O reencantamento da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica

É no mínimo a terceira vez na vida que tô lendo “a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” pra algum curso. Mas, por mais que Benjamin possa se revirar na tumba, esse papo de “aura” da obra de arte sempre me soa deveras conserva.

Benjamin analisou a relação entre arte, técnica e política num momento em que o fascismo se impunha por meio de uma política e uma arte de massa. O grande ponto de sua análise, que persiste atual, é questionar o sentido da técnica, da arte e da política. A humanidade produz e consome, cada vez mais, e a guerra é transformada num grande espetáculo que mantém as estruturas de dominação.

Talvez meu rechaço à sua análise da arte seja porque me atrai muito mais a cultura com pé no chão e terra incrustada sob a unha – e esse papo de arte surge justo quando tira-se da cultura o seu caráter ritual, popular e cotidiano. Já a arte com sua aura é deveras elevada e sua produção não está acessível aos meros mortais, não faz parte da vida comum: depende da inspiração do sensível e talentoso artista.

Essa arte com a tal da aura (e não posso deixar de pensar numa Monalisa com auréola) já era um produto, só que privilegiado, a depender de seus mecenas. A era da reprodutibilidade técnica deselitizou o consumo, multiplicou e barateou seus processos e produtos – e, evidentemente, a técnica altera não só a rotina de produção e a dinâmica de distribuição, mas até mesmo o sentido da produção artística. O consumo passa da contemplação solitária ao entretenimento coletivo (e agora, nos tempos de bits e aparatos individuais, cada vez mais rumo ao entretenimento solitário).

Mas, a partir das resistências e existências das culturas comunitárias, tendo a querer tirar a arte de seu pedestal e entendê-la não só a partir de sua condição de produto em contraposição ao nostálgico status áurico – que surgiu a partir de seu descolamento dos ritos ancestrais -, mas como processo de significação e (re)encantamento da vida, de construção de diversas narrativas e imaginários, de interpretação do presente, de tecitura da memória comum a partir de diversos fios, que se tramam.

Processo que, para ter sentido vivo, carece de resgatar cada vez mais sua faceta mágica, seu caráter inerentemente coletivo e cosmológico; que carece que retomemos o fio da caminhada histórica da humanidade sobre essa Terra – que nos assumamos como os novos ancestrais que somos ou podemos ser.

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