Tudo e nada ao mesmo tempo na Vivência Aborígene

Agrofloresta, bioconstrução, culinária vegetariana, meliponicultura, tai chi, autogestão, acroyoga, musicalidades, coletividade, serviço, cooperação e conexões intergaláticas no Sítio Aborígene.

Por Michele Torinelli / Vida Boa

Roda de gentes, mudas e sementes.

Roda de gentes, mudas e sementes.

“Pense em tudo… Agora pense em nada… Agora pense nos dois ao mesmo tempo”. Era para ser piada, mas a provocação do Caxias reverberou durante e após a vivência. Esvaziados e plenos ao mesmo tempo: por um lado, conectados com o que há de mais profundo em nós, com nosso vazio interior; por outro, com a energia cósmica e todo o ambiente comum que nos conecta a tudo e a todos.

E no final talvez seja tudo a mesma coisa.

Boa parte dos participantes da terceira vivência no Sítio Aborígene chegaram na noite do dia 06 de setembro, terça-feira véspera de feriado; os remanescentes chegariam apenas na sexta. Cinco dias de intenso convívio no pequeno pedaço de terra do município de São Lourenço do Oeste (SC). Muitos vieram de perto, das cidades vizinhas, outros beeem de longe – até do Peru tinha gente.

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Tai chi matinal.

A rotina começava cedo: 6h30 com o tai chi, e na sequência um farto café da manhã, preparado sempre por pessoas diferentes que se dispunham a realizar a atividade. A cozinha é rotativa e autogerida, com facilitação da Fabiana Moura, que além de gerir os recursos ranguísticos também puxava o tai chi junto com a Patrícia Santian.

O anfitrião Caxias – ou Jakson Gava, mas pode chamar de Caxias mesmo – avisa desde o começo que não se trata de um curso, em que o que importa é um certificado e em que alguns oferecem um serviço para outros – os clientes -, e nem de voluntariado, em que existe uma demanda específica e pré-estabelecida a ser cumprida, mas sim de uma vivência, em que todos são corresponsáveis por fazer a coisa acontecer. Não se trata de transmissão de conhecimento, mas de troca de saberes.

Essa foi a terceira Vivência Aborígene e a segunda a ser registrada pelo Vida Boa [veja o relato da vivência anterior aqui].

Agrofloresta

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O primeiro trampo foi preparar novas linhas de agrofloresta. A área trabalhada é uma encosta degradada onde foram feitos terraços, em vários níveis, para facilitar o cultivo. Ou seja, camadas profundas de terra, sem matéria orgânica, que precisam de uma boa mão para se tornarem férteis. Hora da picareta yoga, pra afofar essa terra dura, pedregosa e argilosa. Depois revirou-se com enxada, tirou-se as pedras e passou-se um pente fino com o rastelo.

Enquanto alguns faziam essa função, outra parte da equipe cortava o capim que havia sido semeado lá embaixo há alguns meses (e que já tava grandão) e trazia para cima, colocando camadas dessa massa verde entre as linhas. Após a terra de cultivo ter sido preparada com adubo e serragem, uma camada fina de capim foi depositada também sobre as linhas. Missão parcialmente cumprida!

Deixamos para plantar as mudas em algum momento em que o sol estivesse mais favorável – cedinho pela manhã ou no fim da tarde. E assim foi feito nos dias subsequentes: hortaliças foram plantadas nas linhas de cima, perto da casa, já que são espécies que exigem atenção constante; feijão, milho, ervilhaca e girassol foram semeados em meio às mudinhas de eucalipto e frutíferas nas linhas de baixo, cujo solo foi preparado também ao longo da vivência.

Tio Zé auxiliando no plantio planejado de frutíferas em meio à mata.

Tio Zé, guardião do sítio, auxiliando no plantio planejado de frutíferas em meio à mata.

Na beirada dos canteiros (ou “linhas”), colocamos troncos meio apodrecidos que trouxemos da mata, para irem depositando seus nutrientes no solo à medida em que se decompõem. Fizemos uma experiência de estratificação na mata, que consistiu em limpar o material orgânico suspenso, preso entre os galhos, e fazer algumas podas para que a luz entre e outras espécies possam crescer. Plantamos linhas de frutíferas, constituindo um sistema agroflorestal sombreado.

Depois avaliamos que esse momento da poda precisa ser feito com mais organização, o que exige uma boa conversa anterior, para não sair cortando o que não é necessário – ainda mais quando se tem uma motosserra na mão. “Nunca se entra na floresta de uma vez, mas sempre passo por passo”, advertiu Pedro Pastorello, um dos facilitadores da vivência. Responsa com a floresta!

