Viagem de canoa pelo litoral do Paraná: a saga

15 dias. Comunidades, ilhas e pequenos paraísos visitados. Muitas remadas. E uma vivência de beleza e simplicidade que fica para a vida.

Por Michele Torinelli

Imagem: Yasmin Souza.

Remem! Imagem: Yasmin Souza.

 

30 de junho de 2016. Os participantes da 16ª viagem de canoa, organizada pelo Renato Caiçara, se encontram no trapiche de Paranaguá. O destino é a Ilha das Peças, ponto de partida da remada.

O grupo se somou a moradores das Peças, totalizando 18 pessoas, em sua maioria mulheres. Poucos se conheciam e somente um integrante “de fora” já havia feito a viagem, há dez anos – mas todo ano é um novo roteiro e uma experiência única.

A proposta da viagem é levar doações de roupas, alimentos, brinquedos e produtos de higiene para as comunidades caiçaras nessa época em que mais necessitam, bem como realizar oficinas sobre direitos humanos. Mas aos poucos vamos percebendo que, na prática, o foco acaba sendo outro: a realização de encontros e a percepção de desencontros.

Desencontro entre consumismo e simplicidade. Entre conforto e autenticidade. Entre o conhecimento abstrato arrogante e a sabedoria prática compartilhada. Entre a cultura urbana individualista padronizada e a vida comunitária em relação com a natureza.

Encontro com o outro. Com a nossa história. Com o nosso corpo. Com a natureza. Com a vida. Com a gente mesmo. “Sábio é o homem que aprende a ser satisfeito e descobre como ser feliz com pouco”, resume Renato.

Seu José, de Poruquara. A sabedoria da pesca. Imagem: Thaysa Maso.

Seu José, de Poruquara. A sabedoria da pesca. Imagem: Thaysa Maso.

 

Aprenda a remar remando

Dormimos apertadinhos na sala (e na cozinha) da casa da família do Renato e, no dia seguinte, separamos as doações. Rolou o primeiro de muitos almoços feito pelo chef Renato e as primeiras (de muitas) conversas com ele. Histórias sobre a aldeia guarani que visitaríamos, palavras em guarani e causos que evidenciam o descompasso entre uma visão ambientalista preservacionista e a realidade da cultura local.

Até arrumar as doações e nossas bagagens no barco de apoio, já era relativamente tarde. Começamos a remar mas a maré estava contra. Dado o adiantado da hora, fomos rebocados pelo barco até a Ilha das Bananas, uma canoa amarrada na outra, em fila indiana. Fomos recepcionados por um lindo por do sol nessa pequena ilha, que abriga uma gruta, onde dormiríamos essa noite – “a noite da iniciação”, como disse Renato.

Acoplagem: a primeira remada. Imagem: Rafael Buratto.

Acoplagem na primeira remada. Imagem: Rafael Buratto.

Acendeu-se o fogo na gruta, cujas pedras formam uma chaminé natural perfeita. Fez-se o primeiro café tropeiro de muitos que tomaríamos nesses quinze dias. Entre lanchinhos e cataia, a cachaça típica caiçara curtida nessa planta, cada um apresentou-se e tiramos o amigo secreto, cujo presente deveria ser elaborado ao longo da viagem somente com artefatos naturais encontrados no trajeto. Renato contou uma looonga história, cuja moral, resumindo, é: estejamos entregues ao momento presente.

Enquanto ele contava, eu ouvi um barulhinho do outro lado da gruta. Alguém de lá iluminou com a lanterna – era um rato, de pé, segurando migalhas de club social com suas patinhas dianteiras e roendo-as, em meio à embalagem abandonada. O sujeito simplesmente desviou a lanterna e voltou a se concentrar na história. Eu fiquei pasma. Mais barulho, mais uma vez a lanterna. Outro rato. Um arrepio subiu pela minha espinha. Levantei e fui fechar minha mochila, que estava aberta em cima de uma pedra, ao lado de onde vi os ratos. Eram vários, e o pessoal que estava por ali não fazia nada. Havia outras mochilas pelo chão, abertas, algumas com comida.

Será que eu devia interromper a história e dizer, “ei, galera, tem ratos, muitos RATOS, fechem suas mochilas!”, mas aparentemente a comoção era só minha. Fechei minha mochila e, angustiada, esperei o fim da história. Avisei a galera discretamente. Perguntei pra Andressa, que fez a viagem em 2010 e acabou ficando pela Ilha das Peças e com o Renato, se era normal eles dormirem ali com os ratos. Ela me respondeu afirmativamente, na maior naturalidade. “Mas eles não sobem em vocês no meio da noite?”, perguntei. “Então, teve uma vez que… ah, melhor eu não te contar né. Você tem medo de rato”. Não é bem medo. É agonia mesmo.

Pois é. Atitude. Peguei uma lanterna e fui procurar um local nessa pequenita ilha para armar minha barraca. Na orla, logo acima de onde atracamos as canoas, tinha um espaço plano. Enquanto eu montava a minha barraca, outras começaram a surgir ao meu lado. Fui a precursora dos que não vêm sentido em dormir em meio aos ratos quando se pode evitá-lo.

Aparentemente, a coisa é encarada como questão de bravura entre a galera das Peças. Teve um que foi zoado por ter ido dormir sobre uma pedra, fora da gruta. Eu fiquei bem feliz com a minha escolha – e os gritinhos de pavor sufocados que ouvi de noite só corroboraram para isso.

Enquanto a galera fazia a maior sonzera na gruta, fui aproveitar a escuridão e o silêncio da ilhota para contemplar os planctons, aquelas algas que brilham. A maré estava subindo, e as pequeninas ondas que vinham dar na praia faziam uma dança de luz. Em volta das pedrinhas, um halo fluorescente. Pó de cometa. O universo refletido nas calmas águas aos meus pés. Lua nova, céu nublado, nenhuma luz vindo do alto – e as estrelas pareciam estar todas se banhando mar. Vagalumes das águas.

