Laboratórios do comum: experimentações políticas de uma ciência implicada

Trechos selecionados desse artigo de Alana Moraes e Henrique Parra, disponível na íntegra aqui. Saiba mais sobre os Laboratórios do Comum aqui (Wikiversidade) e aqui (Zona de Contágio).

 

Fonte: http://www.biennaledespoetes.fr/2016/10/04/entre-lignes-montage-lecture-de-textes-de-fernand-deligny/

 

Ao dizermos que o laboratório é da ordem do “Comum” significa que ele não separa o mundo entre nós (os que investigam) e os outros (objetos da investigação). O Comum funda, portanto, uma relação de copertencimento e interdependência. Investiga-se e trabalha-se sobre o Comum que nos afeta e que nos constitui enquanto uma comunidade de afetados. Nada mais distante de um Laboratório do Comum do que o chamado “trabalho de base”. Quem diz “base” funda uma geografia onde “nós” e “eles” estão separados por diversas assimetrias (conhecimento, pertencimento, consciência…) que
supõem práticas de esclarecimento, ordenamento, transmissão. (p. 118)

 

O Comum é transversal à micro e à macropolítica, é outra geometria, pertence à dimensão imanente da vida e da diferença, não tendo nada a ver com identidades, unidades. Diante da crise atual de nossas instituições democráticas e da percepção do esgotamento das
formas habituais de agir político, o Comum inspira caminhos de experimentações políticas que nos obrigam a permanecer por mais tempo com nossos problemas e a partir daí ir tecendo um meio, reticulando em novas individuações coletivas. (p. 120)

 

Diferentemente da formação de uma comunidade identitária, em que os atores se reúnem a partir de elementos previamente constituídos que dão forma à identidade (por exemplo, as ideias de nação ou de família, de “povo”), no laboratório surge uma comunidade de atores distintos que partilham o interesse de enfrentamento de um problema (científico, social, político etc.), e para investigá-lo é necessário inventar uma forma de conviver entre singularidades. (p. 126)

 

Uma ciência do Comum nos exige deslocarmo-nos de uma concepção de sujeito soberano e autônomo, dotado de uma identidade bem definida, para uma concepção do ser em sua interdependência e inacabamento. (p. 126)

 

Trata-se de investigar os problemas que nos afetam, que nos dizem respeito e pelos quais também somos responsáveis. (p. 128)

 

[…] passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimentação. (p. 133)

 

A realização de algo junto implica a necessidade de invenção de uma linguagem, acordos, ritmos e infraestruturas compartilhadas. Temos que fabricar um mundo comum e as infraestruturas que lhe dão suporte e existência durante essa ação. Para fazer algo juntos também somos “obrigados” a pôr em suspensão um conjunto de divergências que, no plano discursivo são infinitas. Esse fazer nos convida, portanto, a uma certa generosidade que podemos denominar convivialidade. As tecnologias de produção do Comum são tecnologias conviviais. (p. 133)

 

Estes tempos nos exigem coragem, mas também uma aposta na pesquisa, na investigação coletiva, numa ciência aberta que inclua corpos e suas marcas, saberes não autorizados pelo regime de saber-poder. Precisamos assumir as perguntas, dar-nos esse tempo do pensar junto, experimentar, criar contradispositivos para uma vida não fascista – bem aqui
nesta praça, neste bairro, com esta vizinhança, não há outro mundo a construir, mas outras (velhas e novas) relações de confiança e experimentação entre nós. (p. 136)

 

Retomada é um termo que se refere às práticas políticas indígenas de recuperar uma terra que deles foi roubada, mas o termo se expande, como sugere Sztutman (2018) na esteira de Isabelle Stengers, como práticas de reativação (reclaim) e experimentação de um modo de vida, um território existencial que possa criar, outra vez, práticas do Comum, as paixões não proprietárias. Não tem a ver com retomar um passado perdido, mas com experimentar modos de viver junto e de pensar junto; algo como uma contrafeitiçaria tecnopolítica que nos exige reconhecer, como nos sistemas feiticeiros, que estamos todxs vulneráveis, paralisados, confusos. Reaprender a fazer comum e praticar invenções democráticas, fazer da potência de cada êxito experimental um vírus de alegria contagiante, comunidades provisórias de experimentos e experimentações. Como desarmar os infinitos dispositivos de produção de concorrência, violência, medo, isolamento e autoritarismo que atravessam nosso cotidiano? Como criar caixas de ressonância da capacidade imaginativa de inventar coletivamente soluções, situadas e corporificadas, a esse problema? (“retomada do comum” p. 136-137)

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 + 5 =