Retiro em jejum: descolonizar-se por todas as relações

 

8 dias em retiro. Jejum.

De alimentos

interações sociais

obrigações cotidianas

conexão digital.

 

Nos 5 primeiros dias, nada de alimento sólido.

Mate ao acordar. Algumas medicinas em pequena quantidade.

Um limão espremido com uma colher de mel diluído em água.

Chá.

Depois entendi que eu não precisava ser tão estrita. Tinha meia abóbora na geladeira. Essa meia abóbora rendeu um caldinho para os três dias restantes. Leve refeição do fim do dia, para não ser tão penoso dormir.

Escrevo na última noite. Amanhã sigo essa mesma rotina, com a diferença de que pretendo tomar juçara com banana e ir até a cachoeira. Na volta, preparar meu desjejum e celebrar o encerramento desse retiro.

Retiro em jejum pra mim é uma medicina pro corpo, pras emoções, pra mente, pro espírito. Assim é pra vários povos e tradições, não estou inventando nada. Já fiz alguns ritos de passagem coletivos em que o jejum e o retiro da vivência cotidiana são as bases. Mas nesses dias cheguei ao entendimento de que esse meu jejum, apesar de em alguma medida ser um rito de passagem, não substitui os ritos de passagem coletivos. Eu sozinha jejuando e fazendo meus rituais na minha casa não se compara com quando é feito com várias pessoas juntas, com outras pessoas no apoio, mantendo um fogo aceso constantemente enquanto as outras estão em seus ritos, normalmente em lugares afastados, seguindo um desenho ancestral já praticado muitas vezes.

Ainda quero os ritos de passagem coletivos. Que são mais esporádicos, marcam fases da vida. E são ainda mais desafiadores (apesar de que fazer jejum na própria casa tendo alimento disponível, estando sozinha, exige uma força de vontade ferrenha). Já os jejuns que tenho feito se dão na transição das estações, não em todas necessariamente (nesse verão não fez sentido pra mim fazer, momento muito expansivo, muito sol e calor chamando pra fora, não pra dentro). Mas na primavera e no outono faz todo o sentido – o tempo ameno torna menos difícil e também são as épocas indicadas pela ayurveda para essas limpezas.

Ainda assim acho bem difícil.

Mas é bem bom.

Gosto de estar no conforto do meu lar de um outro modo. Gosto de criar meu próprio rito de uma maneira mais livre, espontânea, à medida que as coisas vão acontecendo. Gosto de rever as questões do meu cotidiano desde uma outra mirada. Sempre tenho muitos entendimentos, lembranças, inspirações. Resoluções práticas.

 

Dessa vez fiz banho de banheira com água aquecida no fogão à lenha, ervas, flores, óleos essenciais e argila verde na segunda e na última noite. Na quinta noite fiz uma cerimônia. Fiz muitas sessões com cristais ao som de musicoterapia. Algumas cantorias. Li, escrevi, hoje até vi um filme. Ouvi muita música-medicina. Fiquei horas na rede tomando mate ou simplesmente contemplando a linda paisagem, as montanhas de floresta, a cachoeira no alto, o vale, o jardim, a gatinha. Acompanhei a chuva e o sol, que se alternaram muitas vezes ao longo desses dias. Fiz yoga e muita automassagem com óleos e pomadas. Tirei cartas do caminho sagrado. E descansei muito. Ficar offline é uma delícia.

No quarto dia de jejum desceu minha lua. Na lua nova, em retiro. Tudo friamente calculado. Nesse dia fiquei bastante deitada. Simplesmente sangrando. O terceiro dia foi o mais difícil. Logo antes de menstruar – e o terceiro dia costuma ser, nesse tipo de rito, o da iniciação, o teste, a provação. Mal consegui levantar da cama. O corpo todo cansado. Tonturas. Sensação de que ia desmaiar ao levantar. A visão se fechava em negro, mas logo depois se abria de novo. Não tenho pressão baixa e nunca desmaiei, assim que isso não apresentava um risco real pra mim. E todas essas sensações passaram. Tudo passa.

 

Saí para caminhar na floresta no sexto dia, foi lindo até eu ouvir barulhos de tiro próximos. Caçadores. Tudo que eu menos queria no momento era me deparar com algum deles e seus cães de caça. Fui embora rápido, o que me gerou intenso cansaço nessas condições. Senti muito desgosto por esses seres agindo assim na floresta.