No dia seguinte, mais um café, desmonta barraca, arruma as coisas, leva tudo pro barco de apoio: uma mostra da rotina que enfrentaríamos pelos próximos dias. Seguia-se a confusa logística de saída: a proposta era, sempre que possível, alternar os parceiros de viagem e as canoas. Depois de algumas remadas, a clássica acoplagem já baía adentro. Canoas lado a lado, hora de acalmar os ânimos e afinar o grupo.

Seguimos para a Vila de Medeiros. Maré a favor, dia nublado, tudo contribuindo para uma remada tranquila. E agora que os novatos teriam a oportunidade de pegar a manha – aliás, não havia outra escolha. Era remar ou remar! No final desse trajeto, já consegui ficar de pé, ainda que insegura com o balanço da canoa. Equilíbrio em movimento.

À margem do mangue, rumo à vila de Medeiros. Imagem: Rafael Buratto.

À margem do mangue, rumo à vila de Medeiros. Imagem: Rafael Buratto.

Medeiros, uma linda vilinha pertencente ao município de Guaraqueçaba, que parece ilha mas não é. A comunidade estava agitada: treino dos barcos que iriam concorrer na tradicional corrida que acontece anualmente em Paranaguá no aniversário da cidade. Últimos ajustes, pinturas e as famílias na orla acompanhando o movimento. Pelas casas, nos mostravam troféus dos que já venceram edições anteriores.

Almoçamos risoto de siri, que o Renato fez na cozinha que uma moradora cedeu pra gente. À tarde, distribuição das doações, construção de velas para as canoas – feitas de tronco fino, bambu e lençol velho – e montagem do acampamento. Amanda puxou uma oficina de inglês com as crianças e surgiu a ideia de fazermos uma roda de mulheres. Assim que chegamos, gafanhotos do mar famintos que somos, atacamos a pastelaria da vila. E lá já soubemos de um caso de marido que bate em mulher e ainda se recusa a se separar e sair de casa.

A roda feminina rolou naturalmente, sem muito alarde. A ideia era intervir o mínimo e proporcionar um momento para as mulheres falarem do que lhes desse na telha. Foi interessante, mas me parece que há a necessidade de se tratar dos temas sensíveis, e que é preciso uma metodologia pra isso. Como? Talvez com cinema ao ar livre, seguido de debate. Tive essa ideia antes da viagem para tratar comunicação como direito humano em oficinas na comunidades mas, pela logística, não rolou. Com um pouco de esforço para carregar e proteger equipamentos, seria possível. Fica a sementinha para a próxima edição.

Entre as mulheres estava Maria, filha da falecida Senhorinha, famosa por suas cerâmicas. Diz que suas panelas hoje valem uma nota – elas são bem finas e não quebram. Maria não deu continuidade ao ofício da mãe, falou que dá muito trabalho, que só para tirar o barro bom tem que cavar mais de metro de profundidade.

À noite, depois do baiacu frito, teve peregrinação pelos bares da orla – distribuição de renda na comunidade! Cerveja, cataia, mil homens (o goró que dá picor!), caipirinha, pandeiro, violão, caxixi, ovinho e tambor. O trapiche ficou pequeno – e nunca foi testado por tanta gente amontoada. Teve até quem tirou um cochilo por ali mesmo. Dizem que essa data ficará lembrada como “o dia em que a gringa passou por aqui”, em referência à nossa integrante russo-alemã que interagiu com todos os moradores que cruzaram o seu caminho, dos mais sóbrios aos mais cozidos. “Quantos anos tem aquele menino? Ah, ele nasceu no ano em que a gringa passou por aqui”, dir-se-á no futuro.

Acampamos no gramado ao lado da casa da Andrea, que sempre tinha um café quentinho pra gente e levou um baita susto quando tirei meu cachimbo. “Não é nada ilegal, só tabaco”, tranquilizei ela. “Não é isso não menina, é porque faz anos que não vejo isso, me lembrou a minha vó. Ela dançava fandango com um cachimbo desse na boca.” Hoje em dia, na comunidade, não se toca nem se dança mais o fandango, o tradicional ritmo e dança caiçara.

 

Mariana, Taquanduva e Benito

Por do sol no Benito. Imagem: Rafael Buratto.

Por do sol no Benito. Imagem: Rafael Buratto.

Apesar de algumas ressacas, saímos cedo no dia seguinte. Paramos para almoçar na Vila Mariana, onde dona Regina nos recebeu. Renato deu um rolê com a gente na mata e mostrou como se faz corda da fibra do tucum e a cidreira da mata, que serve como repelente natural, mas não para chá. Também ensinou que dá para usar a folha seca da bromélia como “seda”, papel de fumo. Convidamos a comunidade, distribuímos as doações e seguimos nosso rumo. A ideia era passar em Massarapuã, pertinho de Mariana. Mas, devido ao adiantado da hora, só Rafa e Andressa foram de canoa levar as doações.

Em Taquanduva fomos recebidos pela professora e acampamos em frente à escola, ocupando o banheiro e a cozinha – e até mesmo algumas salas. O primeiro lugar em que dormimos duas noites – deu pra acordar mais tarde no dia seguinte. Manhã preguiçosinha, mas logo tomamos café e Renato convocou uma roda. Ele confirmou os boatos de que mexeram no barco  de apoio e levaram cinco cestas básicas na noite anterior. Disse para não deixarmos isso abalar a viagem, que continuássemos dando o nosso melhor, e que, de uma maneira ou de outra, as coisas sempre chegam onde têm que chegar. E indicou que nos dividíssemos para conhecer a comunidade, convidando para o almoço comunitário e para a festa junina à noite.

Rafa, Juliano e eu fomos andando no sentido de onde atracamos, no começo da comunidade. Duas crianças brincavam em frente a uma casa – uma de três e outra de cerca de oito anos. Chamamos e uma mulher que apareceu. Falamos com ela pela janela, até que uma voz nos convidou a entrar. Era seu marido, que nos fez entrar e falou para sentarmos. Ele disse que estranhou que ninguém tivesse passado ali ainda. E começou a contar muitas histórias.

