Junho de 2013 revisitado: Curitiba

A série “Junho de 2013 revisitado” é uma adaptação  de textos a partir de “A máscara e a multidão: enquadramento dos Anonymous em junho de 2013 no Brasil”, dissertação de Michele Torinelli (UFPR, 2015), disponível na íntegra aqui. As imagens também compõem a pesquisa.

Leia também: Junho de 2013 revisitado: notícias de enquadramentos entre noticiários, redes e ruas

 

 

Curitiba, 17 de junho de 2013. Os militantes de partidos, movimentos e coletivos, que vinham ocupando as ruas com manifestações diversas ao longo dos últimos anos, e geralmente com adesão escassa da população, estavam surpresos. Anos e anos tentando mobilizar e, de repente, a multidão tomava as ruas. O sentimento era de comunhão.

Milhares de pessoas gritavam juntas, em uníssono: “vem, vem, vem pra rua vem, CONTRA O AUMENTO!”. Mas não era “só por 20 centavos” – e em Curitiba, diferentemente de São Paulo, o aumento foi de 25 centavos, e efetuado já em março. Somava-se ao aumento da tarifa do transporte público o caos da mobilidade urbana, o descrédito em relação aos representantes políticos, a acusação de manipulação direcionada às mais consagradas empresas de comunicação do país, a decepção frente ao modo como os preparativos para a Copa do Mundo estavam sendo implementados – refletida na popular palavra de ordem “da Copa, da Copa, da Copa eu abro mão, eu quero transporte, saúde e educação” – , descontentamento frente às prioridades de investimento da verba pública em detrimento de direitos básicos, a privatização do espaço público e, principalmente, uma conclamação para que as pessoas levantem, saiam da passividade, assumam uma postura crítica e ativa e tomem as ruas.

Eu estava chegando sozinha pelo calçadão da rua XV, no centro da cidade. O ponto
de saída divulgado era a Boca Maldita, no final do calçadão, local tradicional de
manifestações políticas em Curitiba. Já dava para ver que tinha muita gente, muita gente mesmo, como eu nunca havia visto num protesto na cidade. Talvez, no mesmo local, somente os espetáculos de Natal em que crianças cantam das janelas de um prédio histórico – hoje sede do banco HSBC –, divulgados amplamente nos canais oficiais e comerciais, reúnam tal público. Ou os shows mais disputados da Virada Cultural.

A multidão à frente começou a andar em minha direção. Olhei para o lado oposto, de
onde vim, e outra multidão também vinha em meu sentido. Eu estava no meio de duas multidões que caminhavam uma ao encontro da outra – impressionante e um pouco assustador. Em seguida pude perceber que eram duas partes da mesma multidão, pois estavam virando à esquerda no ponto onde se chocariam, rumo à praça Rui Barbosa, local que abriga diversas paradas de ônibus e propicia conexão entre as linhas. Um manifestante gritava que era pra ir pra lá, tentando coordenar minimamente a confusa multidão.

A rua que leva à praça, mais estreita que o calçadão, foi tomada pelos manifestantes.
As pessoas que estavam nos estabelecimentos em volta pararam para olhar. Encontrei uma conhecida que tentava encontrar amigos em comum, um militante dos movimentos sociais, que me indicou que a batucada do Levante Popular da Juventude estava mais à frente, e outro militante filiado a um partido político e que atua no meio cultural: “eu vim representando a velha guarda pra dar uma força pra vocês, fiquei sabendo que tem gente da direita se infiltrando”, disse ele.

Fui fotografando, pela experiência sei que é um bom jeito de ir “entrando” na marcha, sentindo, imergindo. Subi numa padaria para tirar fotos de cima. Desci e fiquei circulando. Fui até o começo da marcha, para tirar fotos de frente. Segui andando pela lateral da Rui Barbosa. Muita gente. Muitos cartazes. Muitas pautas.

Os organizadores da manifestação – a galera da linha de frente – puxou uma pausa ali na praça. Em volta, vários ônibus parados e pessoas esperando para tomá-los. Com um megafone, alguém explicava a pauta, e os outros repetiam, para que aqueles que estavam mais distantes pudessem ouvir também . Ali se propagava a linha politicamente construída pelo grupo que organizou a manifestação. Ali se disputava sentido. Todos sentados no chão (com exceção de quem falava), no meio da rua, bem onde os ônibus passam, na Rui Barbosa.

