Integrar para não entregar: agroecologias do Sul

Re-conhecimento e re-existência no I ERGA Sul – Encontro Regional de Grupos de Agroecologia da região Sul

Por Michele Torinelli

 

foto final redux

 

pequenas formigas 

plantam o corpo 

do mundo

[Versos de Nathalia Drumond, do curso de Agroecologia da UFPR Litoral, inspirados no encontro. Registros poéticos.]

 

Camping do Parque Estadual do Rio Vermelho. Florianópolis. Santa Catarina. Brasil. América Latina. Mais de duzentos grupos e pessoas se reuniram de 26 a 29 de maio para trocar experiências e fortalecer a rede agroecológica no sul do país. A articulação é focalizada pela REGA – Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil, que integra a representação das juventudes na ABA – Associação Brasileira de Agroecologia.

O clima foi de celebração, mas também de denúncia e de chamado à organização: denúncia do golpe à democracia, do governo ilegítimo de Michel Temer, do desmonte do Ministério do Desenvolvimento Agrário, bem como dos retrocessos nas políticas públicas para as mulheres, para os agricultores e de caráter social como um todo. A chamada é para que os movimentos afirmem suas ações e integrem suas lutas – para não entregar as conquistas. É hora de, mais do que nunca, resistir. E re-existir.

A proposta do encontro regional surgiu no último ENGA – Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia, realizado em setembro do ano passado em Belém do Pará. A galera de Floripa que estava lá presente fez a frente de criar as bases para a concretização do evento, a partir da construção coletiva, da autogestão e da horizontalidade – princípios que guiaram não só a preparação, mas também a dinâmica durante o encontro.

Mais de duzentas pessoas acampadas, autogestionadas, cuidando do preparo dos alimentos orgânicos, da limpeza, da harmonização, do registro e da realização das atividades. Rodas de conversa, de abraços, de avisos, de música e de capoeira. Oficinas, debates, trocas diversas. Quatro dias intensos nos quais grupos experientes se renovaram e novos grupos se formaram. Em que pessoas de 2 a até mais de 70 anos interagiram por uma vida radicalmente sustentável, alegre e colaborativa, para todos e por todos. [Veja fotos das gentes e grupos agroecológicos aqui].

 

Movimentos sociais e agroecologia

O encontro contou com dois debates oficiais (porque informais foram vários), ou ‘espaços de diálogo’: Áreas protegidas, Agroecologia e Comunidades TradicionaisMovimentos sociais do campo e a resistência agroecológica. No primeiro falou-se sobre legislação ambiental, e a principal pergunta que ficou foi: legislação para quem? Percebe-se que há várias restrições preservacionistas que impedem as comunidades tradicionais de reproduzir seu modo de vida em meio à natureza, levando-as às periferias dos grandes centros urbanos na luta pela sobrevivência, enquanto há fartos incentivos oficiais à propagação de uma agricultura ecologicamente e socialmente destrutiva – o chamado ‘agronegócio’. Leis que inviabilizam as culturas tradicionais e a agricultura familiar, mas que subsidiam a monocultura de commodities à base de veneno para exportação.

“A presença humana é prejudicial à natureza? “, questionou André ‘Chitão’ Martins, do Cepagro – Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo. Não necessariamente. Ele conta que o Parque Estadual do Rio Vermelho, onde se localiza o camping gerido atualmente pelo Cepagro, antigamente era uma área quilombola – o Quilombo Vidal Martins. O parque, um dos primeiros estaduais, tem 50 anos, e o camping, 40. Um lugar histórico.

Na época em que era habitado pelos quilombolas, a vegetação era composta por restinga e roça de subsistência. Na década de 60, com a demanda por madeira e a araucária já escassa de tanta extração, o governo expulsou a comunidade e plantou pinus. Hoje a praia do Moçambique, no Rio Vermelho, é margeada por uma extensa plantação de pinus, que se sobrepôs à vegetação original.

Esse é um dos muitos exemplos que comprovam que a presença humana, em harmonia com a natureza, pode ser até mesmo benéfica para o meio, como frequentemente demostram as comunidades tradicionais – e eis o desafio que o Cepagro assumiu no camping, migrar para essa lógica por meio da agroecologia. Já o inverso também fica comprovado: como políticas socialmente e ecologicamente irresponsáveis, que visam somente demandas comerciais a curto prazo, intervêm negativamente, e muitas irremediavelmente, na natureza.

Como enfatizou Bruna Amante, do Coletivo UC da Ilha, não dá para discutir agroecologia sem fazer o enfrentamento ao sistema político que está dado. E é preciso rememorar que a agroecologia não é algo novo, mas a retomada de velhas práticas marginalizadas, como defende Natália Almeida Souza, representante da ABA – Associação Brasileira de Agroecologia.

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Representantes de movimentos sociais no campo: Ocupa Amarildo e MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Apesar das diferenças, unidos na luta pela agroecologia e contra o sistema capitalista.

