A arte de transformar merda em rosas: causos do fundão da Solidão em tempos de pandemia

Usei o balde velho do banheiro seco, já inutilizável para tal, pra plantar rosas. Ganhei as mudas da Dona Vilma, vizinha que é meio gente meio planta aqui no fundão da Solidão, nos rincões de Mata Atlântica desse vale portal Maquiné. Fui deixar umas bananas pra ela, aqui não falta, graças à Pachamama e a quem as cultivou, e perguntar se ela precisava de alguma coisa, pois vive sozinha aqui no fundão. Me encomendou ração pros seus muitos gatos, quando a gente fosse pra cidade.

A gente. Nós. Como é bom ser coletividade. Como é bom ser nós. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Com enxada, carro, computador ou maracá.

Dona Vilma lamentou não poder me abraçar, diz que já faz uns dias que tá sozinha. Que os parentes tão com medo de vir da cidade grande trazer o rancho que compraram pra ela, medo de contaminá-la. De transmitir o terrível vírus. Eu contei que quero plantar rosas. Ela me deu as mudas.

Fui lá perto da Figueira ancestral, Mãe da Mata, e coletei terra fértil da floresta. No caminho, passei pela antiga composteira, onde colocamos os restos de comida, e peguei um pouco da terra, em poucos meses já compostada. E, finalmente, fui no mato atrás de casa e peguei a terra do antigo banheiro seco. Merda que vira adubo.

Misturei as boas terras. Coloquei no velho balde, um jeito de reutilizá-lo como vaso e proteger as mudinhas. Estaqueei as mudas. Reguei com meu sangue. Roguei para que venham, lindas, as flores.

E aí pensei nos descaminhos da humanidade. Pudera! Quando se tem nojo do próprio lixo, da própria merda, do próprio sangue, enquanto tudo o que se quer é se livrar deles o mais rápido possível, não importa para onde nem como, essa merda polui. Esse lixo contamina. (Sem falar no medo e desconforto na mata, a incompatibilidade com a vida. Viciadxs numa pretensa comodidade estéril. O nojo do sangue menstrual. Desconexão com os ciclos da vida – da terra, explorada como as mulheres.)

Chega uma hora que é tanta merda e lixo que explode. Muta. Viraliza. Vira pandemia. Talvez em algum lugar longe, do qual se ouve falar apenas pelos noticiários. Mas uma hora, de lixo em lixo, de merda em merda, explode por todos os lados. Longe. Perto. Dentro.

Ah, a revolução. Necessária revolução. Dos baldinhos. Da mentalidade. Das relações. Se todo mundo conseguir lidar com seu lixo, com sua merda, dar um bom destino, diariamente. Compostá-los de tanto em tanto. Caminhando no compasso do ciclo da renovação da vida. Vira adubo. Vira rosa. Vira alimento.

A terra tudo aceita. Tudo transforma. Grande Mãe. Acolhe o pior e o melhor de nós. Basta saber, respeitosamente, conscientemente, humildemente, entregar. Com responsabilidade. Olhando pras nossas pequenas merdas e pequenos lixos todos os dias, e sabendo encaminhar. Honrando nosso santo e palpável, vivo e nutritivo, sangue.

Serve pra mim. Serve pra você. Serve pra humanidade. Serve pro planeta.

Agradeço ao aprendizado coletivo, à terra amada, à Dona Vilma, que me deu as mudas. À coletividade Junana, essa cabocla, esse nós em meio aos muitos nós dessa grande rede de Bem Viver.

Agradeço à sabedoria ancestral, aos muitos povos que carregam as sementes crioulas dos ensinamentos de como viver em equilíbrio com o ciclo da vida nesse mundo – e talvez em outros, como bem lembra Aílton Krenak. Outros mundos que atravessam esse mundo. Gracias a todos os seres, visíveis e invisíveis, a toda a força de vida-morte-vida.

Compostemos.

Lixo, merda, angústia, inveja, ódio, medo, competição. Compostemos. Vira coragem, vira decisão, vira boa ação. Organização. Conexão. Re-evolução.

Vira amor, em pétala de flor.

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