Ñande Reko, a maneira de ser Guarani

Família em Quatro Barras vive e dissemina a tradição Guarani Ñandewa

Por Michele Torinelli [ou Yxa Owy]

 

Itaoca, local histórico dos indígenas da região; atrás, o Anhangava. Awaju, seus filhos Tupanju e Yvoty e Plá, que fez uma visita à família do paje.

Itaoca, local histórico dos indígenas da região; atrás, o Anhangava. Awaju, seus filhos Tupanju e Yvoty, e o artista curitibano Plá, que fez uma visita à família do paje.

 

Aos pés do Anhangava, a terceira maior montanha do Paraná, fica o Tekowa Xiin’guy – literalmente, “a morada dos brancos”. Awaju Poty, paje Guarani Ñandewa (ou João José de Félix Pereira, maestro, pesquisador da cultura e da espiritualidade Guarani e professor de composição musical da Escola de Música e Belas Artes do Paraná), conta que os Xiin’guy eram indígenas de pele branca, olhos claros e cabelo liso e escuro que habitavam a região.

Yxapy Rendy é descendente desse povo, mas reconhece-se como Guarani Ñandewa desde que conheceu Awaju, há vinte anos, e mergulhou profundamente nessa cultura, tornando-se também paje (se pronuncia ‘padjê’, maneira como os Guarani inicialmente denominaram os padres católicos, mas que acabou virando o modo de chamar seus próprios sacerdotes). Hoje eles moram com seus quatro filhos ao lado do parque estadual da Baitaca, no município de Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba.

Eles não correspondem ao fenótipo atribuído aos indígenas e nem vivem em aldeia – mas, contra os mitos do que é ser indígena, exercitam no cotidiano a maneira de ser Guarani. Trata-se do resgate, da prática e da disseminação da cultura Guarani Ñandewa, compartilhada por meio da realização aberta dos aty (cerimônias espirituais) e do cultivo anual coletivo do awaxy, o milho sagrado.

 

Índio é nós

A família realiza seus aty, cerimônias espirituais, cotidianamente.

A família realiza seus aty, cerimônias espirituais, cotidianamente.

Awaju explica que havia no território que hoje é denominado Brasil indígenas negros, brancos e mongólicos, sendo que os mongólicos predominaram após o genocídio colonizador e a absorção cultural (que seguem até hoje). “Meu avô, descendente direto de Guarani Cario aldeado, era mais claro que minha avó italiana”, esclarece. Além disso, segundo Awaju, os Guarani viviam espalhados, uma morada longe da outra, e hoje em dia convivem próximos nas aldeias devido principalmente à falta de espaço a que são submetidos.

Essas informações desmentem o imaginário de que, para ser indígena, necessariamente é preciso ter determinada aparência ou morar de um dado jeito. Imaginário esse que congela a cultura indígena num passado distante e não reconhece suas atualizações e diversidades, suas possibilidades e realidades contemporâneas de existência – processo que se torna evidente na negação brasileira de suas próprias origens.

No caso do Ñande Reko, trata-se de uma maneira de viver cujo centro é uma espiritualidade presente no cotidiano, no modo de ser, que se realiza em todas as esferas da vida – até mesmo a política.

 

Mborayu, o espírito que nos une

Awaju, em sua tese de doutorado, conclui que “a maneira de ser guarani também tem uma implicação política, mas que, no caso Guarani, a questão política é intrínseca à sua concepção religiosa. Se nem Deus está no centro e acima, nada mais está, e assim não se dá poder a ninguém, não existe nenhum poder superior, o poder resulta de uma vida em comum. E essa maneira de vida excêntrica possibilitou a Bertoni afirmar: ‘el comunismo Guarani, cómo la organización política, es completamente democrática’. E Pierre Clastres entendeu essa maneira de ser da comunidade Guarani como uma ‘sociedade contra o Estado’. Evidentemente a comunidade Guarani não é nem ‘comunista’ e nem ‘democrática’, e também não é uma ‘sociedade contra o Estado’. Mas, sem dúvida, por falta de conceitos, foram usadas essas similaridades para descrevê-la.

Na verdade, o Mborayu tonaliza uma maneira de ser, um Ñande Reko que é bem pouco compreendido, seja no plano social, seja no plano numinoso. A religião Guarani não é ateia, assim como a comunidade Guarani não é comunista ou democrática; é apenas uma comunidade que não lega a sua responsabilidade a outrem e que não entrega poder a não ser para a própria comunidade de seres existentes, sejam eles humanos como integrantes do reino animal; animais; vegetais; ou minerais; que coexistem em suas divindades, em família.

Ou seja, o Mborayu baliza o Ñande Reko e determina toda uma existência pautada pela noção de irmandade, como filhos e filhas de uma mesma origem, sejam humanos ou não, e todos unidos pela existência em comum, que nos torna intrinsecamente relacionados em um todo que nos abarca sem distinções.