O segundo debate, que reuniu integrantes de movimentos sociais e comunidades agroecológicas, enfatizou a necessidade de intensificar e conectar as ações no atual momento político. Leandro Lavratti, da Comuna Amarildo, movimento que surgiu em Florianópolis em 2013 e que atualmente ocupa uma área com mais de 20 nascentes e cinco rios em Águas Mornas, explica que trata-se de uma ocupação agroecológica de resistência que bate em quem tem que bater: o sistema capitalista.

“A gente descobriu que as terras haviam sido griladas na cara dura e ocupou”, diz Leandro. A comuna não faz parte do MST. Entre outras diferenças, os Amarildos não dividem as áreas em lotes, mas coexistem em uma grande área comum. Mas Leandro, que é filho de assentado do MST, destaca que não se trata de disputar qual movimento é melhor, mas de somar na luta por terra, trabalho, teto e liberdade.

Como relata Elis Rodrigues, que também falou em nome do movimento, a ocupação em Florianópolis chegou a abrigar 740 famílias – o que comprova a demanda por moradia na cidade. Com a mudança para Águas Mornas, o número de famílias reduziu drasticamente, mas a Comuna continua articulada com uma grande rede de apoio: a ideia é expandi-la para que abarque as demais ocupações na região e os quilombolas, pois trata-se de uma luta conjunta pela terra.  [Conheça a história da Comuna Amarildo aqui].

Tanto Elis quanto Leandro convidaram a todas e todos a visitar a Comuna, participar de mutirões e convocar os Amarildos para compor outras lutas – afinal, é sempre necessário articular os movimentos, mas, frente ao cenário atual, é urgente. “A tensão é inevitável, mas a gente nunca acreditou que a mudança viria de cima”, avalia Neiva Viera, agricultora do assentamento Justino Drazewske, do MST-SC. Ela conta que o MST está intensificando suas articulações, mas que sempre foi um movimento ousado. “O vermelho da bandeira não é por acaso, não é porque é bonito. Mas porque teve muito sangue derramado nessa luta pela reforma agrária”, argumenta. “As principais armas do MST hoje são a produção de alimentos saudáveis e a ocupação do saber”, complementa Neiva.

A agricultora fez um chamado para que nos próximos encontros regionais de agroecologia haja agricultores também acampados e que os alimentos consumidos durante o evento provenham deles. “Que enfrentemos o desafio dessa organização conjunta”, disse ela, colocando-se à disposição.

Thomas Enlazador, um dos fundadores do IBC – Instituto Biorregional do Cerrado e integrante da CASA – Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina, acredita que estamos frente a uma oportunidade histórica de declarar territórios autônomos, como fizeram os zapatistas mexicanos em Chiapas, em 1994. “Precisamos colar junto com os movimentos, com as comunidades indígenas e quilombolas, e ir pra cima. Colar junto com os movimentos secundaristas que estão revolucionando as escolas nesse país”, convoca. Ele defende que não dá pra falar em sustentabilidade sem uma crítica consistente ao modo de produção capitalista, ou acaba-se esvaziando o termo, algo bastante comum nos dias atuais.

 

Uma outra cultura de comunicação é possível

Como era de se esperar num evento colaborativo e autogestionado, foi possível propor atividades previamente, junto ao formulário de inscrição. Sugeri realizar a oficina Uma outra cultura de comunicação é possível: cobertura colaborativa, guerrilha midiática e direito à comunicação. Como militante da democratização da comunicação, vejo a importância estratégica dessa pauta transversal, essencial para que todas as outras sejam disseminadas e para que todas as discussões aconteçam de maneira diversa, plural e democrática. Ou seja, trata-se de uma luta para viabilizar todas as outras lutas. O MST e a perseguição que sofre por parte da mídia de massa, assim como as lutas sociais como um todo, que o diga.

Sugeri um debate a partir desses três vídeos: 1. Levante sua voz – A Verdadeira história da mídia brasileira, 2.  Guerrilha midiática, 3. Cultura – da universidade às ruas, para então sairmos com uma proposta de cobertura colaborativa do encontro. O primeiro vídeo apresenta o concentrado panorama da comunicação do país; o segundo, a natureza estratégica da comunicação para os movimentos sociais (acabou não rolando esse, fica para a próxima); e o terceiro é um exemplo do que pode ser feito a partir de uma cobertura colaborativa, disseminando conteúdo a partir de outros formatos.

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Mapa conceitual da roda inicial de apresentação – parte da ‘assessoria colaborativa’ do evento. Coisa da Mariana Bianchini, que estuda História na Udesc.

Propus para a galera da organização pensarmos essa oficina conjuntamente, tendo em vista uma prática de comunicação compartilhada durante o evento, possibilitando a criação de uma outra cultura de comunicação, participativa e colaborativa, e o registro do encontro, de modo a garantir sua memória – a história comum contada por seus participantes.

Em conversa com organizadoras ao chegar ao local do evento, percebemos que a proposta vinha justamente a calhar com uma ideia que tinha surgido horas antes: além de se ter os eixos rotativos autogestionados de limpeza, alimentação, harmonia e realização das atividades, surgiu a ‘assessoria’, responsável por registrar o evento. Não se sabia ainda bem como, e decidimos discutir as possibilidades na oficina de comunicação compartilhada.