Ele está em conflito com os outros moradores da vila, de modo geral, e deu vários motivos para isso. Vai se mudar para um lugar onde tenha sossego, na Vila Almeida. Ele mandou a mulher servir café, que aceitamos, e comemos com o pão que ela havia feito. Ela praticamente não falou, nem os filhos. Fizemos os convites – para o almoço e para a festa junina. Ele falou que não iria, mas que se a família quisesse ir, que ficasse à vontade – e de fato foram à noite, a mãe e suas crianças. Nos despedimos e eu perguntei se poderia voltar para tomar um banho. Regra de viagem: cada um descola o seu banho. E rolou. Banho quentinho, ô benção.

Fogueira julina em Taquanduva. Imagem: Rafael Buratto.

Fogueira julina em Taquanduva. Imagem: Rafael Buratto.

Renato cozinhou um tatu que caçaram na Vila e o povo trouxe feijoada, purê de batata, macarrão e até salada (raridade na viagem, até que comecei a fazer umas saladas de mato comestível pra geral), bem como o clássico arroz e a farinha de mandioca. E de tarde já começaram os preparos para a festa junina – lenha, fogueira, canjica, quentão (de Fontana! Um clássico da região, que não é vinho, mas um econômico fermentado de maçã) e muita pipoca. A comunidade compareceu em peso, a festa encheu de criança, e teve até quadrilha.

Em Taquanduva rolou não só oficina de inglês, mas de yoga com a Grazi – para as crianças da comunidade e para nós, que estávamos bem precisando -, o que se tornaria comum até o fim da viagem.

No dia seguinte, acordamos e partimos para a Ilha do Benito, onde há algumas casas, mas ninguém mora. Chegamos lá e um senhorzinho nos recebeu. Liberou o quintal da sua casa e foi embora de barco. O sol se pôs. Que lugar encantador. Desses de anotar no caderninho para voltar com calma. Benito.

Tem a lenda de uma padre que vem assombrar por ali. Eu não vi padre nenhum, só muitas estrelas cadentes no céu aberto. Foi o primeiro dia de sol da viagem, cores explodindo enquanto remávamos na baía, e a primeira noite estrelada. Violão, fogueira, muitas risadas e larica gourmet – chapati recheado com banana no espetinho. Vai ficar para a história. Viva o chef Rangel, que além de cozinheiro era nosso rádio amador. Ele entrou em contato com seus colegas das ondas aéreas, que contaram que a previsão era de chuva seguida de frio.

De manhã fui ver o sol nascer na pedra, rezando meu tabaco. Ilha entre ilhas, o paraíso na terra. O dia nasceu bonito. Como de costume, agradeci a bonança e pedi bom tempo e proteção para nossa viagem. Parece que a reza foi braba.

Segundo dia de sol seguido, todo mundo estendendo as coisas pra secar. Mas, após o almoço, a previsão começou a se confirmar. Vento. Nuvens. Estava abafado. Tudo indicava que cairia um belo pé d’água.

Tendo em vista as condições metereológicas e o fato de o mar estar mexido, fomos a reboque quase todo o trecho. Mesmo assim a adrenalina foi grande quando saímos do canal e adentramos a baía de Guaraqueçaba. Muita água entrando na canoa, equilíbrio necessário para a canoa não virar, num jogo de corpo contra as ondas, mesmo sentadinhos. Vimos a chuva forte chegando de um lado, chegando do outro, mas nós mesmos só pegamos umas gotinhas.

Passamos por entre as tempestades. O sol surgiu por entre as nuvens derramando seus feixes sobre as montanhas. Diz o Rangel que dava pra ver, ao norte, montanhas de São Paulo (Ilha do Cardoso) e, ao sul, de Santa Catarina (a serra de São Francisco do Sul).

Feixes de luz atravessando as nuvens: por entre as tempestades. Imagem: Rafael Buratto.

Feixes de luz atravessando as nuvens; mar mexido. Imagem: Rafael Buratto.

 

Aldeia

Chegamos remando à aldeia Kuaray Guata Porã (que pode ser traduzido como “caminho sagrado do sol”) – e relativamente secos, quebrando a tradição das viagens de canoa de que “sempre chove na aldeia”. Depois que deixamos a baía aberta e adentramos o canal, tudo ficou mais fácil.

Atracamos as canoas e nos deparamos com uma escola. Mas não ficaríamos ali – seria necessário subir o morro até a casa de Faustino, ou Karai, o xamoi (maneira pela qual eles denominam o que conhecemos como “pajé”). A aldeia é formada por 8 famílias – o xamoi, sua companheira e seus filhos, que já têm suas próprias famílias.

Escola e, temporariamente, estacionamento de remos. Imagem: Rafael Buratto.

Escola e, temporariamente, estacionamento de remos. Imagem: Rafael Buratto.

A vista lá de cima é fantástica, e mais uma vez fomos presentados na chegada com um belo por do sol. Dá pra ver a cidade de Guaraqueçaba ao longe – caminhando dali, pela trilha, leva cerca de quarenta minutos até lá; de canoa, dá uma breve remada.

As crianças atacaram os visitantes – amor e energia de sobra. Rolou fogueira e o céu estava espetacular, mais limpo do que nunca. Milhares de estrelas, jaxy tata (literalmente ,”fogo de lua”). Mas o pessoal foi dormir super cedo; todo mundo apertadinho na Casa de Reza. Difícil se aconchegar no chão irregular de terra batida – as costas reclamariam no dia seguinte. Sem falar na clássica sinfonia de roncos.

No dia seguinte, céu azul e muito sol. Fizemos um almoço coletivo, feijão com abóbora. Depois do almoço, a galera das canoas foi toda pra Guaraqueçaba junto com a criançada – voltariam “sugados pelas crianças”, como alguns deles disseram: elas brigaram, gritaram, choraram, se perderam e pediram tudo que encontraram pelo caminho. Só eu fiquei. Não precisava nem queria ir pra cidade. Seria um dia para experimentar um pouco da rotina da aldeia e para descansar um pouco da agitada “vida em grupo”.

