“Menor que meu sonho não posso ser” ou sobre uma roda de conversa ao pé do fogo

Roda de conversa de Vida Boa no Terraço Verde. Registro de João Paulo Mehl.

Impressões do encontro sobre Vida Boa, Autonomia e Descolonização por Mariana C. Marino.

É uma segunda-feira atípica pro agosto curitibano: com céu aberto e calor de quase 27 graus, as cerejeiras já se encontram prontas para o iniciar da primavera, que não tarda. Rumo ao Terraço Verde, subo a rua Itupava no fim de tarde para ouvir Michele Torinelli relatar suas experiências de viagens (que incluem Brasil, Uruguai, Argentina, Bolívia e México, não necessariamente nessa ordem) com o projeto Vida Boa que, entre outros motes, tem por base a andarilhança, o viver com o pouco necessário para compartilhar, “aprender, servir e difundir”. A 3 andares do asfalto, num ambiente que mantém mais de 100 espécies vegetais, Michele inicia, ao pé do fogo, a roda de conversa que manteria seus expectadores e suas expectadoras maravilhadas por pouco mais de 2h.

De início, além de nos apresentarmos brevemente, Michele sugere que relatemos o que consideramos ser uma Vida Boa. Todas e todos ali presentes parecem pulsar num entendimento comum: viver bem é “estar acordado para seu sonho”, é “gostar de sonhar”, é “estar cercado de pessoas que sonham”, como narrado por algumas pessoas ali presentes. No embalo das repetições de “Menor que meu sonho não posso ser”, verso do Poema do Andarilho, de Lindolf Bell, conterrâneo da discursista, Michele, após declamação, nos presenteia com relatos calcados em experiências empíricas, recortados por textos outros (sejam eles literários, teóricos ou imagéticos): permacultura, agroecologia, bioconstrução, sociologia da imagem, saúde comunitária, movimentos sociais autônomos, resistências indígena e campesina são alguns dos temas tratados na noite de céu limpo e quase lua cheia.

Destaco, porém, as descrições do 1° Encontro Internacional Político, Artístico, Esportivo e Cultural de Mulheres que Lutam, ocorrido no sudeste mexicano, no estado de Chiapas, entre os dias 07 e 11 de março de 2018. Com o movimento de mulheres zapatistas à frente da organização, Michele conta que mais de 5000 mulheres, de todo o mundo, compareceram ao evento multitemático em território rebelde. A entrada de homens não era permitida: as experiências acontecidas ali foram pautadas pela troca (de conhecimentos, histórias, vida, ação) somente entre mulheres.

Mesmo tendo um objetivo bastante delineado de que a luta feminina (seja ela cis, trans, lésbica, hetero, bi) tem como mote principal o enfrentamento do patriarcado, as zapatistas pontuam que é necessário integrar os homens a esse movimento: na última noite do evento, eles puderam participar das festividades de encerramento. Antes disso, não.

Esse relato me lembrou o que Vandana Shiva expõe sobre as mulheres serem as responsáveis por construir um novo mundo, baseado na troca, no cuidado, no antibelicismo, na coletividade, no olhar atento para o planeta e suas questões, que também são nossas. E essa foi a tônica da fala da Michele: mesmo nos apresentando temáticas diversas (mas sempre conectadas umas às outras), as histórias compartilhadas têm por suas bases a construção de um novo mundo, em andamento. Seja pela flor do bem viver, pela aproximação com cosmovisões não ocidentais ou pela união entre mulheres, novas possibilidades (ou ecologias, como propõe Guattari) de vida são rascunhadas. Estejamos em contato com essas novas realidades, estejamos acordadas e acordados para os nossos sonhos.

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