Andar na floresta em jejum é uma experiência mágica. Mas também de muito receio. Nesses momentos rituas eu me sinto mais natureza, digamos assim, afinal nós somos natureza mas as couraças da civilização fazem a gente esquecer. Mas em jejum a percepção é muito aguçada, a abertura é muito grande. Dá pra sentir tudo. Inclusive o receio de encontrar os tais homens civilizados que os demais seres da natureza têm. Imagino como os povos indígenas devem se sentir caminhando na floresta… Esses povos são mais natureza, porque reconhecem que são natureza. Me contaram que pessoas do povo Guarani têm o costume de, ao ouvir um barulho suspeito na mata, ficar imóveis e em silêncio. Como se não estivessem ali. A violência da colonização, do homem civilizado, deve ter ensinado isso. Mulheres também tendem a ser mais natureza. E sentem os mesmos receios que a mata quando um caçador adentra.

Me fez pensar que em ritos de passagem sozinha talvez seja melhor ficar em área protegida mesmo. Infelizmente são cada vez mais raras e restritas.

Tive uma visão bem bonita e profunda ontem à noite, depois de brincar com o fogo de uma velinha, me iluminar e aquecer com ele. Desses entendimentos mágicos da vida. De olhos fechados, no escuro. Sabe ver no escuro de olhos fechados? Eu fazia muito isso quando criança. Até de olho aberto. No escuro. Tem coisa que a gente precisa reaprender. Ontem me veio esse saber. Fuego de mi corazón. La serpiente cósmica.

Senti cura física em processinhos de curto, médio e longo prazo que me acometem. Os frutos do tempo dedicado para o autocuidado nesses dias. Mas muita dor nas pernas, como quando se passa uma noite com muito frio e elas acordam enrijecidas. Isso eu não costumo sentir. Pode ser do processo de desintoxicação que o jejum gera.

Eu sinto que fazer esse ritos é intensamente descolonizador. No ritmo de vida sem sentido acelerado que se impõe, ninguém tem tempo pra isso. Nem vê sentido nisso. Poder reservar tempo, ter espaço e condições apropriadas para fazer um balanço para melhor acompanhar os ciclos dentro, entre e fora, me parece algo fundamental para uma sociedade saudável. É um momento de muito aprimoramento. Sempre agradeço a mim mesma por me propiciar esses momentos quando eles terminam, e agradeço a vida que levo, em que esses ritos são prioritários, e por viver em condições que me permitem realizá-los – mesmo que em alguns momentos tenha sentido dor, fome, fraqueza. Elas também ensinam. Ensinam que mais do que o que a gente sente, importa como a gente reage ao que a gente sente. E ensinam sobre perseverança. Sobre conseguir realizar aquilo que a gente se propõe. O rezos, os intuitos, os sonhos, as melhores das intenções só se realizam na prática. Ação na matéria.

Para fazer um retiro desses é preciso criar condições para isso e realizar tudo que é necessário pra que ele aconteça – inclusive não comer. Jejuar passa a ser uma (não) ação. Assim como meditar é uma (não) ação. Mesmo que seja não fazer, é uma decisão colocada em prática.

Vi muitas flores, rasantes de tucano e gralha azul, borboletas. Visitas de beija flor. Aranhas. Uma delas mumificando um insetinho com sua teia, foi bem interessante observar. O inseto-múmia ainda dando uns espamos, e ela lá, firme, segurando. Garantindo o alimento.

Vou me despedindo desse rito muito agradecida. Nutrida. Seguindo nos trabalhinhos cotidianos pra cada vez dar mais sentido, coerência, beleza, profundidade e leveza à vida, agora com mais algumas indicações de como fazer isso. Tarefinhas necessárias. Alinhamentos bem vindos. Um dos apontamentos é, inclusive, incorporar mais o jejum ao meu cotidiano.

Agradeço todas as forças de Vida-morte-vida por mais esse renascimento, por atravessar mais um portal, por toda a guarnição e guiança, por todos os seres que me acompanham, por essa floresta encantada, por esse território sagrado, por ter a honra de poder observar e ser convidada para a extasiante dança cósmica do universo. Agradeço por todas as sabedorias ancestrais e povos que mantêm vivos seus ritos, rezos, modos de vida, tradições – e por generosamente compartilharem. Agradeço pelo meu corpo, por todos os meus corpos, pela minha vida. Pelo sagrado alimento. Por todas as relações.

Aqui o outono chegou.

 

 

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