Já pela manhã, algumas meninas do nosso grupo estavam aprendendo artesanato com as mulheres da aldeia. Eu fui me achegando, e no começo da tarde fiquei ali com elas – Leontina, esposa do xamoi, parteira, e Tatiana, sua filha ou nora, me explicaram como fazer uma pulseira de miçangas. Minucioso trabalho. E vendem tão barato.

O temperamento deles me pareceu tão distinto do nosso, dos “civilizados”. Tranquilos e introspectivos (nós, tão barulhentos e expansivos). Muitas vezes parecem distantes e desconfiados. Não à toa. No dia anterior, eu e Rafa soubemos por Felipe, o filho mais velho e agente de saúde da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), que uma criança havia falecido há poucos dias na aldeia. “Diarreia”, disse ele. Desnutrição, disseram no hospital.

E a ficha foi caindo: do clima da aldeia, das dificuldades históricas e cotidianas pelas quais eles passam. Do momento difícil que enfrentavam naquele momento. E do que nós, brancos, civilizados, representamos ali. A galera que detonou o modo de vida tradicional deles e dos quais eles, agora, vivem das migalhas. Dependem de nós até para que suas terras sejam demarcadas.

Ao menos até que deixemos de nos reconhecer enquanto esse “nós”.

Casa de Reza de pau a pique e teto de palha, como a maioria das casas. Imagem; Rafael Buratto.

Casa de Reza de pau a pique e teto de palha, como a maioria das casas. Imagem; Rafael Buratto.

Pena que as forças são tão desiguais, e a mentalidade dos brancos tão restrita e impositiva. Querem dizer para os índios o que eles precisam, colocando-se como ideal a ser atingido – quando, talvez, sejam os que mais precisam se re-conhecer e se transformar.

Nossa presença ali promove um encontro, mas revela muitos desencontros; todo um processo histórico, que não se resolve com uma visita amistosa. Estar numa aldeia, verdadeiramente, é se dispor a olhar para esse profundo conflito, que precisa ser encarado com urgência. Para o bem da civilização, para o bem dos Guarani.

À noite eles fizeram sua reza e nós participamos. Não foi exatamente como eles costumam fazer entre eles, mas quase uma apresentação. De toda maneira, foi emocionante. Dançamos em círculo. Ouvimos suas canções. Dançamos com as crianças. O céu estupidamente lindo, o filete de lua crescendo com seu leve sorriso para nós, rodeado de estrelas.

Depois tomamos uma bela sopa e ficamos em volta da fogueira. Um grupo se deslocou, foi sentar noutras bandas. E ouviram gritos nítidos. Nós ouvimos lá da fogueira também, ainda que mais distantes. Faustino e Juventina, os anciões da aldeia, tinham ido acudir uma moça – disseram que ela estava com dor de cabeça. Mas os gritos desmentiram: uma criança acabara de nascer.

Yasmin, recém chegada à viagem de canoa, estudante de medicina, foi convidada a ir lá dar uma conferida na situação. O decidido foi levar a mãe e a criança até o hospital, pois o bebê nasceu pré-maturo: a mãe saiu andando, carregando o filho. Tiveram que arrastar a canoa no lodo. Renato e Andressa levaram a mãe e a criança até o ponto onde a ambulância os encontraria. Situação impensável na civilização.

Uma noite surreal. Para completar, algumas pessoas juraram ter ouvido estrondos durante a madrugada, como se árvores gigantescas estivessem caindo. Sem vento, sem chuva, sem nada. Realidade fantástica na aldeia.

Mais um dia, mais uma partida. Mimby, a menina mais velha entra as crianças, ficou bem tristinha com nossa ida. Hora de dizer adeus, para a aldeia como um todo, especialmente para as crianças e para Amanda, nossa colega que teria que voltar para sua vida na cidade. Estávamos no meio da jornada, uma semana havia se passado – bem que o tempo do relógio e do calendário já não fazia mais sentido algum. Seguíamos o sol e a maré.

 

Baía adentro

Viajante canino número 1: Bidu.

Viajante canino número 1: Bidu. Imagem: Yasmin Souza.

Toda aquela logística de saída – dessa vez levamos nossas bagagens nas canoas até Guaraqueçaba, e só lá passamos para o barco de apoio. Desafio! E o medo de virar a canoa e molhar tudo? Fui remando sentadinha até Guaraqueçaba. Paramos na cidade para fazer um lanche – que lugar mais bonitinho. Outro pra anotar na lista. Quem sabe um lugar para criar raízes quando meus pés cansarem de caminhar. Já imaginei minha canoa atracada junto às outras no trapiche, e eu a levando pra passear por entre ilhas e canais.

E mais uma vez os gafanhotos do mar arrasaram com um estabelecimento comercial alimentício. Eu e Leôncio ficamos por último, e pedi desculpas para a moça da lanchonete pelo alvoroço. “Vou ter que lavar com água desde dentro até a porta, só um pano não resolve”, disse ela. Ooops. Nosso rastro de lodo, confusão e farelos.

Encontramos Rangel, que tinha ido ao hospital por causa de um corte no pé – as clássicas ostras em meio ao lodo que causam males maiores do que se pode imaginar. Não tinha um canoeiro sem um cortezinho no pé, mesmo tomando cuidado. No caso do Rangel, o negócio foi feio, e no dia anterior não tinham deixado ele voltar para a aldeia. Deveria abandonar a viagem e ir para casa. Dormiu numa pousada – e disse que nunca foi tão triste ter conforto novamente.

A ideia era entregarmos suas coisas, que tinham ficado na aldeia, para ele poder ir embora. Mal sabíamos que ele resolvera contradizer as recomendações médicas e ficar. E mal sabia ele que seu espólio já havia sido disputado na noite em que se afastara. O facão era o bem mais visado, mas diz que nem cueca larga escaparia!

Lodo. Imagem: Yasmin Souza.

Lodo. Imagem: Yasmin Souza.

Seguimos viagem, paramos numa ilha para tomar um café. Atracamos as canoas, andamos alguns metros trilha adentro, até que chegamos a uma casa, com a cozinha de madeira e fogo de chão (como a maioria dos lugares por onde passamos e passaríamos) ao lado. Aparentemente, a única construção do local. O recinto estava bem cuidado, a grama ao redor havia sido roçada recentemente.

