Buda Traslasierra

Voluntariado, cursos e retiros em meio às serras de Córdoba

Por Michele Torinelli

As serras iluminadas pelo por do sol e emolduradas pelos galhos do avô Algarrobo, árvore que deve ter cerca de 600 anos.

As serras iluminadas pelo por do sol e emolduradas pelos galhos do avô Algarrobo, árvore que deve ter cerca de 600 anos.

Não é bem uma pousada, nem exatamente uma comunidade, muito menos um centro de eventos – mas um pouco de tudo isso. Cura, conexão, relação, natureza. Essas talvez sejam algumas palavras que ajudam a descrever essa iniciativa localizada ao pé da serra na província argentina de Córdoba.

Além de oferecer caminhadas conscientes pelas montanhas, retiros e terapias, Buda Traslasierra é também ponto de encontros por meio da arte e da espiritualidade. As atividades ofertadas por parceiros locais e os cursos recebidos abarcam equinoterapia, leitura de aura, cavalgadas, renascimento, reiki, vivências de clown, música e danças.

A infraestrutura inclui hospedagem e alimentação vegetariana. O espaço, naturalmente deslumbrante, conta também com construções elaboradas a partir de técnicas naturais, horta e escolinha comunitária para as crianças.

Trajetória

Tudo começou há cerca de 16 anos, quando Ivan veio morar com sua família em meio ao monte. Construíram sua casa no fim de uma estrada de terra em Las Calles, perto de Nono – localidades da região de Traslasierra que, além de ser conhecida turisticamente por suas belezas naturais, tem atraído migrantes de grandes cidades em busca de outras possibilidades de vida.

Ivan e Sacha.

Ivan e Sacha.

Esse é o caso de Ivan, que trabalhava de terno e gravata na região central de Buenos Aires. Um empresário bem sucedido que descobriu que o que dizem ser o máximo a que um ser humano pode almejar não lhe satisfazia. Carro, restaurantes, festas, conforto urbano – tudo isso começou a perder sentido. Por meio de terapias, arte e espiritualidade, e da relação com crianças e com a natureza, ele foi se reencontrando, e resolveu largar tudo em busca de uma vida plena.

Depois de vender o que tinham na cidade, ele e sua então companheira pensaram em trabalhar com mergulho num pequeno paraíso do sudeste mexicano. Mas o destino quis que viessem parar nas serras cordobesas – uma longa história que envolve questões mágicas na Chapada dos Veadeiros (no planalto central brasileiro), uma doença de pele de seu filho causada por uma picada de aranha marrom, curandeiras e alguns imprevistos que os impediram de ir ao México, como planejavam. Em busca de um lugar seco e mais perto da família, optaram por ficar em Córdoba.

Alugaram uma casa em Villa de las Rosas e encontraram o terreno ideal para construir uma morada ao pé do monte – mas, ao longo do processo, o casamento ruiu e Ivan ficou sozinho na montanha. “Percebemos que nunca tínhamos nos olhado nos olhos, que não nos conhecíamos – na correria da cidade não tínhamos tempo pra isso”, conta ele. Sua companheira foi morar no povoado e eles passaram a alternar o cuidado com as crianças.
Reunindo colegas e gente experiente em atividades que lhe interessavam – como percussão africana, didgeridoo, leitura de aura e renascimento -, surgiram as primeiras oficinas no espaço. E algumas dessas pessoas acabaram ficando.

 

Experimento comunitário

Em 2012, um curso de leitura de aura deu início a um novo período no local. Angelina veio de Piracanga, famosa comunidade na Bahia, para compartilhar esse conhecimento, e se deparou com três mulheres grávidas entre os participantes. Uma delas era Clarisa, que esperava seu primeiro filho com Ivan. Clarisa já dizia que esse processo na montanha precisava ser coletivo, construir-se em relação com os outros: sozinhos não fazia sentido. Ivan se identificou com essa vontade, mas não sabia como poderia concretizá-la. Até que, em algum momento do curso, a partir de sintonias e coincidências, Angelina verbalizou o que já se anunciava de alguma maneira: “vocês percebem que essas três crianças estão pedindo para serem criadas juntas?”, provocou.

E assim foi. Ivan convidou essas duas famílias para morarem no espaço, apesar de que a ideia lhe parecia uma loucura. “Mas como, largar tudo?”, questionaram. “Sei lá, vocês que sabem, o convite tá feito”, respondeu. A tentadora proposta prevaleceu. Deixaram emprego e casa na cidade e vieram. Atrás deles, vieram outros, e nascia a comunidade Buda.

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Resquícios do período comunitário.

O pessoal de Picaranga deu suporte, numa parceria que envolveu muito aprendizado e amor, mas que hoje Ivan considera um tanto invasiva. Durante um ano a relação foi bem próxima, e alguns integrantes iam frequentemente para a Bahia. Além de Buda, Picaranga influenciou diretamente mais umas quatro comunidades na Argentina – uma delas é Umepay, também nas serras de Córdoba.

