Vida boa http://vidaboa.redelivre.org.br Andarilhança por experiências de Bem Viver Sat, 18 Jul 2020 00:05:54 +0000 pt-BR hourly 1 A queda do céu: palavras de um xamã yanomami http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/07/16/a-queda-do-ceu-palavras-de-um-xama-yanomami/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/07/16/a-queda-do-ceu-palavras-de-um-xama-yanomami/#respond Fri, 17 Jul 2020 00:14:19 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3234 Trechos de A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 1ª edição.

 

Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o que queremos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se transformarem em Yanomami. Sei também que se formos viver em suas cidades, seremos infelizes. Então, eles acabarão com a floresta e nunca mais deixarão nenhum lugar onde possamos viver longe deles. Não poderemos caçar, nem plantar nada. Nossos filhos vão passar fome. Quando penso em tudo isso, fico tomado de tristeza e de raiva.

Os brancos se dizem inteligentes. Não o somos menos. Nossos pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas. Elas vêm de nossos antepassados. Porém, não precisamos, como os brancos, de peles de imagens para impedi-las de fugir da nossa mente. Não temos de desenhá-las, como eles fazem com as suas. Nem por isso elas irão desaparecer, pois ficam gravadas dentro de nós. Por isso nossa memória é longa e forte. O mesmo ocorre com as palavras dos espíritos xapiri, que também são muito antigas. Mas voltam a ser novas sempre que eles vêm de novo dançar para um jovem xamã, e assim tem sido há muito tempo, sem fim. (p. 75)

 

A imagem de Omama disse a nossos antepassados: “Vocês viverão nesta floresta que criei. Comam os frutos de suas árvores e cacem seus animais. Abram roças para plantar bananeiras, mandioca e cana-de-açúcar. Deem grandes festas reahu! Convidem uns aos outros, de diferentes casas, cantem e ofereçam muito alimento aos seus convidados!”. Não disse a eles: “Abandonem a floresta e entreguem-na aos brancos para que a desmatem, escavem seu solo e sujem seus rios!”. Por isso quero mandar minhas palavras para longe. Elas vêm dos espíritos que me acompanham, não são imitações de pele de imagens que olhei. Estão bem fundo em mim. Faz muito tempo que Omama e nossos ancestrais as depositaram em nosso pensamento e desde então nós as temos guardado. Elas não podem acabar. Se as escutarem com atenção, talvez os brancos parem de achar que somos estúpidos. Talvez compreendam que é seu próprio pensamento que é confuso e obscuro, pois na cidade ouvem apenas o ruído de seus aviões, carros, rádios, televisores e máquinas. Por isso suas ideias costumam ser obstruídas e enfumaçadas. Eles dormem sem sonhos, como machados largados no chão de uma casa. Enquanto isso, no silêncio da floresta, nós, xamãs, bebemos o pó das árvores yãkoana hi, que é o alimento dos xapiri. Estes então levam nossa imagem para o tempo do sonho. Por isso somos capazes de ouvir seus cantos e contemplar suas danças de apresentação enquanto dormimos. Essa é a nossa escola, onde aprendemos as coisas de verdade. (p. 76-77)

 

Quando o iniciando se aplica a responder aos xapiri, as imagens do sabiá yõrixiama e da árvore de cantos reã hi descem rapidamente a ele. Essas imagens nos emprestam suas gargantas e reforçam nossa língua. Desse modo, as palavras do canto dos espíritos aumentam depressa em nós, como num gravador. Bebemos yãkoana com os olhos cravados em sua dança de apresentação e perdemos todo o receio de cantar diante das pessoas de nossa casa. Foi isso mesmo que aconteceu comigo! (p. 149)

 

No começo, como outros, eu pensava que os xapiri moravam no peito dos xamãs. Mas estava errado, não é verdade. Suas casas não podem se situar tão perto da terra, ao alcance de nossa fumaça e de nossos fedores! Ficam noutro lugar, penduradas bem no peito do céu. Por isso os xapiri podem contemplar a floresta toda, por maior que seja. Das alturas em que estão, nada escapa a seus olhos, nem nos confins da terra e do céu. Na verdade, são as imagens deles, e as de seus espelhos, que moram no peito dos xamãs. Assim é. Uma casa de espíritos nada se assemelha a uma casa comum. Seus esteios imitam o interior do peito do xamã, o pai dos xapiri. As clavículas de seu torso são as vigas que sustentam o círculo do teto. Seus quadris são a base dos postes que a assentam no chão. Sua boca e garganta são a porta principal que conduzem a ela. Seus joelhos e cotovelos são clareiras-espelhos, onde os espíritos fazem uma parada antes de entrar.

Assim, se um xamã for muito magro e seu peito estreito demais, a casa de seus espíritos será apertada. Não poderão aumentar. Será preciso ampliá-la, rasgando-a para que novos xapiri possam nela se instalar. Casa de espíritos pequena demais não dá nada de bom. Precisa ser grande como uma montanha. Por isso, quando uma pessoa enfurecida quer insultar um xamã, dispara: “Seu peito é oco! Você diz que tem muitos espíritos mas é mentira. Você é fraco e sua casa de espíritos é estreita demais, atulhada e sombria!”. É também por isso que, quando o peito de um rapaz é amargo, salgado e enfumaçado, os xapiri o consideram sujo e se recusam a mudar-se para lá. Quando, ao contrário, o torso de um iniciando é largo, assim será sua casa de espíritos e os xapiri serão muito numerosos para vir dançar nela. E se o novo xamã for mesmo corpulento, ela será imensa, como o edifício das Nações Unidas. (p. 165)

 

As árvores da floresta e as plantas de nossas roças também não crescem sozinhas, como pensam os brancos. Nossa floresta é vasta e bela. Mas não o é à toa. É seu valor de fertilidade que a faz assim. É o que chamamos de në rope. Nada cresceria sem isso. O në rope vai e vem, como um visitante, fazendo crescer a vegetação por onde passa. Quando bebemos yãkoana, vemos sua imagem que impregna a floresta e a faz úmida e fresca. As folhas de suas árvores aparecem verdes e brilhantes e seus galhos ficam carregados de frutos. Vê-se também grande quantidade de pupunheiras rasa si, cobertas de pesados cachos de frutos, pendurados na parte de baixo de seus troncos espinhosos, e imensas plantações de bananeiras e pés de cana-de-açúcar. Esse valor de fertilidade da terra está ativo por toda parte. É ele que faz acontecer a riqueza da floresta e que, desse modo, alimenta os humanos e a caça. É ele que faz sair da terra todas as plantas e frutos que comemos. Seu nome é o de tudo o que prospera, tanto nas roças como na floresta. (p. 207)

 

Eu acredito, junto daqueles que conhecem essas regiões distantes, misteriosas e desertas, que, contanto que elas permaneçam no estado atual, ou seja, desprovidas de recursos e dominadas pelas ferozes hordas de Marakanãs, Kirishanas (Yanomami) e de tantos outros que as infestam, as solidões da Parima permanecerão inacessíveis aos homens civilizados e envoltas nos mistérios que a cercam até os dias de hoje.

F. X. Lopes de Araujo, 1984

Comissão Brasileira Demarcadora de Limites

(p. 222)

Nossos pais e avós desconfiavam dos brancos, e sempre temeram suas fumaças de epidemia. No entanto, jamais se preocuparam em saber o que os trouxera à nossa floresta. Não sabiam que tinham vindo para demarcar a fronteira do Brasil no meio de nossa terra. Mostraram-se hospitaleiros e amigáveis. Juntaram-se de bom grado para acompanhá-los, transportando sua comida e suas ferramentas de metal em grandes cestos cargueiros. Apenas observaram os forasteiros com curiosidade, enquanto abriam largas trilhas na mata e plantavam grandes pedras nas nascentes dos rios. Jamais teriam imaginado que, mais tarde, os filhos e netos daquela gente voltariam, tão numerosos, para tirar ouro dos rios e alimentar seu gado na floresta derrubada. Nunca pensaram que esses brancos um dia poderiam querer expulsá-los de sua própria terra. Ao contrário, uma vez passado o receio inicial, nossos antigos ficaram mais felizes com a visita daquela gente outra. Ao longo dos dias, examinavam atentamente as caixas cheias de facões e machados que tinham subido com eles o rio Demini. Um único pensamento ocupava então suas mentes: “A partir de agora, nunca mais vão nos faltar ferramental de metal!”. (p. 245)

 

Quando viram aqueles forasteiros pela primeira vez, nossos maiores acharam que fossem fantasmas. Ficaram com muito medo, e disseram a si mesmos: “Devem ser os fantasmas dos mortos que voltam entre nós!”. Mais tarde, entenderam que podia tratar-se dos ancestrais de Hayowari que Omama havia transformado em estrangeiros napë. Pensaram então que aqueles habitantes de terras longíquas deviam ter retornado à floresta por generosidade, para trazer suas mercadorias para os Yanomami, que não possuíam nenhuma. Hoje, ninguém mais pensa nada disso! Vimos os brancos espalharem suas epidemias e nos matarem com suas espingardas. Vimo-los destruírem a floresta e os rios. Sabemos que podem ser avarentos e maus e que seu pensamento costuma ser cheio de escuridão. Esqueceram que Omama os criou. Perderam as palavras de seus maiores. Esqueceram o que eram no primeiro tempo, quando eles também tinham cultura.

Omama depositou a espuma com a qual criou os antigos brancos muito longe de nossa floresta. Deu-lhes uma outra terra, distante, para nos proteger de sua falta de sabedoria. Mas eles copularam sem parar e tiveram mais e mais filhos. Então, foram tomados de euforia, fabricando um sem-número de mercadorias e máquinas. E acabaram achando sua própria terra apertada. Ainda guardavam de seus avós antigas palavras acerca dos habitantes de Hayowari e sua floresta. Então declararam a seus filhos: “Existe, bem longe, uma outra terra, muito bonita, onde há muito tempo Omama criou os nossos antepassados. Os habitantes da floresta dos quais se originaram ainda vivem lá. Não são outra gente diferente de nós!”. Tais palavras devem ter se espalhado entre os brancos de antigamente, já que acabaram atravessando o grande lago que os separava de nós. Navegaram nele durante várias luas, em grandes canoas. Escaparam do vendaval e dos seres maléficos que povoam o centro dessas águas. E, por fim, conseguiram retornar a esta terra do Brasil.

Contudo, as verdadeiras palavras de Omama já não existiam neles havia muito tempo. Foi seu irmão mau, Yoasi, criador da morte, que os conduziu até nós, como um pai guia seus filhos. Os ancestrais que os brancos chamam de portugueses eram mesmo filhos de Yoasi. Mal haviam chegado, já começaram a mentir aos habitantes da floresta: “Somos generosos, e somos seus amigos! Vamos lhes dar mercadorias e compartilhar nossa comida! Viveremos com vocês e ocuparemos esta terra juntos!”. Depois, conversaram entre eles e começaram a vir, cada vez mais numerosos, para a terra do Brasil. No começo, seduzidos pela beleza da floresta, mostraram-se amigos de seus habitantes. Em seguida, começaram a construir casas. Foram abrindo roças cada vez maiores, para cultivar seu alimento, e plantaram capim por toda parte, para o seu gado. Suas palavras começaram a mudar. Puseram-se a amarrar e a açoitar as gentes da floresta que não seguiam suas palavras. Fizeram-nas morrer de fome e cansaço, forçando-as a trabalhar para eles. Expulsaram-nas de suas casas para se apoderar de suas terras. Envenenaram sua comida, contaminaram-nas com suas epidemias. Mataram-nas com suas espingardas e esfolaram seus cadáveres com facões, como caça, para levar as peles para seus grandes homens. Os xamãs conheciam todas essas antigas palavras. Tinham-nas ouvido ao fazerem dançar a imagem desses primeiros habitantes da floresta.

Contam os brancos que um português disse ter descoberto o Brasil há muito tempo. Pensam mesmo, até hoje, que foi ele o primeiro a ver nossa terra. Mas esse é um pensamento cheio de esquecimento! Omama nos criou, com o céu e a floresta, lá onde nossos ancestrais têm vivido desde sempre. Nossas palavras estão presentes nesta terra desde o primeiro tempo, do mesmo modo que as montanhas onde moram os xapiri. Nasci na floresta e sempre vivi nela. No entanto, não digo que a descobri e que, por isso, quero possuí-la. Assim como não digo que descobri o céu, ou os animais de caça! Sempre estiveram aí, desde antes de eu nascer. Contento-me em olhar para o céu e caçar os animais da floresta. É só. E é esse o único pensamento direito. Antigamente, nossos maiores não ficavam se perguntando “será que os brancos existem?”. Como eu disse, seus xamãs já faziam descer a imagem dos ancestrais desses forasteiros muito antes de seus filhos chegarem até nós. As imagens dos antigos brancos dançavam para eles, que cantanvam e dançavam imitando suas palavras enroladas. As pessoas comuns escutavam essa língua de fantasma com curiosidade, e pensavam: “Gostaria muito de conhecer essa gente outra! Como serão? Será que vou poder vê-los um dia?”.

Nossos espíritos xapiri viajam para muito longe, até os confins da terra e do céu. Por isso nossos maiores também conheciam desde sempre o grande lago que os brancos atravessaram. Costumavam fazer dançar sua imagem com as dos seres da tempestade e dos redemoinhos que o povoam. […] De modo que nossos antigos xamãs já falavam dos brancos muito antes de eles nos encontrarem na floresta. Seus antepassados não descobriram esta terra, não! Chegaram como visitantes! Porém, logo depois de terem chegado, não pararam mais de devastá-la e de retalhar sua imagem em pedaços, que começaram a repartir entre si. Alegaram que estava vazia para se apoderar dela, e a mesma mentira persiste até hoje. Esta terra nunca foi vazia no passado e não está vazia agora! Muito antes de os brancos chegarem, nossos ancestrais e os de todos os habitantes da floresta já viviam aqui. Esta é, desde o primeiro tempo, a terra de Omama. Antes de serem dizimados pelas fumaças de epidemia, os nossos eram aqui muito numerosos. Naqueles tempos antigos, não havia motores, nem aviões, nem carros. Não havia óleo nem gasolina. Os homens, a floresta e o céu ainda não estavam doentes de todas essas coisas. (p. 251-253)

 

Uma multidão de brancos se agitava de um lado para o outro, gritando nomes de peixes – “Jaraqui! Curimatã! Tambaqui! Surubim! Tucunaré!” – e de frutas de palmeira – “Açaí! Bacaba! Buriti!”. Tudo isso para trocá-los por pedaços de papel velho. Naquele tempo, eu não sabia o que era dinheiro e ainda ignorava que sem isso não se podia comer nem beber na cidade. (p. 285)

 

Comecei a viajar para contar a todos os brancos como os garimpeiros transformavam nossos rios em lodaçais e sujavam a floresta com fumaças de epidemia. Nessas viagens, ouvi pela primeira vez outros índios defendendo suas terras com palavras firmes. Ao escutá-los, compreendi que não podia ficar mudo esperando que outros lutassem em meu lugar para proteger os meus. Meu pensamento ganhou firmeza e minhas palavras aumentaram. Resolvi falar como eles. De modo que foi ao ouvi-los que realmente aprendi a defender minha floresta. (p. 326)

 

[…] dizemos que os antigos brancos desenharam sua terra para retalhá-la. Primeiro cobriram-na de traços entrecruzados, formando recortes, e, no meio deles, pintaram manchas redondas. É assim que os xamãs podem vê-la. Esse traçado de linhas e pontos, como manchas de onça, parece deixá-la muito mais bonita. Porém, esses desenhos são em seguida colados num livro e aqueles que querem plantar sua comida nesses pedaços têm de devolver seu valor. Assim, os brancos alegam que esses desenhos de terra têm um preço, e é por isso que os trocam por dinheiro.

Omama não quis, no entanto, que o mesmo ocorresse com nossa floresta. Disse aos ancestrais dos brancos, quando os criou: “A terra das gentes da floresta não será desenhada. Permanecerá inteira. De outro modo, eles não poderão mais abrir nela suas roças ou caçar como quiserem e acabarão todos morrendo. Vocês podem dividir a terra que dei a vocês, mas fiquem longe da deles!”. Apesar dessas antigas palavras, o pensamento dos brancos permanece cheio de esquecimento. Eles não sabem sonhar e não sabem como fazer dançar as imagens de seus antepassados. Se as escutassem, elas os impediriam de invadir nossa terra. Seus chefes, ao contrário, não param de dizer: “Somos poderosos! Somos donos de toda a floresta. Que morram seus habitantes! Estão morando nela à toa, num solo que nos pertence!”. Esses brancos só pensam em cobrir a terra com seus desenhos, para fatiá-la e acabar nos dando apenas uns poucos pedaços, cercados por seus garimpos e plantações. Depois disso, satisfeitos, vão declarar: “Eis a sua terra. Fiquem satisfeitos, nós a estamos dando a vocês!”. […]

Mas os brancos não querem ouvir nossas palavras. Só pensam em tornar nossa terra tão nua e ardente quanto o descampado em volta de sua cidade de Boa Vista. Esse é o único pensamento deles quando olham para a floresta. Devem achar que nada pode acabar com ela. Estão enganados. Ela não é tão grande quanto lhes parece. Aos olhos dos xapiri, que voam além das costas do céu, ela parece estreita e coberta de cicatrizes. Traz nas bordas as marcas de queimadas dos colonos e dos fazendeiros e, no centro, as manchas da lama dos garimpeiros. Todos a devastam com avidez, como se quisessem devorá-la. Os xamãs estão vendo que ela sofre e que está doente. Tanta destruição nos deixa muito preocupados. Tememos que a floresta acabe revertendo ao caos e aniquilando os humanos, como ocorreu no primeiro tempo. (p. 327-328)

 

Os brancos talvez pensem que pararíamos de defender nossa floresta caso nos dessem montanhas de suas mercadorias. Estão enganados. Desejar suas coisas tanto quanto eles só serviria para emaranhar nosso pensamento. Perderíamos nossas próprias palavras e isso nos levaria à morte. Foi o que sempre ocorreu, desde que nossos antigos cobiçaram as suas ferramentas pela primeira vez, há muito tempo. Essa é a verdade. Recusamo-nos a deixar que destruam nossa floresta porque foi Omama que nos fez vir à existência. Queremos apenas continuar vivendo nela do nosso jeito, como fizeram nossos ancestrais antes de nós. Não queremos que ela morra, coberta de feridas e dejetos dos brancos. Ficamos com raiva quando nossas mulheres, filhos e idosos morrem sem parar de fumaça de epidemia. Não somos inimigos dos brancos. Mas não queremos que venham trabalhar em nossa floresta porque não têm como nos compensar o valor do que aqui destroem. É o que penso.

Eu não sei fazer contas como eles. Sei apenas que a terra é mais sólida do que nossa vida e que não morre. Sei também que ela nos faz comer e viver. Não é o ouro, nem as mercadorias, que faz crescer as plantas que nos alimentam e que engordam as presas que caçamos! Por isso digo que o valor de nossa floresta é muito alto e muito pesado. Todas as mercadorias dos brancos jamais serão suficientes em troca de todas as suas árvores, frutos, animais e peixes. As peles de papel de seu dinheiro nunca bastarão para compensar o valor de suas árvores queimadas, de seu solo ressequido e de suas águas emporcalhadas. Nada disso jamais poderá ressarcir o valor dos jacarés mortos e dos queixadas desaparecidos. Os rios são caros demais e nada pode pagar o valor dos animais de caça. Tudo o que cresce e se desloca na floresta ou sob as águas e também todos os xapiri e os humanos têm um valor importante demais para todas as mercadorias e o dinheiro dos brancos. Nada é forte o bastante para poder restituir o valor da floresta doente. Nenhuma mercadoria poderá comprar todos os Yanomami devorados pelas fumaças de epidemia. Nenhum dinheiro poderá devolver aos espíritos o valor de seus pais mortos!

