Equinócio de outono em tempos de Coronavírus

Equinócio de outono. O dia amanhece calmo e fresco. Uma nova estação se anuncia.

Amigues querides me contaram que, na sabedoria de povos do oriente, equinócios e solstícios não são o começo, mas o ápice das estações. E que no ocidente temos a mania de nos aferrarmos aos ápices, deixando de lado a compreensão dos ciclos. Seria então agora o ápice do outono, não seu começo.

Essa estação em que as folhas caem, os dias vão ficando mais curtos e as noites mais longas. De introspecção. De colheita e avaliação do ciclo. O que semeamos? Deu frutos? Nos nutre?

O que semeamos enquanto humanidade? Estamos colhendo medo, angústia, peste, caos. Plantamos sementes de egoísmo, de subserviência aos podres poderes, de falso isolamento (falso porque, querendo ou não, na vida nada está isolado… E tudo, vírus e intenções, se propaga pelo ar…).

Plantamos sementes de egoísmo. De ambição. De ilusão de que estamos separados da natureza, e que devemos temê-la e dominá-la. Cobriram a terra com uma camada de asfalto para não precisar pisar diretamente nela. E aí, com a tormenta, tudo inunda. A podridão vem à tona.

Mas eis que chega a boa nova… Que é ancestral. E se renova.

Esse outro mundo que precisamos, um mundo em que o ser humano se equilibre entre si e com todos os seres, com a natureza, da qual faz parte, já existe. Está bem diante de nossos olhos – basta desviar o olhar da tela do espetáculo da morte, trágico espetáculo, para olhar os povos que resistem e existem. Re-existem. Um mundo em que caibam muitos mundos, em que a diversidade possa florescer, como numa grande agrofloresta. Em que nenhuma monocultura venha tratorar as diversas formas de ser e existir em equilíbrio com os ciclos da vida.

Somos novos frutos de sementes ancestrais. Somos milho de diversas cores que brotam de sementes que foram semeadas, escolhidas e repassadas de geração em geração. Honremos a sabedoria ancestral. Não nos contentemos com as sementes transgênicas de grandes corporações que – não à toa – não reproduzem! Não nos contentemos com um modo de viver e pensar infértil.

É a hora da guinada. Sempre é. Basta aceitar o chamado da vida, o chamado dxs nossxs ancestrais. A crise clama por consciência e organização. Nos organizemos para que, em consciente interdependência com todo o ciclo da vida, não dependamos mais dos podres poderosos. Que nossas redes de apoio mútuo possam suprir as necessidades de todes e cada uma. Que a nossa existência seja uma grande dança de celebração da vida, não um lamento impotente de morte.

Não se dá de uma hora pra outra. É trabalho! Reflorestar todo um campo exaurido por décadas e décadas, ou séculos e séculos, de exploração, venenos e monocultivo, exige esforço, organização, dedicação. Trabalho em rede, coletivo. Mas os resultados começam a aparecer rapidinho. Dentro e fora de nós. A natureza se recupera mais fácil do que imaginamos. É só deixar a vida florescer.

Seguimos nesse aprendizado coletivo. Nos inspiremos nas constelações, estrelas no céu a nos guiar, estrelas de povos guardiões da floresta que re-existem ancestralmente. Cuidemos para que não sejam tratorados. Todo nosso apoio é necessário. Nesse mundo de ponta cabeça, é preciso lutar pra florescer! Senão vem o trator e esmaga tudo…

Escolhamos as boas sementes. Joguemos os frutos podres fora. Defendamos as terras, nossa casa. Seus povos guardiões. Nos preparemos para a boa semeadura.

Auto-cuidado, cuidado mútuo. Saúde para todes.

A natureza é nóis.

 

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