Diário de obra 2

E continua a saga da casa própria…

Sofi e eu na obra, foto do Alan

Seria tão mais fácil simplesmente comprar um negócio pronto, padronizado, como os apartamentos da cidade… Você escolhe, paga (a parte que gargala pra muita gente…) e pronto! Pode ir morar.

A cultura da “fast casa”, que assim como o “fast food”, é carregada de malefícios, de falta de sintonia e sentido. De violência, de impacto negativo, de relações verticais de exploração humanidade-humanidade e humanidade-natureza (como se fossem coisas separadas, assim tem se tratado, e aí que tá o problema…).

Fazer minha própria casa, que desafio! Mas contando com muita ajuda, dá.

Primeiro foi momento de sonhar esse espaço, de conversar com os seres deste lugar pra descobrir onde iria ser (visíveis e invísiveis, pois quem primeiro me indicou que se pá eu gostaria de morar nesse cantinho específico foi a Karyn, que cohabitava comigo. Vista pra cachoeira na montanha! Pronto, me ganhou. Seríamos vizinhas, mas ela seguiu outros rumos.)

 

E desde então, muito trabalho, mas com calma e tranquilidade, observando os ciclos. Contando com a ajuda do Jacson, nascido e criado no Maquiné, conhecedor dessas terras, pra preparar o espaço da obra. Capinamos, abrimos a trilha para chegar ao local, arrancamos tocos e pedras, tiramos portas e janelas de uma casa velha. Cortamos e descascamos uns paus do mato que serão usados na obra.

Teve um mutirão pra tirar a terra superficial de onde será a casinha, separando num monte para ser usada na agricultura, e a terra mais dura e argilosa, mais profunda, em outro monte, para usar futuramente na parede de barro. E assim demos uma pseudo nivelada, abaixamos o ponto mais alto, e tiramos muitas pedras enormes (não precisa ser nivelado certinho pois a estrutura será de madeira e o piso elevado do chão). Viva a força coletiva!

Na sequência, hora de fazer a fundação. Sapatas de concreto com vergalhão, onde serão encaixados os pilares de madeira. Desde o começo que sonhei em fazer a casa, fui conversando com Sofi, Alan e Rossa, amigxs que fazem parte do Território Junana, com quem temos vínculos de apoio mútuo e de afeto. Sofi e Alan com experiência de obra e disponibilidade pra encarar a empreita, Rossa que tem acesso a uma tobata de sua família e se dispõe a manejá-la a serviço da rede (entre tantos outros serviços a que se dispõe). Portanto, já sabia que podia contar com a tobata pra levar os materiais até o local da obra, lá em cima, onde os carros não chegam. Melhoramos o trecho de trilha que já estava aberto, abrimos uma nova trilha até lá. E já sabia que teria braços e corações fortes para me ajudar.

Sapatinhas

E aí começou o trabalho rústico com a tobata, subir areia e brita, muito pesado, muitas levas. Abrindo o espaço pra tobata, tirando pedras. Dale enxada, motoserra, facão. As podas que já vão virando lenha para nossos rezos ao redor do fogo.

Calculamos bem onde seriam as sapatas (mas erros quase sempre acontecem, por mais que se façam e refaçam as medidas…), Alan e Sofi cavaram os buracos, eu fui atrás dos baldes que seriam a forma da parte superficial das sapatas, cortei eles com uma faca aquecida no fogo. E aí dá-lhe virar concreto.

Fizemos um intervalo, as chuvas chegaram e ficaram, e só quase um mês depois retomamos a obra. Enquanto isso eu chafurdei nos orçamentos, nos contatos com as serrarias, nos ajustes do projeto em diálogo com o Chico, da Yapó. E na logística pra conseguir firmar uma data entre chegada das madeiras, vinda de Rossano com a tobata, de Sofi e Alan e ainda de Bruna e Everton, que viriam dar uma mão. E num momento em que a trilha não estivesse mais um lodaçal, que parassem os dilúvios pra que a gente pudesse carregar madeiras morro acima.

Muitas emoções na relação com a serraria e quase que a madeira não chega – e chegou muito verde. Pesada. Desafio na tobata. Muita força, muito trabalho. Mas também muita alegria, muita parceria, muita irmandade. Muitos rangos maravilhosos, muita juçara, muito avaxi, o milho Guarani de nossa roça coletiva. Abundância. Teve até Festa do Avaxi no meio e ritual mágico pra encerrar. Hay que celebrar cada etapa, cuidar do corpo, da mente, das emoções, do espírito. Por todas nossas relações.

Sofi, Rossa, eu e a tobatinha, foto do Alan

As madeiras para a estrutura e para o telhado já estão lá em cima. Também foram tiradas mais pedras e nivelado o chão do puxadinho de trás de casa, que vai ser a área de serviço e  vai ter piso de concreto, com o material que sobrou das sapatas. Rolou preparar, fazer a caixaria, colocar brita e a malha de ferro, agora só falta virar e colocar o concreto. Ficou para depois, depois de um merecido intervalo para descanso e para cuidar de outros aspectos da vida. Em breve montaremos a estrutura da casa e, ojalá na mesma sequência, o telhado.

Vai ser um telhado “vivo-morto”, a mesma base do telhado verde, mas a camada que vai em cima, ao invés de terra, é serra pilheira que vamos tirar da mata em volta (aquela camada de folhas que fica “apodrecendo” no chão da mata, que forma uma capa nutritiva de proteção e que a mata repõe rapidamente). Um teto muito mais leve, mais fácil de fazer e que também cumpre a função térmica e permite ter plantinhas rústicas em cima (já tô de olho nas muitas bromélias que pululam nos arredores).

A proposta da obra é combinar uma relativa rapidez (por isso a escolha da madeira) com utilização de elementos locais (como no caso do teto e da parede de barro). Uma das 4 paredes da casa vai ser de barro, pau a pique (ou pallet a pique), pensando que no futuro será puxado dela um quarto todo de barro. Enfim, garantir primeiro um local mínimo de aconchego (faz anos que moro no roots e tô precisando) pra depois poder ir me fortalecendo, interagindo com o local, me apropriando das técnicas pra poder realizar processos mais lentos com entrega e prazer.

O saneamento será “ecológico” (circulo de bananeiras pras águas da cozinha, pia e chuveiro + banheiro seco, maneira de compostar nossos resíduos corporais transformando em adubo), a água vem das fontes límpidas da montanha, já contamos com energia elétrica, só precisa levar até o local da casinha em si, e há vontade de no futuro encontrar boas maneiras de sustentabilidade energética.

E assim vamos fazendo a mediação entre sonho e realidade, entre as condições atuais e ideais. Segue a obra da vida.

Equipe tobata, Alan na selfie, faltou Bruna e Everton – sem esquecer de todo apoio de Jean e o mbaraeté de Ananda e Tatu e tantes outres que passaram por aqui, carregaram uma tábua, viraram uma pedra, capinaram, contribuíram no feitio dos alimentos e nas buenas vibras. Salve!

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