Velho fantasma encardido

Reflexões sobre o patriarcado e como esvaziá-lo

Um fantasma onipresente em todas as relações sociais, em todos seres humanos, até mesmo em nossa relação com todas as formas de vida. E poucas vezes nomeado, apesar de constantemente invocado de maneira inconsciente. Um fantasma tão alimentado que se reproduz de geração em geração, há milênios, ao redor do planeta, tanto que não é um só, é legião. Se moderniza. Mantém velhas roupagens e sempre ganha novas, se adequando às transformações ao longo da história da humanidade e às diferentes geografias.

Por isso é tão importante reconhecê-lo, nomeá-lo, desmascará-lo, tirá-lo do modo automático e trazê-lo à tona para o consciente. PATRIARCADO é seu nome. Repitam comigo: PA – TRI – AR – CA – DO.

Patriarcado tem a ver com a posse das propriedades, com que as pessoas mais ricas e poderosas desse mundo são quase todas homens (e brancos e do norte global, outros ismos que atravessam esse ado). Tem a ver com a normatização das relações heterossexuais e do núcleo familiar, com a relação de posse dos homens sobre as mulheres de forma violenta e cotidiana, com a objetificação das mulheres… Tem a ver com tudo isso, mas não só.

Tem a ver com como a energia vital das mulheres costuma girar em torno da aprovação e reconhecimento dos homens, de estar dentro de um padrão patriarcal do que é ser mulher, e em ser bem sucedida dentro de um modo de se relacionar convencional – convencionalmente patriarcal. Tem a ver com a frequente insegurança das mulheres de se colocarem no mundo, de se expressarem intelectual, política e artísticamente, de conduzir atividades coletivas, de aprender coisas novas, de se arriscar.

Tem a ver com o estranhamento, a raiva, o fascínio ou a insegurança (e frequentemente tudo isso misturado) que um ser que está se libertando desse tipo de relação, desse modo de estar no mundo, causa. Afinal sua mera existência contesta a base das formas convencionadas de se relacionar, a estrutura de interação das pessoas, o que faz sentido ou não na vida. Seja uma mulher que vem reinventando seu papel a partir da crítica patriarcal, seja um ser não binárie, trans ou qualquer das muitas maneiras transgressoras de existir que fogem à norma – até mesmo homens que passam a questionar o papel que lhes foi reservado.

Mulheres hindús que se organizaram na década de 1970 contra o governo indiano em defesa das árvores.

Tem a ver com as mulheres acharem que precisam de um homem para realizar o que realmente querem pras suas vidas, sentindo-se inseguras e incapazes sem eles – não se imaginando fazendo o que desejam sozinhas e não vislumbrando outras possibilidades coletivas. Seja para viajar, se jogar no mundo, construir uma casa, ir morar em outro país, migrar pro campo, mudar de vida, fazer o que realmente acreditam e o que deve ser feito – e, por supuesto, ter filhxs.

O patriarcado tem a ver com a dificuldade dos homens em praticar o autocuidado, em conseguir reservar um tempo para organizar sua vida subjetiva, manter um ambiente íntimo harmônico, gerir o cotidiano, dar conta de reproduzir sua própria vida de maneira agradável, fértil, nutritiva, sem uma mulher que cozinhe, limpe, mantenha a rotina em harmonia e cuide da sua saúde dia após dia. Afinal, cuidar da casa, da limpeza, do corpo, da existência no dia-a-dia, da saúde emocional são “coisas de mulher”…

Tem a ver com compreender que essa vida subjetiva, íntima, existe e precisa ser cuidada, tendo um relacionamento monogâmico sexo-afetivo ou não. Tem a ver com cuidar dxs outrxs, alimentar afetivamente outras vidas, papel historicamente reservado às mulheres.

Tem a ver com a dificuldade masculina de falar das emoções, de lidar com sentimentos, de manter uma comunicação afetivamente responsável. Tem a ver com o padrão do que se espera de uma mulher, do que se espera de um homem, do que se espera de um relacionamento.