É por isso que devemos nos recusar a entregar nossa floresta. Não queremos que se torne uma terra nua e árida cortada por córregos lamacentos. Seu valor é alto demais para ser comprada por quem quer que seja. Omama disse a nossos ancestrais para viverem nela, comendo seus frutos e seus animais, bebendo a água de seus rios. Nunca disse a eles para trocarem a floresta e os rios por mercadoria ou dinheiro! Nunca os ensinou a mendigar arroz, peixe em lata de ferro ou cartuchos! O sopro de nossa vida vale muito mais! Para saber disso, não preciso ficar com os olhos cravados em peles de imagens, como fazem os brancos. Basta-me beber yãkoana e sonhar escutando a voz da floresta e os cantos dos xapiri. (p. 355)

 

O povo de vocês gostaria de receber informações sobre como cultivar a terra?”

Não. O que eu desejo obter é a demarcação de nosso território.”

Diálogo entre o general R. Bayma Denys e Davi Kopenawa,

durante audiência com o presidente José Sarney, 19 abr. 1989

(p. 376)

Depois de Manaus e Brasília, conheci São Paulo. Foi a primeira vez que viajei tão longe por cima da grande terra do Brasil. Compreendi então o quanto é imenso o território dos brancos para além de nossa floresta e pensei: “Eles ficam agrupados numas poucas cidades espalhadas aqui e ali! Entre elas, no meio, é tudo vazio! Então por que querem tanto tomar nossa floresta?”. Esse pensamento não parou mais de voltar em minha mente. Acabou por fazer sumir o que restava do meu medo de falar! Tornou minhas palavras mais sólidas e lhes permitiu crescer cada vez mais. De modo que eu costumava declarar aos brancos que me escutavam: “Suas terras não são realmente habitadas! Seus grandes homens resguardam-nas com avareza, para mantê-las vazias. Não querem ceder nem um pedaço delas a ninguém. Preferem mandar sua gente esfomeada comer nossa floresta!”. E acrescentava: “No passado, muitos dos nossos morreram por causa das doenças de vocês. Hoje, não quero que nossos filhos e netos morram da fumaça do ouro! Mandem os garimpeiros embora de nossas terras! São seres maléficos, de pensamento obscuro. Não passam de comedores de metal cobertos de epidemia xawara. Vamos acabar por flechá-los e, se for assim, muitos ainda vão morrer na floresta!”. Era difícil. Eu tinha de dizer tudo isso numa fala que não é minha! Contudo, movida pela revolta, minha língua ia ficando mais ágil e minhas palavras menos enroladas. Muitos brancos começaram a conhecer meu nome e quiseram me escutar. Incentivaram-me, dizendo que achavam bom que eu defendesse a floresta. Isso me deixou mais confiante. Alegrava-me que eles me entendessem e se tornassem meus amigos. Naquela época, falei muito nas cidades. Achava que se os brancos pudessem me ouvir, acabariam convencendo o governo a não deixar saquear a floresta. Foi com esse único pensamento que comecei a viajar para tão longe de casa. (p. 387-388)

 

Quando eu era mais jovem, costumava me perguntar; “Será que os brancos possuem palavras de verdade? Será que podem se tornar nossos amigos?”. Desde então, viajei muito entre eles para defender a floresta e aprendi a conhecer um pouco o que eles chamam de política. Isso me fez ficar mais desconfiado! Essa política não passa de falas emaranhadas. São só as palavras retorcidas daqueles que querem nossa morte para se apossar de nossas terras. Em muitas ocasiões, as pessoas que as proferem tentaram me enganar dizendo: “Sejamos amigos! Siga o nosso caminho e nós lhe daremos dinheiro! Você terá uma casa, e poderá viver na cidade, como nós!”. Eu nunca lhes dei ouvidos. Não quero me perder entre os brancos. Meu espírito só fica mesmo tranquilo quando estou rodeado pela beleza da floresta, junto dos meus. Na cidade, fico sempre ansioso e impaciente. Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. Ficam tomados de vertigem, pois não param de devorar a carne de seus animais domésticos, que são os genros de Hayakoari, a anta que faz a gente virar outro. Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e enfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mesmos. Seus pensamento permanece obstruído e eles dormem como antas ou jabutis. Por isso não conseguem entender nossas palavras. (p. 390)

 

Os antepassados dos brancos não cuidaram da floresta em que vieram à existência como os nossos. Cortaram quase todas as suas árvores para abrir roças imensas. Vi com meus olhos o pouco que dela resta, como pequenas manchas, aqui e ali. No entanto, Omama lhes havia ensinado a construir casas de pedra, para evitar desmatar tudo. Havia dito a eles: “Os postes de madeira apodrecem e devem ser sempre trocados. Cortem grandes rochas e plantem-nas no chão para construir suas habitações. Assim, só trabalharão uma vez e pouparão as árvores que lhes dão seus frutos e cujas flores alimentam as abelhas!”. Esses antigos forasteiros começaram a entalhar as rochas com seus machados. Depois de um tempo ficaram mais engenhosos. Fabricaram ferramentas para cortar pedras menores e misturaram um barro que, ao secar, endurece e as cola umas às outras. Conseguiram construir casas de pedra cada vez mais sólidas. Ficaram satisfeitos com elas e então tiveram a ideia de desenhar a terra em torno de cada uma delas. Então descobriram a beleza das mercadorias e puseram-se a fabricá-las sem parar. Aí elas aumentaram tanto que tiveram de construir novas habitações para guardá-las e distribuí-las. Edificaram-nas também para acumular e esconder o alimento de suas roças. Quando essas casas de pedra proliferaram, ligaram umas às outras com caminhos emaranhados e deram a tudo isso o nome de “cidade”. Foi assim que a floresta desapareceu aos poucos de sua terra, com os animais que nela moravam. Mantiveram apenas alguns animais vivos e os cercaram com estacas. Guardaram outros, mortos, em caixas de vidro, para que seus filhos pudessem contemplá-los como lembranças. Muito longe de minha casa, era nisso tudo que eu pensava ao andar nas cidades dos antigos brancos. Pela primeira vez, via sua terra com meus próprios olhos. Então, passeava por toda parte, sem dizer uma palavra, observando com atenção as casas e as pessoas. Meus pensamentos se estendiam sem parar em todas as direções. Eu queria muito compreender o que via! (p. 404-405)

 

O que fazem os brancos com todo esse ouro? Por acaso, eles o comem?

Davi Kopenawa

Tribunal permanente dos povos sobre

a Amazônia brasileira, Paris, 13 out. 1990

(p. 407)

Também pude ver, no museu daquela cidade, machados de pedra com os quais os antigos habitantes da floresta abriam suas roças, anzóis de ossos de animais que usavam para pescar, os arcos com os quais caçavam, as panelas de barro em que cozinhavam sua caça e braçadeiras de algodão que teciam. Deu-me muita pena ver todos aqueles objetos abandonados por antigos que se foram há tanto tempo. Mas sobretudo vi lá, em outras caixas de vidro, cadáveres de crianças com a pele enrugada. Tudo isso acabou me deixando furioso. Pensei: “De onde vêm esses mortos? Não seriam os antepassados do primeiro tempo? Sua pele e ossos ressecados dão dó de ver! Os brancos só tinham inimizade com eles. Mataram-nos com suas fumaças de epidemia e suas espingardas para tomar suas terras. Depois guardaram seus despojos e agora os expõem aos olhos de todos! Que pensamento de ignorância!”. Aí, de repente, comecei a falar de modo duro com os brancos que me acompanhavam: “É preciso queimar esses corpos! Seus rastros devem desaparecer! É mau pedir dinheiro para mostrar tais coisas! Se os brancos querem mostrar mortos, que moqueiem seus pais, mães, mulheres ou filhos, para expô-los aqui, em lugar de nossos ancestrais! O que eles pensariam se vissem seus defuntos exibidos assim diante de forasteiros?”. […] O mesmo vale para todos esses despojos e ossadas de animais. São ancestrais animais cujas imagens os xamãs faziam dançar.  Eles também não devem ser maltratados assim.

[…]

Antigamente, toda a terra do Brasil era ocupada por povos como o nosso. Hoje, está quase vazia de nossa gente e o mesmo acontece no mundo inteiro. Quase todos os povos da floresta desapareceram. Os que ainda existem, aqui e ali, são apenas o resto dos muitos que os brancos mataram antigamente para roubar suas terras. Depois, com a testa ainda cheia da gordura desses mortos, esses mesmos brancos se apaixonaram pelos objetos cujos donos tinham matado como se fossem inimigos! E desde então, guardam-nos fechados no vidro de seus museus, para mostrar a seus filhos o que resta daqueles que seus antigos fizeram morrer! Mas essas crianças, quando crescerem, vão acabar perguntando para seus pais: “Hou! Esses objetos são muito bonitos, mas por que vocês destruíram seus donos?”. Então, eles só poderão responder: “Ma! Se essa gente ainda estivesse viva, estaríamos pobres! Estavam atrapalhando! Se não tivéssemos tomado sua floresta, não teríamos ouro!”. Porém, apesar de tudo isso, os brancos não se incomodam nem um pouco em exibir os despojos daqueles que mataram! Nós nunca faríamos uma coisa dessas! (p. 427-429)

Afinal, depois de ver todas as coisas daquele museu, acabei me perguntando se os brancos já não teriam começado a adquirir também tantas de nossas coisas só porque nós, Yanomami, já estamos começando também a desaparecer. Por que ficam nos pedindo nossos cestos, nossos arcos e nossos adornos de penas, enquanto os garimpeiros e fazendeiros invadem nossa terra? Será que querem conseguir essas coisas antecipando a nossa morte? Será que depois vão querer levar também nossas ossadas para suas cidades? Uma vez mortos, vamos nós ser expostos do mesmo modo, em caixas de vidro de algum museu? Foi o que tudo aquilo me fez pensar. Disse a mim mesmo que se damos aos brancos nossas braçadeiras de mutum e nossos adornos de rabos de tucano, nossa tinta de urucum, nossas aljavas e nossas flechas, aos poucos perderemos nossa beleza e nos tornaremos maus caçadores. Nossos ornamentos de penas de arara, papagaio e de cujubim, nossos despojos de galo-da-serra e de pássaro sei si são bens preciosos, que pertencem à gente das águas. Quando os levam embora consigo, os brancos capturam também as imagens desses animais e as guardam presas bem longe da floresta. É isso que vai acabar nos fazendo ficar feios e panema. (p. 429)

 

Ter conhecido as terras dos antigos brancos durante minhas viagens me deixou pensativo. Com certeza, suas cidades são belas de ver, mas, por outro lado, a agitação de seus habitantes é assustadora. Trens correm o tempo todo debaixo da terra, carros no chão coberto de cimento e aviões atravessam sem trégua o céu encoberto. As pessoas vivem amontoadas umas em cima das outras e apertadas, excitadas como vespas no ninho. Tudo isso causa tontura e obscurece o pensamento. O barulho contínuo e a fumaça que cobre tudo impedem de pensar direito. Deve ser mesmo por isso que os brancos não conseguem nos ouvir! (p. 435)

 

Para mim, não é nada agradável viver na cidade. Meu pensamento lá fica irrequieto e meu peito apertado. Não durmo bem, só como coisas estranhas e vivo com medo de ser atropelado por um carro! Nunca consigo pensar com calma. É um lugar que realmente provoca muita aflição. Os brancos pedem dinheiro para tudo o tempo todo, até para beber água e urinar! Aonde quer que se vá, há uma multidão de gente que se apressa para todos os lados sem que se saiba por quê. Anda-se depressa no meio de desconhecidos, sem parar e sem falar, de um lugar para outro. A vida dos brancos que se agitam assim o dia todo como formigas xiri na parece triste. Eles estão sempre impacientes e temerosos de não chegar a tempo a seus empregos ou de serem despedidos. Quase não dormem e correm sonolentos durante o dia todo. Só falam de trabalho e do dinheiro que lhes falta. Vivem sem alegria e envelhecem depressa, sempre atarefados, com o pensamento vazio e sempre desejando adquirir novas mercadorias. Então, quando seus cabelos ficam brancos, eles se vão e o trabalho, que não morre nunca, sobrevive sempre a todos. Depois, seus filhos e netos continuam fazendo a mesma coisa. (p. 436)

 

Acho que vocês deveriam sonhar a terra, pois ela tem coração e respira.

Davi Kopenawa

Entrevista a F. Watson (Survival Internacional)

Boa Vista, jul. 1992

Nossos pais e avós não puderam fazer os brancos ouvirem suas palavras sobre a floresta, porque não sabiam sua língua. E eles, quando começaram a chegar às casas dos nossos antigos, ainda não falavam de ecologia! Estavam mais ansiosos para pedir peles de onça, queixada e veado a eles! Naquela época, os brancos não possuíam nenhuma dessas palavras para proteger a floresta. Elas surgiram nas cidades há pouco tempo. Finalmente, seus habitantes devem ter pensado: “Hou! Sujamos nossa terra e nossos rios, e nossa floresta está diminuindo! É preciso proteger o pouco que nos resta dando-lhe o nome de ecologia!”. Acho que eles ficaram com medo por terem devastado tanto os lugares em que vivem. No começo, quando eu era bem jovem, nunca ouvi os brancos falarem em proteger a natureza. Foi muito mais tarde, quando fiquei bravo e comecei a discursar contra os garimpeiros e suas epidemias, que essas novas palavras chegaram de repente a meus ouvidos. Acho que, no Brasil, foi Chico Mendes que as espalhou por toda parte, poisas ouvi pela primeira vez quando os brancos começaram a falar muito dele. Naquela época, mostraram-me muitas vezes sua imagem em peles de papel. Então, pensei: “Deve ter sido esse branco que refletiu com sabedoria e revelou essas novas palavras da ecologia!”. Antes, a gente das cidades não se preocupava com a floresta. Nunca falavam nela e não temiam que ela pudesse ser destruída.

Chico Mendes era branco, mas cresceu, como nós, no meio da floresta. Ele se recusava a derrubar e queimar todas as árvores. Para viver, apenas tirava um pouco de sua seiva. Tinha se tornado amigo da floresta e amava sua beleza. Queria que ela ficasse tal como havia sido criada. Sonhava com ela sem parar e se afligia ao vê-la sendo devorada pelos grandes fazendeiros. Com certeza foi assim que acabaram vindo a ele novas palavras para defendê-la. Quem sabe a imagem de Omama as colocou em seu sonho? Deitado na rede, à noite, deve ter pensado: “Haixopë! A floresta nos dá comida em seus frutos, seus peixes, sua caça e as plantas de suas roças. Tenho de falar duro com os outros brancos e impedir que eles a destruam! Vou me opor à gente que quer desmatá-la e queimá-la; vou lutar com as palavras da ecologia!”. Quando me contaram pela primeira vez o que ele dizia, logo pensei: “Esse homem é mesmo sábio! Seu sopro de vida e seu sangue se parecem com os nossos. Será que ele é genro de Omama como nós?”. Então, tive vontade de falar com ele, mas logo antes de poder encontrá-lo, os brancos comedores de floresta o assassinaram numa emboscada. Eu mal tinha escutado suas palavras e ele já estava morto por causa delas! Eu nunca tinha ouvido um branco dizer coisas como aquelas! O que ele afirmava a respeito da floresta era verdadeiro e bonito. Meu pensamento estava pronto para receber suas palavras e logo respondeu a elas. Graças a elas entendi melhor como me dirigir aos habitantes das cidades para defender nossa terra. Acho que as palavras de sabedoria de Chico Mendes não desaparecerão, pois após a sua morte elas se propagaram no pensamento de muitas outras pessoas, assim como eu. (p. 480-481)

 

Quando subi o rio Catrimani, vi, a jusante, os lugares onde se instalaram os caçadores e pescadores brancos que também não param de invadir nossa floresta. Com a Funai e a Polícia Federal, várias vezes paramos as canoas deles no rio, para confiscar peles de onça e de ariranha. Também os obrigamos a jogar na água todas as tartarugas que tinham capturado. Seus olhos ficavam furiosos, mas eles não protestavam, porque tinham medo da polícia. Eu ainda não conhecia bem os brancos naquela época. Mas entendi que aqueles que eu acompanhava queriam mesmo proteger os animais e as árvores da floresta. Era a primeira vez que eu ouvia aquelas palavras. Elas me fizeram refletir. Comecei a pensar: “Haixopë! Vou eu também defender os animais, para que não desapareçam! Eles são, como nós, habitantes da floresta, e não são tão numerosos assim. Se deixarmos os brancos caçarem em nossa terra, nossos filhos logo estarão chorando de fome de carne! Eles estão dizendo a verdade! As árvores da floresta são bonitas e seus frutos são nosso alimento. Dá dó vê-las sendo derrubadas de modo desmesurado!”. Após essa viagem, o tempo passou e eu me tornei um homem adulto. Minhas ideias sobre a floresta continuaram caminhando, até eu ouvir, bem mais tarde, as palavras de Chico Mendes. Foi assim que eu aprendi a conhecer as palavras dos brancos sobre o que chamam de natureza. Meu pensamento tornou-se mais claro e mais elevado. Ele se ampliou. Entendi então que não bastava proteger apenas o lugarzinho onde moramos. Por isso decidi falar para defender toda a floresta, inclusive a que os humanos não habitam e até a terra dos brancos, muito longe de nós. Tudo isso, em nossa língua, é urihi a pree – a grande terra-floresta. Acho que é o que os brancos chamam de mundo inteiro. (p. 482)

 

Depois de os relatos da ecologia terem surgido nas cidades, nossas palavras sobre a floresta puderam ser ouvidas pela primeira vez. Os brancos começaram a me escutar e a dizer e a pensar: “Haixopë! Então é verdade: os ancestrais dos habitantes da floresta já possuíam a ecologia!”. Depois disso, nossas falas puderam se espalhar muito longe de nossas casas, desenhadas em peles de imagens ou capturadas nas da televisão. Por isso nossos pensamentos já não estão tão escondidos como antes. Antigamente éramos tão invisíveis para os brancos quanto os jabutis no solo da floresta. Não tinham nem ouvido nosso nome. Agora não é mais assim. Ainda jovem, decidi partir para longe de casa, para fazer nossas palavras saírem do silêncio da floresta. No começo, não sabia grande coisa. Contudo, bebendo o pó de yãkoana e me tornando xamã, minha imagem viajou com os espíritos da floresta e, assim, adquiri mais conhecimento. Com eles, entendi que nossa terra pode ser destruída pelos brancos. Então, decidi defendê-la e pensei: “Bem! Agora que os brancos inventaram suas palavras de ecologia, não devem se contentar em repeti-las à toa para fazer delas novas mentiras. É preciso proteger de fato a floresta e todos os que nela vivem: os animais, os peixes, os espíritos e os humanos!”. Sou filho dos primeiros habitantes da floresta, e essas palavras tornaram-se minhas. Agora quero dá-las a ouvir aos brancos, para que também sejam impregnados por elas. (p. 483)

 

Por que continuo a lutar? Porque estou vivo!

