Mboi Katari

Fanzine, poema e vídeo que compuseram a ~performance~ que apresentei ao final da cátedra livre de Sociologia da Imagem, com Silvia Rivera Cusicanqui, realizada em La Paz, Bolivia, em janeiro e fevereiro de 2018.

 

O que você vê no escuro?

Capa da fanzine, uma modalidade de publicação artesanal de baixo custo e possibilidades infinitas

 

Tuve un sueño.
Bajé al hondo del Titicaca y allá
vi una casita andina.
De los ancestros de los ancestros.
Justo cuando estaba en Coati,
la Isla de la Luna, una isla en
formato de serpiente,
donde se encuentran las ruinas
de un templo sagrado
de mujeres.

La serpiente fue mi guía.
Ella me conduzió en las aguas
profundas del inconsciente.
En la cosmovisión Guarani,
la serpiente, mboi,
puede simbolizar
la fuerza vital.

Y fue en territorio Guarani
que ella me apareció
como jararacuçu.
Invitome a manejarla.
Manejarme.
Ir más hondo y más hondo
dentro de mi.

La cargo comigo.
En el altiplano andino, ella se convertió
en katari. Señora del Uku Pacha,
mundo de abajo. Obscuro. Profundo.
Nutritivo. Morada de las raíces.

Me llevó a mi herida ancestral.
Mi herida de mujer. Mi madre. Mis abuelas.
Mis bisabuelas. Las brujas quemadas,
las indígenas lazadas.
La serpiente como símbolo del pecado,
la mujer como la tentación a ser domada.
Controlada. Tal cual la tierra, la
naturaleza, la diversidad, la Pachamama.
La vida.

Así como la serpiente, las mujeres
cambiamos de piel. Somos cíclicas.
Somos lunares. Tenemos poder de
serpiente, en nuestro cuerpo, en nuestros
tantos sentidos, en nuestra memoria.
Podemos bajar hacia el hondo del hondo.
El hueco de Alice. Tan hondo
como el universo.

Talvez la caída no sea así tan mala.
Disfrutemos. Que la vieja piel
alimente la tierra. Que la nueva crezca.

Para el pueblo Huni Kuin, fue la serpiente
quien les regaló sus medicinas.
Enseñó sus cantos sagrados.
Ella representa la vida misma
y su textura. Vida-muerte-vida.
¿Puedes verla?

No es necesario dormir para sueñar…
Más bien, hay que estar muy despierta…

¡Despierta!

 

A ~performance~ foi assim: na salinha rústica e escura que improvisaram para projeção, pedi para as pessoas responderem à seguinte pergunta num pedaço de papel, de forma anônima e em poucas palavras: o que você vê no escuro?  Enquanto escreviam, estendi um tecido no chão, acendi uma vela e coloquei a carta de tarot “O mundo” num canto. A carta contém o desenho de uma mulher bailando no centro de um círculo, nesse caso, composto por uma serpente mordendo o próprio rabo (trata-se do tarot de Papus, existem muitos e diversos baralhos de tarot). Em frente a mim, deixei um pano enrolado.

Sentei ali, em cima de uma almofada, sobre o tecido quadrado colocado em forma de losango, como faço sempre que possível pelas manhãs – por isso que acho engraçado chamar de perfomance, porque é simplesmente algo que faço. Mas bem, tornar público o que é privado de maneira intencional e coordenada talvez faça disso de fato uma performance. Sigamos.

Queimei o palo santo, e nisso o companheiro Sergio colocou o vídeo para mim – um vídeo bem simples, pra não dizer tosco, simplesmente para poder sincronizar áudio e imagens.

Enquanto o vídeo era exibido, eu estava sentada no chão, em frente à vela, e desenrolei o pano. Nele havia uma pele de jararacuçu. Fui passando óleo nela – o vídeo rolando, com o poema sendo narrado, e eu manuseando a pele, suspendendo-a com as duas mãos, esfregando, cuidando dela. Na sequência, estendi a pele no chão horizontalmente, na minha frente, e a partir do momento em que se cessam as imagens no vídeo, comecei a ler em voz alta algumas das respostas, com a trilha sonora Huni Kuin de fundo e a ajuda da luz da vela. A ideia é que todes estivessem de olhos fechados, como sugeri no vídeo, ouvindo a música e as frases que escreveram sobre o que veem no escuro. E foram essas as respostas:

 

Adentro de mis ojos

 

Veo luz

 

Yo veo en el centro un punto blanco con el contorno delimitado, muy brillante. Es como ver el silencio!