O Mborayu nos torna flores-estrelas do grande jardim cósmico que é Ñamandu, a natureza de todos os mundos.” (PEREIRA, 2010 p. 186).

Ao contrário do que pretendeu a interpretação católica, Ñamandu não é sinônimo de Deus, mas um ser andrógeno, um equilíbrio entre as forças masculinas e femininas que criaram a vida; Ñamandu é a natureza de todos os mundos. “Na concepção Ñandewa não há Deus, só há divindades, porque Deus traz em si uma limitação, porque ele exclui”, esclarece Awaju (p. 183).

Trata-se de uma visão de mundo que, por sua mera maneira de ser, confronta radicalmente o patriarcado do mundo civilizado, o que se relaciona de forma evidente com a esfera espiritual. Yxapy Rendy entende que “isto de relegar o aspecto feminino quando se reza, quando se pensa na divindade, sem dúvida alguma está gerando um desequilíbrio imenso no pensar e no sentir a espiritualidade e em tudo que compreende a existência do próprio ser humano” (p. 179-80). Como disse o tuja (ancião) Karai Tataendy, da aldeia de Piraquara, “o mundo está como está porque não tem mais mãe, só pai” (p. 153).

Yxapy Rendy e sua reza: a valorização do feminino.

Yxapy Rendy e sua reza: a valorização do feminino.

Uma noção espiritual patriarcal surge de uma concepção de mundo patriarcal e, ao mesmo tempo, a reflete e legitima.  A espiritualidade e a materialidade se co-influenciam, se retroalimentam. E o modo de vida Guarani é subversivo, também, nesse aspecto, assim como na organicidade política e também na perspectiva econômica, pois, para os Guarani, não há sentido em acumular, e a natureza não é um objeto a se dominar e explorar. Pelo contrário, é mãe e irmã. É parte de cada um e de todos nós. Estamos todos conectados pelo Mborayu, o espírito que nos une – e esse todos é radical, engloba todos os seres, sem exceção e sem escala hierárquica.

Sob o ponto de vista cultural, a própria naturalidade com que se percebe e vive os corpos gera estranhamento para a perspectiva ocidental. Os invasores europeus achavam que haviam chegado ao Paraíso – além da exuberância vegetal, como antes do pecado original, não escondiam-se as ‘vergonhas’. Talvez porque, sob a perspectiva indígena, não há motivo para se ter vergonha. Está-se completamente à vontade, entre os seus, onde quer que se esteja. Desde que não haja vergonha nem condenação – que, quando surgiram a partir do olhar do Outro, criaram um abismo cultural. Esse Outro que não compreende o espírito que nos une. Que o nega. E separa. E domina.

A cultura Guarani é extremamente subversiva frente aos valores e ao modo de vida ocidental – e não precisa fazer nada para isso, não precisa disputar nem confrontar: sua mera existência incomoda. Sua forma de vida é inaceitável num mundo em que tudo tem preço – o que explica o genocídio que sofreu e sofre até hoje.

Não se é permitido viver de um modo tão radicalmente livre. Não é permitido não se submeter. E a matança continua nos dias atuais, mesmo que os indígenas não ofereçam ameaça econômica alguma, mesmo que o território que reivindicam seja ínfimo se levarmos em consideração que eles são os ‘verdadeiros donos’ dessas terras – sendo que a concepção de propriedade não existe para os Guarani, afinal, ninguém é dono de nada nessa vida, pode (e deve) ser apenas guardião da terra. “Os indígenas que deveriam demarcar nosso território”, dizia um perspicaz comentário que li esses dias.

Mesmo que só queiram viver do seu jeito, não lhes é permitido. A civilização não aceita não ser reverenciada. “Adora-me ou serás trucidado”, continua sendo o lema daqueles que se creem tão sábios, mas que esqueceram quem são, e não sabem mais ver o mundo.

 

De como virei Yxa Owy

Meu envolvimento com o Ñande Reko começou há cerca de uma ano. Uma amiga leu um texto que publiquei sobre o solstício de inverno e me intimou a ir ao próximo aty: “eu só soube que o solstício de inverno é o nosso ano novo lá, na Tekowa, e você falou a mesma coisa. Você tem que ir comigo”. As informações se conectaram: outro amigo já tinha me falado do Awaju. E assim, seguindo o rumo das ‘coincidências’, somei-me à caravana que foi de Morretes a Quatro Barras. Desde o começo uma aventura, Uninho guerreiro lotado subindo a serra.

Fui sem perguntar muito e sem criar expectativas: ou seja, caí meio que de paraquedas. “A coisa se aprende na prática, quem chega é como criança, não sabe de nada, então pode errar”, me explicou posteriormente Arai Owy, que foi quem me levou até a Tekowa Xiin’guy.