O patriarcado tem a ver com o rompimento de laços coletivos e comunitários, pra além da questão da propriedade, que antigamente era coletiva (se é que podemos usar o termo “propriedade” nesse caso) e passou a ser individual, compartilhada matrimonialmente e repassada hereditariamente. Num nível mais subjetivo, a relação heteropatriarcal é feita de tantas regras de isolamento, acaba gerando tantas cobranças e caindo em tantas convenções que drenam energia, que quase não sobra tempo nem vontade de se relacionar consigo mesmx, com o mundo externo, com projetos coletivos e até mesmo com amizades. O fruto material do cotidiano também é compartilhado apenas a dois, compulsoriamente. E cada vez menos pode ser de todes, extrapolando as fronteiras do lar, base do núcleo familiar.

Há muita coisa compulsória numa relação de casal. Coisas que são adotadas automaticamente, acriticamente, sem consciência, como se fosse simplesmente assim. “Coisa de casal”…

Em diversas iniciativas coletivistas – em que pessoas buscam se relacionar de maneira menos individualista do que nos ensinam e cobram na sociedade convencional – percebe-se que um dos grandes, senão o maior elemento de conflito (ao lado da questão propriedade, evidentemente), gira em torno das relações sexo-afetivas (que costumam ser monogâmicas, pelo menos oficialmente). Cabe uma profunda reflexão do porquê isso acontece.

Sonhamos com um mundo bom, justo, feliz, em que as pessoas se ajudam, cocriam, se relacionam afetivamente umas com as outras com respeito, sexualmente ou não. Queremos amar de maneira íntima. Existem alguns padrões para isso, historicamente regidos pelo patriarcado – e muitas vezes, quando vemos, estamos reproduzindo de modo caricato os vícios da vida a dois (ou mais, quando chegam as crianças). Parece que quanto mais subjetiva a opressão, mais difícil de reconhecer e romper com ela. Afinal, essa sociedade patriarcal não nos ensina a lidar com as subjetividades.

Segundo o padrão de relacionamento a dois, o afeto fica cada vez mais restrito a esse núcleo familiar, e a energia vital é canalizada quase exclusivamente para ele. Normalmente em torno dos sonhos e planos do homem, que se transformam nos sonhos e planos da família, de forma mais ou menos autoritária, e a mulher fica responsável pra que tudo no cotidiano ocorra bem para que esses sonhos e planos possam se materializar.

Quando já não acreditamos no protagonismo masculino, nem em sonhos de patrimônio e carreira, quanto dessa atomizante maneira patriarcal de existir em casal, em núcleo familiar, reproduzimos quando nos relacionamos intimamente? O quanto criamos bolhas que ilusoriamente nos separam do mundo (nunca separam, o mundo sempre nos atravessa, consciente ou inconscientemente), bolhas que nos oprimem, que sufocam o próprio casal que a criou? O quanto deixamos de direcionar nossos afetos para nós mesmxs, pra amizades, pra projetos comuns, pra outros seres e formas de vida, pro que realmente acreditamos, pro que realmente queremos ser e manifestar, pra mudança que queremos ser no mundo? O que fazemos com a energia necessária para nos tornarmos tudo isso, para nutrir os laços coletivos necessários para transformar as relações e fazer essas desejadas mudanças ganharem corpo? E o quanto esse padrão de relação costuma sugar, ainda nos dias de hoje, muito mais a energia vital das mulheres do que dos homens?

arte de Paula Duró

O patriarcado tem a ver com a propriedade da terra, das mulheres, da “natureza” – entre aspas porque, do jeito que esse termo é usado, é uma falta de reconhecimento de que nós também somos natureza, que a natureza não é algo externo a ser conquistado; a própria noção da natureza como algo separado é patriarcal.

Despatriarcalizar nossas relações é reconhecer que estamos conectadxs com todas as formas de vida, e nos deixar ser afetadxs por todas essas forças que nos atravessam, e nutri-las, honrá-las. Não cabe exploração, nem das pessoas nem de nenhuma manifestação vital, nesse modo de se relacionar.

Esvaziar o patriarcado, desnutri-lo, deixá-lo minguar, significa descolonizar nossas relações. Deshierarquizar. Não colocar uma única pessoa no centro do nosso universo – e se for pra por, que sejamos nós mesmas, porque somos nossa realidade imediata, somos responsáveis diretamente por nós mesmas, ainda que atravessadas por toda energia de vida, ainda que afetadas por tantas relações. E que assim possamos desfrutar da beleza e unicidade de cada relação, de cada vínculo familiar, de cada amizade, de cada sintonia, sem que uma precise competir com as outras.

