Viver de luz? 21 dias de uma jornada profunda dentro e fora de mim

A primeira vez que ouvi falar desse processo foi no Sítio Arco Íris, nos arredores de Porto Velho, nos idos de 2007. Nos meus inexperientes 21 anos, era a primeira vez que eu participava de um temazcal, que eu tomava banho no lago com jacarés, que eu conhecia o Santo Daime e que eu ouvia falar que existe gente que vive de luz – isso é, não come e opcionalmente toma um pouco de líquido por dia. Conheci uma pessoa lá que contava ter vivido de luz por algum tempo, mas devido à pressão social voltou a se alimentar. A informação era que existe um processo de adaptação, ou experimentação, de 21 dias.

Essa informação ficou guardada na minha memória, e anos depois fui conhecer gente que havia participado do processo de 21 dias. Tem um centro em Minas Gerais especializado nisso, e conheci gente bem comum (inclusive uma garota que comia uma porcaria qualquer numa praça de alimentação enquanto me contava da sua experiência) que tinha passado pela vivência. O investimento financeiro que exige (na época, mais de mil reais, justificável para manter um lugar com diversos quartos e banheiros individuais e pessoas trabalhando) me desestimulou logo de cara. Até que, no Uruguay, uma amiga que vive permacultura e ancestralidade Guarani me contou que havia feito esse processo de maneira independente – alguém que já tinha passado pelos 21 dias guiou pessoas que se reuniram numa casa, uma em cada quarto, e assim tiveram a vivência de maneira mais íntima. Essa ideia me atraiu, como ela comentou que gostaria de fazer de novo, cheguei a pedir que me avisasse caso rolasse. Anos se passaram e o convite não chegou

Até que, habitando já há quase um ano o Território Junana, em Maquiné, fui descobrir que o grande parceiro e amigo Rossano já havia passado pelo processo, nesse centro em Minas Gerais. Outono, tempos de quarentena, achei que seria o momento e o lugar ideais para fazer o processo. Ele se dispôs a me guiar e me apoiar nessa jornada. Karyn, que cohabita a mesma casinha que eu, se animou a participar também. E assim nos preparamos para esses 21 dias, coordenando com xs outrxs habitantes do território, que acolheram nossa iniciativa.

Já fiz jejum de 5 dias algumas vezes, algumas delas envolvendo ritos de passagem ancestrais bem profundos. Portanto, já sabia que é bem possível e positivo ficar sem comer por um certo período, inclusive regenerador para o corpo, e um processo que vai muito além da experiência física.

Mas 21 dias… Os 7 primeiros sem nada de alimento, sem nada de líquidos, sem nada de água. 7 dias sem água! Esse parecia ser o grande desafio. Depois desse chacoalhão inicial, recebe-se a primeira dose de água na 7ª noite. A partir do 8º dia água tá liberada e recomenda-se tomar no mínimo 1 litro e meio de suco por dia, diluído na proporção 25% suco e 75% água. Essa segunda semana é a da cura. Já na terceira, a da integração, a proporção de suco aumenta para 40%.

Rossano vinha a princípio todos os fins de tarde, conversávamos, eu contava como estava, às vezes ele cantava uns mantras, ou fazíamos um rezo, e ele providenciava o que eu precisasse, como lavar roupas, ratoeira pros ratos que não estavam facilitando meu sono, lenha e coisas nesse sentido. A partir da segunda semana, trazia as frutas, e eu mesma preparava os sucos, e passou a vir um dia sim outro não.

Travessia do deserto

Assim é chamada essa primeira fase de 7 dias do processo nesse centro em Minas, contou Rossano. A recomendação é descansar bastante. Assim foi nos primeiros três dias. Segundo um livro que dá instruções para esse processo, que baixei em pdf, na terceira noite acontece um processo místico. Eu me abri pra ele, mas não o vivi conscientemente. Ao acordar, imaginei como poderia ter acontecido. Karyn deixou o processo nesse terceiro dia, compartilhou que tinha sido bem importante fazer esses três dias de jejum mas que não sentia de seguir. Continuei sozinha.

A pancada veio no quarto dia. As instruções são de ficar deitada e o mais imóvel possível 3 períodos de 2h por dia. Já de noite eu senti um pouco de dor nas costas, mas em dois desses três períodos de imobilidade ao longo do dia eu senti muita dor – nas costas, nos quadris, nas pernas, uma dor que parecia ser dos ossos e dos músculos ao mesmo tempo, e simultaneamente sentia dor de cabeça e enjoo. Não havia posição suportável, eu ficava me debatendo até que me forçava a ficar numa posição e com o tempo… passava. Confesso que temi estar entrando no “processo de morte”, como diz o livro. Mas é apontado como algo normal ter dores passageiras, parte do processo de liberação de toxinas que ocorre.