Davi Kopenawa, depoimento à

American Anthropological Association

(Turner e Kopenawa, 1991, p. 63)

(p. 499)

Foi só depois de ter bebido o pó de yãkoana por muito tempo que pude conhecer a imagem de todas essas coisas. É desse modo, como eu disse, que os habitantes da floresta estudam, virando espíritos. Os brancos são outra gente. A yãkoana não é boa para eles. Se começarem a beber sozinhos, os xapiri, chateados, só vão emaranhar seus pensamentos e a barriga deles vai cair de medo. A imagem da yãkoana só tem amizade por quem nasceu na floresta. (p. 499)

 

Os brancos se espantam quando nos veem virando espírito com a yãkoana. Acham que ficamos doidos e cantamos sem motivo, como eles, quando viram fantasmas com sua cachaça. No entanto, se entendessem nossa língua e se se dessem ao trabalho de se perguntar “O que esses cantos querem dizer? De que floresta falam?”, quem sabe acabariam entendendo as palavras que os xapiri nos trazem de onde vêm, dos confins da terra, das costas do céu e do mundo subterrâneo. Mas, como sempre, os brancos preferem ficar surdos, porque se acham muito espertos com suas pele de papel, suas máquinas e suas mercadorias. Para nós xamãs, ao contrário, o valor desses objetos é curto demais para fixar nosso pensamento. O que os espíritos nos ensinam tem muito mais peso e força do que todo o dinheiro dos brancos. O valor de seus cantos é realmente muito alto. Somos capazes de levantar a terra e o céu? Não? Pois essa é a medida de seu peso! São as antigas palavras de Omama. O que vocês chamam de futuro, para nós, é isso. É pensar que nossos filhos e genros, e depois seus filhos e seus netos, irão se tornar xamãs em nosso lugar e caberá a eles fazer com que as palavras dos xapiri sejam ouvidas na floresta. Continuando a fazer com que sejam sempre renovadas, vão impedir que elas desapareçam e, se os brancos não nos matarem todos e não emaranharem nosso pensamento para valer, vão continuar a se estender sem fim. (p. 505-506)

 

Pós Scriptum – Bruce Albert:

O pacto etnográfico

O etnógrafo iniciante costuma ser um jovem forasteiro fora do comum. A constância com que suporta as provações físicas, a humildade e a tenacidade de sua vontade de aprender, em mencionar o estranho distanciamento que exibe em relação ao próprio mundo, acabam por atrair alguma simpatia de seus anfitriões (nunca isenta de um misto sutil de compaixão e ironia). A partir dessas provas de boa vontade amigável, a disponibilidade generosa dos remédios e mercadorias desse visitante incomum, longe das relações paternalistas de exploração da fronteira, acaba convencendo os mais céticos de seu caráter excepcional entre seus congêneres.  Ao cabo de um tempo de observação, a natureza das relações que seus supostos “informantes” têm com ele começa tomar outros contornos. Conforme ganham confiança, começam a avaliar sua aptidão para servir de intermediário, a favor deles, na comunicação entre os dois mundos. Agora com algum crédito, o etnógrafo aprendiz estabelece com eles – sem saber ou sem querer saber – um pacto implícito. O “material etnográfico” registrado a partir de então é ao mesmo tempo o alicerce e o produto desse pacto.

Ao lhe oferecerem seu saber, os anfitriões do etnógrafo aceitam a incumbência de ressocializá-lo numa forma que lhes parece mais adequada à condição humana. Contudo, para além da cumplicidade ou empatia que o estranho noviço possa ter inspirado, a transmissão visa antes de tudo, para além de sua pessoa, o mundo do qual ele jamais deixa de ser um representante, queira ele ou não. De fato, em seus esforços pedagógicos, seus anfitriões têm por objetivo primeiro tentar reverter, tanto quanto possível, a troca desigual subjacente à relação etnográfica. De modo que os ensinamentos de nossos supostos “informantes” são dispensados por razões de ordem principalmente diplomática. Sua paciente educação se aplica, em primeiro lugar, a nos fazer passar da posição de embaixador improvisado de um universo ameaçador ao papel de tradutor benevolente, capaz de fazer ouvir nele sua alteridade e eventualmente possibilitar alianças. (p. 521)

 

Nós, Yanomami, defendemos a terra-floresta e suas montanhas.

Queremos que continue com saúde e inteira.

Queremos também que Yanomami e branco vivam sem

brigar nem guerrear por causa da terra, do ouro, dos minérios. Queremos

que todos possam permanecer vivos juntos por muito e muito tempo. 

(p. 537)

[…] Davi Kopenawa com frequência remete, em discurso direto ou indireto, aos ensinamentos de dois grandes xamãs que foram seus principais mestres. Em primeiro lugar, o segundo marido de sua mãe, já falecido, que o criou em Toototobi desde o seu nascimento e que foi o primeiro a perceber e incentivar sua vocação. Seu segundo mentor é o pai de sua esposa, que o iniciou em Watoriki e sob cuja orientação ele elaborou toda a sua crítica xamânica ao mundo dos brancos. Este último, personagem discreto mas recorrente do livro, teve um papel absolutamente determinante no impulso criativo do discurso profético de Davi Kopenawa diante da corrida do ouro em Roraima. No decorrer de suas sessões daquela época, os dois abriram juntos um espaço interpretativo em que se fundiram o saber xamânico de um e as competências etnopolíticas do outro. Essa aliança deu origem a um discurso cosmoecológico cuja potência poética e política sustentou de modo determinante, desde o final da década de 1980, o processo de expulsão dos garimpeiros da terra yanomami, bem como a campanha em favor da sua demarcação e homologação. Nessa medida, o sogro de Davi […] pode ser realmente considerado um dos coautores deste livro. (p. 539)

Além do persistente interesse dos garimpeiros pelas terras altas da região central do território yanomami – indexado ao mercado mundial de onça-troy de ouro -, outras atividades econômicas existentes ou potenciais (colonização agrícola, atividade agropecuária, exploração florestal ou extração industrial de minérios) podem representar, a médio ou longo prazo, sérias ameaças à integridade dos Yanomami e da floresta tropical em que vivem e que desejam preservar. Assim, apesar de ter sido oficialmente homologada em 1992, quase 55% da Terra Indígena Yanomami já é objeto de mais de seiscentos pedidos ou concessões de prospecção mineral registrados junto ao Ministério de Minas e Energia, feitos por empresas públicas e privadas, nacionais e multinacionais. Ademais, os projetos de colonização agrícola implantados no limite leste do território yanomami a partir de 1978 por agências federais e depois regionais – amplificados por um grande movimento de ocupação espontânea – geraram uma dinâmica de povoamento e desmatamento que já atingiu os limites da floresta ao seu redor (caça, pesca e extração de madeira), os colonos, ao recorrerem a derrubadas e queimadas em grande escala numa região onde as estações secas têm sido cada vez mais acentuadas, podem provocar, como ocorreu em 1998 e em 2003, imensos incêndios que afetam de modo duradouro sua biodiversidade. (p. 563)

– uma nota de rodapé que me interessou:

Ũũxi (“o interior”) designa a sede dos componentes da pessoa, por oposição ao invólucro corporal (“a pele”), siki. A expressão xi wãri- (literalmente “tornar-se ruim”) se refere às transformações míticas e a toda espécie de mudança de forma/identidade (“metamorfosear-se, perder a própria forma, retornar ao caos” e também “perder o juízo, estar fora de si”). Tem por sinônimo në aipëi, “tornar-se outro/assumir valor de outro”. Significa também, no sentido literal, “enredar-se, tornar-se inextricável, não mais cessar (estado ou ação), ficar bloqueado”. Note-se aqui que o xamanismo noturno, associado aos sonhos, é parte fundamental do xamanismo yanomami. A iniciação e o trabalho xamânico parecem dominar a produção onírica dos xamãs, cujos sonhos são, assim, constituídos principalmente de restos alucinatórios do xamanismo diurno (ver cap. 22). Finalmente, o uso do pó de yãkoana e os sonhos permitem igualmente aos xamãs ter acesso ao tempo mítico, que continua transcorrendo imutavelmente, num eterno presente das origens, enquanto “outra cena” do tempo histórico (o das migrações e das guerras). (p. 616)

 

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Jeca http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/07/07/jeca/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/07/07/jeca/#respond Tue, 07 Jul 2020 16:33:07 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3230 Na roça
os tempos
são outros
– e como gosto
que seja assim.

Na estrada de terra
não correm os carros.

Nas trilhas
de andar a pé
e saltar pedras
se encontram:

asas de borboleta
grande mãe Figueira
duas bruxas tortas
canto de cachoeira
gruta de reza
pena de pássaro
e até mesmo
versos simples
como sapo.

Leva tempo.
Ás vezes
toda
a
eternidade.

Leva o tempo
pro seu lugar
morada dos ciclos
e das estrelas
livre de dígitos
e de ponteiros
onde a existência
se goza inteira.

O que fiz hoje?

Chuva chuveu
fumaça
lenha
petynguá
petyn, tabaco
paciente preparo
lentilha
bolo de fubá
auto-cuidados
ásanas
moxa

compartir
o pão
o tempo
a vida
a broa.

E a existência
escorre
nem lenta
nem rápida.

Você planta
a semente
no dia seguinte
vai ver
nada diferente!

Mas no seio
da terra
todo um parto
acontece
até que
um belo dia
germina!
– o broto
aparece.

 

– poesia de Vida Boa – vidaboa.redelivre.org.br
– imagem do plantio coletivo de milho agroecológico Mbya Guarani no @canto_da_saracura. Broto de avaxi eté <3

 

Porque sem poesia não dá!

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Devaneios de quarentena: eclipse solar em tempos de pandemia http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/06/13/devaneios-de-quarentena-eclipse-solar-em-tempos-de-pandemia/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/06/13/devaneios-de-quarentena-eclipse-solar-em-tempos-de-pandemia/#comments Sat, 13 Jun 2020 22:51:29 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3221 A imagem pode conter: noite

Esse eclipse solar não será total e nem poderemos ver desde esse continente, mas como tantas coisas na vida que não podemos ver, vai acontecer, e podemos sentir e sonhar

 

Esse ano vai ter eclipse solar no solstício de inverno. Um eclipse solar no solstício de inverno!!

Cultura ocidental que não entende muita coisa de ciclos diz que aí começa o inverno, mas na verdade é o ápice. O dia em que Sol e Terra estão mais distantes – no caso, no hemisfério Sul, devido ao eixo de rotação da Terra, que é inclinadinho, e fico pasma como a maioria das pessoas não tem a mínima noção dessas coisas e parece que nem quer ter. O que essa sociedade considera relevante ou não realmente me pasma – e me fala muito da falta de sentido dela.

Eclipses vistos desde esse planetinha rolam sempre quando Sol, Lua e Terra se alinham. O eclipse solar é quando a Lua está entre a Terra e o Sol, e o lunar quando a Terra está entre Lua e Sol e a Terra projeta sua sombra sobre a Lua. Entendi essas coisas, inclusive as fases da lua e porque a vemos como a vemos em suas distintas fases, num livro que fala de iluminação e fotografia, veja só. A Lua como um grande refletor (tipo os isopores usados pela galera de foto e vídeo) da potente lâmpada, o Sol, e nós aqui na Terra do ponto de vista da câmera. A informação de que a Lua cheia no inverno faz a mesma trajetória do Sol no verão e vice versa também é fascinante, mas isso eu ainda não entendi porque. Aos poucos, descolonizando.

O causo é que nessa data, o solstício de inverno, povos andinos comemoram a volta do Pai Sol, Tata Inti – apesar de que ouvi críticas desiludidoras na Bolivia de que a celebração conhecida como Inti Raymi seria uma invenção recente. Sempre é mais fácil se iludir e romantizar estando longe… Mas não se pode negar, tendo em consideração o ciclo da vida nesse planetinha, o sentido de celebrar solstícios e equinócios, presente em tantas culturas. Celebram essas datas porque se relacionam com a Terra, com a Vida. Sabem, e se importam em saber, que há momento que chove mais, há momento em que está mais seco, há o tempo propício pra plantar, pra colher, pra estar mais ativa, pra estar mais introspectiva. E que é preciso se relacionar conscientemente com essas forças. A dança cósmica da vida vivida desde essa Terra.

E agora que eu vou chegar no ponto que motiva essa reflexão, hehe, não é à toa que resolvi chamar de devaneios, mas é que a vida é assim, entrelaçada como as raízes, e as raízes de diferentes plantas se conectam entre si por redes incomensuráveis de fungos, e sim, no fim das contas tudo está interconectado (se é que em meio aos constantes milagres que denominamos vida se possa falar de contas e de um fim).

Um eclipse solar no dia em que o Sol está mais longe e volta a se aproximar, o dia da “volta do Pai Sol”! Diz tanto do tempo em que vivemos. No dia de celebrar o retorno da luz e do calor, ela é sombreada, eclipsada. Não vai dar pra ver daqui deste continente. Mas vai acontecer. Tanta coisa que a gente não consegue ver mas influencia a gente. A gente sente. Sonha. Como estão seus sonhos em tempos de pandemia?

Um pai teve a cruz que fincou pelo filho que não pode velar arrancada pela ignorância de gente truculenta que invade hospitais teleguiados pelo seu líder grotesco. Gente que parece que teve a consciência abduzida. Aliás, não teve né. Seria mais fácil pensar que sim. Mas é só o novo fruto da ignorância de um modo de viver ignorante, que se perpetua.

E essa noite quem acompanhou as notícias dormiu (ou não) com o temor de mais um golpe militar na América Latina… Será que não aprenderam nada? Será que não aprendemos nada? Não se tem memória? Insistem em apagá-la. Esconder os corpos. Não se pode nem contar os mortos. As Mães da Praça de Maio na Argentina, as mulheres do Chile no documentário genial Nostalgia de la Luz, que buscam corpos dos seus entes queridos jogados pela ditadura de Pinochet no deserto do Atacama. As muitas formas de ditadura, mesmo onde dizem que há democracia – as Mães de Maio da periferia paulistana que passaram a se organizar em 2006 pelas mortes de seus filhos e filhas, em suas maioria negros e negras, pelas mãos da polícia, pelas mãos de um Estado supostamente democrático.

Mães. Mulheres. Cuidando das suas e dos seus. Do seu entorno. Da reprodução cotidiana da vida, mães solteiras que não deixam faltar comida na mesa, que dão um jeito, que sempre dão um jeito, que seguram todas as barras, enquanto os homens exercem seus podres poderes. Mulheres trancafiadas com seus agressores, violências que aumentam em tempos de pandemia.

O policial que matou George Floyd teve sua fiança paga e está livre. O assassinato de mais uma vida negra que gerou revoltas nos EUA e no mundo. Impune. Menino Miguel. Miguel Otávio Santana da Silva. Patroa primeira dama do coronelismo do interior, que habita torres gêmeas na capital nordestina, pagou fiança. Respira livre. Menino Miguel assassinado pela irresponsabilidade da patroagem branca pandêmica, por um sistema de exploração de classe, de raça, de gênero. Mais um crime impune. Não conseguimos respirar.

A imagem pode conter: atividades ao ar livre

Protesto que fizeram em Recife em frente ao prédio de luxo, onde espatifou-se o corpo do menino Miguel.

No Brasil, assim como no gigante do Norte, uma política irresponsável, aliás, genocida, frente à pandemia. Pessoas sendo incitadas a produzir, não importa o que, mas o sistema não pode parar. O consumo não pode parar. Milhares e milhares e milhares de mortes eclipsadas pelo desgoverno. Não pense, não sinta, produza! Consuma! O pior burguer do mundo está pronto para lhe atender, a entrega será feita por algum ser explorado que passa fome, possivelmente numa bicicleta do Itaú, enquanto leva a comida quentinha de alguém nas costas. Mas alguns entregadores dizem “já basta!”, se unem e se organizam. Ah, a resistência. Re-existência. Em meio a novas formas de poder, que corrói a vida e até mesmo a morte, se reinventa, e germina, como o musgo nas brechas do asfalto.

Será que ainda conseguimos conspirar? Respirar em comum? Juntes? Mesmo em isolamento? Quais os motivos válidos para romper o isolamento? Protestar? Cuidarmos umas das outras? Se alimentar? Fazer compras?

Antirracismo. Antifascismo. Vidas negras importam. Vidas indígenas importam. Ni una menos. No nos callan. Nosso acordo é viver. Os corpos-alvo são sempre os mesmos. E aquelxs que re-existem, também. A agricultura comunitária e familiar nossa que re-existe e seu alimento que nos dá hoje, assim é. Rebeldias e redes de apoio que se multiplicam em tempos de pandemia.

Fiquei sabendo numa conversa pessoal nos corredores dos aplicativos em que transitamos cada vez mais do racionamento de água em Curitiba. Nas redes sociais em que me comunico nesse meio digital, pouco ou nada se fala disso, apesar das minhas muitas relações nessa cidade.

Por não termos aprendido das muitas injustiças e tragédias humanas, ao longo dessa ínfima parcela de tempo da existência da vida no cosmos e na Terra em que existe o capitalismo, ou, expandindo um pouco mais, o colonialismo, um pouquinho mais, o patriarcado, ou ainda mais, a existência humana nesse planeta, estamos sofrendo essa profunda epidemia social em meio a epidemia de saúde. E as coisas nunca estão separadas. A crise é geral. E, não aprendendo dessa, a próxima crise possivelmente será a da água. Em alguns lugares, já foi e já é. Já ouviram falar da guerra da água na Bolivia? Conflitos em torno da exploração da água e resistência de comunidades acontecem agora no México. Acontece no sertão brasileiro desde séculos. Acontece no cinema, Bacurau.

Do jeito que está, não é “se faltar água”, é “e quando faltar água?”.

Estamos falando de poder respirar. Estamos falando de água. Uma mudança radical urge, dá pra perceber? Já é tardia. É pra ontem. E na falta de um ontem, na falta de memória, é pra agora!

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Índio-astrólogo-poeta, que sabe do caminho dos astros, dos ventos, dos ciclos e dos alimentos, desenho de Waman Puma em sua Primer Nueva Crónica y Buen Gobierno, carta que enviou dos Andes ao Rei de Espanha e de todas as colônias sob seus jugo lá nos idos de 1615.

Aprender da crise significa reinventar o sentido da existência humana na Terra. Para que tenha um sentido além de exploração, destruição, de morte ignorante. Um sentido que tem a ver com o cuidado com todas as forças e formas de vida, suas fontes, a terra, o ar, a água, as plantas, os animais, as pessoas. Um sentido que tem a ver com o que comemos, onde cagamos, o que fazemos com a merda toda, com nossos hábitos, com nossos valores. Um sentido que tem a ver com o respeito às mulheres, o cuidado mútuo e, em meio a tudo o que possa acontecer, manter a vida se reproduzindo ao nosso redor. Dentro e fora. Um sentido que tem a ver com as sabedorias ancestrais, com os povos que re-existem historicamente, com o bem viver, com viver bem, com a diversidade, com saber reconhecer e dialogar com os ciclos da vida, em comunidade. Com a dança cósmica. Com a Terra. Com a Lua. Com o Sol. Com os eclipses.

Esse solstício de inverno é uma oportunidade para praticar essa (re)conexão, refletir sobre os descaminhos e os possíveis caminhos da vida humana neste planetinha. Dentro. Ao nosso redor. No nosso cotidiano. Fora. Na vida em comum. No planeta.

Não adianta ter medo. É preciso ativar a responsabilidade. A capacidade de responder aos movimentos da vida e às crises, por piores que sejam. É nossa responsabilidade re-existir. Que possamos ativar a memória que carregamos em nossas células, memória ancestral de toda a vida dentro de nós. Conversar com os astros, com as forças da vida. Isso não podem tirar de nós.

 

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http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/06/13/devaneios-de-quarentena-eclipse-solar-em-tempos-de-pandemia/feed/ 1
Sopa de Caracol: vozes de mulheres latino-americanas em tempos de pandemia http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/05/26/sopa-de-caracol-vozes-de-mulheres-latino-americanas-em-tempos-de-pandemia/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/05/26/sopa-de-caracol-vozes-de-mulheres-latino-americanas-em-tempos-de-pandemia/#respond Tue, 26 May 2020 22:29:55 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3216 Baixe a revista aqui

Visualize online aqui.

Sopa de Caracol é a 5ª edição da Revista Vozal, revista colaborativa de mulheres na América Latina, uma espécie de fanzine digital. O tema não podia ser outro: como vivemos, analisamos e sentimos esses tempos de pandemia, desde nossos corpos, nossos olhares, nossos lugares. Análises e sentires desde as coletividades, desde a autonomia, desde a solidão coletiva, desde as mulheres e outrxs gêneros não normativos, desde as lutas, desde a colaboração.

Ilustração. Poesia. Crônica. Vou me deliciar por um bom tempo com essa revista.

