI, Partido Revolucionário Institucional que hegemoniza a política mexicana desde os tempos da Revolução, nos idos do começo do século XX). A possibilidade de agressões é uma ameaça constante, e, em período eleitoral, se intensificam.

Além das eleições, também era época de Copa do Mundo. E chegamos a um breve perfil dos participantes da Cuadrilla: nem aí para eleições e nem para os megaeventos esportivos. Não, não tínhamos acesso a TV e nem sinal de celular. E assim entramos num outro ritmo, e numa outra qualidade de relação interpessoal. É uma família que se forma, uma comunidade temporária – zona autônoma temporária (essa vai pra você, leitorx de Hakim Bey) dentro de uma zona autônoma nem tão temporária. Já são 25 anos desde o histórico levantamento armado de 1994.

 

Segunda brigada, dezembro-janeiro de 2018-2019


Já na segunda cuadrilla, temos um outro perfil de participantes: fora do mainstream do fora do mainstream. Novamente, explico: a brigada aconteceu em pleno ano novo. Saímos da Cidade do México dia 27 de dezembro e ficamos até 4 de janeiro. Além de uma brigada de trabalho voluntário em território zapatista não ser o programa mais disputado nesse período, havia uma outra grande celebração zapatista ocorrendo nesse momento: a festa dos 25 anos do levantamento no caracol de La Realidad, antecedido pelo Encontro Internacional de Redes de Apoio ao Conselho Indígena de Governo.

Portanto, éramos o lado b do lado b (lado c?), e, consequentemente, poucos: 13, se não me engano. Fiquei bastante indecisa entre ir pra La Realidad ou mais uma vez pra Roberto Barrios. Seria um encontro histórico, ouvir el Sub novamente, talvez pela última vez, já que tenho data próxima para deixar o México, e vivenciar essa convergência única de lutas sociais que só xs zapatistas conseguem reunir.

Mas tem algo que esses encontros não propiciam, e as brigadas sim: a formação de um microcosmo comunitário por alguns dias (a tal da Zona Autônoma Temporária). Esse aconchego que é a vida comum, o gostoso aprendizado da organização coletiva, as bonitas trocas espontâneas que se tecem, e o aprendizado no dia a dia, com pé no chão e mão na terra, no território, sem a loucura e a exaustão intelectual que costumam ser os encontros. E eu, ainda no meu processo de saúde, compreendi que me sentiria mais acolhida nessa experiência comunitária do que na dinâmica “cada um por si” dos encontros – ao menos quando se vai sozinha, como eu iria.

Dessa segunda vez, tínhamos um trabalho bem específico: construir as bases de uma garagem , semelhante a um grande galpão. Pudemos participar todes da reunião com a Junta ao chegarmos e antes de partir, já que éramos relativamente poucos. Fomos recebidxs pelxs compas em seus pasamontãnas. E muitos de nós saímos bastante emocionadxs, pripalmente na despedida.

Rio nosso de cada dia

Nessa edição nenhum compa foi designado especificamente para nos acompanhar nos trabalhos, mas tivemos a alegria de acompanhá-los todos os dias no banho de rio. Para nossa sorte, os chuveiros não estavam funcionando, assim que não restava outra. Águas cristalinas, azuladas, em meio do mato. Pedras de rio, cascata. E o bonito ritual do banho coletivo. Senhoras lavando roupa, crianças, famílias inteiras se banhando. Vi até uma senhora idosa só de saia, sem a parte de cima. Em meio à vergonha do corpo predominante nesse mundo, adorei a exceção.

Nosso principal espaço de interação com xs compas eram os bailinhos, que rolaram quase todas as noites, com direito a dança da cadeira e tudo. Interações entre corpos, que transcendem as diferenças de classe, hábito, habitat, origem e idioma. Dançando podemos ser todos iguais em nossas diferenças. E, onde não se pode dançar, não é nossa revolução.

Além do trabalho diurno, realizamos debates noturnos sobre o movimento zapatista, revolução mexicana e outras lutas autônomas, trocando experiências entre a diversidade de participantes. Também foi possível visitar a loja da cooperativa de mulheres zapatistas, conhecer e comprar seus lindos artesanatos.

Um dia em que estava na cozinha tivemos a visita de duas meninas, uma de onze e uma de mais ou menos 3 anos. Perguntei pra mais velha o que elas aprendiam na escola. “A cuidar da gente, a cuidar da água”, respondeu. Cheias de amor pra dar. Mal sabem que o tipo de educação que recebem é uma inspiradora exceção.

 

Como participar

As brigadas são realizadas há alguns anos e costumam ocorrer semestralmente, nas férias de verão e de inverno. Vale ficar atentx à página da Cuadrilla.

Ceiba, árvore sagrada, que encanta o caracol. Essa é chamada de “corazón partido” pelos compas. Talvez porque, quem vai, deixa metade do seu coração lá.

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