Nova Era Ancestral: roda de conversa de Bem Viver no Território Junana

3º mutirão de construção da Casa de Rezo reuniu coletivos e gentes das redes de Bem Viver

Publicado originalmente na página dx Junana

 

“Sem opy não dá”, disse Julia ao chegar nessas terras há cerca de dois anos. Despejada do terreno que habitava nas cercanias, a comunidade Mbya Guarani veio buscar refúgio no que havia sido a Comuna Baçara, coletividade anarquista que se dispersou depois de quatro intensos anos de laboratório comum. Da experiência Baçara, só o Tatu permaneceu morando na área – até que chegaram a comunidade Mbya e, mais recentemente, o sonho Junana. E a primeira coisa que precisava ser construída para que os Guarani pudessem habitar o local era sua Casa de Rezo.

Tatu nos brindou com o relato desse antigo diálogo com Julia, liderança política e espiritual da Tekoá Guyra Nhendú, no início da roda de conversa do terceiro mutirão de construção do yurt. O mutirão aconteceu nos dias 24 e 25 de agosto (oficialmente, porque sempre começa antes e termina depois, e talvez na verdade nunca pare). Afinal, por que uma Casa de Rezo, e não outra coisa? Porque sem opy, que é como as Guarani chamam a Casa de Rezo, não dá.

O yurt é uma bioconstrução de origem mongol. Ele foi adaptado à realidade local com o uso de bambu, material apropriado e abundante neste recôndito de Mata Atlântica no que oficialmente se compreende como o município gaúcho de Maquiné. Esta Casa de Rezo em formato circular com estrutura de bambu inspirada numa habitação ancestral da Mongólia está sendo construída ao longo de mutirões no Território Junana, que reúne gentes em torno de espiritualidade e Bem Viver, e coexiste com a Tekoá Guyra Nhendú, aldeia Som dos Pássaros.

Yurt. Em processo.

Rizomas, redes, teias, fractais. Ancestralidade, maneira de ser Guarani. Re-existência, autonomia, apoio mútuo. Bem viver, vida boa, tekó porã. Coletividade, comunidade, comum diversidade. Reconhecer-nos como natureza. Plantas. Espiritualidade. Agroecologia, permacultura, bioconstrução. Arte. Medicinas. Ciclos. Outros tempos. Alimentos. Nutrir a terra, o corpo e o espírito. Comunhão.

Recortes dessa roda de re-conhecimentos, de espelhos, de escutas e falas em que um se reconhece em cada um. Todes se reconhecem em cada uma. Em que a fala parte do espírito e ressoa nos corações. Aquecida pelo fogo, tata porã, embalada pelo vento forte, yvytu, a roda já havia começado há muito. Desde tempos imemoriais. E continua.

 

Mosaico de gentes

Lupe, da coletividade Pé do Arco Íris, contou de sua trajetória, em que partiram da Nação Tutumbaiê, comunidade xamânica, umbandista e daimista nas proximidades de Santa Maria, para essa Maquiné da qual pouco tinham ouvido falar. “Vir para cá foi um processo intuitivo guiado pelas mulheres”, relata, e entende que esse é um momento de firmar nas redes de mutirão, depois de um período inicial de foco na adaptação e sobrevivência.

Chico, arquiteto bioconstrutor, sente que sua missão é ajudar a materializar coisas – como já fez apoiando a Escola Autônoma Teko Jeapó, na vizinha Tekoá Ka’aguy Porã (Mata Sagrada), e como tem feito no Território Junana. Em Venâncio Soares, com sua família, a proposta é também ancorar o Bem Viver.

Jana conta que foi viver em lugares distantes e não tinha vontade de voltar, mas sentiu um chamado para honrar a sua terra de origem. Foi durante os mutirões na Teko Jeapó que percebeu que, assim como para a Julia sem opy não dava, para ela sem xs Guarani não dava. E segue aprendendo e desaprendendo nessa convivência.

Bianca é fruto da união de uma mulher de Xangai e um homem de Taiwan em Porto Alegre. Ela percebe nos encontros que tem frequentado que, com histórias tão diferentes, todes têm o mesmo propósito nesse caminho cheio de poesia.

Meridiana, nascida no noroeste do Rio Grande do Sul, teve uma infância na natureza e está fazendo esse retorno. Participa da formação de uma ecovila em Ubatuba e atua com resgate da agricultura familiar. Se coloca à disposição para catalizar outras ações com outros coletivos.

Jacson co-ancora o Território Junana e é originário desta terra, de Maquiné. Foi estudar fora, mas ouviu o chamado do retorno, da coletividade e da ancestralidade Guarani. “Sou grato ao que a resistência do povo Mbya Guarani proporcionou para mim”, disse.

Rossano também co-ancora Junana, também é originário desta terra, também foi “em busca de oportunidades” na cidade e também ouviu o chamado de retorno. Ele se reconectou por meio do contato com a natureza e com as medicinas ancestrais. Quando a coletividade junanense estava definindo qual deveria ser o tamanho do yurt, ele logo falou: “vamos fazer o maior que der”. Por isso o yurt tem nove metros de diâmetro, tamanho que ninguém presente no mutirão chegou a construir antes. Ou ouviu falar que se tenha construído. Tal ousadia se dá para poder acolher o máximo de pessoas que queiram e precisem.