Contribuo com a crônica-poesia “A arte de transformar merda em rosas: Causos do fundão da Solidão em tempos de pandemia”. Desde a coletividade Território Junana – Bem Viver & Espiritualidade e a grande família-rede expandida da qual participamos. É o único texto em português da edição. Achei que era crônica mas entrou na sessão de poesia <3

“Al invitarles a pensar en colectivo para esta edición decíamos que: “El número 5 de la revista Vozal es un charco. Un fluido colectivo en el que muchas babas logran converger”. No imaginábamos, entonces, que este sería un fluido tan vital, que reúne voces desde la Patagonia hasta Chiapas con experiencias, análisis, bailes, poemas, tejidos y dibujos que relatan distintos modos de vivir este tiempo extraño en el que todas estamos repensando lo que significa ser cuerpos vulnerables en este momento de la historia y, por ende, en la historia misma.

No tenemos claro el mundo que encontraremos después del encierro. Sabemos, en cambio, que existe un legado de luchas, de resistencias al tiempo que un legado de esperanza y, también, tenemos claro que la normalidad a la que nos habíamos habituado no es un lugar al que podamos regresar porque tampoco queremos

Celebramos, con esta edición, las varias y ricas experiencias que -como legados de los muchos futuros que podremos construir- nos invitan a pensar, ahora sí, en otros mundos posibles. ¿Alguien gusta sopa de caracol?”

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Viver de luz? 21 dias de uma jornada profunda dentro e fora de mim http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/05/13/viver-de-luz-21-dias-de-uma-jornada-profunda-dentro-e-fora-de-mim/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/05/13/viver-de-luz-21-dias-de-uma-jornada-profunda-dentro-e-fora-de-mim/#respond Thu, 14 May 2020 02:50:44 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3202 A primeira vez que ouvi falar desse processo foi no Sítio Arco Íris, nos arredores de Porto Velho, nos idos de 2007. Nos meus inexperientes 21 anos, era a primeira vez que eu participava de um temazcal, que eu tomava banho no lago com jacarés, que eu conhecia o Santo Daime e que eu ouvia falar que existe gente que vive de luz – isso é, não come e opcionalmente toma um pouco de líquido por dia. Conheci uma pessoa lá que contava ter vivido de luz por algum tempo, mas devido à pressão social voltou a se alimentar. A informação era que existe um processo de adaptação, ou experimentação, de 21 dias.

Essa informação ficou guardada na minha memória, e anos depois fui conhecer gente que havia participado do processo de 21 dias. Tem um centro em Minas Gerais especializado nisso, e conheci gente bem comum (inclusive uma garota que comia uma porcaria qualquer numa praça de alimentação enquanto me contava da sua experiência) que tinha passado pela vivência. O investimento financeiro que exige (na época, mais de mil reais, justificável para manter um lugar com diversos quartos e banheiros individuais e pessoas trabalhando) me desestimulou logo de cara. Até que, no Uruguay, uma amiga que vive permacultura e ancestralidade Guarani me contou que havia feito esse processo de maneira independente – alguém que já tinha passado pelos 21 dias guiou pessoas que se reuniram numa casa, uma em cada quarto, e assim tiveram a vivência de maneira mais íntima. Essa ideia me atraiu, como ela comentou que gostaria de fazer de novo, cheguei a pedir que me avisasse caso rolasse. Anos se passaram e o convite não chegou

Até que, habitando já há quase um ano o Território Junana, em Maquiné, fui descobrir que o grande parceiro e amigo Rossano já havia passado pelo processo, nesse centro em Minas Gerais. Outono, tempos de quarentena, achei que seria o momento e o lugar ideais para fazer o processo. Ele se dispôs a me guiar e me apoiar nessa jornada. Karyn, que cohabita a mesma casinha que eu, se animou a participar também. E assim nos preparamos para esses 21 dias, coordenando com xs outrxs habitantes do território, que acolheram nossa iniciativa.

Já fiz jejum de 5 dias algumas vezes, algumas delas envolvendo ritos de passagem ancestrais bem profundos. Portanto, já sabia que é bem possível e positivo ficar sem comer por um certo período, inclusive regenerador para o corpo, e um processo que vai muito além da experiência física.

Mas 21 dias… Os 7 primeiros sem nada de alimento, sem nada de líquidos, sem nada de água. 7 dias sem água! Esse parecia ser o grande desafio. Depois desse chacoalhão inicial, recebe-se a primeira dose de água na 7ª noite. A partir do 8º dia água tá liberada e recomenda-se tomar no mínimo 1 litro e meio de suco por dia, diluído na proporção 25% suco e 75% água. Essa segunda semana é a da cura. Já na terceira, a da integração, a proporção de suco aumenta para 40%.

Rossano vinha a princípio todos os fins de tarde, conversávamos, eu contava como estava, às vezes ele cantava uns mantras, ou fazíamos um rezo, e ele providenciava o que eu precisasse, como lavar roupas, ratoeira pros ratos que não estavam facilitando meu sono, lenha e coisas nesse sentido. A partir da segunda semana, trazia as frutas, e eu mesma preparava os sucos, e passou a vir um dia sim outro não.

Travessia do deserto

Assim é chamada essa primeira fase de 7 dias do processo nesse centro em Minas, contou Rossano. A recomendação é descansar bastante. Assim foi nos primeiros três dias. Segundo um livro que dá instruções para esse processo, que baixei em pdf, na terceira noite acontece um processo místico. Eu me abri pra ele, mas não o vivi conscientemente. Ao acordar, imaginei como poderia ter acontecido. Karyn deixou o processo nesse terceiro dia, compartilhou que tinha sido bem importante fazer esses três dias de jejum mas que não sentia de seguir. Continuei sozinha.

A pancada veio no quarto dia. As instruções são de ficar deitada e o mais imóvel possível 3 períodos de 2h por dia. Já de noite eu senti um pouco de dor nas costas, mas em dois desses três períodos de imobilidade ao longo do dia eu senti muita dor – nas costas, nos quadris, nas pernas, uma dor que parecia ser dos ossos e dos músculos ao mesmo tempo, e simultaneamente sentia dor de cabeça e enjoo. Não havia posição suportável, eu ficava me debatendo até que me forçava a ficar numa posição e com o tempo… passava. Confesso que temi estar entrando no “processo de morte”, como diz o livro. Mas é apontado como algo normal ter dores passageiras, parte do processo de liberação de toxinas que ocorre.

De fato, como indica o livro, eu fiquei com a língua bem grossa e se formava uma camada branca dentro da boca – aquela sensação que temos ao acordar mas muito multiplicada. Eu nunca escovei tanto os dentes na vida – sim, escovar os dentes está liberado. Eu tomava muitos banhos quentinhos e longos também. E as dores só ocorreram no quarto dia. Depois pararam. Eu não tinha muito sono. Acordava de madrugada, antes do amanhecer. Me sentia muito sensível, muito conectada a muitas e outras frequências. Passei a meditar e fazer yoga.

Sim, eu tinha sede. Sim, eu tinha fome. Mas a fome bate mais no começo, depois acostuma. E vira algo como: “É, eu tô com sede. É, eu tô com fome.” Nada de novo no front. Segue o baile.

A partir do quinto dia resolvi dar umas bandas na mata, entendi que meu corpo tava precisando de movimento e minha mente de natureza. Fiz caminhos conhecidos – primeiro até a grande figueira Mãe da Mata pelo leito do rio seco, pelas pedras. Depois subi mais um pouco por trilha até chegar ao primeiro pocinho que o rio forma. Que maravilha estar com as águas nesse momento.

Fui até a cachoeira, passei horas lá, mergulhei, tomei um pouco de sol de inverno. Cantei. Batuquei. Eu já tinha percebido que estava com uma audição super biônica. E olfato também. Ouvi seres da floresta, vozes cantando na, ou desde, a cachoeira. A própria cachoeira cantando (a gente reverencia a cachoeira e conversa com ela, mas nunca havia sido de forma assim direta! Ela cantava um sambão que parecia Clara Nunes mas com voz de Preta Velha. Não dava pra entender a letra direito, com o barulho da água, só ouvi “Oxum” e “beija-flor”. É viagem mas é verdade esse bilete. Eu também ouvi um homem cantando lá de cima da cachoeira com uma voz bem doce bem linda, e eu até arrisco quem seria esse homem, mas eu não vou contar. Ouvi outras vozes de “pessoas” conversando entre si na mata, ou falando comigo, onde “não havia ninguém”). Vi pássaros lindos e coloridos que nunca havia visto e conseguia chegar perto deles sem eles se afastarem. Virei mais natureza, mais espírito. Despertou-se talvez o que chamam de clariaudiência.

Ao contrário de outros processos como Vipassana, nesse é permitido ler e escrever. Eu escrevi um diário mas não tive vontade de ler nessa primeira semana. Realmente a mente estava em outra frequência. E tirava uma carta de tarot por dia. O tarot comprovou-se muito muito certeiro, e trouxe vários ensinamentos.

No fim do sétimo dia Ananda e Tatu, cohabitantes junânicxs, vieram pro rezo da água junto com Rossano (xamanizamos o processo, no dia anterior ao começo dos 21 dias tivemos uma cerimônia coletiva e ficou indicado que se encerraria com outra cerimônia. Eu escolhi as datas, começando na minguante e terminando no ápice da lua cheia. Todos esses dias foram quintas-feiras, inclusive esse dia do rezo da água, que resolvemos deixar aberto pra quem quisesse participar). Fiz uma fogueira, montei o altar e me preparei para a cerimônia. Trouxe água pura do pocinho, já havia ritualizado lá lindamente mais cedo. A boca seca, a gengiva colada. A espera pela tão sagrada e maravilhosa água. Com ela tudo, sem ela nada! Doce. Doce doce doce. Essa água pura que vem da montanha. Realmente tinha (tem!) sabor doce.

Rossano preparou um maravilhoso banho na nossa banheira ao ar livre, esquentada com fogo. Preparei o banho de ervas e desfrutei sozinha tomando minha aguita sagrada, enquanto o pessoal fazia nossos tradicionais cantos de quinta-feira na casa de rezo. Fui tomando a pequenos goles, cada golinho pesando no estômago. Água água água. Amor.

Cura

No dia seguinte, suco! Suco! Que luxo! Quanto sabor num suquinho verde diluído

Manga. Laranja. Maçã. Morango. Quantas maravilhas.

Fazia meu suquinho, coava, sentava no solzinho. Dormi e descansei bastante nesse período. Quase não dei caminhadas, só fui pegar um solzinho mais pra cima e dar uma olhada na nossa casa de rezo. Li muito. Devorei “A queda do céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Setecentas e tantas páginas de cosmovisão política Yanomami e a história da luta desse povo contra a civilização da mercadoria. Ouvi bastante música instrumental. Uakti. Pintei uma mandalinha bem linda. E continuei com os rezos e com o tarot. Cada dia tirava uma cartinha, lia sobre ela no livro do Jodorowsky e meditava sobre seu significado ao longo do dia.

No décimo terceiro dia tirei “O Diabo”, arcano XV. Uma carta tão temida no imaginário popular, mas tão necessária de se compreender. E o que compreendi dela foi o seguinte:

O inferno é o apego.
Sofrer por não conseguir fixar
a permanente impermanência
da criação.

Aferrar-se a algo, a alguém,
a um modelo, a uma situação.
Enquanto a vida dança incontrolável
em seu incessante movimento.

Dancemos também.

Que amadureça a criança interior
dominada por seus desejos.
Que floresça a maturidade,
consciente e grata pelo eterno devir
surpreendente da criação.

Só se chega à consciência
atravessando a ilusão.

Eu tinha alguns trabalhinhos que me inventei de fazer nesses dias, apesar de não ser muito recomendado. Cuidei de meus milhos recém colhidos que estavam com caruncho, botei minhas cobertas no sol, limpei o quarto e por aí vai.

Integração

Na terceira semana, a concentração dos sucos aumenta pra 40%. Aí se tem aquela sensação de que “já tá acabando” e resolvi desfrutar do descanso, da “pausa na vida”, do silêncio (mais ou menos porque os vizinhos estavam em obra construindo uma casa de madeira toc toc toc martelo música ruim zezé di camargo e luciano alto, mas pelo menos só em “horário comercial” e eu ligava minha música aqui pra desbaratinar). Nessa semana tá liberado assistir vídeos também, o primeiro que vi foi Alice no País das Maravilhas da Disney dublado, também assisti os Sonhos mais bonitos de Akira Kurosawa e Tempos Modernos do Chaplin – e tentei assistir Baraka mas achei meio pesado deprê não indicado para o momento. Fiz um filtro dos sonhos para a casa de rezo. E tive muitos sonhos ao longo desses 21 dias.

Teve uma noite nessa última semana que sonhei que tava na minha festa de aniversário na mesa de comer lá da casa onde eu morava com a família em Blumenau, tinha umas comidas na mesa e uma monte de gente em volta, aí aparecia meu falecido vô Jango, a personificação da fartura e abundância de alimento, e dizia que havia feito um bolinho especial pra mim, que é difícil ele fazer porque é de abacaxi e ele não compra abacaxi, só faz quando tem na horta. Era um bolinho bem pequenininho, tipo um mini cup cake ou do tamanho de um brigadeiro grande, tipo de uma farinha branca, como se fosse bolo de laranja, e por dentro tinha um pedaço quadradinho de abacaxi e um pedaço de cereja. Achei bem fofo meu vô me nutrindo em sonho nesse momento.

Ao longo desse processo, senti uma limpeza física bem grande. Interessante que durante a primeira semana, mesmo sem tomar água, eu continuava fazendo xixi. E depois, quando passei a tomar água e suco, passava o dia inteiro fazendo xixi. Defequei duas vezes nesses 21 dias – acho que no quarto e no oitavo dias. A primeira foi em pequena quantidade mas “normal”. A segunda foi bem estranha, é como se fosse a rapa do que havia ficado. Ficar mais de dez dias sem cagar! Realmente se deixa um pouco o mundo da matéria e se experiencia uma outra forma de ser humana.

A limpeza não é só física, mas mental, emocional. Espiritual. Dá pra observar o padrão de funcionamento da mente psicótica. E é muito bom se afastar das relações e tarefas cotidianas, do bombardeio de informações e poder só estar e observar. Ah, e obviamente tirei os chips do celular para estar completamente offline.

Tive várias visões do que é importante na vida. Do que quero pra mim, inclusive coisas bem práticas e objetivas. Vislumbres pra coletividade da qual faço parte. Lampejos de questões mais universais, humanas, de maneiras de viver a vida. Do que importa, do que faz sentido. De auto-acolhimento. Vislumbres de verdades.

Fez muito sol ao longo desses dias. Friozinho de outono com solzinho e céu azul foi gostoso. Mas rezei muito pela benção das águas pra terra sedenta, e pela introspecção das chuvas. A alegria das chuvas quando, apenas duas vezes, caíram. Longamente, fartamente.

Vesak

Até que chegou o grande dia. O dia do encerramento. Dia 07 de maio, lua cheia. Dia de cerimônia coletiva na casa de rezo. Combinamos que começaria no fim da tarde. Preparei o alimento, o primeiro alimento que comeria depois desses 21 dias, no final da cerimônia. Escolhi o milho rezado, awaxy eté, que plantei, cuidei e colhi de maneira cerimonial, passo a passo, como me ensinaram. Milho seco, duro de cozinhar. Ficou 1h e meia na pressão, aí liquei e cozinhei o creme no fogão à lenha. Aquele cheirinho o dia inteiro. De madrugada chegaria a grande hora do alimento.

Escolhi a lua cheia como dia de encerramento, mas mal sabia eu que seria a lua de Vesak, quando Gautama Buda se iluminou – mesma lua em que ele nasceu e morreu. Noite em que milhares de pessoas se conectaram com a energia búdica dentro e fora de cada um.

Foi uma linda cerimônia coletiva. Me conectou com meu eu-universo-Buda, me levou para o além e para os confins de mim, me colocou frente ao espelho, me presenteou com lindas mirações, me limpou ainda mais e me trouxe de volta pro mundo da matéria e da coletividade. A noite mais fria do ano até então, e nós em volta do tatá, o fogo sagrado. Salve a família, salve as medicinas!

Aos poucos volto a comer, renovada. Faz quase uma semana que esse processo acabou e eu ainda não comi sal, nem açúcar. Muito alimento agroecológico, fubá da nossa roça coletiva de milho ancestral, aipim da rede do bem viver. Saladinhas e pasta de semente de girassol. Limão do quintal com mel da coletividade. Desfruto do sagrado alimento, agora ainda mais. Como já tinha dito o Jodô, “o jejum ensina a comer”. E escolho seguir jejuando uma vez por semana, meu sabbath de terça-feira. Fiz isso ontem, bem quando chegou abundante e contínua a chuva, bem quando chegou minha lua, bem quando acabou a luz. Depois de muito me readaptar à vida cotidiana nos últimos dias – ajeitar coisas práticas, retomar comunicações, resolver pendências, lavar roupa, arrumar a casa, preparar alimento – um dia pra rever todo esse processo, agora desde fora. Desde dentro.

Meu objetivo nunca foi viver de luz. Eu amo a matéria, o alimento, quero desfrutar dele e dela enquanto estiver nesse plano. Mas transformar essa relação, rever a compulsão e a dependência, o medo, o apego, e dar uns passinhos a mais no sentido da escolha, da liberdade e da consciência… Isso sim me interessa. Me interessa experimentar a sutileza, vivenciar todo o espectro que se pode viver estando num corpo, poder tocar a transcendência de forma imanente, o espírito a partir do corpo (um dia eu ainda vou me redimir do pecado do intelectualismo, já me cantou o poeta Gil…).

Poder ir, sentir, ver, escutar, além. Ultrapassar limites auto-impostos. Uma experiência que o(s) corpo(s) – corpos físico, mental, emocional, espiritual e quantos houver – não esquecem. Um aprendizado profundo que se dá a nível molecular, subatômico – e por isso do tamanho e em sintonia com todo o universo. Talvez um dia eu faça de novo. Ou continue ~apenas~ com meus ritos de passagem ancestrais. Só sei que deixei alguma coisa pra trás, e sinto que sigo mais consciente. Mais presente. Os aprendizados vão se mostrando pouco a pouco. E a prova real do aprendizado segue no cotidiano.

Sigo, e seguimos, alimentando as sementinhas do Bem Viver. Sementes de Vida Boa. Eis o que tem sentido nesse caminhar. Honrando a sagrada terra, louvando o sagrado alimento. Exercendo a capacidade humana de viver em equilíbrio com a vida e se adaptar. Agradeço toda proteção nessa jornada, todo aprendizado, a receptividade desse território e o apoio da coletividade – em especial do super Rossa entrega total amor infinito. Com a força coletiva seguimos caminhando, cantando, dançando, lutando e plantando. Iporã eté! Ha’eweiiii!

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A arte de transformar merda em rosas: causos do fundão da Solidão em tempos de pandemia http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/04/01/a-arte-de-transformar-merda-em-rosas-causos-do-fundao-da-solidao-em-tempos-de-pandemia/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/04/01/a-arte-de-transformar-merda-em-rosas-causos-do-fundao-da-solidao-em-tempos-de-pandemia/#respond Wed, 01 Apr 2020 16:13:34 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3198 Usei o balde velho do banheiro seco, já inutilizável para tal, pra plantar rosas. Ganhei as mudas da Dona Vilma, vizinha que é meio gente meio planta aqui no fundão da Solidão, nos rincões de Mata Atlântica desse vale portal Maquiné. Fui deixar umas bananas pra ela, aqui não falta, graças à Pachamama e a quem as cultivou, e perguntar se ela precisava de alguma coisa, pois vive sozinha aqui no fundão. Me encomendou ração pros seus muitos gatos, quando a gente fosse pra cidade.

A gente. Nós. Como é bom ser coletividade. Como é bom ser nós. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Com enxada, carro, computador ou maracá.

Dona Vilma lamentou não poder me abraçar, diz que já faz uns dias que tá sozinha. Que os parentes tão com medo de vir da cidade grande trazer o rancho que compraram pra ela, medo de contaminá-la. De transmitir o terrível vírus. Eu contei que quero plantar rosas. Ela me deu as mudas.

Fui lá perto da Figueira ancestral, Mãe da Mata, e coletei terra fértil da floresta. No caminho, passei pela antiga composteira, onde colocamos os restos de comida, e peguei um pouco da terra, em poucos meses já compostada. E, finalmente, fui no mato atrás de casa e peguei a terra do antigo banheiro seco. Merda que vira adubo.