Na sequência, a linha de frente foi guiando a marcha, que atravessou a praça e pegou
a rua André de Barros, pela qual desceria até a altura da rodoviária. Nessa rua, mais larga e comprida, dava pra ver a dimensão da multidão: muita gente, cantando junto, enchendo a rua até onde a vista alcançava. Assim como muitos outros que ali estavam, eu nunca tinha vivenciado isso. Havia muita emoção, um sentimento de força, de conexão entre as pessoas
que normalmente transitam na cidade sozinhas ou em pequenos grupos, muitas vezes com medo, ou pelo menos receio, dos indivíduos e grupos desconhecidos que a co-habitam. Ali eram muitas, estavam juntas, por motivos diferentes, mas unidas por um sentimento comum.


A palavra “revolução” deixou de ser de uso exclusivo dos militantes de esquerda e apareceu em gritos e cartazes – afinal, como denominar algo tão forte e inusitado? À frente da manifestação havia um cordão de segurança, para dar uma certa organização à espontaneidade da marcha, no qual alguns usavam a máscara de Guy Fawkes, símbolo dos Anonymous, outros amarravam camisetas na cabeça. Havia também uma grande faixa, que dizia: “Lutar! Criar! Poder POPULAR. Pela gestão pública do transporte.”

A maioria dos que estavam na manifestação era jovem. Aparentemente, predominava a classe média. Encontrei conhecidos que nunca vi em protestos ou se posicionando politicamente. Mas também tinha gente das periferias, movimentos sociais, punks, galera do rap. Em dado momento, quando caminhava em meio à multidão, alguns rapazes gritavam “Fora, Dilma!”. Um grupo ao lado deste começou a puxar outra palavra de ordem, relacionada ao transporte, angariando os que estavam à sua volta, inclusive aqueles que pediam a retirada da presidenta do poder segundos antes. Novamente, percebia-se que a pauta, e o sentido da manifestação, se disputavam (também) ali.

Durante o trajeto, via-se gente nas janelas dos prédios acompanhando a marcha. Na
esquina da André de Barros com a Tibagi, onde a multidão fez a curva para chegar em frente à rodoviária, um manifestante pediu a alguém que acompanhava da janela para subir para fotografar – e eu fui na carona. Era um escritório de contabilidade, no qual estavam duas garotas (entre 18 e 25 anos) e um senhor (entre 50 e 65 anos). Elas falaram que queriam muito ir para a rua, mas tinham que terminar um relatório de auditoria. O senhor, que estava fotografando com seu celular, me deu licença para fotografar na janela. “Será que já teve tanta gente assim antes, na rua, em Curitiba?”, perguntei para ele, que me respondeu que sim, que havia visto uma manifestação ainda maior que esta nas Diretas Já.

Lá de cima via-se a multidão, que subia a rua até perder de vista. “Vem, vem, vem pra rua vem, CONTRA O AUMENTO”, gritavam, juntos, os manifestantes, empunhando seus cartazes, tentando destacá-los em meio à multidão e ganhar um flash dos fotógrafos. Depois de tirar as fotos me despedi; uma das meninas largou o relatório de contabilidade e desceu também.

A marcha seguiu até a altura da rodoviária: no amplo cruzamento da avenida Sete de
Setembro com a Mariano Torres, a multidão tomava conta de todo o perímetro. Muitos sentaram, tentou-se a tática de alguns falarem e outros repetirem, mas dessa vez foi difícil difundir a mensagem entre tantas pessoas. Dali a marcha seguiu pela avenida Mariano Torres até a praça Santos Andrade, outro lugar onde comumente ocorrem protestos e no qual se localiza o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná. Lá os manifestantes comemoraram que em Brasília, naquele momento, a parte externa do Congresso, símbolo da política nacional, era ocupada. A revolta se conectava em rede.

Viam-se muitas máscaras de Guy Fawkes, camisetas pretas e lenços diversos amarrados nos rostos, assim como muitas bandeiras do Brasil – elementos que não haviam se destacado no dia 14, na manifestação convocada na cidade em solidariedade à violência que ocorreu em São Paulo na véspera. Quando do aumento da tarifa na capital paranaense, em março, os grupos organizados em torno da pauta mobilizaram uma manifestação, que teve pouca adesão: o aumento prevaleceu. A comoção em torno da repressão policial em São Paulo no protesto contra o aumento da tarifa surgiu como uma oportunidade política para sensibilizar a população em torno da pauta e pressionar o poder público – mesmo que tardiamente. E funcionou.