Que a gente possa cada vez mais nos tornar conscientes do fluxo incessante de amor que é a vida, e manter um ritmo de autorregulação e autocuidado, para poder, com saúde e alegria, dar e receber amor, manifestar a beleza da vida que queremos reconhecer cada vez mais em nós e no mundo.

Que todas as formas de vida possam ser respeitadas, honradas, agraciadas. Que possamos ver, perceber, nos dar conta quando uma relação não é saudável, quando há opressão, quando há exploração, quando há condicionamento. E agir.

Que possamos cada vez mais amar intimamente, distribuir e ser nutridxs por afetos, de maneira responsável, superando individualismos egoístas mas sem atropelar diferenças, sem desrespeitar territórios, o território que é cada corpo. Que possamos honrar o tempo e ritmo de cada planta, de cada ser. Reconhecer os ciclos. A hora de abrir e fechar, de acender e apagar. De encontrar e partir.

Que possamos nutrir laços coletivos, de rede, de bem viver, olhando além de nossos umbigos, de nossos pares, de nossos lares – mas também pra elxs. Manter o umbigo e a casa limpas sempre é bom, e as relações saudáveis também.

Que possamos nos conectar com maneiras de sexualidade e de amor que honrem o milagre que realmente são. Despatriarcalizar (e descolonizar) os afetos, os corpos, as relações, a vida. Que nossas relações sejam recíprocas. Que, ao invés de nos exaurir, nos encham de energia, de vontade de viver, nos levem além do que podíamos conceber – mesmo através dos conflitos, mesmo através das dificuldades.

Que possamos encarar o fantasma do patriarcado, perder o medo, alumiar a escuridão que nos apavora e olhar diretamente pra ele. E pode ser que talvez ele nos pareça apenas um velho fantasma encardido, remendado, quase de dar dó. Tá bem, só não dá dó porque sabemos de todo mal que fez, aliás, que a crença nele faz. Mas se deixarmos de acreditar nele, de reproduzi-lo… Talvez um dia vire apenas um lençol velho furado desrecheado de vida jogado no chão. A gente pode até queimar.

Isso não acontece sozinho, de uma hora pra outra. Não basta encarar o fantasma, é preciso parar de alimentá-lo. O que exige um cuidado constante de deixar para trás velhos hábitos corriqueiros, parar de dar biscoito a esse fantasma safado. E impedir que o alimentem tão fartamente quanto o fazem – seja recorrendo à luz da consciência, seja recorrendo à autodefesa.

Falemos sobre o patriarcado, sobre como é preciso deixar de alimentá-lo. Pintemos. Cantemos. Bailemos. Oremos, ritualizemos, cada qual com seu rezo, cada qual com sua mandinga. São muitas as formas da digna e necessária luta. É pela vida.

Que a gente possa criar formas de afeto profundas e verdadeiras nas relações de casal, sexo-afetivas, mas não só: pra além delas, pra além do núcleo familiar. Talvez uma coisa dependa da outra. Que a nossa família se expanda.

Que a gente possa se cuidar, se amar, contar umas com as outras. Que a gente possa reconhecer, nutrir e tecer juntas essas outras formas de se relacionar que tanto queremos, essas coletividades que acolhem as individualidades, os casais, famílias e outras formas de afeto que se desenham.

Que a gente possa se apoiar, se respeitar, se complementar. Reconhecer a fortaleza que somos, nos valorizar. Pra além (e aquém) dos padrões patriarcais, heteronormativos, produtivistas, egocentrados. Essa talvez seja a maior e mais necessária revolução.

Existem muitas maneiras de se relacionar afetivamente em coletividade. Talvez nem todas nos contemplem. Mas conhecemos poucas. Podemos buscar essas referências, a partir da vivência dos diversos povos ancestrais e rebeldias, e experimentar, criar nossos próprios modos. Despatriarcalizar relações, descolonizar afetos, reencantar a vida. Por todas as nossas relações.

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