Renato contou que há anos faz paradas ali, usa a cozinha, mas nunca encontrou o morador. Uma vez deixou uma cesta básica , que foi recebida – o que deduziu porque da próxima vez que voltou, já não estava onde deixou. Código de convivência caiçara, camaradagem anônima.

Mais umas remadas e chegamos a um sambaqui, palavra de origem indígena que significa “amontoado de conchas”, que designa locais onde habitavam populações pré-indígenas que existiram entre 8 e 2 mil anos atrás. Eles se alimentavam basicamente de moluscos, e assim iam acumulando as conchas, seu resíduo. Habitavam, comiam e enterravam seus mortos no mesmo local – por isso é possível identificar, em meio às conchas, ossos humanos.

Pudemos ver partes de esqueletos no barranco ao lado do qual atracamos as canoas. No barranco também podia-se observar as várias camadas de terra – quanto mais funda a camada, mais antigos os seus elementos. Os resíduos indígenas, como cerâmicas, são mais recentes,  e se encontram nas camadas mais superficiais, pois foram eles os últimos habitantes desses locais. Hoje em dia os sambaquis são considerados patrimônio nacional e protegidos por lei. Mas o fato é que não há muita fiscalização.

Tudo isso nos contou Rangel, que é professor da UFPR Litoral e ensina sobre a formação geológica e a história da região. Para saber mais, ele recomendou visitar o Museu de Antropologia da UFPR, na orla de Paranaguá. Infelizmente não aprendemos isso nas escolas, e temos que nós mesmos ir atrás da nossa própria história. E foi ficando cada vez mais nítido que essa viagem acaba sendo uma busca da nossa história não-contada; a reconstrução de nossas identidades a partir do que nos foi negado.

Tocamos em frente e, como havia vento, alçamos as nossas velas improvisadas. Funcionou. Pausa pro remo, descanso pros braços. Visual deslumbrante. Que lugarzinho mais abençoado esse litoral esquecido. Alegria profunda de poder usufruir de tamanha beleza e paz. A felicidade da simplicidade.

 

Mata e fandango

Trapiche em Poruquara. Imagem: Rafael Buratto.

Trapiche em Poruquara. Imagem: Rafael Buratto.

Chegamos em Poruquara, nosso destino, no fim de tarde. Justo a tempo de armar barraca nos últimos momentos de luz, descolar um banho quentinho com os moradores e aguardar a janta tomando uma cervejinha gelada ou um mate quentinho. Peixe fresco ensopado com arroz, pimenta e farinha, que delícia. A típica comida caiçara – cada vez mais rara, cada vez mais substituída por industrializados e empacotados.

Depois da janta fomos na casa do seu Vicente, mestre fandangueiro no auge dos seus 70 anos. Pequeno grande homem, de uma simplicidade encantadora. Nos apertamos todos na casa de fogo. Ele e sua esposa conversaram com a gente, e ela nos serviu café. Papo vai, papo vem, pedimos pra ele tocar pra gente. Ele disse que pendurou a viola desde que sua mãe faleceu, aos 115 anos. Mas, com nossa insistência, ele tocou. Dava pra ver sua emoção. Primeiro a rabeca, depois a viola, acompanhadas de seu canto e de nossas palmas. Fazia um ano que ele não tocava.

Seu Vicente tocando sua rabeca. Imagem: Rafael Buratto.

Seu Vicente tocando sua rabeca. Imagem: Rafael Buratto.

Cada vez mais raro encontrar bailes de fandango, são os mestres como seu Vicente que mantêm a tradição – e logo após a viagem de canoa, soubemos que o mestre Alcides, da Ilha de Superagui, nos deixou. Lá é um dos poucos lugares em que ainda se dança o fandango – e, segundo Renato, um grupo de jovens está assumindo o compromisso de levar adiante essa valorosa expressão cultural na ilha – assim como em Valadares, onde o grupo Mandicuera mantém o costume do bailado com as tamancas – a catira, como é chamada essa dança que é também percussiva. Quem viu o baile completo, com dança e tudo, não se esquece. É forte e mágico, como costumam ser as expressões culturais tradicionais. Ah, a autenticidade. Tão espremida entre modas, tecnologias e facilidades. Mas resiste – e, só por isso, existe.

Dormimos em Poruquara. Acordamos com o chamado do capitão Renato, “vamos levantar pro café, galera, quem quiser subir a montanha é bom levantar, não vamos esperar ninguém”. Com essa intimada, o povo foi levantando. Um breve café e Renato nos levou à casa de dona Leontina, curandeira que conhece os segredos das plantas. Ela aprendeu com seu pai e fez alguns cursos de fitoterapia. Vive hoje em Poruquara com seu marido, seu Antônio, mas em breve pretendem voltar para sua casa na Ilha dos Barbados. Ela serviu café e aipim cozido pra gente, e contou um pouco de sua sabedoria, com seu jeito simples e acolhedor.

Entre outras coisas, dona Leontina contou que remédio pra verme é semente de mamão torrada. Amassa uma colher de chá para criança, ou uma colher de sopa para adulto, e ferve com água. É só coar e beber. Para queda de cabelo, deve-se cozinhar repolho e diluir babosa na água do cozido. Passar no cabelo, deixar de 15 minutos a meia hora e lavar. Ajuda a crescer mais rápido também. Para cólica menstrual, chá de levante – ela nos mostrou a planta no quintal, pegamos uns ramos. Cheirosa. Para depressão e fadiga física e mental, ela faz chá com a folha de ginseng – e também nos mostrou a planta no quintal.

dona leontina

Dona Leontina. Imagem: Yasmin Souza.

Voltamos pra casa do seu Vicente, onde almoçamos. A pressa da manhã parecia ter se esvaído. “Boa vida não tem pressa”, respondeu seu Vicente quando dissemos para ele fazer seu prato, sendo que todos já comiam, e ele não. E repetiu: “boa vida não tem pressa, não é verdade?” É verdade, seu Vicente. E no fim das contas, nem rolou de subir o tal morro. Mas teve mais fandango na casa do mestre.