Pascal, Lena e Mirella vivem em família e ancoram o espaço Amó. Fizeram a transição da cidade para ter contato com a natureza e com a coletividade. A proposta é desenvolver atividades com arte.

João, do Espírito Santo, oriundo de uma família patriarcal, foi solicitado a deixar sua casa. E assim passou a viajar por ambientes de natureza exuberante e trabalhar com malabarismo e artesanato. Está em Santa Maria estudando Geografia e faz parte do movimento Resistência Popular. “Isso que estamos fazendo aqui é uma escola de convivência coletiva”, disse antes de pedir um momento de silêncio pelo que está acontecendo no país, por tanto desmatamento.

Bruno frequenta esse lugar há muito tempo, desde o início da Comuna Baçara. Falou da importância de nutrir espaços de Bem Viver, da conexão com a natureza e com a ancestralidade.

Paulo falou em nome de Irma, sua mãe, eles vivem na Retomada, a Tekoá Ka’aguy Porã, e explicou que eles têm dificuldade de falar o português.

Julia, Irma e Paulo

Julia contou que em agosto faz dois anos que ela mora aqui, que tem sido uma retomada do seu modo de vida. Agora, por exemplo, começa a época de plantar. “Cada um é diferente, o rezo é diferente, a língua é diferente, mas o Deus, ou Nhanderú, como nós chamamos, é um só”, entende Julia. “Indígena é guardião da mata, da natureza”, complementou, e convocou a que nos ajudemos entre nós. “Quando a gente ajuda as outras pessoas, a gente ajuda a nós mesmos”, disse.

Vini, que conhece Maquiné e muitas das gentes envolvidas nos projetos coletivos locais há bastante tempo, conta que tinha uma vida alternativa, mas o trabalho era bem formal, o que era difícil de conciliar. Agora atua como jardineiro. “Aqui estamos convivendo de verdade – acordando junto, trabalhando junto, comendo junto, olhando no olho. Isso é conviver de verdade. Na cidade tem um monte de gente, mas todo mundo sozinho, porque não convive.” Vini entende que essa experiência no Território Junana faz parte do que ele chama de “ensaios da utopia”.

Mari vem de Santa Maria, e conta que seu despertar se deu por meio das medicinas, num movimento de resgate da ancestralidade e busca das raízes. Ela tem se envolvido com coletivos de bioconstrução urbana e está rumando para a agroecologia.

Diego atua com educação popular e conheceu a Retomada, como se costuma chamar a Ka’aguy Porã, há dois anos. Ele acha que o futuro da humanidade passa por desurbanização e aliança com os povos originários.

Jean, do Coletivo Guandú, localizado em Santa Maria, agradece poder estar aqui vivendo o rezo mais uma vez, priorizando o compartilhamento do alimento sagrado, alimento que a gente herda da ancestralidade. Reconhece e agradece às guardiãs. Ele chegou com um problema físico mas já se sente melhor, porque recebeu vários cuidados da coletividade, “e na convivência comum vamos nos curando em vários níveis”, compartilha. O Coletivo Guandú também é vizinho de uma aldeia Guarani e tem uma proposta de produção agroecológica com resgate dos saberes ancestrais. O coletivo surge da rede de comunidades autogestionadas e atua por meio da articulação em rede e da correlação com vários movimentos que têm uma visão comum. Agradece a generosidade do povo Guarani que, depois de tudo o que já passou, continua compartilhando sua sabedoria e seu modo de vida.

Michele, esta que vos escreve, andarilhante há mais de três anos com o (anti) projeto Vida Boa [não é um projeto. É minha vida. Boa.] Conhecendo e registrando histórias de Bem Viver. Participando. Aprendendo. Disseminando. Movimentos sociais, ancestralidades, agroecologia, autonomia, espiritualidade. Reconheço e busco honrar a natureza sagrada das palavras. Cantar e contar histórias, eis minha maneira de andar. Agradeço ao povo Guarani por compartilhar seu modo de vida, por nos acolher. Que possamos reconhecer nossas trajetórias e usar nossas múltiplas sabedorias em prol do bem comum. Encontro acolhida no Território Junana atraída por esse bem viver coletivo pós-contemporâneo ancestral. Atraída por essa arte resoluta. Arte, rezo e luta. Terra firme e fértil, cálido cais em meio aos movimentos por oceanos e mares de Vida Boa.

Eunar trabalha na Karai Arandu, escola indígena, desde 2014. Mbaraeté é a palavra que mais lhe chama atenção no idioma mbya guarani. Força espiritual. Vem de Dom Pedrito, cidade que conta com um histórico de massacre dos povos indígenas. Se emociona com a acolhida que recebe das crianças e da comunidade em que atua.