De fato, como indica o livro, eu fiquei com a língua bem grossa e se formava uma camada branca dentro da boca – aquela sensação que temos ao acordar mas muito multiplicada. Eu nunca escovei tanto os dentes na vida – sim, escovar os dentes está liberado. Eu tomava muitos banhos quentinhos e longos também. E as dores só ocorreram no quarto dia. Depois pararam. Eu não tinha muito sono. Acordava de madrugada, antes do amanhecer. Me sentia muito sensível, muito conectada a muitas e outras frequências. Passei a meditar e fazer yoga.

Sim, eu tinha sede. Sim, eu tinha fome. Mas a fome bate mais no começo, depois acostuma. E vira algo como: “É, eu tô com sede. É, eu tô com fome.” Nada de novo no front. Segue o baile.

A partir do quinto dia resolvi dar umas bandas na mata, entendi que meu corpo tava precisando de movimento e minha mente de natureza. Fiz caminhos conhecidos – primeiro até a grande figueira Mãe da Mata pelo leito do rio seco, pelas pedras. Depois subi mais um pouco por trilha até chegar ao primeiro pocinho que o rio forma. Que maravilha estar com as águas nesse momento.

Fui até a cachoeira, passei horas lá, mergulhei, tomei um pouco de sol de inverno. Cantei. Batuquei. Eu já tinha percebido que estava com uma audição super biônica. E olfato também. Ouvi seres da floresta, vozes cantando na, ou desde, a cachoeira. A própria cachoeira cantando (a gente reverencia a cachoeira e conversa com ela, mas nunca havia sido de forma assim direta! Ela cantava um sambão que parecia Clara Nunes mas com voz de Preta Velha. Não dava pra entender a letra direito, com o barulho da água, só ouvi “Oxum” e “beija-flor”. É viagem mas é verdade esse bilete. Eu também ouvi um homem cantando lá de cima da cachoeira com uma voz bem doce bem linda, e eu até arrisco quem seria esse homem, mas eu não vou contar. Ouvi outras vozes de “pessoas” conversando entre si na mata, ou falando comigo, onde “não havia ninguém”). Vi pássaros lindos e coloridos que nunca havia visto e conseguia chegar perto deles sem eles se afastarem. Virei mais natureza, mais espírito. Despertou-se talvez o que chamam de clariaudiência.

Ao contrário de outros processos como Vipassana, nesse é permitido ler e escrever. Eu escrevi um diário mas não tive vontade de ler nessa primeira semana. Realmente a mente estava em outra frequência. E tirava uma carta de tarot por dia. O tarot comprovou-se muito muito certeiro, e trouxe vários ensinamentos.

No fim do sétimo dia Ananda e Tatu, cohabitantes junânicxs, vieram pro rezo da água junto com Rossano (xamanizamos o processo, no dia anterior ao começo dos 21 dias tivemos uma cerimônia coletiva e ficou indicado que se encerraria com outra cerimônia. Eu escolhi as datas, começando na minguante e terminando no ápice da lua cheia. Todos esses dias foram quintas-feiras, inclusive esse dia do rezo da água, que resolvemos deixar aberto pra quem quisesse participar). Fiz uma fogueira, montei o altar e me preparei para a cerimônia. Trouxe água pura do pocinho, já havia ritualizado lá lindamente mais cedo. A boca seca, a gengiva colada. A espera pela tão sagrada e maravilhosa água. Com ela tudo, sem ela nada! Doce. Doce doce doce. Essa água pura que vem da montanha. Realmente tinha (tem!) sabor doce.

Rossano preparou um maravilhoso banho na nossa banheira ao ar livre, esquentada com fogo. Preparei o banho de ervas e desfrutei sozinha tomando minha aguita sagrada, enquanto o pessoal fazia nossos tradicionais cantos de quinta-feira na casa de rezo. Fui tomando a pequenos goles, cada golinho pesando no estômago. Água água água. Amor.

Cura

No dia seguinte, suco! Suco! Que luxo! Quanto sabor num suquinho verde diluído

Manga. Laranja. Maçã. Morango. Quantas maravilhas.

Fazia meu suquinho, coava, sentava no solzinho. Dormi e descansei bastante nesse período. Quase não dei caminhadas, só fui pegar um solzinho mais pra cima e dar uma olhada na nossa casa de rezo. Li muito. Devorei “A queda do céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Setecentas e tantas páginas de cosmovisão política Yanomami e a história da luta desse povo contra a civilização da mercadoria. Ouvi bastante música instrumental. Uakti. Pintei uma mandalinha bem linda. E continuei com os rezos e com o tarot. Cada dia tirava uma cartinha, lia sobre ela no livro do Jodorowsky e meditava sobre seu significado ao longo do dia.

No décimo terceiro dia tirei “O Diabo”, arcano XV. Uma carta tão temida no imaginário popular, mas tão necessária de se compreender. E o que compreendi dela foi o seguinte:

O inferno é o apego.
Sofrer por não conseguir fixar
a permanente impermanência
da criação.

Aferrar-se a algo, a alguém,
a um modelo, a uma situação.
Enquanto a vida dança incontrolável
em seu incessante movimento.