Bambu a pique, sementes crioulas, acroyoga, PANCs, abelhas indígenas, agroecologia, mantras e cogus

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Parede de bambu a pique.

Os dias foram plenos de trocas interessantes e cada um tinha algo a somar. Levantamos um pouco mais da parede da área comum do acampamento com a técnica do bambu a pique. Joarez Troiani contou sobre as 15 espécies de abelhas nativas que cria – “abelhas indígenas”, como ele chama -, ensinou a fazer a isca e deu algumas dicas de como fazer uma casinha apropriada para elas.

Em uma roda em volta de mudas doadas pelo EPAGRI-SC (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) e sementes crioulas recolhidas e trocadas mundo afora, conversamos sobre a importância dessas sementes. Leo Gava, pai do Jakson, contou que há cerca de 30 anos plantava-se milho crioulo na região – antes da chamada “Revolução Verde”. Cada um plantava uma espécie (é de conhecimento popular que espécies de milho não devem ser cultivadas próximas uma das outras, ou se misturam por polinização) e, após a colheita, as famílias trocavam entre si. A partir da década de 1970 disseminou-se o modelo agrícola “moderno”, em que o camponês fica dependente das sementes compradas, que não se reproduzem, e dos insumos industrializados. E assim perderam-se espécies nativas e relações comunitárias.

Acroyogues.

Acroyogues.

Resgatar e reproduzir sementes crioulas é cuidar da biodiversidade num cenário em que espécies estão se perdendo em meio a sementes geneticamente modificadas. É cuidar da terra, da vida e promover a emancipação do agricultor, que se volta novamente para a relação com a terra e com a comunidade e se liberta do ciclo de dependência que o agronegócio promove em benefício de multinacionais – um pacote perverso que acaba com a saúde do solo e da água, com a diversidade da vida e com os laços comunitários.

Marcelo Panegali e as irmãs Milena e Maiara Francio compartilharam sua experiência de cultivo de cogumelos – shimeji e champignon. Após a conversa iniciamos o preparo do espaço para mais duas estufas de cogumelos em meio à mata, ao lado da caverna dos shitakes.

Andressa Zanon, Yana de Barba e Vanessa Martins instruíram uma prática de acroyoga no entardecer ao lado do lago. Ostapiv, além de contribuir com seu conhecimento acerca dos bambus, coordenou a construção da estrutura do viveiro e compartilhou sua experiência com a espiritualidade Hare Krishna numa roda de mantras.

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Em busca das PANCs.

Teoria e prática se reuniram em torno das PANCs, as chamadas “Plantas Alimentícias Não-Convencionais” – nome polêmico, afinal o que é convencional? Talvez elas só tenham sido deixadas de lado num período histórico muito recente em que perdemos a ligação com a terra e somos bombardeados por alimentos industrializados. De qualquer maneira, pegamos o Guia das PANCs e fomos atrás delas. E várias saladas foram incrementadas com radite selvagem, dente de leão, tanchagem, serralha, florzinhas… Comida é mato!

E pra compartilhar sua experiência com a gente, no sábado veio Nelson Morgan, de Francisco Beltrão, somando-se à sua filha Lunamar, que já estava desde o começo na vivência. O sítio deles conta com uma agrofloresta de mais de 20 anos, e ele é um dos precursores da agricultura ecológica moderna na região – moderna porque agricultura(s) ecológica(s) os povos nativos sempre fizeram, o que muda hoje é que foi combinada com outras técnicas e recebeu novos nomes.

Mulheres guerreiras no trabalho na mata.

Guerreiras no trabalho na mata. Defendendo as mulheres e a Gaia!

Ele estudou agronomia, passou anos trabalhando com comunidades indígenas pelo Brasil e tem estreitas relações com movimentos sociais. Emocionou-se ao contar da injustiça sofrida por integrantes do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragem na Usina do Baixo Iguaçu, justificando sua rápida passagem pela vivência. Pessoas foram agredidas e presas pelo aparato de segurança pública simplesmente por reivindicarem seus direitos. Situação tão revoltante, infelizmente tão frequente em movimentos sociais, comunidades tradicionais, periferias urbanas e com qualquer um que ouse se opor aos poderes estabelecidos.

