Poeminhas de Manoel de Barros – Caderno de Aprendiz

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1.

Eu queria ser banhado por um rio como um sítio é.

Como as árvores são.

Como as pedras são.

Eu fosse inventado de ter uma garça e outros pássaros em minhas árvores.

Eu fosse inventado como as pedrinhas e as rãs em minhas areias.

Eu escorresse desembestado sobre as grotas e pelos cerrados como os rios.

Sem conhecer nem os rumos como os andarilhos.

Livre, livre é quem não tem rumo.

 

2.

Invento para me conhecer.

 

8.

Para cantar é preciso perder o interesse de informar.

 

10.

No gorjeio dos pássaros tem um perfume de sol?

 

13.

Eu sempre guardei nas palavras os meus desconcertos.

 

21.

Eu bem sabia que a nossa visão é um ato poético do olhar.

Assim aquele dia eu vi a tarde desaberta nas margens do rio.

Depois eu quisera também que as minhas palavras fizessem parte do chão como os lagartos fazem.

Eu queria que minhas palavras de joelhos no chão pudessem ouvir as origens da terra.

 

23.

Tenho o privilégio de não saber quase tudo.

E isso explica

o resto.

 

28.

O abandono do lugar me abraçou de com força.

E atingiu meu olhar para toda a vida.

Tudo que conheci depois veio carregado de abandono.

Não havia no lugar nenhum caminho de fugir.

A gente se inventava de caminhos com as novas palavras.

A gente era como um pedaço de formiga no chão.

Por isso o nosso gosto era só de desver o mundo.

 

29.

Eu queria pegar na semente da palavra.

 

33.

Naquele dia eu estava um rio.

O próprio.

Achei em minhas areias uma concha.

A concha trazia clamores do rio.

Mas o que eu queria mesmo era de me aperfeiçoar quanto um rio.

Queria que os passarinhos do lugar escolhessem minhas margens para pousar.

E escolhessem minhas árvores para cantar.

Eu queria aprender a harmonia dos gorjeios.

 

36.

O primeiro poema:

O menino foi andando na beira do rio e achou uma voz sem boca.

A voz era azul.

Difícil foi achar a boca que falasse azul.

Tinha um índio terena que diz-que falava azul.

Mas ele morava longe.

Era na beira de um rio que era longe.

Mas o índio só aparecia de tarde.

O menino achou o índio e a boca era bem normal.

Só que o índio usava um apito de chamar perdiz que dava um canto azul.

Era que a perdiz atendia ao chamado pela cor e não pelo canto.

A perdiz atendia pelo azul.

 

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