Cusicanqui y el buen vivir – conversa com Boaventura

Cusicanqui explica pra Boaventura que o termo Buen Vivir (Sumak Kawsay ou Suma Qamaña) foi apropriado pelo Estado de uma maneira superficial e fetichista, sem a preocupação de compreender seu sentido e sua origem. Apesar de essa apropriação representar avanços importantes, busca-se legitimar, apenas pelo uso de termos de outros idiomas, uma suposta plurinacionalidade.

Ela fala de alguns aforismos ancestrais que ajudam a entender o que o termo significa:

“Caminhando pelo passado e pelo futuro caminhamos pelo presente”.

“Viver bem quer dizer falar como gente e caminhar como gente” –  sendo que falar como gente significa escutar antes de falar, falar com verdade, daquilo que se sabe, e caminhar como gente é referendar suas palavras com seus atos. Mas ninguém se interessa em saber isso porque é exatamente o que os governantes não fazem: não escutam, não fazem aquilo que falam e falam do que não sabem.

Há uma tendência a se fazer um uso fetichista desse termo que forma um umbral que não se cruza: a palavra legítima pertence aos de cima, os de baixo dão insumos. O mesmo que em todo o sistema de conhecimento: o que produzimos? Matéria prima – e nos devolvem produtos elaborados.

(23 – 28 min)

 

Na sequência, Cusicanqui conta como, logo após o processo constituinte, os parlamentares bolivianos tentavam fazer alterações, de portas fechadas, no que havia sido definido legitimamente com participação popular, e que o vice presidente, na lógica da real politik, fez concessões seríssimas, que alteraram a constituição radicalmente. Enquanto isso, uma marcha de organizações sociais chegou à praça em frente ao parlamento e dançou durante 24 horas – e, a cada tanto, a dança estava a ponto de se transformar em rebelião, em luta.

Ela cita esse como um grande exemplo de encontro sem diálogo entre duas lógicas antagônicas: uma que não se limita por portas, que se dá na praça, que parte dos corpos, dos conhecimentos ancestrais, de práticas culturais muito importantes que se transformaram em folclore mas que, em sua origem, eram práticas de relacionamento com o cosmos – e, por outro lado, de portas fechadas, o domínio da palavra, da mentira, do encobrimento.

Essas duas Bolívias seguem se enfrentando, mas uma delas está mais calada.

(28-32 min)

 

Esse foi um aprendizado muito grande de que não se pode abrir a agenda para qualquer um fazer o que quiser com os conceitos. Inclusive Correa, presidente do Equador, diz que Buen Vivir é explorar petróleo, porque gera dinheiro para repartir entre as pessoas, e interpretações como essa são completamente deformadas.

É fácil falar de Buen Vivir, de ecologia de saberes, de Estado plurinacional, a questão é como colocar em prática. (35-6 min)

 

Sobre o mestiço que não tem vergonha de ser mestiço: quando tu reconheces que te habita uma “indianidade” recusada por ti mesmo, por tua educação, por tua família, negada internamente; uma indianidade que pode vir da paisagem, de ter tido uma babá índia que te levou nas costas, ou pode vir pelo sangue. Mas, de qualquer maneira, isso te habita. E na medida em que segues negando, estás num processo de alienação e de inautenticidade como ser humano. Superar esse duplo complexo, de ser índio e de ser branco (porque o curioso do mestiço é que tem esses dois complexos), e reconhecer que se é índio e se é branco, e essas duas fontes ou raízes podem ter uma forma emancipadora e descolonizadora. (51-53 min)

 

Cusicanqui defende que violemos a língua culta em sua pretensão autoritária de controlar nosso processo de construção do conhecimento, utilizando termos em guarani, quéchua, aymara – que enxertemos tudo. (55 min)

 

Democracia enquanto organização coletiva ou comunitária, na qual pessoas concretas se relacionam a partir de questões comuns que precisam ser enfrentadas juntos, para criar maneiras de governar a si mesmas, a partir da autonomia  – visão que dialoga com o anarquismo. Democracia enquanto prática de liberdade, e incompatível com o Estado, dada à sua característica extremamente centralizadora. Democracia é capacidade de criar coletividade autoconsciente. (1h08min)

Ela problematiza essa relação da tradição anarquista com as comunidades indígenas como lógicas complementares que dialogam  – e que tem grupos anarquistas mais ligados ao que acontece na realidade que entendem as comunidades indígenas sob um viés anarquista devido à sua histórica luta anti-fiscal e sua condição de gestores autônomos da vida. (1h13min)

 

A liberdade, ou a emancipação, é um futuro desconhecido – e o medo a esse futuro desconhecido faz com que o Estado se aferre às formas centralizadoras, racionalistas, eurocêntricas e seculares, quando tinha toda possibilidade de fazer diferente. (1h16min)

 

Mas nada é irreversível. E a crise ecológica talvez seja algo nesse sentido, e a volta à espiritualidade – mas não como comércio new age.  (1h18min)

 

Para garantir os direitos da Pachamama, mesmo, teria-se que consultar a PRÓPRIA MADRE TIERRA, por meio dos que sabem falar com ela. Aí sim se enfrentaria o antropocentrismo. (1h23min)

 

Sociologia da Imagem – perder a inocência em relação à produção de imagens. Ética e uso da câmera em trabalho de campo. Reconectar o olhar com os outros sentidos. Olhar não de dominação, mas horizontal, de igual a igual. (1h39min)

 

Clandestinidade. O fracasso negado. O fracasso como parte da história. Clandestinidades culturais, o preço que se paga. Fios soltos da história que não estão mortos. (1h42min)

 

“Foucault es demasiado inteligente cómo para tener esperanza”. (1h47min)

 

Crise de pensamento na Europa – estabelecer nossa própria genealogia intelectual. Transcender as barreiras disciplinarias, dar as mãos aos saberes práticos e realizar práticas corporais que permitam se aproximar a outros saberes. (1h48min)

 

Descolonizar a uno mismo. Possíveis mestiçagens, modernidade indígena. Possibilidades de imaginar o futuro. (1h50min)

 

A polêmica da mestiçagem (que não é hibridez). Não é a mestiçagem desde o projeto colonial, mas aquela que reconhece essa contradição em si. Todos somos mesclados, mas como se vive essa mescla é a grande questão – pode ser como produto conflitivo e conflituador da colonialidade. (1h53min)

 

Pachakuti. Revolução. Transformação profunda. Estamos nesse período, mas é largo, não se dá de uma hora pra outra. Para ela, começou em 1992 e vai até 2032. (2h06min)

 

Aqui uma entrevista recente em que Cusicanqui faz uma crítica ao colonialismo intelectual.

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