Nelson complementou sobre os impactos ambientais das barragens – enquanto muitas vezes as hidrelétricas são consideradas provedoras de “energia limpa”, o impacto é alto: grandes áreas alagadas, que segundo Nelson, no caso de Itaipu, chegou a mudar o rumo dos ventos, alterando drasticamente o clima na região. Isso sem falar no impacto social: milhares de famílias desalojadas – e Nelson citou novamente o caso de Itaipu, em que muita gente ainda aguarda sua indenização. Outro exemplo bastante recente é Belo Monte. Energia como e para quem?

Nelson e toda sua experiência de agricultura ecológica e luta social.

Nelson e toda sua experiência de agricultura ecológica e luta social.

Ele conta que, no caso da Usina do Baixo Iguaçu, uma senhora de Realeza (PR) chegou em um dos “bacanas” da empresa concessionária. Ele tinha um Rolex no pulso, que deveria valer uns 30 mil. “Dou dez reais nesse seu relógio”, disse ela. “Como assim? Ele não tá à venda, e pode ter certeza que vale bem mais do que isso”, respondeu ele. “Ah, é mesmo? Pois é assim que vocês estão tratando minha terra”. Simples assim. Mas ela é desalojada e leva bala de borracha no lombo, enquanto ele é a quem a polícia, a justiça e o Estado obedecem.

Para além dessa problemática eminente, conversamos sobre agroecologia, como havia de ser. Ao ser questionado sobre a (suposta) polêmica entre os adeptos da agroecologia e da permacultura, ele não alimentou discórdia: “eu acredito que é como religião – são diferentes linhas mas no fundo todos falam sobre a mesma coisa”. Ele defende que todas esses tipos de agricultura ecológica buscam o equilíbrio de maneiras distintas.

Pessoalmente, Nelson se identificou com a biodinâmica e com a agroecologia, que considera a mais completa por abranger aspectos econômicos, políticos e culturais. “Tão confundindo política com politicagem, mas a gente precisa de política”, defende ele. E complementa que o negócio é mesclar a agroecologia com umas gotinhas de permacultura, outras de biodinâmica e de tudo o que possa contribuir.

Tudo e nada ao mesmo tempo

A roda dos elementais.

A roda dos elementais.

A parte não existe sem o todo e o todo não existe sem as partes. Cada um fazendo sua parte em relação com o todo.  Com o coletivo. Com Pachamama, a Mãe Terra. E assim, o todo se regozija e cada um se plenifica. Buen vivir, la buena vida. Para todos e todas.

O que mais se destacou nessa vivência, para além das linhas preparadas, das mudas plantadas, das paredes de barro levantadas e do compartilhamento de conhecimentos, informações e técnicas diversas, foi a conexão entre as pessoas e destas com a natureza. Meditações e musicalidades em volta da fogueira. Carapiá. Sol, lua e estrelas. Transcendência. Sagrado Feminino – Maria Madalena apedrejada curando suas feridas de mãos dadas com outras Marias. Mantras. Contato com a terra. Com a água. Massagens. Abraços. Sorrisos. Amor.

Ou, como expressou Luna na síndrome de arrebatamento pós-vivência:

Deus
É essa a galera que vai salvar o planeta
Pode saber… tamo aí se unindo desatando as treta
fazendo o bem… mexendo na terra
cultivando e REconhecendo
criando arte fazendo a parte
resgatando as sabedorias
compartilhando as alegrias
de viver no colo da Mãe Gaia
tendo a consciência da semente que somos
do amor que semeamos
e do trabalho que emparelhamos
gratidão a cada eu presente
cada coração e cada mente
<3 <3
a nova era acabou de começar… a era em que o amor irá reinar
a paz o amor e a união…  são sentimentos que revelam o nosso coração
<3 <3
AHOOOOOOOOOOO

Desenho que o artista artesão bicho bom Joka Cândido deixou no caderno que o amigo Miguel Angel aprendeu a fazer artesanalmente com ele. Pachamama.

Desenho que o artista-artesão-bicho-bom Joka Cândido deixou no caderno que o amigo de Peru Miguel Angel aprendeu a fazer artesanalmente com ele. Pachamama em sua plenitude.

 

Veja mais fotos da vivência aqui, aqui e aqui.

Para saber das próximas vivências, acompanhe a página do Instituto Aborígene.

Um comentário sobre “Tudo e nada ao mesmo tempo na Vivência Aborígene

  1. Melhor experiência que já vive até agora!
    Salve a Harmonia da Mente e da Natureza.A cultura Galáctica está e vem em Paz!

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