Misturei as boas terras. Coloquei no velho balde, um jeito de reutilizá-lo como vaso e proteger as mudinhas. Estaqueei as mudas. Reguei com meu sangue. Roguei para que venham, lindas, as flores.

E aí pensei nos descaminhos da humanidade. Pudera! Quando se tem nojo do próprio lixo, da própria merda, do próprio sangue, enquanto tudo o que se quer é se livrar deles o mais rápido possível, não importa para onde nem como, essa merda polui. Esse lixo contamina. (Sem falar no medo e desconforto na mata, a incompatibilidade com a vida. Viciadxs numa pretensa comodidade estéril. O nojo do sangue menstrual. Desconexão com os ciclos da vida – da terra, explorada como as mulheres.)

Chega uma hora que é tanta merda e lixo que explode. Muta. Viraliza. Vira pandemia. Talvez em algum lugar longe, do qual se ouve falar apenas pelos noticiários. Mas uma hora, de lixo em lixo, de merda em merda, explode por todos os lados. Longe. Perto. Dentro.

Ah, a revolução. Necessária revolução. Dos baldinhos. Da mentalidade. Das relações. Se todo mundo conseguir lidar com seu lixo, com sua merda, dar um bom destino, diariamente. Compostá-los de tanto em tanto. Caminhando no compasso do ciclo da renovação da vida. Vira adubo. Vira rosa. Vira alimento.

A terra tudo aceita. Tudo transforma. Grande Mãe. Acolhe o pior e o melhor de nós. Basta saber, respeitosamente, conscientemente, humildemente, entregar. Com responsabilidade. Olhando pras nossas pequenas merdas e pequenos lixos todos os dias, e sabendo encaminhar. Honrando nosso santo e palpável, vivo e nutritivo, sangue.

Serve pra mim. Serve pra você. Serve pra humanidade. Serve pro planeta.

Agradeço ao aprendizado coletivo, à terra amada, à Dona Vilma, que me deu as mudas. À coletividade Junana, essa cabocla, esse nós em meio aos muitos nós dessa grande rede de Bem Viver.

Agradeço à sabedoria ancestral, aos muitos povos que carregam as sementes crioulas dos ensinamentos de como viver em equilíbrio com o ciclo da vida nesse mundo – e talvez em outros, como bem lembra Aílton Krenak. Outros mundos que atravessam esse mundo. Gracias a todos os seres, visíveis e invisíveis, a toda a força de vida-morte-vida.

Compostemos.

Lixo, merda, angústia, inveja, ódio, medo, competição. Compostemos. Vira coragem, vira decisão, vira boa ação. Organização. Conexão. Re-evolução.

Vira amor, em pétala de flor.

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Equinócio de outono em tempos de Coronavírus http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/03/23/equinocio-de-outono-em-tempos-de-coronavirus/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2020/03/23/equinocio-de-outono-em-tempos-de-coronavirus/#respond Mon, 23 Mar 2020 22:44:24 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3195 Equinócio de outono. O dia amanhece calmo e fresco. Uma nova estação se anuncia.

Amigues querides me contaram que, na sabedoria de povos do oriente, equinócios e solstícios não são o começo, mas o ápice das estações. E que no ocidente temos a mania de nos aferrarmos aos ápices, deixando de lado a compreensão dos ciclos. Seria então agora o ápice do outono, não seu começo.

Essa estação em que as folhas caem, os dias vão ficando mais curtos e as noites mais longas. De introspecção. De colheita e avaliação do ciclo. O que semeamos? Deu frutos? Nos nutre?

O que semeamos enquanto humanidade? Estamos colhendo medo, angústia, peste, caos. Plantamos sementes de egoísmo, de subserviência aos podres poderes, de falso isolamento (falso porque, querendo ou não, na vida nada está isolado… E tudo, vírus e intenções, se propaga pelo ar…).

Plantamos sementes de egoísmo. De ambição. De ilusão de que estamos separados da natureza, e que devemos temê-la e dominá-la. Cobriram a terra com uma camada de asfalto para não precisar pisar diretamente nela. E aí, com a tormenta, tudo inunda. A podridão vem à tona.

Mas eis que chega a boa nova… Que é ancestral. E se renova.

Esse outro mundo que precisamos, um mundo em que o ser humano se equilibre entre si e com todos os seres, com a natureza, da qual faz parte, já existe. Está bem diante de nossos olhos – basta desviar o olhar da tela do espetáculo da morte, trágico espetáculo, para olhar os povos que resistem e existem. Re-existem. Um mundo em que caibam muitos mundos, em que a diversidade possa florescer, como numa grande agrofloresta. Em que nenhuma monocultura venha tratorar as diversas formas de ser e existir em equilíbrio com os ciclos da vida.

Somos novos frutos de sementes ancestrais. Somos milho de diversas cores que brotam de sementes que foram semeadas, escolhidas e repassadas de geração em geração. Honremos a sabedoria ancestral. Não nos contentemos com as sementes transgênicas de grandes corporações que – não à toa – não reproduzem! Não nos contentemos com um modo de viver e pensar infértil.

É a hora da guinada. Sempre é. Basta aceitar o chamado da vida, o chamado dxs nossxs ancestrais. A crise clama por consciência e organização. Nos organizemos para que, em consciente interdependência com todo o ciclo da vida, não dependamos mais dos podres poderosos. Que nossas redes de apoio mútuo possam suprir as necessidades de todes e cada uma. Que a nossa existência seja uma grande dança de celebração da vida, não um lamento impotente de morte.

Não se dá de uma hora pra outra. É trabalho! Reflorestar todo um campo exaurido por décadas e décadas, ou séculos e séculos, de exploração, venenos e monocultivo, exige esforço, organização, dedicação. Trabalho em rede, coletivo. Mas os resultados começam a aparecer rapidinho. Dentro e fora de nós. A natureza se recupera mais fácil do que imaginamos. É só deixar a vida florescer.

Seguimos nesse aprendizado coletivo. Nos inspiremos nas constelações, estrelas no céu a nos guiar, estrelas de povos guardiões da floresta que re-existem ancestralmente. Cuidemos para que não sejam tratorados. Todo nosso apoio é necessário. Nesse mundo de ponta cabeça, é preciso lutar pra florescer! Senão vem o trator e esmaga tudo…

Escolhamos as boas sementes. Joguemos os frutos podres fora. Defendamos as terras, nossa casa. Seus povos guardiões. Nos preparemos para a boa semeadura.

Auto-cuidado, cuidado mútuo. Saúde para todes.

A natureza é nóis.

 

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Sobrevivência dos vaga-lumes http://vidaboa.redelivre.org.br/2019/12/01/sobrevivencia-dos-vaga-lumes/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2019/12/01/sobrevivencia-dos-vaga-lumes/#respond Sun, 01 Dec 2019 20:23:39 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3149 Trechos da obre de George Didi-Hubermann (Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011).

“Luciole”. Imagem de Renata Siqueira Bueno.

 

Morte dos vagalumes, morte da inocência?

Dança de luzes intermitentes, dança de amor, em contraposição aos holofotes do poder que cegam com sua luz dura, vigiam, não deixam nada escapar.

Política encarnada nos corpos, nos gestos, nos desejos de cada um: entre nós.

 

I – Infernos?

” (…) a dança dos vaga-lumes, esse momento de graça que resiste ao mundo
do terror, é o que existe de mais fugaz, de mais frágil.” (p. 25)

“Veria Pasolini, à época, o meio contemporâneo a seu redor, como uma noite que teria definitivamente devorado, assujeitado ou reduzido as diferenças que formam, na escuridão, os movimentos luminosos dos vaga-lumes em busca do amor? Creio que esta última imagem não seja ainda a melhor. Não foi na noite que os vaga-lumes desapareceram, com efeito. Quando a noite é mais profunda, somos capazes de captar o mínimo clarão, e é a própria expiração da luz que nos é ainda mais visível em seu rastro, ainda que tênue. Não, os vaga-lumes desapareceram na ofuscante claridade dos “ferozes” projetores: projetores dos mirantes, dos shows políticos, dos estádios de futebol, dos palcos de televisão. Quanto às “singulares engenhocas que se lançam umas contra as outras”, não são mais do que os corpos superexpostos, com seus estereótipos do desejo, que se confrontam em plena luz dos sitcoms, bem distantes dos discretos, dos hesitantes, dos inocentes vaga-lumes, essas “lembranças um tanto pungentes do passado”.” (p. 30-31)

“Um dia em que lhe perguntaram se, enquanto artista de esquerda, ele tinha nostalgia dos tempos brechtianos ou da literatura “engajada” à francesa, Pasolini respondeu nesses termos: “Absolutamente. Tenho apenas a nostalgia das pessoas pobres e verdadeiras que lutavam para derrubar o patrão, mas sem querer com isso tomar o seu lugar.”” (p. 33)

“Mas os vaga-lumes desapareceram nessa época de ditadura industrial e consumista em que cada um acaba se exibindo como se fosse uma mercadoria em sua vitrine, uma forma justamente de não aparecer. Uma forma de tro­car a dignidade civil por um espetáculo indefinidamente comercializável. Os projetores tomaram todo o espaço social, ninguém mais escapa a seus “ferozes olhos mecânicos”. E o pior é que todo mundo parece contente, acreditando poder novamente “se embelezar” aproveitando dessa triunfante indústria da exposição política.” (p. 37-38)

“Eis aí Pasolini esgotado, aprovado, prolongado, valo­rizado. O apocalipse continua sua marcha. Nosso atual “mal-estar na cultura” caminha nesse sentido, ao que tudo indica, e é assim que, com frequência, o experimentamos. Mas uma coisa é designar a máquina totalitária, outra coisa é lhe atribuir tão rapidamente uma vitória definitiva e sem partilha. Assujeitou-se o mundo, assim, totalmente como o sonharam – o projetam, o programam e querem no-lo impor – nossos atuais “conselheiros pérfidos”? Postulá-lo é, justamente, dar crédito ao que sua máquina quer nos fazer crer. É ver somente a noite escura ou a ofuscante luz dos projetores. É agir como vencidos: é estarmos convencidos de que a máquina cumpre seu trabalho sem resto nem resistência. É não ver mais nada. É, portanto, não ver o espaço – seja ele intersticial, intermitente, nômade, situado no improvável – das aberturas, dos possíveis, dos lampejos, dos apesar de tudo.”
A questão é crucial, sem dúvida inextricável. Não haverá, portanto, resposta dogmática para essa questão, quero dizer: nenhuma resposta geral, radical, toda. Haverá apenas sinais, singularidades, pedaços, brilhos passageiros, ainda que fra­camente luminosos. Vaga-lumes, para dizê-lo da presente maneira. Mas no que se tornaram hoje os sinais luminosos evocados por Pasolini, em 1941, e, em seguida, tristemente revogados em 1975? Quais são as chances de aparição ou as zonas de apagamento, as potências ou as fragilidades? A que parte da realidade – o contrário de um todo – a imagem dos vaga-lumes pode hoje se dirigir? (p. 42-43)

 

II – Sobrevivências

“Primeiro, desapareceram mesmo os vaga-lumes? Desapareceram todos? Emitem ainda – mas de onde? – seus maravilhosos sinais intermitentes? Procuram-se ainda em algum lugar, falam-se, amam-se apesar de tudo, apesar do todo da máquina, apesar da escuridão da noite, apesar dos projetores ferozes?” (p. 45)

“Mas como os vaga-lumes desapareceram ou “redesapareceram”? É somente aos nossos olhos que eles “desaparecem pura e simplesmente”. Seria bem mais justo dizer que eles “se vão”, pura e simplesmente. Que eles “desaparecem” apenas na medida em que o espectador renuncia a segui-los. Eles desaparecem de sua vista porque o espectador fica no seu lugar que não é mais o melhor lugar para vê-los.” (p. 47) Relação com o fotografar.

“Os fotógrafos são, primeiro, via­jantes, explica Denis Roche: como insetos em deslocamento, com seus grandes olhos sensíveis à luz. Eles formam uma

[…] tropa de vaga-lumes avisados. Vaga-lumes ocupados com sua iluminação intermitente, sobrevoando a baixa altitude os descaminhos dos corações e dos espíritos da contemporaneidade.
Tique-taque mudo dos vaga-lumes errantes, pequenas ilumina­ções breves […] com o acréscimo de um motor que fará do olhar atento um salmo de luz, clique-claque, de luz, clique-claque etc.
” (p. 48)

“Há sem dúvida motivos para ser pessimista, contudo é tão mais necessário abrir os olhos na noite, se deslocar sem descanso, voltar a procurar os vaga-lumes. Aprendo que existem ainda, vivas, espalha­das pelo mundo, duas mil espécies conhecidas desses
pequenos bichinhos (classe: insetos, ordem: coleópteros, família: lampírides ou lampyridae).” (p. 49)

“Seria criminoso e estúpido colocar os vaga-lumes sob um projetor acreditando assim  melhor observá-los. Assim como não serve de nada estudá-los, previamente mortos,
alfinetados sobre uma mesa de entomologista ou observados como coisas muito antigas presas no âmbar há milhões de anos. Para conhecer os vaga-lumes, é preciso observá-los no presente de sua sobrevivência: é preciso vê-los dançar vivos no meio da noite, ainda que essa noite seja varrida por alguns ferozes projetores. Ainda que por pouco tempo. Ainda que por pouca coisa a ser vista: é preciso cerca de cinco mil vaga-lumes para produzir uma luz equivalente à de uma única vela. Assim como existe uma literatura menor – como bem o mostraram Gilles Deleuze e Félix Guattari a respeito de Kafka -, haveria uma luz menor possuindo os mesmos aspectos filosóficos: “um forte coeficiente de desterritorialização”; “tudo ali é político”; “tudo adquire um valor
coletivo”, de modo que tudo ali fala do povo e das “condições revolucionárias” imanentes à sua própria marginalização.” (p. 52)

“Mas é preciso opor a esse desespero “esclarecido” o fato de que a dança viva dos vaga-lumes se efetua justamente no meio das trevas. E que nada mais é do que uma dança do desejo formando comunidade”. (p. 55)

[…] como bem o descreveu Claude Gudin em sua Histoire naturelle de la séduction [História natural da sedução]:

[…] Nos primos americanos, os vaga-lumes do gênero Photinus, machos e fêmeas comunicam-se entre si através de vários raios. Assim, o desfile nupcial dos vaga-lumes do Antigo e do Novo Mundo, adaptados à noite, se faz por luminescência colorida, e não pelas cores habituais visíveis durante o dia. Isso não acontece sem certa malícia. O vaga-lume fêmea do gênero Photuris responde aos lampejos do macho em voo, uma conversa luminosa se segue e os amantes se acasalam. Mas, depois disso, a fêmea adota a seqüência dos clarões de um outro vaga-lume do gênero Photinus e engana os machos que posam perto dela e acabam sendo devorados. Nesse caso, está claro que Lúcifer está presente.

Através dessa nova evocação do diabo “portador de luz” – ou do mal -, o que está em questão, antes de tudo, é apenas o jogo cruel da atração inerente ao reino animal: dom de vida e dom de morte, alternadamente, apelo à reprodução e apelo à destruição mútua.” (p.57)

“Trata-se nada mais nada menos, efetivamente, de repensar nosso próprio “princípio esperança” através do modo como o Outrora encontra o Agora para formar um clarão, um brilho, uma constelação onde se libera alguma forma para nosso próprio Futuro. Ainda que beirando o chão, ainda que emitindo uma luz bem fraca, ainda que se deslocando lentamente, não desenham os vaga-lumes, rigorosamente falando, uma tal constelação? Afirmar isso a partir do minúsculo exemplo dos vaga-lumes é afirmar que em nosso modo de imaginar jaz fundamentalmente uma condição para nosso modo de fazer política. A imaginação é política, eis o que precisa ser levado em consideração.” (p. 60-61)

“Se a imaginação – esse mecanismo produtor de imagens para o pensamento – nos mostra o modo pelo qual o Outrora encontra, aí, o nosso Agora para se liberarem constelações ricas de Futuro, então podemos compreender a que ponto esse encontro dos tempos é decisivo, essa colisão de um presente ativo com seu passado reminiscente.” (p. 62)

“Pasolini sabia, poética e visualmente, o que sobrevivência queria dizer. Ele sabia do caráter indestrutível, aí transmitido, lá invisível, mas latente, mais além ressurgente, das imagens em perpétua metamorfose.” (p. 62-63)

“A objeção que poderia ser feita ao Pasolini do “desapa­recimento dos vaga-lumes” seria então enunciável nestes termos: como se pode declarar a morte das sobrevivências?”  (p. 64)

“O que desapareceu nele foi a capacidade de ver – tanto à noite quanto sob a luz feroz
dos projetores – aquilo que não havia desaparecido com­pletamente e, sobretudo, aquilo que aparece apesar de tudo, como novidade reminiscente, como novidade “inocente”, no presente desta história detestável de cujo interior ele não sabia mais, daí em diante, se desvencilhar.” (p. 65)

 

III – Apocalipses?

“Como certos textos seus mais recentes o desenvolvem luminosamente, Giorgio Agamben é um filósofo, não do dogma, mas dos paradigmas: os objetos mais modestos, as imagens mais diversas tornam-se para ele – além dos textos canônicos, da longa extensão filosófica que ele comenta e discute sem trégua – a ocasião de uma “epistemologia do exemplo” e uma verdadeira “arqueologia filosófica” que, de
maneira ainda bastante benjaminiana, “retoma em sentido inverso o curso da história, assim como a imaginação” restabelece o curso das coisas fora das grandes teleologias
conceituais. A revelação das fontes aparece aqui como a condição necessária – e o exercício paciente – de um pensa­mento que não procura de imediato tomar partido, mas que quer interrogar o contemporâneo na medida de sua filologia oculta, de suas tradições escondidas, de seus impensados, de suas sobrevivências.

Distante, portanto, dos filósofos que se apresentam como dogmáticos para a eternidade ou como fabricantes imediatos de opiniões para o tempo presente – a propósito da última engenhoca tecnológica ou da última eleição presidencial -, Agamben vê o contemporâneo na espessura considerável e complexa de suas temporalidades emaranhadas. Daí o aspecto de montagem, ele também warburguiano e benjaminiano, que seus textos adquirem com frequência. O contemporâneo, para ele, aparece somente “na defasagem e no anacronismo” em relação a tudo o que percebemos como nossa “atualidade”. Ser contemporâneo, nesse sentido, seria obscurecer o espetáculo do século presente a fim de perce­ber, nessa mesma obscuridade, a “luz que procura nos alcan­çar e não consegue”. Seria, então, retomando o paradigma que nos ocupa aqui, dar-se os meios de ver aparecerem os vaga-lumes no espaço de superexposição, feroz, demasiado luminoso, de nossa história presente. Essa tarefa, acrescenta Agamben, pede ao mesmo tempo coragem – virtude política – e poesia, que é a arte de fraturar a linguagem, de quebrar as aparências, de desunir a unidade do tempo.” (p. 68-70)

““há entre o arcaico e o moderno um encontro secreto””. (citando Agamben, p. 70)

“necessidade de montagens temporais para toda reflexão conseqüente sobre
o contemporâneo.” (p. 70-71)

“As sobrevivências, por sua vez, con­cernem apenas à imanência do tempo histórico: elas não têm nenhum valor de redenção. E quanto a seu valor de revelação, ele nada mais é do que lacunar, em trapos: sintomal, em outras palavras. As sobrevivências não prometem nenhuma ressurreição (haveria algum sentido em esperar de um fantasma que ele ressuscite?). Elas são apenas lampejos passeando nas trevas, em nenhum caso o acontecimento de uma grande “luz de toda luz”. Porque elas nos ensinam que a destruição nunca é absoluta – mesmo que fosse ela contínua -, as sobrevivências nos dispensam justamente da crença de que uma “última” revelação ou uma salvação “final” sejam necessárias à nossa liberdade.” (p. 84)

 

IV – Povos

“O que desaparece nessa feroz luz do poder não é senão a menor imagem ou lampejo de contrapoder. Eis porque o judeu Walter Benjamin se vê convocado por Giorgio
Agamben no mesmo plano que o nazista Carl Schmitt, e eis porque o comunista Pasolini se vê convocado no mesmo plano que o personagem fascista de seu próprio filme Salò:
“Benjamin tinha razão nesse sentido, quando afirmava que não há nada de mais anárquico que a ordem burguesa; e o dito espirituoso que Pasolini colocava na boca de um dos hierarcas de seu filme Salò era perfeitamente sério: ‘A única
anarquia verdadeira é a do poder’.” Benjamin, sabe-se, utilizou por conta própria certos conceitos extraídos da Théologie politique [Teologia política] de Carl Schmitt, em
particular o famoso “estado de exceção”, cujo valor de uso o próprio Agamben estendeu à análise de nossas socieda­des contemporâneas. Mas a utilização por Benjamin do conceito schmittiano tinha somente como objetivo derrubar
justamente seu conteúdo: para substituir à tradição do poder – que se radicaliza e se “totaliza” exemplarmente na política nazista formalizada pelo próprio Schmitt – uma tradição dos oprimidos que caracteriza, à sua época, a luta a qualquer preço contra o fascismo: “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ no qual vivemos é a regra. Devemos chegar a uma concepção da história que dê conta dessa situação. Descobriremos, então, que nossa tarefa con­siste em instaurar o verdadeiro estado de exceção; e assim consolidaremos nossa posição na luta contra o fascismo.”” (p. 91-92) “Poner al revés el mundo al revés”. Silvia Rivera sobre Waman Puma. Pachakuti.