Dani e Sheila são irmãs que ancoram em Maquiné, junto à sua família, o Lírio do Brejo. Elas entendem que a questão não é só viver, mas conviver. Que coletividade é o único sentido da vida. Que é uma batalha, um grande desafio, mas é também o verdadeiro sabor da vida. Elas vêem o mundo através da alimentação, porque é uma necessidade que sempre agrega.

Dani e Sheila da Chácara Lírio do Brejo, rodeadas por Eunar, Leo e Klebeson

Luca falou dessa teia de energia vital entre pessoas que estão vivendo em frequência e propósito parecido. Ele se conecta com alimentação e faz produtos artesanais sem colocar preço fixo, a partir do valor de troca. Acredita nesse grande movimento, e que a gente possa espalhar isso ao máximo. Volta do mutirão fortalecido para Porto Alegre, para poder espalhar esse amor. Leo, parceiro de Luca, agradece a fala de cada um e se reconhece nelas.

O aniversariante Maurício contou do desconforto que sentia na cidade e de sua busca pela espiritualidade. Tomou ayahuasca pela primeira vez em 2013 no Sítio da Amizade, em Viamão, que também faz parte dessa rede. Resolveu fazer uma longa viagem de bicicleta pra se centrar e se sintonizar, e descobrir o que é viver com autonomia. Participou do Carijo na aldeia do Campo Molhado, encontros em que a erva mate é beneficiada coletivamente de maneira ancestral. Na volta, a busca que o levou a viajar de bicicleta o trouxe para cá, pra essa escola onde todes são professores e todes são alunos.

Mima é de Goiânia e está há sete anos no Rio Grande do Sul. Trabalha como médica. Conheceu a medicina da floresta e, do interesse em necropsia, está agora mais a favor da vida. Quer trabalhar com plantas e medicinas. Sentiu seu tempo respeitado aqui. “Agradeço a assistência do Jacson que me permitiu plantar minha primeira laranjeira”, disse.

Silvia falou que não faz muita diferença onde nasceu, e que desde sempre é um tanto nômade. Atualmente vive de bicicleta, uma outra forma de se viver no mundo.

 

Mutirão da vida

Multimãos transbordando na Roda de Conversa. Palavra comum e cura coletiva.

“Mutirão é nossa luta, é nosso rezo, é uma sabedoria ancestral de que tudo o que não pode ser feito individualmente a gente pode se juntar pra fazer”, disse Tatu ao encerrar (pelo menos por enquanto) a roda. “É um movimento recente de resgate da prática de mutirão, e daqui a pouco a gente não vai dar conta de participar de todos, o que será uma grande benção”, complementou. E já aproveitou para convidar para o próximo, no fim de semana de 07 e 08 de agosto (oficialmente), para dar sequência ao trabalho no yurt, dessa vez com foco no teto.

“‘Quando o mutirão começa?’, as pessoas perguntam. ‘Hoje’. A resposta é sempre hoje. Não necessariamente aqui, mas em outros aquis”, desexplica Tatu. Assim é o processo Junana. Não tem procedimentos de entrada e saída, cada qual com seu tempo, suas vontades e necessidades – “mas é tudo muito organizado”, salienta.

Uma proposta que surge de uma caminhada coletiva de muitos anos – ainda antes de Baçara, essas terras receberam a comunidade Sementes da Esperança, com Rafinha tecendo redes de espiritualidade no início dos anos 1990. Ela é uma das fundadoras da rede de farmácias populares de mulheres, as “Bruxinhas de Deus”, e realiza um profundo trabalho com reiki. Tatu já frequentava as cerimônias no Sítio da Amizade há mais de dez anos, e nos últimos tempos vinha fazendo, junto às parcerias, cerimônias num antigo galpão no meio da floresta. Mas o galpão estava caindo aos pedaços. E assim foi se construindo, concomitantemente ao Junana, o sonho do yurt.

O Território Junana ancorou uma cerimônia no solstício de inverno, ainda no antigo galpão. A próxima será em celebração ao equinócio de primavera, em 28 de setembro, no novo yurt.

Durante o terceiro mutirão a galera fez a treliça de bambus que funciona como parede e base para o teto, subiu a peça central e colocou as varas do teto. Além disso, a área ao redor do yurt passou por uma capina, ficando como o terreiro de terra que tradicionalmente circula a Casa de Rezo dos Mbya. Também roçamos em meio às bananeiras pensando numa futura área de camping e plantamos mudas de frutíferas – além de preparar muito alimento agroecológico, cantar, dançar, rezar, sem falar no maravilhoso multimãos, em que quebramos barreiras de timidez, nos desbloqueamos e colocamos as mãos (e o coração) a serviço da cura de todes.

Seguimos juntes, pelo caminho, nos curando, rezando, lutando, nos alimentando, honrando à Mãe Terra e ao Gran Espírito, à Pachamama, Nhandexy, Nhanderú, nesse grande território que nos abriga, Yvyrupá, Abya Yala, terra sem fronteiras de sangue vital que nos nutre.

Vem pra roda!

Aguyjevete!

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