A conversa aconteceu na primeira noite do evento para que a comunicação pudesse compor o encontro desde o começo, e registrar as outras atividades. E assim tivemos uma grande roda com mais de trinta pessoas e coletivos para pensar e discutir que comunicação queremos e podemos fazer. Alguns questionamentos surgiram: como romper o muro da desinformação? Como transcender a lógica da comunicação como negócio? Como disseminar as experiências de transformação a partir de uma outra cultura de comunicação?

A partir dessa conversa e da prática de assessoria, o encontro contou com relatoria colaborativa, sínteses das atividades em cartazes pendurados pelo espaço comum, muitos fotógrafos, um documentarista (aguardamos o doc!), poetas e por aí vai. Esse texto, inclusive, faz parte desse laboratório de comunicação compartilhada, em que não importa só transmitir informação, mas comopor quê.

Essa história de comunicação compartilhada surgiu em 2001 no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, tendo em vista que a construção de um outro mundo possível deveria não só ser divulgada, mas, para vir a existir, precisaria engendrar uma outra cultura de comunicação. E assim surgiu a Ciranda. Em Curitiba, em meio ao Festival de Cultura, o coletivo Soylocoporti, junto a diversos parceiros, desenvolveu essa proposta em seus laboratórios de comunicação compartilhada, e o resultado da experiência pode ser conferido no documentário e na revista do Festival.

Fiquei muito feliz com a experimentação e com as possibilidades que se abrem para que elaboremos criativamente e colaborativamente nossa comunicação, transversalmente às mais diversas lutas. É só o começo. Que os laboratórios se multipliquem e que, frente à monocultura da mídia de massa, tenhamos uma comunicação cada vez mais diversa, sustentável e, por que não, agroecológica.

Oficina de bioconstrução de geodésica de bambu

Oficina de bioconstrução de geodésica de bambu

Várias oficinas foram realizadas, como a disputada conversa sobre astronomia e biodinâmica com o Mario Barbarioli, nosso jovem mais empolgado e experiente; permacultura vegana; compostagem; bioconstrução de geodésica de bambu; panificação artesanal e fermentação natural; PANCs (Plantas Alimentícias Não-Convencionais), entre outras.

Eu participei da oficina de confecção de zine como distribuição de material autônomo, facilita pela Luiza Damigo, que estuda Agroecologia na UFPR Litoral. A proposta tem tudo a ver com comunicação compartilhada – pra quem não sabe, zines são produções independentes artesanais de baixo custo e fácil reprodução. Pudemos discutir seu surgimento e evolução, conhecer algumas zines que a Luiza trouxe pra gente ver e criamos nossos pequenos exemplares. Descobrimos que com uma folha só é possível fazer um lindo caderninho que, desdobrando, vira um poster. E pudemos filosofar e poetizar e rememorar o quão complexo é retomar a simplicidade.

As fanzines, que surgiram da vontada dos fãs das histórias em quadrinhos de discuti-las por meio de publicações próprias na década de 30, transformaram-se em zines na década de 60, ganhando caráter político e independente

As fanzines, que surgiram da vontade dos fãs de histórias em quadrinhos de discuti-las por meio de publicações próprias na década de 30, transformaram-se em zines na década de 60, ganhando caráter político e independente

 

Despedidas e próximos encontros

Domingo (29) foi dia de plenária final, de redigir a carta do encontro, de desarmar barraca, carregar mochilas, de distribuir mudas de nativas e abraços de adeus – ou até breve. Também despedida da atuação no camping para o Cepagro, que geriu o espaço de maneira agroecológica nos últimos dois anos. O contrato com a FATMA – Fundação do Meio Ambiente, órgão estadual de gestão ambiental, não foi renovado. “É bem simbólico esse encontro pra gente”, disse Chitão.

Vida longa ao Cepagro e parabéns pelo belo trabalho! Já ouviu falar da Revolução dos Baldinhos? Então, esse foi só um projeto da iniciativa, e muitos outros virão. [Veja aqui a nota de despedida do Cepagro do camping].

O GAE – Grupo de Agroecologia da Universidade Federal de Pelotas assumiu a responsa de puxar a organização do próximo ERGA-Sul. Nos vemos ano que vem em Pelotas, pois! Ou, quem sabe, no próximo ENGA, que vai ser em dezembro na Paraíba.

Que, até lá, a rede se multiplique e se fortaleça – e siga semeando e cultivando a re-existência.

Imagem por Guilherme Fabrin

Imagem por Guilherme Fabrin

Um comentário sobre “Integrar para não entregar: agroecologias do Sul

  1. Que linda experiência Mi! Fico feliz em ver que as sementes que germinamos juntos no Festival de Cultura – e nos FSMs – ainda geram frutos e brotam idéias na cabeça de novos agentes de mudanças!

    A diversidade (tanto biológica, quanto social, cultural, econômica) devem ser cada vez mais estimuladas! Somente assim teremos um verdadeiro ecosistema sustentável!

    Viva um outro mundo possível.

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