“Isso significa, concretamente, que uma arqueologia filo­sófica, em sua própria “rítmica”, é obrigada a descrever os tempos e os contratempos, os golpes e os contragolpes, os temas e os contratemas. Isso significa que falta fundamentalmente a um texto como “Le règne et la gloire” a descrição de tudo o que falta ao reino (quero dizer a “tradição dos oprimidos” e a arqueologia dos contrapoderes), como à glória (quero dizer a tradição das obscuras resistências e a arqueologia dos “vaga-lumes”). À arqueologia das acla­mações, oriunda de Ernst Kantorowicz e de Carl Schmitt, falta uma arqueologia das manifestações, e mesmo das revoluções, em que os povos fazem bem mais que dizer “sim” – ou “não”, aliás, pois o “não” eventual das aclamações está sujeito às mesmas condições do cerimonial que fixa a instância do poder. É quando os povos se constituem em sujeitos políticos por inteiro, de modo a mudar as regras do reino e da glória. Tudo isso é sublinhado por Benjamin em Paris, capitale du XIX siècle [Paris, capital do século XIX] ou, ainda, nas Thèses sur le conceptá ’histoire [Teses sobre o conceito de história], quando evoca a Revolução Francesa, a de 1848, e o movimento espartaquista, ou ainda quando descreve esse momento da Revolução de Julho em que “se viu em vários lugares de Paris, no mesmo momento e, sem que houvessem previamente combinado, as pessoas atirarem contra os relógios”.

Caberia logicamente a uma filosofia dos paradigmas assumir a descrição dessa maneira de mudar as regras que, a despeito de sua radical novidade, encontra suas fontes ou
seus recursos em algo como um a tradição oculta. Escreve Agamben:

O paradigma é um caso singular que é isolado do contexto de que faz parte apenas na medida em que, ao apresentar sua própria singularidade, torna inteligível um novo conjunto cuja homogeneidade ele mesmo constitui. […] Enquanto a indução procede do particular ao universal e a dedução do universal ao particular, o que define o paradigma é uma terceira espécie de movimento, paradoxal, que vai do particular ao particular […] da singularidade à singularidade e que, sem sair desta, transforma todo caso singular em exemplo de uma regra geral impossível de ser formulada apriori.

E Agamben precisa, a respeito dessa paradoxal e informulável regra: “A suspensão da referência e do uso normal é aqui essencial.”” (p. 110-112)

 

V – Destruições?

“Os pequenos vaga-lumes dão forma e lampejo a nossa frágil imanência, os “ferozes projetores” da grande luz devoram toda forma e todo lampejo – toda diferença – na transcendência dos fins derradeiros. Dar exclusiva atenção ao horizonte é tornar-se incapaz de olhar a menor imagem.

Talvez, somente em momentos de exaltação messiânica é que se pode, eventualmente, começar a sonhar com um horizonte que acolheria, que tornaria visíveis todas as imgens.” (p. 115)

“A imagem: aparição única, preciosa, é, apesar de tudo, muito pouca coisa, coisa que queima, coisa que cai. Tal é a “bola de fogo” evocada por Walter Benjamin: ela apenas
“transpõe todo o horizonte” para cair sobre nós, nos atingir (échoir). Ela apenas raramente se ergue em direção ao céu imóvel das idéias eternas: em geral, ela desce, declina, se precipita e se danifica sobre nossa terra, em algum lugar diante ou atrás do horizonte. Como um vaga-lume, ela aca­ba por desaparecer de nossa vista e ir para um lugar onde será, talvez, percebida por outra pessoa, em outro lugar, lá onde sua sobrevivência poderá ser observada ainda. Se, de acordo com a hipótese que tentamos construir, a partir de Warburg e Benjamin, a imagem é um operador temporal de sobrevivências – portadora, a esse título, de uma potência política relativa a nosso passado como à nossa “atualidade integral”, logo, a nosso futuro -, é preciso então dedicar-se a melhor compreender seu movimento de queda em nossa direção, essa queda ou esse “declínio”, até mesmo essa declinação, que não é, por mais que Pasolini o tenha temido em 1975, seja o que for que pensa Agamben hoje, desaparição.” (p. 118-119)

““A experiência caiu de cotação” (die Erfahrung ist im Kurse gefallen): o particípio gefallen, “caído, fracassado”, indica certamente um movimento terrível. Mas continua
sendo um movimento. Mais ainda, ele soa estranhamente a nossos ouvidos, uma vez que o verbo gefallen significa, por outro lado, o ato de amar, de agradar, de convir. E,
sobretudo, esse movimento não diz respeito à própria expe­riência, mas à sua “cotação” na bolsa de valores modernos (o diagnóstico de Benjamin se confirma ainda se se considera a “bolsa de valores” pós-moderna). O que Benjamin descreve é, sem dúvida, uma destruição efetiva, eficaz; mas é uma destruição não efetuada, perpetuamente inacabada, seu horizonte jamais fechado. O mesmo aconteceria então
com a experiência e com a aura, pois o que se apresenta, em geral, sob o ângulo de uma destruição acabada da aura nas imagens à época de sua reprodutibilidade técnica pede para ser corrigida sob o ângulo do que chamei uma suposição: o que “cai” não “desaparece” necessariamente, as imagens estão lá, até mesmo para fazer reaparecer ou transparecer algum resto, vestígio ou sobrevivência.” (p. 121)

“A urgência política e estética, em período de “catástrofe” – esse leitmotiv corrente em toda obra de Benjamin -, não consistiria, portanto, em tirar conclusões lógicas do declínio até seu horizonte de morte, mas em encontrar as ressurgências inesperadas desse declínio ao fundo das imagens que aí se movem ainda, tal vaga-lumes ou astros isolados. Lembremos o maravilhoso modelo cosmológico proposto por Lucrécio em De rerum natura: os átomos “declinam” perpetuamente, mas sua queda admite, nesse clinâmen infinito, exceções com conseqüências inauditas. Basta um átomo se desviar ligeiramente de sua trajetória paralela para que ele entre em colisão com os outros, de onde nascerá um mundo. Este seria, portanto, o essencial recurso do declínio: o desvio, a colisão, a “bola de fogo” que atravessa o horizonte, a invenção de uma forma nova.” (p. 124)

““É por isso”, diz ele [Benjamin] a respeito de uma história contada por Heródoto na Antiguidade e lida em nossa época, “que essa narrativa vinda do antigo Egito é ainda capaz, após milhares de anos, de nos surpreender e nos fazer refletir. Ela parece esses grãos fechados hermeticamente durante milênios nas câmaras das pirâmides e que conservaram até hoje seu poder germinativo (ihre Keimkraft).”” (p. 125-126)

“O valor da experiência caiu de cotação, é verdade. Mas cabe somente a nós não apostarmos nesse mercado.” (p. 126)

“O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à “nova beleza” de uma coreografia, de uma
invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?” (p. 127)

“Na mesma época – de 1933 a 1940 – em que Walter Benjamin evocava essa possibilidade de “organizar o pessimismo” pela ressurgência de certas imagens ou configurações alternativas de pensamento, a vida cotidiana certamente não lhe dava descanso. Pode-se imaginar o que era a vida de um judeu alemão “sem recursos”, em fuga perpétua diante do cerco que se fechava em torno dele? A impressão de Agamben sobre a destruição da experiência em “nossa existência cotidiana hoje insuportável – como em momento algum no passado – ”deve ser orientada na medida desse contraste. Contraste ainda mais forte, na medida em que Benjamin soube “organizar seu pessimismo” com a graça dos vaga-lumes, buscando, por exemplo, entre o teatro épico de Bertold Brecht e a deriva urbana dos poetas surrealistas, entre a Biblioteca Nacional e a Passage des panoramas, esse “espaço de imagens” capaz de contradizer a polícia – as terríveis restrições – de sua vida. O valor da experiência havia caído, mas Benjamin
respondeu a isso com imagens de pensamento e com expe­riências de imagem cujos textos sobre o haxixe oferecem ainda, entre outros, alguns exemplos surpreendentes por suas ressurgências de “aura autêntica” ou de infância do olhar sobre todas as coisas.” (p. 129)

 

VI – Imagens

““Ninguém morre tão pobre a ponto de não deixar alguma coisa.” Neste dictum de Pascal, citado por Benjamin, deveríamos encontrar a energia para ver como um legado precioso – sobrevivente -, a menor borboleta esboçada sobre um papel amarelado, no campo de Theresienstadt, por Marika Friedmanova, pouco antes de ser deportada e morta pelo gás em Auschwitz, aos onze anos de idade. Até mesmo os sonhos, esses enigmas ocultos no mais profundo, podem chegar até nós – em pedaços, videntemente, por lampejos intermitentes – como tantas “imagens-vaga-lumes”. Essa foi a tarefa irracional empreendida por Charlotte Beradt, tarefa de narrador a benjaminiana: ela conta que, em 1933, assustada com o rumo dos acontecimentos na Alemanha, começou a ter sonhos angustiantes recorrentes […].” (p. 133)

“Charlotte Beradt, nesse momento, que marcou sua decisão de consignar os sonhos das pessoas que lhe eram próximas, ascende ao estatuto de “narrador” no sentido de que, conforme Benjamin, “[…] o grande narrador está sempre enraizado no povo […] todos os grandes narradores têm em comum a facilidade com a qual sobem e descem os escalões de sua experiência, como os degraus de uma escada. Uma escada que se afunda nas entranhas da terra e se perde nas nuvens: esta é a imagem de uma experiência coletiva (Kollektiverfarhrung) [que] reconforta [mesmo] quando a aflição atinge seu auge.”” (p. 134)

“Compreende-se, então, que uma experiência interior, por mais “subjetiva”, por mais “obscura” que seja, pode aparecer como um lampejo para o outro, a partir do momento em que encontra a forma justa de sua construção, de sua narração, de sua transmissão.” (p. 135)

“Saber-vaga-lume. Saber clandestino, hieroglífico, das realidades constantemente submetidas à censura”. (p. 136)

“As imagens sonhadas sob o terror tornam-se então imagens produzidas sobre o terror. “Um traço comum aos sonhos aqui apresentados é que eles revelam uma verdade oculta cuja evidência ainda não foi demonstrada empiricamente.” Conclui-se que as “imagens-vaga-lumes” podem ser vistas não somente como testemunhos, mas também como profecias, previsões quanto à história política em devir”. (p. 138)

“O valor da experiência caiu de cotação, sem dúvida. Mas a queda ainda é experiência, ou seja, contestação, em seu próprio movimento, da queda sofrida. A queda, o não saber se tornam potências na escrita que os transmite.” (p. 143)

“Se um dos mais belos livros de Agamben permanece, a meu ver, La communauté qui vient [A comunidade que vem], é porque parece escrito para abrir um campo de ressurgências: livro sobre o “ser comum” enquanto amável, ou sobre o rosto humano, considerado o que “passa do comum ao próprio e do próprio ao comum” quando essa passagem abre o espaço de uma ética. Mas ele não escapa, para terminar, ao “irreparável” heideggeriano e à questão, ofuscante a meu ver, do “reino messiânico”, que ainda é um reino.

Não seria necessário buscar, primeiro, nas comunidades que restam – sem reinar a própria ressurgência, o espaço aberto das respostas a nossas perguntas? Os reinos, “governabilidades” segundo Foucault ou, ainda, “polícias” segundo Rancière, tendem certamente a reduzir ou subjugar os povos. Mas essa redução, ainda que fosse extrema como nas decisões de genocídio, quase sempre deixa restos, e os restos quase sempre se movimentam: fugir, esconder-se, enterrar um testemunho, ir para outro lugar, encontrar a tangente… é o que nos ensinam, cada um a a seu modo, as livres “experiências interiores” escritas por Georges Bataille, as experiências sobre a linguagem ou os sonhos transmitidos por Victor Klemperer ou Charlotte Beradt. E mesmo as “garrafas jogadas ao mar”, desesperadas mas endereçadas, agonizantes mas precisas, dos membros do Sonderkommando de Auschwitz.

Todas essas experiências clandestinas se dirigem – tanto mais imperiosamente por terem sido, primeiro, coibidas – aos povos que poderão ou estarão dispostos, em determinado momento, a ouvi-las. Todas são atos políticos fundados sobre a “comunidade que resta”. Todas “se ligam ao povo pelas raízes mais profundas”, assim como Walter Benjamin o reconhecia em toda narrativa capaz de transmitir uma experiência a outrem.” (p. 148-150)

“Sobrevivência dos signos ou das imagens, quando a sobrevivência dos próprios protagonistas se encontra comprometida.” (p. 150)

“ […] resistência do pensamento, dos signos e das imagens à “destruição da experiência” […].” (p. 151)

“Eis, então, o que alguns em tal situação escolherão fazer: retirar-se “para fora do mundo”, da luz, mas continuando a trabalhar em algo que possa “ainda ser útil ao mundo”, um lampejo, em suma. Retirar-se sem se fechar, assim como fez Lessing, que permaneceu em sua solidão “radicalmente crítico e, no que toca à vida pública, completamente revolucionário”: “Lessing se retira no pensamento, sem se fechar em si mesmo; e se para ele existe um elo secreto entre ação e pensamento […] esse elo consistia no fato de que, […] ação e pensamento, ambos acontecem sob a forma do movimento e que, portanto, a liberdade que os funda, é a liberdade de movimento”. Então, o sofrimento inerente à retirada torna-se alegria inerente ao movimento, esse desejo, esse agir apesar de tudo capaz de fazer sentido em sua transmissão a outrem: “O sentido de uma ação”, escreve Arendt na linhagem direta de Benjamin, “só é revelado quando o próprio agir […] se tornou história narrável”.

E eis então como “uma parcela de humanidade num mundo que se tornou inumano [terá] se realizado”. No belo texto de abertura de La crise de la culture [A crise da cultura], intitulado “La brèche entre le passé e le futur” [A brecha entre o passado e o futuro], Arendt evocará ainda os exemplos de René Char e de Franz Kafka, esperando que se transmita a mais inestimável das lições por esse “tesouro sem idade que, nas circunstâncias mais diversas, aparece bruscamente, de improviso, e desaparece novamente em outras condições misteriosas”, nalgum lugar na brecha aberta entre memória e desejo. Seria ainda preciso que a memória fosse “uma força e não um fardo”. Seria ainda preciso reconhecer a essencial vitalidade das sobrevivências e da memória em geral quando ela encontra as formas justas de sua transmissão. Nessa combinação geométrica do retraimento e do não fechamento, depreender-se-ia então o que Arendt chama magnificamente de uma força diagonal que difere das duas forças – a do passado e a do futuro – das quais, no entanto, resulta.” (p. 151-153)

“Tal seria, para finalizar, o infinito recurso dos vaga-lumes: sua retirada, quando não se tratar de fechamento sobre si mesmo, mas “força diagonal”; sua comunidade clandestina de “parcelas de humanidade”, esses sinais enviados por intermitências, sua essencial liberdade de movimento; sua faculdade de fazer aparecer o desejo como o indestrutível por excelência (e me vêm à memória as últimas palavras escolhidas por Freud para sua Traumdeutung: “esse futuro, presente para o sonhador, é modelado, pelo desejo indestrutível, à imagem do passado”). Os vaga-lumes, depende apenas de nós não vê-los desaparecerem. Ora, para isso, nós mesmos devemos assumir a liberdade do movimento, a retirada que não seja fechamento sobre si, a força diagonal, a faculdade de fazer aparecer parcelas de humanidade, o desejo indestrutível. Devemos, portanto, – em recuo do reino e da glória, na brecha aberta entre o passado e o futuro – nos tornar vaga-lumes e, dessa forma, formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir. Dizer sim na noite atravessada de lampejos e não se contentar em descrever o não da luz que nos ofusca.” (p. 154-155)

“Não vivemos em apenas um mundo, mas entre dois mundos pelo menos. O primeiro está inundado de luz, o segundo atravessado por lampejos. No centro da luz, como nos querem fazer acreditar, agitam-se aqueles que chamam os hoje – por uma cruel e hollywoodiana antifrase – alguns poucos people, ou seja, as stars – as estrelas, que, como se sabe, levam nomes de divindades – sobre as quais regurgitamos informações na maior parte inúteis. Poeira nos olhos que faz sistema com a glória eficaz do “reino”: ela nos pede uma única coisa que é aclamá-la unanimemente. Mas, nas margens, isto é, através de um território infinitamente mais extenso, caminham inúmeros povos sobre os quais sabemos muito pouco, logo, para os quais uma contrainformação parece sempre mais necessária. Povos-vaga-lumes, quando se retiram na noite, buscam como podem sua liberdade de movimento, fogem dos projetores do “reino”, fazem o impossível para afirmar seus desejos, emitir seus próprios lampejos e dirigi-los a outros.” (p. 155)

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Nova Era Ancestral: roda de conversa de Bem Viver no Território Junana http://vidaboa.redelivre.org.br/2019/11/01/nova-era-ancestral-roda-de-conversa-de-bem-viver-no-territorio-junana/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2019/11/01/nova-era-ancestral-roda-de-conversa-de-bem-viver-no-territorio-junana/#respond Fri, 01 Nov 2019 23:41:16 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=3173

3º mutirão de construção da Casa de Rezo reuniu coletivos e gentes das redes de Bem Viver

Publicado originalmente na página dx Junana

 

“Sem opy não dá”, disse Julia ao chegar nessas terras há cerca de dois anos. Despejada do terreno que habitava nas cercanias, a comunidade Mbya Guarani veio buscar refúgio no que havia sido a Comuna Baçara, coletividade anarquista que se dispersou depois de quatro intensos anos de laboratório comum. Da experiência Baçara, só o Tatu permaneceu morando na área – até que chegaram a comunidade Mbya e, mais recentemente, o sonho Junana. E a primeira coisa que precisava ser construída para que os Guarani pudessem habitar o local era sua Casa de Rezo.

Tatu nos brindou com o relato desse antigo diálogo com Julia, liderança política e espiritual da Tekoá Guyra Nhendú, no início da roda de conversa do terceiro mutirão de construção do yurt. O mutirão aconteceu nos dias 24 e 25 de agosto (oficialmente, porque sempre começa antes e termina depois, e talvez na verdade nunca pare). Afinal, por que uma Casa de Rezo, e não outra coisa? Porque sem opy, que é como as Guarani chamam a Casa de Rezo, não dá.