Acabamos saindo no fim de tarde – primeira remada noturna. Foram algumas horas até Barbados. Lua crescente, estrelas no céu. E na água. Planctons. Os remos batendo e as canoas deslizando na água produziam um efeito mágico. Navegação à laser. Mas a pegada foi forte.

Pegamos maré contra e muito vento na baía. Fui com Karina e Carol na canoa azul, a única de fibra da frota. Carol estava aprendendo a fazer o leme e fomos em zigue-zague – o dobro do esforço. E precisávamos remar sentadas, o que exige mais força, pois somente os mais experientes conseguem manter o equilíbrio em um mar tão mexido. No auge da adrenalina, marcamos a remada no estilo viking, para sincronizar. Huh! Huh! Huh! Mulheres guerreiras!

De todo modo, foi lindo remar sentada olhando o céu estupidamente estrelado. Depois dos momentos de tensão, fomos cantando na canoa. Por questão de segurança, remamos próximos uns dos outros, as sete canoas em comboio. Para assegurar que estavam todas ali, cada canoa ganhou um número, e vez ou outra rolava a contagem; após o sete gritávamos “ha’ewete!”, nosso grito de guerra, que significa “obrigado” em Guarani. Chegando em Barbados, outros gritos se sobrepuseram: “caféeeee!” “Bolinhooooo!”

Chegamos sujos, cansados e molhados, mas, para nosso delírio, tinha café e bolinho de chuva quentinhos! Isso porque ficamos na casa de Leonésio, nosso barqueiro (ou seria Leonésimo? Ou Leogésimo? Com quantos Leonésimos se faz uma remada?); sua esposa, Celi, fez a bondade de nos receber tão bem. Tivemos que tirar forças não se sabe da onde para armar barraca e tomar banho. Capotamos, o bom sono dos exaustos.

O galo cantou cedo ao nosso lado, mas nesse dia cada um acordou no seu tempo. Fiz a segunda salada de mato da viagem no almoço: flor de hibisco e folha de trapoeiraba temperada com azedinha (trevinho), limão, óleo e sal. No dia anterior, a salada tinha sido folha de serralha. A galera aderiu, não sobrou nem uma folhinha pra contar a história. E, para os não-vegetarianos, os anfitriões colocaram na roda uma paca que tinham caçado.

Eu e Rafa na Cataia. Imagem: Thaysa Maso (que é a rainha da Cataia).

Eu e Rafa na Cataia. Imagem: Thaysa Maso (que é a rainha da Cataia).

No fim da tarde fomos de canoa ver a revoada dos papagaios numa ilha próxima. Renato achou melhor voltarmos antes do por do sol, que é o horário em que eles vão dormir. Perdemos o espetáculo em si, mas vimos alguns papagaios e o dia estava lindo. De fato, o tempo virou na volta. Estávamos eu e Rafa na temida cataia, minha primeira vez nessa canoa, a mais chucra do litoral. O que era para ser um leve passeio virou uma puxada remada – chegamos de noite, cansados. Mas tinha planctons! – o que torna até a pior das situações algo encantador.

Saímos de Barbados no dia seguinte e remamos até o Sebuí. Fomos parar numa reserva particular onde rola uma pousada de gringo pra gringo, bonitinha. Não tinha ninguém, tudo fechado, e seguimos trilha adentro até uma grande cachoeira. Lindo por demais. Na saída, retomando as canoas, um casal passou por nós numa lancha. Foram anunciados por umas risadas femininas. Um cara de meia idade pilotava; ela loira, elegante, com um cachorrinho branco. Pareciam saídos da revista Caras. Total contraste com nós enlameados remando nossas canoas. Caviar versus farofada.

Voltamos remando, tudo tranquilo até que, saindo do canal, de volta à baía, fomos parar bem onde o vento faz a curva. Tive que sentar bruscamente para não perder o equilíbrio. Juliano também. Rafa insistiu, na proa de pé. Mar mexido, vento contra, súbita mudança de clima. Nuvens tapando o sol que reinava até então. “Remem forte!”, gritou Rafa lá de trás, e logo teve que sentar também. O casal “revista Caras” estava lá, onde o vento faz a curva, curtindo o visual. Assistiram ao nosso desespero de camarote, ligaram o motor e puxaram o barco. A nós restou, bravamente, remar.

Cachoeira no Sebuí. Imagem: Yasmin Souza.

Cachoeira no Sebuí. Imagem: Yasmin Souza.

Éramos a última canoa, viramos a curva e encontramos as outras. Renato armou a vela da sua (só algumas contavam com as improvisadas velas de lençóis tirados das doações) e deu instruções para que todos nos juntássemos, formando uma grande balsa. Sentamos em cima dos remos atravessados por cima das canoas – o que normalmente dá total estabilidade ao conjunto de embarcações. Não funcionou, e lá estávamos nós meio desesperados segurando as canoas vizinhas com força com as mãos, subindo e descendo com as ondas. E a gringa filmando tudo com sua camerazinha.

Mas quase não avançávamos desse jeito, e Renato disse para aproveitarmos para ir remando antes que piorasse mais ainda. Coragem! Nos separamos e fomos remando loucamente. Nesse meio tempo, justamente a canoa do Renato, que achávamos que era imune, afundou. Dizem que foi uma cena surreal – Márcia, a louca do esgote, achando que conseguiria tirar todo o mar da canoa enquanto ela afundava; Renato, sossegado, já quase debaixo d’água, constatou “é, parece que vai afundar…”. O naufrágio ficou evidente quando Preta, sua fiel cachorra que viajava ora bodiada ora alerta no convés, pulou com tudo em plena baía. E assim perderam-se algumas galochas. Aliás, bom lembrar a dica do Renato: JAMAIS remar de galocha, ou você afunda junto com elas.

Viajante canina número 2: Pretinha. Imagem: Yasmin Souza.

Viajante canina número 2: Pretinha. Imagem: Yasmin Souza.