Cerca de 30 adultos e 20 crianças chegaram a viver juntos na comunidade – em trailers, barracas, espaços que foram sendo construídos, nos quartos da pousada: de alguma maneira as pessoas iam se acomodando. As refeições passaram a ser comuns, assim como o trabalho, a economia, tudo. Construíram a escola, e as próprias mães e pais se alternavam nas atividades com as crianças, numa proposta de educação viva que segue até hoje. Havia fundos financeiros que circulavam dentro da comunidade. Os projetos de cada um passaram a ser compartilhados, assim como o trabalho na terra. “Acabamos criando um… povoado”, resume Ivan.

Mas enquanto alguns tinham uma economia paralela à economia comum, outros não tinham – e, para esses, o processo de adaptação e construção de moradas acabava sendo mais lento. Alguns não tinham esse tempo. A rotina comum, com imposição de horários e atividades, também começou a gerar desconforto. Nem todos queriam comer a mesma coisa, no mesmo horário, realizar as mesmas atividades – e até mesmo desenvolver o mesmo modelo de educação para as crianças.

Alguns começaram a voltar para a cidade, outros foram comprando terrenos vizinhos, e a ideia de comunidade foi deixando de fazer sentido. “O termo comunidade traz muita carga, muita suposição, quando eu falo essa palavra você já traz toda uma imagem dentro da sua cabeça”, identifica Ivan. Viram que não estavam prontos para ter uma economia comum, mas que a partir de suas individualidades, com liberdade e autonomia, podiam compartilhar projetos e atividades de maneira mais livre, quando sentissem vontade.

Cronograma de atividades da escola.

Cronograma de atividades da escola.

A proposta comunitária durou cerca de três anos e hoje em dia metade dos envolvidos segue na região. “Temos músicos, artistas, terapeutas, astrólogos, parteiras, luthiers… Uma diversidade de gente que foi capaz de desenvolver seus projetos e viu que era possível se adaptar e se sustentar com autonomia, com trabalhos criativos, na natureza, em meio à montanha – e essa foi uma força interna que surgiu em cada um por haver estado juntos”, conta.

“Às vezes dois ou três se reúnem para criar algo, alguém vem dar um curso aqui; as parcerias acontecem”, complementa, e destaca que o principal fator que sustenta essas relações é a confiança que têm uns nos outros. “Comunidade para a gente é viver em amor, em harmonia, animando uns aos outros a, através dos vínculos, evoluir, mas não com um formato específico. Então encontramos esse formato que hoje deixa a todos bem cômodos”, conclui.

Voluntariado

A proposta de voluntariado é inicialmente de 21 dias, podendo se estender por períodos mais longos. Eu não tinha esse tempo, mas entrei em contato e arrisquei uma proposta de uma semana, ao que Ivan respondeu que era possível abrir essa exceção. Cheguei justo no dia em que começava um curso de Contact, um tipo de dança fluida em que as pessoas utilizam umas às outras como suporte. Trabalhei na cozinha e fui me adaptando às pessoas e ao local, usufruindo da beleza e tranquilidade que o espaço oferece.

A cozinha da pousada.

A cozinha da pousada.

Acabados os três dias de curso, Ivan me apontou algumas coisas que havia para fazer – como o trabalho na horta a partir do calendário biodinâmico e a organização da cozinha. Eu propus também contar a história do local, fazer registros fotográficos e ficar mais alguns dias. Ivan concordou e ficamos de marcar uma entrevista para ele me contar sua história e do local, com calma.

Alguns dias depois, ele me convidou para ir junto com a família pescar numa região no topo da serra – no caminho poderíamos ir conversando. Aceitei a proposta e fui parar numa cavalgada em meio a um cenário alucinante com Ivan, seu filho Sacha, Ema e Helo, duas irmãzinhas que também vivem em Buda. Fomos guiados por Dario, conhecedor dos cavalos e da região.

Pescaria nas alturas.

Pescaria nas alturas.

Desde o início Ivan esclareceu que meu caso era uma exceção, que usualmente os voluntariados são mais longos e guiados, envolvendo um acompanhamento especializado que aborda questões individuais e espirituais. Quem tiver interesse pode entrar em contato pelo site ou por aqui.

Em construção

Atualmente, além de Ivan, Clarisa e seus dois filhos, moram no local mais três famílias, sendo que uma delas estava entre as que deram início ao projeto de comunidade. Cada uma tem suas atividades e sua economia, com parcerias pontuais – como é o caso da escola, que se mantém.

Quando perguntei se a economia foi o principal fator que levou o projeto comunitário ao fim, Ivan recolocou a questão: “se trata de um processo, nada terminou, entende? A economia foi só uma das questões. Seguimos em transformação constante”. Ao que reformulei: “é mais uma transição então?”. “Não sabemos uma transição para quê, não seguimos uma direção pré-determinada”, respondeu. E, independente dos modelos que vão se desenvolvendo, Ivan destaca que “a confiança que temos entre todos é o que mais nos motiva a ir adiante”.

Em meio a essa constante construção está Buda Traslasierra, que hoje propicia que várias pessoas se conectem com a natureza, consigo e com os outros, construindo suas próprias maneiras de viver plenamente.

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