 

Mancha(á)las

 

En la oscuridad veo los sonidos, siento los olores, creo en mis sentidos.

 

Rayo de los dioses.

 

Veo a mi abuela y mi madre.

 

En la Oscuridad veo una gran posibilidad de “entrar”/mirar a mi misma y escucharme mas facil que con luz.

 

Terror

 

yo mismo

 

colores
gelatinosos
metálicos

 

recuerdos
mundos imaginarios
todo lo que no
se ve con los
ojos

 

silencio
espacio extra-terrestre

 

lo infinito

 

Tranquilidad

 

LUZ

 

Ansiedad

 

Silencio

 

No veo nada y lo
veo todo. Siento más.

 

negrura

 

veo sensaciones
veo imaginación
veo otro mundo
en la oscuridad

 

Tranquilidad

 

Puntitos de colores

 

puntitos negros de
reflejos in-cesantes
(mientras siento como se dilatan mis pupilas)

 

mis pensamientos
mis propias
sombras

 

VEO TODO
sombras, luces, vida…

 

para que ver
en la oscuridad
si puedo
tocar?

 

Suelo ver rostros que se forman
en el centro de la oscuridad
y cambian.
Son también caras de animales
conocidos que se
transforman en caras humanas.

 

Ao final, distribuí cópias da fanzine, que contém o poema e algumas imagens – uma folha A4 impressa frente e verso e dobrada em 4 partes. Eis:

 

Ao final das apresentações houve um momento de avaliação, de as pessoas compartilharem sua impressão sobre cada um dos trabalhos. Quando chegou minha vez, Silvia falou que se sentiu em uma viagem de ayahuasca e que percebeu que eu compartilhei minha trajetória espiritual. Destacou que foi a única apresentação que contou com um ritual.

Outras colegas, com quem havia compartilhado esse processo anteriormente, e que também trabalham questões relacionadas a corpo, ancestralidade e feminino, comentaram essas relações. Uma colega me disse depois, em particular, que essa foi a única apresentação que acionou o olfato, a partir do palo santo, e outra me confessou que se sentiu interpelada de forma física, me agradecendo por ter compartilhado esse processo tão pessoal. Um companheiro, que sincronicamente também continha a carta “O mundo” e uma imagem de serpente na sua instalação, questionou o fato de se insistir na dualidade homem-mulher (ao invés do “dois”, propõe o “um”, no sentido da unicidade e da potência, e comentou sobre Donna Haraway e o manifesto ciborgue), o que rendeu uma longa conversa, mais tarde, à beira da fogueira durante a festa de encerramento.

Pra mim foi uma experiência bem interessante, compartilhar algo tão intuitivo, desafiar-me a de alguma maneira objetivizar esse mergulho. Não costumo fazer perfomance – e esse foi um dos motivos que me levaram a editar um vídeo, pra não precisar falar e mostrar imagens ao vivo e ao mesmo tempo, apesar de que fazia muito tempo que eu não trabalhava com audiovisual (como pode-se perceber).

Tudo começou com as imagens, depois o poema, e aí a vontade de fazer uma fanzine, depois a ideia de montar o vídeo para sincronizar o audio com o visual, logo a ideia de somar o canto Huni Kuin, e depois a proposta interativa, de pedir para as pessoas escreverem o que veem no escuro – a Silvia fez vários desses exercícios com a gente durante o curso, assim que era uma prática a que já estávamos de alguma maneira acostumados: escrever sobre algo rapidamente em um papel e entregar. Ao pensar como poderia integrar isso na apresentação foi que concebi fazer disso uma ~perfomance~, o que me possibilitaria ler as respostas enquanto o vídeo era exibido.

O principal aprendizado talvez seja o de me permitir, de não ter medo ou vergonha de me expor, e de não precisar ter algo super bem acabado e esteticamente bacana – como a própria Silvia havia sugerido. Assumir o processo como tal.

Não começou ali nem termina assim.

Segue.

Um comentário sobre “Mboi Katari

  1. Serpente e sus,
    Nostros ojos…
    Que guardam os códigos da vida.
    A serpente vê tudo.
    Desde lá até aca

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