À noite, quase náufragos, chegamos à casa de Sebastião (ou apenas Bastião), filho de dona Alzira, que mora ao lado. Confusão e canseira ao tirar tudo da canoa no escuro. Armar barracas. Aquela já conhecida história. Fui caçar banho em outro lugar, para dar uma distribuída. Cheguei na casa vizinha pelo quintal, meio que por entre os milhos, não dava pra ver bem a trilha de noite. Tudo escuro, uma mulher saiu da casa, onde havia barulho de crianças e de TV. Eu, imunda, com toalha e roupas secas nos braços, fui direto ao ponto e pedi para tomar banho na cara dura.

A mulher, constrangida, disse que não tinha banheiro, que precisavam construir, e que o banho era no quintal. Eu disse que tudo que eu queria na vida era apenas poder me limpar. E foi assim que tomei banho entre as bananeiras, de noite, nua no quintal alheio. Uma cena que vai ficar na memória. Ao voltar, o rango já estava quase pronto. Salve, Renato! E assim acabamos com o estoque de palmito do nosso anfitrião.

No dia seguinte, sol – deu pra ver o quão lindo era o local onde estávamos. Parte do grupo subiu morro acima com Bastião, e eu fui junto. Mata virgem, disse ele, que foi nos ensinando sobre os segredos e belezas da floresta, com sua maneira tão alegre e generosa de ser. Palmeira roída pelo macaco, que curte um palmito; coquinho da brejaúva; tucum; coquinho amarelo de cheiro bom, cuja casca misturei com babosa e fiz uma pasta muito louca para hidratar a pele. Bastião preocupado com o cansaço dos viajantes, enquanto ele e as crianças dali subiam com naturalidade.

Pela tarde, descanso sob o sol. Momento de fazer os presentes do amigo secreto, indicou Renato. No fim da tarde sairíamos para o fandango na casa do mestre Leonildo, o esperado baile. Nos arrumamos todos, as mulheres colocaram saias e se maquiaram com urucum. Pegamos as canoas e remamos uns dez minutos, a casa do mestre era logo ali. Primeira ida pra balada de canoa!

Atracamos as canoas, havia algumas casinhas. A região ali é conhecida como Abacateiro. Alguns familiares de seu Leonildo foram saindo de casa um tanto receosos para ver quem estava chegando. E viram esse povo doido todo arrumado e com tintura vermelha na cara. “Pode chegar”, disseram. Fomos para a casa de baile.

Rafa e Reilly pegaram as canoas com a missão de comprar cataia, ali do lado. O mestre apareceu, cumprimentou a todos e chamou a gente pra ir pra casa de fogo. Chão de terra batida, com o fogo ao meio. Muita fumaça – foram poucos os que resistiram por muito tempo. Eu me atraquei à única janela do recinto. Logo que os meninos saíram em busca da cataia, começou a chover. Ventania. E não parou mais por um bom tempo.

Fiquei na janela fumando meu palheiro e vendo a chuva cair – raios e trovões. Grande parte da galera voltou pra casa de baile, fugidos da fumaça e se esquentando nas camas que tinha por lá. Pairava uma preocupação com os canoeiros que saíram – teriam conseguido chegar ao seu destino, e estariam lá enchendo a cara e esperando a chuva passar? Ou estariam passando perrengue, acostados no mangue em meio à fúria dos céus?

Chovia. A espera foi longa e, nesse meio tempo, mestre Nilo chegou. Renato articulou esse encontro, que não acontecia há anos. Eles são primos, ambos da Família Pereira, renomado grupo de fandango. Se desentenderam há alguns anos, e cada um passou a tocar com uma banda – e ambas se denominavam Família Pereira, tornando evidente a disputa. Mas o tempo cura tudo, e as intrigas vão perdendo sentido – para nossa alegria e para o bem do fandango.

Renato e mestre Leonildo em sua cozinha. Imagem: Yasmin Souza.

Renato e mestre Leonildo em sua cozinha. Imagem: Yasmin Souza.

Os mestres, além de tocarem, constroem os instrumentos e compõem as músicas. E um dos motivos pelos quais o fandango está se perdendo é o fato de eles não poderem mais tirar madeira, a matéria-prima para os instrumentos, da mata – devido aos mecanismos de proteção ambiental. A lei, para preservar o pouco de natureza que a civilização não destruiu, impede que aqueles que a mantiveram viva até hoje não possam mais viver à sua maneira.

E assim os caiçaras vão perdendo o seu jeito de ser, precisando resistir muito para manter seu modo de vida, pois são impedidos de extrair da mata o necessário para viver, como sempre fizeram, de maneira harmônica. Essa história se repete com a maioria dos povos tradicionais – e as periferias da cidade seguem se enchendo, e nossa memória biocultural se perdendo. Fandango não é só alegria, é resistência.

E então, quando não dava mais para postergar, a festa começou. A banda chegou na casa de baile, assumiu seus postos e começou a tocar. As pessoas foram se sentando, levantando das camas, ainda meio desanimados. E assim foi, com poucos ousando dançar – até que nossos dois heróis irromperam, molhados, com garrafas de cataia na mão e sorriso largo na cara. Imediatamente o clima se transformou. Parecia que as garrafas tinham se multiplicado – cada um tinha sua long neck de cataia na mão, carece de copo não! Começava o baile de fato!

Foi muita alegria e muita dança – e alguns novos batuqueiros e batuqueiras se revelaram! Não que se lembre de muita coisa… Mas tudo tem seu fim, e no avançar da noite, quando mestre Leonildo já tinha deixado o baile de fininho, resolvemos partir. O desafio de voltar na canoa, ainda bem que não rola bafômetro por ali. Histórias hilárias surgiram no dia seguinte – mas o que importa é que chegamos todos sãos e salvos.

Infelizmente grande parte da família do seu Leonildo não participou do baile, ficou só espiando do lado de fora – a religião não permite. Não à toa o mestre tem raiva dos “crentes”, como chama, e não perde uma oportunidade de dar uma bem humorada espezinhada na religião que o condena.

Mestres Leonildo e Nilo tocando, e o povo animado dançando. Dá-lhe cataia! Imagem: Yasmin Souza.

Mestre Nilo, mestre Leonildo e seu filho (da esquerda para direita) tocando, e o povo animado dançando. Dá-lhe cataia! Imagem: Yasmin Souza.