O yurt é uma bioconstrução de origem mongol. Ele foi adaptado à realidade local com o uso de bambu, material apropriado e abundante neste recôndito de Mata Atlântica no que oficialmente se compreende como o município gaúcho de Maquiné. Esta Casa de Rezo em formato circular com estrutura de bambu inspirada numa habitação ancestral da Mongólia está sendo construída ao longo de mutirões no Território Junana, que reúne gentes em torno de espiritualidade e Bem Viver, e coexiste com a Tekoá Guyra Nhendú, aldeia Som dos Pássaros.

Yurt. Em processo.

Rizomas, redes, teias, fractais. Ancestralidade, maneira de ser Guarani. Re-existência, autonomia, apoio mútuo. Bem viver, vida boa, tekó porã. Coletividade, comunidade, comum diversidade. Reconhecer-nos como natureza. Plantas. Espiritualidade. Agroecologia, permacultura, bioconstrução. Arte. Medicinas. Ciclos. Outros tempos. Alimentos. Nutrir a terra, o corpo e o espírito. Comunhão.

Recortes dessa roda de re-conhecimentos, de espelhos, de escutas e falas em que um se reconhece em cada um. Todes se reconhecem em cada uma. Em que a fala parte do espírito e ressoa nos corações. Aquecida pelo fogo, tata porã, embalada pelo vento forte, yvytu, a roda já havia começado há muito. Desde tempos imemoriais. E continua.

 

Mosaico de gentes

Lupe, da coletividade Pé do Arco Íris, contou de sua trajetória, em que partiram da Nação Tutumbaiê, comunidade xamânica, umbandista e daimista nas proximidades de Santa Maria, para essa Maquiné da qual pouco tinham ouvido falar. “Vir para cá foi um processo intuitivo guiado pelas mulheres”, relata, e entende que esse é um momento de firmar nas redes de mutirão, depois de um período inicial de foco na adaptação e sobrevivência.

Chico, arquiteto bioconstrutor, sente que sua missão é ajudar a materializar coisas – como já fez apoiando a Escola Autônoma Teko Jeapó, na vizinha Tekoá Ka’aguy Porã (Mata Sagrada), e como tem feito no Território Junana. Em Venâncio Soares, com sua família, a proposta é também ancorar o Bem Viver.

Jana conta que foi viver em lugares distantes e não tinha vontade de voltar, mas sentiu um chamado para honrar a sua terra de origem. Foi durante os mutirões na Teko Jeapó que percebeu que, assim como para a Julia sem opy não dava, para ela sem xs Guarani não dava. E segue aprendendo e desaprendendo nessa convivência.

Bianca é fruto da união de uma mulher de Xangai e um homem de Taiwan em Porto Alegre. Ela percebe nos encontros que tem frequentado que, com histórias tão diferentes, todes têm o mesmo propósito nesse caminho cheio de poesia.

Meridiana, nascida no noroeste do Rio Grande do Sul, teve uma infância na natureza e está fazendo esse retorno. Participa da formação de uma ecovila em Ubatuba e atua com resgate da agricultura familiar. Se coloca à disposição para catalizar outras ações com outros coletivos.

Jacson co-ancora o Território Junana e é originário desta terra, de Maquiné. Foi estudar fora, mas ouviu o chamado do retorno, da coletividade e da ancestralidade Guarani. “Sou grato ao que a resistência do povo Mbya Guarani proporcionou para mim”, disse.

Rossano também co-ancora Junana, também é originário desta terra, também foi “em busca de oportunidades” na cidade e também ouviu o chamado de retorno. Ele se reconectou por meio do contato com a natureza e com as medicinas ancestrais. Quando a coletividade junanense estava definindo qual deveria ser o tamanho do yurt, ele logo falou: “vamos fazer o maior que der”. Por isso o yurt tem nove metros de diâmetro, tamanho que ninguém presente no mutirão chegou a construir antes. Ou ouviu falar que se tenha construído. Tal ousadia se dá para poder acolher o máximo de pessoas que queiram e precisem.

Pascal, Lena e Mirella vivem em família e ancoram o espaço Amó. Fizeram a transição da cidade para ter contato com a natureza e com a coletividade. A proposta é desenvolver atividades com arte.

João, do Espírito Santo, oriundo de uma família patriarcal, foi solicitado a deixar sua casa. E assim passou a viajar por ambientes de natureza exuberante e trabalhar com malabarismo e artesanato. Está em Santa Maria estudando Geografia e faz parte do movimento Resistência Popular. “Isso que estamos fazendo aqui é uma escola de convivência coletiva”, disse antes de pedir um momento de silêncio pelo que está acontecendo no país, por tanto desmatamento.

Bruno frequenta esse lugar há muito tempo, desde o início da Comuna Baçara. Falou da importância de nutrir espaços de Bem Viver, da conexão com a natureza e com a ancestralidade.

Paulo falou em nome de Irma, sua mãe, eles vivem na Retomada, a Tekoá Ka’aguy Porã, e explicou que eles têm dificuldade de falar o português.

Julia, Irma e Paulo

Julia contou que em agosto faz dois anos que ela mora aqui, que tem sido uma retomada do seu modo de vida. Agora, por exemplo, começa a época de plantar. “Cada um é diferente, o rezo é diferente, a língua é diferente, mas o Deus, ou Nhanderú, como nós chamamos, é um só”, entende Julia. “Indígena é guardião da mata, da natureza”, complementou, e convocou a que nos ajudemos entre nós. “Quando a gente ajuda as outras pessoas, a gente ajuda a nós mesmos”, disse.

Vini, que conhece Maquiné e muitas das gentes envolvidas nos projetos coletivos locais há bastante tempo, conta que tinha uma vida alternativa, mas o trabalho era bem formal, o que era difícil de conciliar. Agora atua como jardineiro. “Aqui estamos convivendo de verdade – acordando junto, trabalhando junto, comendo junto, olhando no olho. Isso é conviver de verdade. Na cidade tem um monte de gente, mas todo mundo sozinho, porque não convive.” Vini entende que essa experiência no Território Junana faz parte do que ele chama de “ensaios da utopia”.

Mari vem de Santa Maria, e conta que seu despertar se deu por meio das medicinas, num movimento de resgate da ancestralidade e busca das raízes. Ela tem se envolvido com coletivos de bioconstrução urbana e está rumando para a agroecologia.

Diego atua com educação popular e conheceu a Retomada, como se costuma chamar a Ka’aguy Porã, há dois anos. Ele acha que o futuro da humanidade passa por desurbanização e aliança com os povos originários.

Jean, do Coletivo Guandú, localizado em Santa Maria, agradece poder estar aqui vivendo o rezo mais uma vez, priorizando o compartilhamento do alimento sagrado, alimento que a gente herda da ancestralidade. Reconhece e agradece às guardiãs. Ele chegou com um problema físico mas já se sente melhor, porque recebeu vários cuidados da coletividade, “e na convivência comum vamos nos curando em vários níveis”, compartilha. O Coletivo Guandú também é vizinho de uma aldeia Guarani e tem uma proposta de produção agroecológica com resgate dos saberes ancestrais. O coletivo surge da rede de comunidades autogestionadas e atua por meio da articulação em rede e da correlação com vários movimentos que têm uma visão comum. Agradece a generosidade do povo Guarani que, depois de tudo o que já passou, continua compartilhando sua sabedoria e seu modo de vida.

Michele, esta que vos escreve, andarilhante há mais de três anos com o (anti) projeto Vida Boa [não é um projeto. É minha vida. Boa.] Conhecendo e registrando histórias de Bem Viver. Participando. Aprendendo. Disseminando. Movimentos sociais, ancestralidades, agroecologia, autonomia, espiritualidade. Reconheço e busco honrar a natureza sagrada das palavras. Cantar e contar histórias, eis minha maneira de andar. Agradeço ao povo Guarani por compartilhar seu modo de vida, por nos acolher. Que possamos reconhecer nossas trajetórias e usar nossas múltiplas sabedorias em prol do bem comum. Encontro acolhida no Território Junana atraída por esse bem viver coletivo pós-contemporâneo ancestral. Atraída por essa arte resoluta. Arte, rezo e luta. Terra firme e fértil, cálido cais em meio aos movimentos por oceanos e mares de Vida Boa.

Eunar trabalha na Karai Arandu, escola indígena, desde 2014. Mbaraeté é a palavra que mais lhe chama atenção no idioma mbya guarani. Força espiritual. Vem de Dom Pedrito, cidade que conta com um histórico de massacre dos povos indígenas. Se emociona com a acolhida que recebe das crianças e da comunidade em que atua.

Dani e Sheila são irmãs que ancoram em Maquiné, junto à sua família, o Lírio do Brejo. Elas entendem que a questão não é só viver, mas conviver. Que coletividade é o único sentido da vida. Que é uma batalha, um grande desafio, mas é também o verdadeiro sabor da vida. Elas vêem o mundo através da alimentação, porque é uma necessidade que sempre agrega.

Dani e Sheila da Chácara Lírio do Brejo, rodeadas por Eunar, Leo e Klebeson

Luca falou dessa teia de energia vital entre pessoas que estão vivendo em frequência e propósito parecido. Ele se conecta com alimentação e faz produtos artesanais sem colocar preço fixo, a partir do valor de troca. Acredita nesse grande movimento, e que a gente possa espalhar isso ao máximo. Volta do mutirão fortalecido para Porto Alegre, para poder espalhar esse amor. Leo, parceiro de Luca, agradece a fala de cada um e se reconhece nelas.

O aniversariante Maurício contou do desconforto que sentia na cidade e de sua busca pela espiritualidade. Tomou ayahuasca pela primeira vez em 2013 no Sítio da Amizade, em Viamão, que também faz parte dessa rede. Resolveu fazer uma longa viagem de bicicleta pra se centrar e se sintonizar, e descobrir o que é viver com autonomia. Participou do Carijo na aldeia do Campo Molhado, encontros em que a erva mate é beneficiada coletivamente de maneira ancestral. Na volta, a busca que o levou a viajar de bicicleta o trouxe para cá, pra essa escola onde todes são professores e todes são alunos.

Mima é de Goiânia e está há sete anos no Rio Grande do Sul. Trabalha como médica. Conheceu a medicina da floresta e, do interesse em necropsia, está agora mais a favor da vida. Quer trabalhar com plantas e medicinas. Sentiu seu tempo respeitado aqui. “Agradeço a assistência do Jacson que me permitiu plantar minha primeira laranjeira”, disse.

Silvia falou que não faz muita diferença onde nasceu, e que desde sempre é um tanto nômade. Atualmente vive de bicicleta, uma outra forma de se viver no mundo.

 

Mutirão da vida

Multimãos transbordando na Roda de Conversa. Palavra comum e cura coletiva.

“Mutirão é nossa luta, é nosso rezo, é uma sabedoria ancestral de que tudo o que não pode ser feito individualmente a gente pode se juntar pra fazer”, disse Tatu ao encerrar (pelo menos por enquanto) a roda. “É um movimento recente de resgate da prática de mutirão, e daqui a pouco a gente não vai dar conta de participar de todos, o que será uma grande benção”, complementou. E já aproveitou para convidar para o próximo, no fim de semana de 07 e 08 de agosto (oficialmente), para dar sequência ao trabalho no yurt, dessa vez com foco no teto.

“‘Quando o mutirão começa?’, as pessoas perguntam. ‘Hoje’. A resposta é sempre hoje. Não necessariamente aqui, mas em outros aquis”, desexplica Tatu. Assim é o processo Junana. Não tem procedimentos de entrada e saída, cada qual com seu tempo, suas vontades e necessidades – “mas é tudo muito organizado”, salienta.

Uma proposta que surge de uma caminhada coletiva de muitos anos – ainda antes de Baçara, essas terras receberam a comunidade Sementes da Esperança, com Rafinha tecendo redes de espiritualidade no início dos anos 1990. Ela é uma das fundadoras da rede de farmácias populares de mulheres, as “Bruxinhas de Deus”, e realiza um profundo trabalho com reiki. Tatu já frequentava as cerimônias no Sítio da Amizade há mais de dez anos, e nos últimos tempos vinha fazendo, junto às parcerias, cerimônias num antigo galpão no meio da floresta. Mas o galpão estava caindo aos pedaços. E assim foi se construindo, concomitantemente ao Junana, o sonho do yurt.

O Território Junana ancorou uma cerimônia no solstício de inverno, ainda no antigo galpão. A próxima será em celebração ao equinócio de primavera, em 28 de setembro, no novo yurt.

Durante o terceiro mutirão a galera fez a treliça de bambus que funciona como parede e base para o teto, subiu a peça central e colocou as varas do teto. Além disso, a área ao redor do yurt passou por uma capina, ficando como o terreiro de terra que tradicionalmente circula a Casa de Rezo dos Mbya. Também roçamos em meio às bananeiras pensando numa futura área de camping e plantamos mudas de frutíferas – além de preparar muito alimento agroecológico, cantar, dançar, rezar, sem falar no maravilhoso multimãos, em que quebramos barreiras de timidez, nos desbloqueamos e colocamos as mãos (e o coração) a serviço da cura de todes.

Seguimos juntes, pelo caminho, nos curando, rezando, lutando, nos alimentando, honrando à Mãe Terra e ao Gran Espírito, à Pachamama, Nhandexy, Nhanderú, nesse grande território que nos abriga, Yvyrupá, Abya Yala, terra sem fronteiras de sangue vital que nos nutre.

Vem pra roda!

Aguyjevete!

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Chiapas: la treceava estela. http://vidaboa.redelivre.org.br/2019/11/01/chiapas-la-treceava-estela/ http://vidaboa.redelivre.org.br/2019/11/01/chiapas-la-treceava-estela/#respond Fri, 01 Nov 2019 22:06:08 +0000 http://vidaboa.redelivre.org.br/?p=2282 Primera parte: un caracol.

Segunda parte: una muerte.

Tercera parte: un nombre. La historia del sostenedor del cielo.

Cuarta parte: un plan.

Quinta parte: una historia.

Sexta parte: un buen gobierno.

Séptima y última parte: una posdata.

 

Primera parte: un caracol.

Son indígenas rebeldes. Rompen así con el esquema tradicional que, primero de Europa y después de todos aquellos que visten el color del dinero, les fue impuesto para mirar y ser mirados.

Así que no les acomodan ni la imagen “diabólica” de los sacrificadores de humanos para malcontentar a los dioses, ni la del indígena menesteroso con la mano tendida esperando la limosna o la caridad de quien todo tiene, ni la del buen salvaje que es pervertido por la modernidad, ni la del infante que divierte a los mayores con sus balbuceos, ni la del sumiso peón de todas las haciendas que hieren la historia de México, ni la del hábil artesano cuyo producto adornará las paredes de quien lo desprecia, ni la del ignorante que no debe opinar sobre lo que está más allá del reducido horizonte de su geografía, ni la del temeroso de dioses celestiales o terrenos.

Porque has de saber, azul reposo, que estos indígenas enojan hasta a quienes simpatizan con su causa. Y es que no obedecen. Cuando se espera que hablen, callan. Cuando se espera silencio, hablan. Cuando se espera que dirijan, se ponen atrás. Cuando se espera que sigan atrás, agarran para otro lado. Cuando se espera que sólo hablen ellos, se arrancan hablando de otras cosas. Cuando se espera que se conformen con su geografía, caminan el mundo y sus luchas.

O sea que no tienen contento a nadie. Y parece no importarles mucho. Lo que sí les importa es tener contento a su corazón, así que siguen los caminos que él les marca.

[…]

Dicen aquí que los más antiguos dicen que otros más anteriores dijeron que los más primeros de estas tierras tenían aprecio por la figura del caracol. Dicen que dicen que decían que el caracol representa el entrarse al corazón, que así le decían los más primeros al conocimiento. Y dicen que dicen que decían que el caracol también representa el salir del corazón para andar el mundo, que así llamaron los primeros a la vida. Y no sólo, dicen que dicen que decían que con el caracol se llamaba al colectivo para que la palabra fuera de uno a otro y naciera el acuerdo. Y también dicen que dicen que decían que el caracol era ayuda para que el oído escuchara incluso la palabra más lejana. Eso dicen que dicen que decían. Yo no sé. Yo camino contigo de la mano y te muestro lo que ve mi oído y escucha mi mirada. Y veo y escucho un caracol, el “pu’y”, como le dicen en lengua acá.

[…]

Durante varias horas, estos seres de corazón moreno han trazado, con sus ideas, un gran caracol. Partiendo de lo internacional, su mirada y su pensamiento ha ido adentrándose, pasando sucesivamente por lo nacional, lo regional y lo local, hasta llegar a lo que ellos llaman “El Votán. El guardián y corazón del pueblo”, los pueblos zapatistas. Así desde la curva más externa del caracol se piensan palabras como “globalización”, “guerra de dominación”, “resistencia”, “economía”, “ciudad”, “campo”, “situación política”, y otras que el borrador va eliminando después de la pregunta de rigor “¿Está claro o hay pregunta?”. Al final del camino de fuera hacia dentro, en el centro del caracol, sólo quedan unas siglas: “EZLN”. Después hay propuestas y se dibujan, en el pensamiento y en el corazón, ventanas y puertas que sólo ellos ven (entre otras cosas, porque aún no existen). La palabra dispar y dispersa empieza a hacer camino común y colectivo. Alguien pregunta ¿”Hay acuerdo? “Hay”, responde afirmando la voz ya colectiva. De nuevo se traza el caracol, pero ahora en camino inverso, de dentro hacia fuera. El borrador sigue también el camino inverso hasta que solo queda, llenando el viejo pizarrón, una frase que para muchos es delirio, pero para estos hombres y mujeres es una razón de lucha: “un mundo donde quepan muchos mundos”. Más despuecito, una decisión se toma.

 

 

Segunda parte: una muerte.

Después de todo, ése había sido el origen fundamental del EZLN: un grupo de “iluminados” que llega desde la ciudad para “liberar” a los explotados y que se encuentra con que, más que “iluminados”, confrontados con la realidad de las comunidades indígenas, parecíamos focos fundidos. ¿Cuánto tiempo tardamos en darnos cuenta de que teníamos que aprender a escuchar y, después, a hablar? No estoy seguro, han pasado ya no pocas lunas, pero yo calculo unos dos años al menos. Es decir, lo que en 1984 era una guerrilla revolucionaria de corte clásico (levantamiento armado de las masas, toma del poder, instauración del socialismo desde arriba, muchas estatuas y nombres de héroes y mártires por doquier, purgas, etcétera, en fin, un mundo perfecto), para 1986 ya era un grupo armado, abrumadoramente indígena, escuchando con atención y balbuceando apenas sus primeras palabras con un nuevo maestro: los pueblos indios.

[…]

Llegó un momento, no podría precisar bien cuando mero, en que ya no estaba el EZLN por un lado y las comunidades por el otro, sino que todos éramos, simplemente zapatistas.

[…]

El caso es que así estábamos, es decir, todavía aprendiendo (porque, creo, nunca se acaba de aprender), cuando el ahora “neo aparecido”, Carlos Salinas de Gortari (entonces presidente de México gracias a un fraude electoral descomunal), tuvo la “brillante” idea de hacer las reformas que acababan con el derecho de los campesinos a la tierra.

El impacto en las comunidades ya zapatistas fue, por decir lo menos, brutal. Para nosotros (note usted que ya no distingo entre las comunidades y el EZLN) la tierra no es una mercancía, sino que tiene connotaciones culturales, religiosas e históricas que no viene al caso explicar aquí. Así que, pronto, nuestras filas regulares crecieron en forma geométrica.

Y no sólo, también creció la miseria y, con ella, la muerte, sobre todo de infantes menores de 5 años. Debido a mi cargo, me tocaba entonces checar por radio los ya cientos de poblados y no había día en que alguien no reportara la muerte de un niño, de una niña, de una madre. Como si fuera una guerra. Después entendimos que, en efecto, era una guerra. El modelo neoliberal que Carlos Salinas de Gortari comandó con cinismo y desenfado, era para nosotros una auténtica guerra de exterminio, un etnocidio, puesto que eran pueblos indios enteros los que estaban siendo liquidados. Por eso nosotros sabemos de qué hablamos cuando hablamos de la ” bomba neoliberal”.