Chegamos no fim de tarde, a estrada era de terra com mata em volta. Paramos o carro no estacionamento, pegamos uma trilha em meio à mata e avistamos uma construção rústica, circular, feita de troncos: é a opy, a casa de reza. A porta é baixa, é preciso curvar-se para entrar. O fogo, ao centro, já estava aceso. Aos poucos, as pessoas foram chegando, acomodando-se nas extremidades, em círculo. E todo um ritual desenrolou-se na minha frente. Tomamos as medicinas – tabaco (em forma de fumaça, pó e líquido) e mate. A reverência ao fogo era evidente. Passou-se o bastão da fala, todos fizeram saudações e contaram como se sentiam; versos Guarani foram recitados, temas pessoais e coletivos foram abordados. Cantou-se. Dançou-se. E, após o aty, todos dormiram em volta da fogueira, com os pés virados para o fogo, sobre o chão de terra batida.

O preparado de tabaco (petym) e o mate (kaayu): medicinas sagradas.

O preparado de tabaco (petym) e o mate (kaayu): medicinas sagradas.

No dia seguinte, em jejum, outro aty, toda a ritualística se repete, agora de maneira resumida, e partimos para o exterior. Em jejum e descalços, preparamos a terra para um novo mai’ty, a mandala de plantio do milho sagrado. E uma outra concepção de agricultura se revelou pra mim. Uma outra relação com a terra, em que não se planta por obrigação, nem pensando nos resultados – da forma mecânica que me vi reproduzindo. Não. É uma relação intrínseca. Sagrada. Com profundo significado.

Era o início de um novo ciclo, que se finalizaria no próximo outono, na colheita. Eu e os outros novatos, sem saber, tateando, estávamos preparando o terreno dentro de nós mesmos. E, plantando o milho sagrado, plantaríamos a nós mesmos. Tem que morrer pra germinar, já dizia o poeta Gil. Morreríamos. Para então brotar e florescer. E, finalmente, frutificar.

Ao longo desse ciclo, inicia-se na tradição Guarani. Antes do plantio, no começo do ciclo, há um ritual de batismo. O nome surge de acordo com a data de nascimento de cada um, inserido na cosmovisão Guarani, em todo o movimento da vida e do universo. A partir disso, o (a) paje recebe uma inspiração que pode ser confirmada ou rejeitada pelo iniciado. A confirmação se dá logo antes da colheita.

O nome que me coube é Yxa Owy, feixe de luz azul. Como nasci na primavera, sou azul (Owy), a cor que rege essa estação. Yxa, ‘feixe de luz’, porque nasci no período de fogo da primavera, e do fogo vem a luz. Como explica Awaju em sua tese, a partir do nome é que o indivíduo se insere no universo guarani; entender o seu próprio nome é uma meditação infinita acerca de seu propósito nesse mundo.

O Ñande Reko tem feito parte de minha trajetória desde então, confirmou algumas intuições e contribuiu para modelar minha forma de caminhar sobre essa terra; contribuiu para a construção desse projeto de vida (boa). Por isso, quando tomei essa decisão e ainda estava construindo a proposta, conversei com Yxapy sobre a possibilidade de passar um tempo ali com eles, aprender e vivenciar um pouco mais desse modo de vida, registrar e divulgar. E desde então as conversas se estreitaram, e Yxapy, que foi quem me conduziu no processo no Ñande Reko, foi extremamente atenciosa e solícita, acompanhando todos os passos do projeto, dando sugestões e apoio.

A casinha em que fiquei hospedada no Tekowa Xiin'guy.

A casinha em que fiquei hospedada no Tekowa Xiin’guy.

Passei uma semana com eles, de 21 a 28 de junho. Cheguei justo no solstício de inverno, nosso ano novo no hemisfério sul, que me levou de forma um tanto mágica às portas da Tekowa Xiin’guy um ano atrás (na verdade, segundo a concepção Guarani Ñandewa, o ano começa na primeira lua nova após o solstício de inverno).

Vivenciei seu modo simples de viver, conheci suas histórias de vida e absorvi um pouco do conhecimento que Awaju e Yxapy acumularam ao longo das décadas de prática e investigação da tradição. Agradeço a abertura, o aconchego, as trocas e a paciência. Agradeço a toda a família pela generosidade. E especialmente à Yxapy e Awaju pelo tempo e atenção de que dispuseram.

Esse é só o primeiro texto que se desdobra das longas conversas, em parte documentadas em áudio, e de toda a vivência que tivemos por esses dias. Sinto-me profundamente agradecida pela confiança e por poder conhecer e disseminar um pouquinho desse lindo caminhar.

“Quando se vive exposto à vida, cada momento é completo em si mesmo” (p. 145). Ha’ewete! Ha’ewei!

 

 

O documentário Vim, Vi, Guarani – Espíritos ancestrais em corpos atuais conta um pouco mais dessa história de Awaju, do Ñande Reko e do Tekowa Xiin’guy.

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