No dia seguinte, partimos cedo para o Rio dos Patos, local de mata bem fechada, que compõe o Parque Nacional do Superagui. A ideia era encarar o Bico Torto, uma montanha que leva umas sete horas para subir, segundo Renato. Mas, devido ao cronograma apertado e ao fato de ter chovido, entramos mata adentro e dormimos lá, apertadinhos na cozinha de uma casa que a família de dona Alzira mantém ali – pro outro lado de uma bifurcação que tem na trilha, fica a casa da família do mestre Leonildo. Mas, desde que virou parque nacional, ninguém mais mora ali. Antes, havia mais de 80 famílias, que tiveram que se mandar e se virar – de acordo com Renato, sem indenização nem nada.

A remada era de cerca de uma hora, mais três horas de trilha na mata. Pela primeira vez pegamos chuva quase contínua enquanto remávamos – nada muito forte, mas dificulta. Levamos pouca comida, para não precisar carregar muito peso. A ideia era descolar por lá. Conseguimos banana verde e alguns lambarizinhos pescados na isca de garrafa PET que Rangel engembrou. Overdose de banana verde frita com sal e dois lambarizinhos pra cada um. Mas teve bastante bolinho de chuva, café e teve gente que comeu até miojo cru com goiabada. Tempo chuvoso e laricas da mata.

Borboletas encontradas no ninho de uma coruja numa casa abandonada no Rio dos Patos. Imagem: Yasmin Souza.

Borboletas encontradas no ninho de uma coruja numa casa abandonada no Rio dos Patos. Imagem: Yasmin Souza.

 

Fim de viagem: nostalgia e celebração

Chegou o último dia de viagem. Tudo já com cara de despedida. Nostalgia antecipada e planos de banhos, dormidas e comidas no aconchego dos lares. A proposta era fazer a trilha, remar até a dona Alzira, desarmar acampamento e seguir remando até a Ilha das Peças. Seria a remada mais puxada da viagem, chegaríamos tarde da noite.

Fomos seguindo o planejado – chegamos na dona Alzira, desarmamos acampamento sob uma fina chuva, almoçamos uma comida rápida que uns guerreiros prepararam pra gente e seguimos rumo à Ilha das Peças, nosso objetivo final. O cansaço era grande, mas as saudades já batiam também.

Estava na canoa com Thaysa e Evair, o mestre remador – cada remada um impulso que joga a gente pra frente. Íamos beirando o mangue de olho nas penas de guará – pássaro de um vermelho vivo que habita a região, que chegou a ser quase extinto – que ficam pelas margens. Conseguimos algumas, e eu e Thaysa colocamos na orelha e nos cabelos.

As canoas de Renato e Andressa pararam numa vilinha para tentar entrar em contato com Leonésio, que sairia de Barbados e nos encontraria no meio do caminho. A ideia era pedir para ele levar pão e café pra termos energia para a longa remada que nos esperava. Os dois, e mais aqueles que os acompanhavam em suas canoas, demoraram bastante. Não conseguiram falar com Leonésio, que chegou com seu barco logo mais. E definiu-se que nós faríamos o resto do trajeto a reboque.

Um longo percurso. Demos graças pelo reboque – a remada não teria sido nada fácil e provavelmente teria ido madrugada adentro. A natureza nos proporcionou uma bela despedida: por do sol com revoadas de guarás, deslumbrantes, avivando nossas retinas. Botos passando rente aos barcos.

A última fogueira. Imagem: Yasmin Souza.

A última fogueira. Imagem: Yasmin Souza.

A noite caiu e o frio pegou. Sem remar e com o vento gerado pela velocidade do barco, a sensação térmica cai. Rafa e Yasmin tiveram que fazer uma tenda com seus corpos para Karina, que vestia apenas short e camiseta. Chegamos desesperados por comida e banho, como de costume. Mais tarde rolaria o amigo secreto em torno da última fogueira. E a última noite de sono amontoados, novamente na casa da família do Renato.

Amanhece, quinze de julho, dia de voltar – muitos com receio de brevemente serem tragados pela civilização. Sentiríamos saudades da simplicidade, do sossego, da natureza e da beleza. Na barca, último lanche comunitário da tropa de gafanhotos. Fotos de despedida. E os belos retiros foram ficando para trás. O cheiro ruim do porto ia anunciando a chegada à Paranaguá.

Gafanhotos do mar na volta para a civilização.

Gafanhotos do mar na volta para a civilização.

Que as palavras do capitão Renato finalizem essa história:

“Gratidão é o sentimento que sobra em minha alma. Quinze dias de tempo bom – Ñanderu, o grande espírito, se agradou de nossa viagem e nos presenteou com o mais belo. Passamos por onde a força maior nos levou e de tudo que levamos nada se compara ao abraço que cada um recebeu. Ainda assim levamos mais de duas toneladas de agasalhos brinquedos e cestas básicas.

Quero aqui deixar minha gratidão sincera à minha esposa, que está sempre ao meu lado, Andressa, e a todos da equipe que agora são meus irmãos: Rangel, Bel, Karina, Cecília, Marina, Leôncio, Caroline, Thaysa, Reilly, Juliano, Rafael, Michele, Márcia, Mateus, Evair, meu parceiro irmão, a você meu agradecimento especial. Vocês fizeram a roda girar com força!”

Acrescento um agradecimento mais que especial ao Renato e à Andressa, pela entrega e pela acolhida, pela força de proporcionar essa vivência incrível para tantas pessoas, todos os anos.

Viva a cultura caiçara! Ha`ewete! Viva a família de gafanhotos do mar!

Foi de queimá as carça!

Com quantos paus se faz uma canoa? Um. Imagem: Thaysa Maso.

Com quantos paus se faz uma canoa? Um. Imagem: Thaysa Maso.

Para quem quiser conferir, aqui tem um diário de bordo bastante sensível feito pelo Gabriel Coutinho na viagem de 2009, que conta com vários informações geográficas e históricas que não incluí aqui.

Um comentário sobre “Viagem de canoa pelo litoral do Paraná: a saga

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