Imagino (habrá estudiosos serios por ahí que contarán con datos y análisis precisos) que esto ocurría en todas las comunidades indígenas de México, Pero la diferencia estaba en que nosotros estábamos armados y entrenados para una guerra. Dice Mario Benedetti, en un poema, que uno no siempre hace lo que quiere, que uno no siempre puede, pero tiene el derecho a no hacer lo que no quiere. Y en nuestro caso, no queríamos morir… o más bien, no queríamos morir así.

Ya antes, en alguna ocasión, he hablado de la importancia que tiene para nosotros la memoria. Y en consecuencia, la muerte por olvido era (y es) para nosotros la peor de las muertes. Yo sé que sonará apocalíptico, y que más de uno buscará algún dejo martiriológico en lo que digo, pero, para ponerlo en términos llanos, nos encontramos entonces frente a una elección, pero no entre vida o muerte, sino entre un tipo de muerte y otro. La decisión, colectiva y consultada con cada uno de los, entonces, decenas de miles de zapatistas, es ya historia y originó ese destello que fue la madrugada del primero de enero de 1994.

[…]

Acorralados, salimos esa madrugada de 1994 con solo dos certezas: una era que nos iban a hacer pedazos; la otra que el acto atraería la atención de personas buenas hacia un crimen que, no por silencioso y alejado de los medios de comunicación, era menos sangriento: el genocidio de miles de familias de indígenas mexicanos. Así como lo digo, puede sonar a que teníamos (o tenemos) vocación de mártires que se sacrifican por otros.

Mentiría si dijera que si. Porque aunque, viéndolo fríamente, no teníamos ninguna oportunidad militar, nuestro corazón no pensaba en la muerte, sino en la vida y, puesto que éramos (y somos) zapatistas y, ergo, nuestra duda nos incluye, pensábamos que podíamos estar equivocados en eso de que nos iban a hacer pedazos, que tal vez se levantara el pueblo de México entero. Pero nuestra duda, debo ser sincero, no alcanzaba a ser tan grande como para suponer que podría pasar lo que en realidad pasó.

[…]

Les decía que nosotros tratamos de aprender de nuestros encuentros con la sociedad civil nacional e internacional. Pero también esperamos que ella aprendiera. El movimiento zapatista surge, entre otras cosas, por la demanda de respeto. Y resulta que no siempre recibimos respeto. Y no es que nos insultaran. O cuando menos no con esa intención. Pero es que, para nosotros, la lástima es una afrenta y la limosna una bofetada.

[…]

No sólo, hay una limosna más sofisticada. Es la que practican algunas ONG’s y organismos internacionales. Consiste, grosso modo, en que ellos deciden qué es lo que necesitan las comunidades y, sin consultarlas siquiera, imponen no sólo determinados proyectos, también los tiempos y formas de su concreción. Imaginen la desesperación de una comunidad que necesita agua potable y a la que le endilgan una biblioteca, la que requiere de una escuela para los niños y le dan un curso de herbolaria.

Hace unos meses, un intelectual de izquierda escribía que la sociedad civil debía movilizarse para lograr el cumplimiento de los Acuerdos de San Andrés porque las comunidades indígenas zapatistas estaban sufriendo mucho (ojo: no porque fuera de justicia para los pueblos indios de México, sino para que los zapatistas no sufrieran más privaciones).

Un momento. Si las comunidades zapatistas quisieran, serían las de mejor nivel de vida de América Latina. Imaginen ustedes cuánto no estaría dispuesto a invertir el gobierno para conseguir la rendición de nosotros y tomarse muchas fotos y hacer muchos “spots” donde Fox o Martita se autopromocionaran, mientras el país se les deshace en las manos. ¿Cuánto no hubiera dado el ahora “neo aparecido” Carlos Salinas de Gortari por terminar su mandato, no con la carga de los asesinatos de Colosio y de Ruíz Massieu, sino con la foto de los rebeldes zapatistas firmando la paz y el Sup entregando su arma (¿la que Dios le dio?) a quien sumió en la ruina a millones de Mexicanos? ¿Cuánto no hubiera ofrecido Zedillo para tapar la crisis económica en la que hundió al país, con la imagen de su entrada triunfal en la Realidad? ¿Cuánto no hubiera estado dispuesto a dar el “croquetas” Albores para que los zapatistas aceptaran la “remunicipalización” efímera que impuso durante la tragicomedia de su mandato?

No. Ofertas para comprar su conciencia han recibido muchas los zapatistas, y sin embargo se mantienen en resistencia, haciendo de su pobreza (para quien aprende a ver) una lección de dignidad y de generosidad. Porque decimos los zapatistas que “para todos todo, nada para nosotros” y si lo decimos es que lo vivimos. El reconocimiento constitucional de los derechos y la cultura indígena, y la mejora en las condiciones de vida, es para todos los pueblos indios de México, no sólo para los indígenas zapatistas. La democracia, la libertad y la justicia a las que aspiramos son para todos los mexicanos, no sólo para nosotros.

Con no pocas personas hemos insistido en que la resistencia de las comunidades zapatistas no es para provocar lástima, sino respeto. Acá, ahora, la pobreza es un arma que ha sido elegida por nuestros pueblos para dos cosas: para evidenciar que no es asistencialismo lo que buscamos, y para demostrar, con el ejemplo propio, que es posible gobernar y gobernarse sin el parásito que se dice gobernante. Pero bueno, el tema de la resistencia como forma de lucha tampoco es el objetivo de este texto.

El apoyo que demandamos es para la construcción de una pequeña parte de ese mundo donde quepan todos los mundos. Es, pues, un apoyo político, no una limosna.

 

 

Tercera parte: un nombre. La historia del sostenedor del cielo.

“Según nuestros más anteriores, al cielo hay que sostenerlo para que no se caiga. O sea que el cielo no mero está firme, sino que cada tanto se pone débil y como que se desmaya y se deja caer así nomás como se caen las hojas de los árboles y entonces puras calamidades que pasan porque llega el mal a la milpa y la lluvia lo rompe todo y el sol castiga al suelo y es la guerra quien manda y es la mentira quien vence y es la muerte quien camina y es el dolor quien piensa.

Dijeron nuestros más anteriores que así pasa porque los dioses que hicieron el mundo, los más primeros, tanto empeño pusieron en hacer el mundo que, después de terminarlo, ya no muy tenían fuerza para hacer el cielo o sea el techo de nuestra casa y le pusieron ahí nomás lo que se les ocurrió y entonces el cielo está puesto sobre la tierra nomás como un techo de ésos de plástico. Entonces el cielo no está mero firme, sino que a veces como que se afloja. Y has de saber que cuando esto pasa, se desarreglan los vientos y las aguas, el fuego se inquieta y la tierra da en levantarse y caminarse sin encontrar donde estarse sosiega.

Por eso dijeron los que antes de nosotros se llegaron, que, pintados de colores diferentes, cuatro dioses se regresaron al mundo y, haciéndose gigantes, se pusieron en las cuatro esquinas del mundo para agarrarlo al cielo para que no se cayera y se estuviera quieto y bien planito, para que sin pena lo caminaran el sol y la luna y las estrellas y los sueños.

Pero, también cuentan aquellos del paso primero en estas tierras, que a veces a uno o a más de los bacabes, los sostenedores del cielo, como que le entra su sueño y como que se duerme o se distrae con alguna nube y entonces no lo tensa bien su lado del techo del mundo o sea del cielo, y entonces el cielo o sea el techo del mundo como que se afloja y como que se quiere caer sobre la tierra, y el sol y luna ya no tienen plano su camino y las estrellas igual.

Así pasó desde el principio, por eso los dioses primeros, los que nacieron el mundo dejaron encargado a uno de los sostenedores del cielo y él debe estarse pendiente para leer el cielo y ver cuando empieza a aflojarse y entonces este sostenedor debe hablarle a los otros sostenedores para que despierten y vuelvan a tensar su lado y las cosas se acomoden de nuevo.

Y este sostenedor nunca duerme, siempre debe estar alerta y pendiente para despertar a los demás cuando el mal se cae sobre la tierra. Y dicen los más antiguos en el paso y la palabra que este sostenedor del cielo lleva en el pecho colgado un caracol y con él escucha los ruidos y silencios del mundo para ver si todo está cabal, y con el caracol los llama a los otros sostenedores para que no se duerman o para que se despierten.

Y dicen aquellos que más primero fueron que, para no dormirse, este sostenedor del cielo va y viene dentro y fuera de su propio corazón, por los caminos que lleva en el pecho, y dicen aquellos enseñadores antiguos que este sostenedor enseñó a los hombres y mujeres la palabra y su escritura porque, dicen mientras la palabra camine el mundo es posible que el mal se aquiete y esté el mundo cabal, así dicen.

Por eso la palabra del que no duerme, del que está pendiente del mal y sus maldades, no camina directo de uno a otro lado, sino que anda hacia sí misma, siguiendo las líneas del corazón, y hacia fuera, siguiendo las líneas de la razón, y dicen los sabedores de antes que el corazón de los hombres y mujeres tiene la forma de un caracol y quienes tienen buen corazón y su pensamiento se andan de uno a otro lado, despertando a los dioses y a los hombres para que se estén pendientes de que el mundo se esté cabal. Por eso, quien vela cuando los demás duermen usa un su caracol, y lo usa para muchas cosas, pero sobre todo para no olvidar.”

 

 

Cuarta parte: un plan.

Desde los inicios de nuestro alzamiento, y aún mucho antes, los indígenas zapatistas hemos insistido en que somos mexicanos… pero también somos indígenas. Esto quiere decir que reclamamos un lugar en la Nación Mexicana, pero sin dejar de ser lo que somos.

[…]

Siendo esquemáticos y lacónicos, tendríamos que el plan es hacer: del norte, una gran maquila; del centro, un gigantesco “mall”; y del sur-sureste, una gran finca.

[…]

Los políticos son ya, y desde hace tiempo, dóciles empleados… de quien paga más. Mal hacen los empresarios nacionales al pensar que el dinero extranjero se conformará con la industria eléctrica y el petróleo. El nuevo poder en el mundo quiere todo. Así que del dinero nacional sólo quedará la nostalgia y, si tienen suerte, algún puesto menor en las mesas directivas.

[…]

Así que, frente al “Plan Puebla Panamá” en particular, y en general contra de todo plan global de fragmentación de la Nación Mexicana, El Ejército Zapatista de Liberación Nacional lanza ahora el… “Plan La Realidad-Tijuana” (RealiTi”, por sus siglas).

El Plan consiste en ligar todas las resistencias en nuestro país y, con ellas, reconstruir desde abajo a la nación mexicana. En todos los estados de la federación existen hombres, mujeres, niños y ancianos que no se rinden y que, aunque no son nombrados, luchan por la democracia, la libertad y la justicia. Nuestro plan consiste en hablar con ellos y escucharlos.

El plan “La Realidad-Tijuana” no tiene presupuesto alguno, ni funcionarios, ni oficinas. Cuenta sólo con la gente que, en su lugar, en su tiempo y en su modo, resiste contra el despojo, y recuerda que la patria no es una empresa con sucursales, sino una historia común. Y la historia no es algo que sólo es pasado. Es también, y sobre todo, futuro.

[…]

Y no sólo. Puesto que nuestra modesta aspiración es contribuir en algo a la construcción de un mundo donde quepan muchos mundos, también tenemos un plan para los cinco continentes.

Para el norte del continente Americano tenemos el “Plan Morelia-Polo Norte”. Que incluye a la Unión Americana y Canadá.

Para Centroamérica, El Caribe y Sudamérica, tenemos el “Plan La Garrucha-Tierra de Fuego”.

Para Europa y África, tenemos el “Plan Oventik-Moscú” (caminando hacia el oriente) y pasa por Cancún el próximo septiembre.

Para Asia y Oceanía, tenemos el “Plan Roberto Barrios-Nueva Delhi” (caminando hacia el occidente).

Para los cinco continentes el plan es el mismo: luchar contra el neoliberalismo y por la humanidad.

Y para las galaxias también tenemos un plan, pero todavía no sabemos que nombre ponerle (¿”La Tierra-Alpha Centauro”?). Nuestro plan intergaláctico es tan sencillo como los anteriores y consiste, grosso modo, en que no sea una vergüenza llamarse “ser humano”.

 

 

Quinta parte: una historia.

Esta “forma” de autogobierno (que aquí resumo en extremo) no es invención o aportación del EZLN. Viene de más lejos y, cuando nació el EZLN, ya tenía un buen rato que esto funcionaba, aunque sólo a nivel de cada comunidad.

Es a raíz del crecimiento desmesurado del EZLN (como ya expliqué, fue a finales de los años 80), que esta práctica pasa de lo local a lo regional. Funcionando con responsables locales (esto es, los encargados de la organización en cada comunidad), regionales (un grupo de comunidades) y de zona (un grupo de regiones), el EZLN vio que, de forma natural, quienes no cumplían con los trabajos eran suplidos por otro. Aunque aquí, puesto que se trataba de una organización político-militar, el mando tomaba la decisión final.

Con esto quiero decir que la estructura militar del EZLN “contaminaba” de alguna forma una tradición de democracia y autogobierno. El EZLN era, por así decirlo, uno de los elementos “antidemocráticos” en una relación de democracia directa comunitaria (otro elemento antidemocrático es la Iglesia, pero es asunto de otro escrito).

Cuando los municipios autónomos se echan a andar, el autogobierno no sólo pasa de lo local a lo regional, también se desprende (siempre de modo tendencial) de la “sombra” de la estructura militar. En la designación o destitución de las autoridades autónomas el EZLN no interviene para nada, y sólo se ha limitado a señalar que, puesto que el EZLN, por sus principios, no lucha por la toma del poder, ninguno de los mandos militares o miembros del Comité Clandestino Revolucionario Indígena puede ocupar cargo de autoridad en la comunidad o en los municipios autónomos. Quienes deciden participar en los gobiernos autónomos deben renunciar definitivamente a su cargo organizativo dentro del EZLN.

[…]

Sin embargo, no quiero que quede la impresión de que se trata de algo perfecto y que sea idealizado. El “mandar obedeciendo” en los territorios zapatistas es una tendencia, y no está exenta de sube-y-bajas, contradicciones y desviaciones, pero es una tendencia dominante. De que ha resultado en beneficio de las comunidades habla el haber logrado sobrevivir en condiciones de persecución, hostigamiento y pobreza que pocas veces pueden encontrarse en la historia del mundo. No sólo, los consejos autónomos han logrado llevar adelante, con el apoyo fundamental de las “sociedades civiles”, una labor titánica: construir las condiciones materiales para la resistencia.

Encargados de gobernar un territorio en rebeldía, es decir, sin apoyo institucional alguno y bajo la persecución y el hostigamiento, los consejos autónomos enfocaron sus baterías a dos aspectos fundamentales: la salud y la educación.

[…] En algunas regiones (no en todas, es cierto) ya se logró que asistan a la escuela las niñas, ancestralmente marginadas del acceso al conocimiento. Aunque se ha conseguido que las mujeres ya no sean vendidas y elijan libremente a su pareja, existe todavía en tierras zapatistas lo que las feministas llaman “discriminación de género”. La llamada “ley revolucionaria de las mujeres” dista todavía buen trecho de ser cumplida.

[…]

Yo sé que más de alguno estará pensando que ya parece informe de gobierno y que nomás falta que diga “el número de pobres se ha reducido” o alguna “foxeada” por el estilo, pero no, acá el número de pobres ha crecido porque el número de zapatistas ha crecido, y una cosa va con la otra.

Por eso quiero remarcar que todo esto se da en condiciones extremas de pobreza, carencia y limitaciones técnicas y de conocimientos, además que el gobierno hace todo lo posible por bloquear los proyectos que provienen de otros países.

[…]

Además de educación y salud, los Consejos Autónomos ven los problemas de tierras, trabajo y de comercio, donde avanzan un poco. Ven también asuntos de vivienda y alimentación,. Donde estamos en pañales. Donde se está un poco bien es en cultura e información. En cultura se promueven, sobre todo, la defensa de la lengua y las tradiciones culturales. En información, a través de las diversas estaciones de radio zapatista, se trasmiten noticieros en lengua. También, regularmente y alternados con música de todo tipo, se transmiten mensajes recomendando a los varones el respeto a las mujeres, y llamando a las mujeres a organizarse y exigir el respeto a sus derechos. Y, no es por nada, pero nuestra cobertura sobre la guerra en Irak fue muy superior a la de CNN (lo que, bien visto, no significa mucho).

[…]

Si la relación de los Consejos Autónomos con las comunidades zapatistas está llena de contradicciones, la relación con comunidades no zapatistas ha sido de constante fricción y enfrentamiento.

[…]

También está el problema de las diferencias entre derecho positivo y los llamados “usos y costumbres” (como les dicen los juristas) o “camino del buen pensamiento” (como les decimos nosotros).

[…]

Si el alzamiento del 1 de enero de 1994 fue posible por la complicidad conspirativa de decenas de miles de indígenas, la construcción de la autonomía en territorio rebelde es posible por la complicidad de cientos de miles de personas de diferentes colores, diferentes nacionalidades, diferentes culturas, diferentes lenguas, en fin, de mundos diferentes.

Ellos y ellas, con su apoyo, han hecho posible (en lo bueno, porque lo malo es sólo responsabilidad nuestra) no que se solucionen las demandas de los indígenas rebeldes zapatistas, pero sí que mejoren un poco sus condiciones de vida y, sobre todo, que hayan sobrevivido y hecho crecer una más, acaso la más pequeña, de las alternativas frente a un mundo que excluye a todos los “otros”, es decir, a indígenas, jóvenes, mujeres, niños, migrantes, trabajadores, maestros, campesinos, taxistas, comerciantes, desempleados, homosexuales, lesbianas, transexuales, religiosos comprometidos y honestos, artistas e intelectuales progresistas, y ___ (agregue usted lo que falte).

 

 

Sexta parte: un buen gobierno.

En cada uno de los cinco “Caracoles” que están por nacer en territorio rebelde, se trabaja a marchas forzadas para que todo esté listo. […]

Y en cada “Caracol” se distingue perfectamente una nueva construcción, la llamada “Casa de la Junta de Buen Gobierno”. Según se alcanza a ver, habrá una “Junta de Buen Gobierno” en cada zona y representa un esfuerzo organizativo de las comunidades, no sólo para enfrentar los problemas de la autonomía, también para construir un puente más directo entre ellas y el mundo.

[…]

Sus sedes estarán en los “Caracoles”, habrá una junta por cada zona rebelde y estará formada por 1 ó 2 delegados de cada uno de los Consejos Autónomos de dicha zona.

[…]

Entre las primeras disposiciones de las Juntas de Buen Gobierno están las siguientes:

Uno.- Ya no se permitirá que los donativos y apoyos de la sociedad civil nacional e internacional sean destinados a alguien en particular o a una comunidad o municipio autónomo preciso. La Junta de Buen Gobierno decidirá, después de evaluar la situación de las comunidades, a dónde es más necesario que ese apoyo se dirija. La Junta de Buen Gobierno impone a todos los proyectos el llamado “impuesto hermano” que es del 10 % del monto total del proyecto. Es decir, si una comunidad, municipio o colectivo recibe un apoyo económico para un proyecto, deberá entregar el 10 % a la Junta de Buen Gobierno para que ésta lo destine a otra comunidad que no recibe apoyo. El objetivo es equilibrar un poco el desarrollo económico de las comunidades en resistencia. Por cierto, no se aceptarán sobras, limosnas ni la imposición de proyectos.

 

 

Séptima y última parte: una posdata.

Es oficial: está usted formalmente invitada(o) a la celebración de la muerte de los “Aguascalientes”, y a la fiesta para nombrar a los “Caracoles” y el inicio de las “Juntas de Buen Gobierno”. Será en Oventik, Municipio Autónomo de San Andrés Sakamch’en de Los Pobres, Chiapas Zapatista y Rebelde, los días 8, 9 y 10 de agosto del 2003.

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