Segundo os manifestantes, cerca de 2 mil pessoas compareceram ao ato do dia 14, a maioria militantes de outras pautas que se solidarizaram ou pessoas sensíveis às lutas populares. No dia 17, a coisa já mudou de figura e a adesão tomou proporções inesperadas. Muitos tiveram acesso a notícias sobre os protestos por meio da mídia de massa e foram para as ruas – alguns pela primeira vez. Manifestantes dizem que este ato em Curitiba reuniu 25 mil pessoas. Segundo a imprensa local, foram 10 mil. Era possível perceber, pela quantidade de repórteres presentes na manifestação do dia 17, que a cobertura da imprensa havia crescido exponencialmente de um protesto para o outro. A partir dessa mobilização, o aumento da tarifa não foi revogado, como reivindicava o movimento, mas reduzido de 25 para 10 centavos. Sintomático que a prefeitura contatou os organizadores da marcha, em busca de representantes com quem pudesse dialogar, por meio do evento que convocava para o ato no Facebook.

Somente quando cheguei em casa, já com a noite avançada, soube por publicações no
Facebook que a marcha chegou a ir até a prefeitura, onde “teve confusão” (o que acabou virando senso comum é que os protestos “sempre acabam em quebradeira”). Também já se podia identificar indícios dos três grandes rachas que desmobilizariam as manifestações: as disputas em torno das pautas, dos partidos e da violência – ou, como se tornou comum denominar, “vandalismo”. Tais conflitos se tornariam explícitos no ato seguinte, no dia 20, quando a marcha se dividiu em duas: a da “esquerda” e a dos “sem-partido” – a primeira vermelha e a segunda verde e amarela.
Nesse dia, estava frio e chovendo bastante. Mesmo assim havia milhares na manifestação. Chegando à Boca Maldita, fiquei impressionada com a quantidade de militantes e integrantes de movimentos sociais, assim como de camisetas e bandeiras vermelhas. Somente depois pude perceber que essa era só uma parte da marcha, que havia se desmembrado.

“Aqui é a marcha dos sem partido, essa outra é a dos partidários”, me explicou sem rodeios uma moça enrolada numa bandeira do Brasil que percebeu a incompreensão de alguns manifestantes sobre o que estava acontecendo quando as duas marchas se cruzaram. Ambas se dirigiram à sede do governo estadual. Segui até lá com a marcha “vermelha”, que se diferenciava pelo tom politizado das palavras de ordem, como “ô Fruet, não sou otário, tem que tirar do bolso do empresário!”, dirigindo-se ao prefeito da cidade em relação à redução da tarifa, que se deu por meio de incentivo federal. A “marcha vermelha” foi na frente; quando a “verde e amarela” chegou, a primeira debandou.

Na sexta-feira, 21, a confusão foi tanta que a multidão inicial separou-se em pelo menos quatro grupos e houve conflitos entre manifestantes e a torcida organizada do Atlético Paranaense em frente ao estádio do time, e destes dois grupos com a Tropa de Choque. Os torcedores tinham intuito de proteger o estádio, que estava sendo reformado para a Copa, de uma suposta depredação por parte dos manifestantes. Segundo André Feiges, ativista da pauta do transporte que chegou a apanhar dos torcedores, alguns deles carregavam tacos de madeira e de ferro e dois portavam armas de fogo.

Assim, com muita discussão – e disputas de enquadramento que envolveram manifestantes, mídia de massa e autoridades – em torno de vandalismo, da legitimidade ou não de partidos políticos e de quais seriam as verdadeiras pautas em questão, assim como de uma intensa e violenta repressão oficial, a grande onda de manifestações que tomou as ruas do Brasil em junho ensaiava seu fim em Curitiba – ou, sob uma perspectiva processual, a sua continuidade, incluindo outros formatos, outros atores e outras dinâmicas.

 

A série “Junho de 2013 revisitado” é uma adaptação  de textos a partir de “A máscara e a multidão: enquadramento dos Anonymous em junho de 2013 no Brasil”, dissertação de Michele Torinelli (UFPR, 2015), disponível na íntegra aqui. As imagens também compõem a pesquisa.

Leia também: Junho de 2013 revisitado: notícias de enquadramentos entre noticiários, redes e ruas

 

 

2 comentários sobre “Junho de 2013 revisitado: Curitiba

  1. Arrepiei! Obrigada pelo relato tão claro e detalhado, Michelle!
    Pra quem acompanhou a tudo isso de longe, embriagada por posts de amigos, conhecidos e da mídia; me fez navegar por esse momento, pelos lugares, e recriar na mente o que pode ter sido essa eclosão de eventos que duraram não mais que uma semana em Curitiba. Obrigada!

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