Dancemos também.

Que amadureça a criança interior
dominada por seus desejos.
Que floresça a maturidade,
consciente e grata pelo eterno devir
surpreendente da criação.

Só se chega à consciência
atravessando a ilusão.

Eu tinha alguns trabalhinhos que me inventei de fazer nesses dias, apesar de não ser muito recomendado. Cuidei de meus milhos recém colhidos que estavam com caruncho, botei minhas cobertas no sol, limpei o quarto e por aí vai.

Integração

Na terceira semana, a concentração dos sucos aumenta pra 40%. Aí se tem aquela sensação de que “já tá acabando” e resolvi desfrutar do descanso, da “pausa na vida”, do silêncio (mais ou menos porque os vizinhos estavam em obra construindo uma casa de madeira toc toc toc martelo música ruim zezé di camargo e luciano alto, mas pelo menos só em “horário comercial” e eu ligava minha música aqui pra desbaratinar). Nessa semana tá liberado assistir vídeos também, o primeiro que vi foi Alice no País das Maravilhas da Disney dublado, também assisti os Sonhos mais bonitos de Akira Kurosawa e Tempos Modernos do Chaplin – e tentei assistir Baraka mas achei meio pesado deprê não indicado para o momento. Fiz um filtro dos sonhos para a casa de rezo. E tive muitos sonhos ao longo desses 21 dias.

Teve uma noite nessa última semana que sonhei que tava na minha festa de aniversário na mesa de comer lá da casa onde eu morava com a família em Blumenau, tinha umas comidas na mesa e uma monte de gente em volta, aí aparecia meu falecido vô Jango, a personificação da fartura e abundância de alimento, e dizia que havia feito um bolinho especial pra mim, que é difícil ele fazer porque é de abacaxi e ele não compra abacaxi, só faz quando tem na horta. Era um bolinho bem pequenininho, tipo um mini cup cake ou do tamanho de um brigadeiro grande, tipo de uma farinha branca, como se fosse bolo de laranja, e por dentro tinha um pedaço quadradinho de abacaxi e um pedaço de cereja. Achei bem fofo meu vô me nutrindo em sonho nesse momento.

Ao longo desse processo, senti uma limpeza física bem grande. Interessante que durante a primeira semana, mesmo sem tomar água, eu continuava fazendo xixi. E depois, quando passei a tomar água e suco, passava o dia inteiro fazendo xixi. Defequei duas vezes nesses 21 dias – acho que no quarto e no oitavo dias. A primeira foi em pequena quantidade mas “normal”. A segunda foi bem estranha, é como se fosse a rapa do que havia ficado. Ficar mais de dez dias sem cagar! Realmente se deixa um pouco o mundo da matéria e se experiencia uma outra forma de ser humana.

A limpeza não é só física, mas mental, emocional. Espiritual. Dá pra observar o padrão de funcionamento da mente psicótica. E é muito bom se afastar das relações e tarefas cotidianas, do bombardeio de informações e poder só estar e observar. Ah, e obviamente tirei os chips do celular para estar completamente offline.

Tive várias visões do que é importante na vida. Do que quero pra mim, inclusive coisas bem práticas e objetivas. Vislumbres pra coletividade da qual faço parte. Lampejos de questões mais universais, humanas, de maneiras de viver a vida. Do que importa, do que faz sentido. De auto-acolhimento. Vislumbres de verdades.

Fez muito sol ao longo desses dias. Friozinho de outono com solzinho e céu azul foi gostoso. Mas rezei muito pela benção das águas pra terra sedenta, e pela introspecção das chuvas. A alegria das chuvas quando, apenas duas vezes, caíram. Longamente, fartamente.

Vesak

Até que chegou o grande dia. O dia do encerramento. Dia 07 de maio, lua cheia. Dia de cerimônia coletiva na casa de rezo. Combinamos que começaria no fim da tarde. Preparei o alimento, o primeiro alimento que comeria depois desses 21 dias, no final da cerimônia. Escolhi o milho rezado, awaxy eté, que plantei, cuidei e colhi de maneira cerimonial, passo a passo, como me ensinaram. Milho seco, duro de cozinhar. Ficou 1h e meia na pressão, aí liquei e cozinhei o creme no fogão à lenha. Aquele cheirinho o dia inteiro. De madrugada chegaria a grande hora do alimento.

Escolhi a lua cheia como dia de encerramento, mas mal sabia eu que seria a lua de Vesak, quando Gautama Buda se iluminou – mesma lua em que ele nasceu e morreu. Noite em que milhares de pessoas se conectaram com a energia búdica dentro e fora de cada um.

Foi uma linda cerimônia coletiva. Me conectou com meu eu-universo-Buda, me levou para o além e para os confins de mim, me colocou frente ao espelho, me presenteou com lindas mirações, me limpou ainda mais e me trouxe de volta pro mundo da matéria e da coletividade. A noite mais fria do ano até então, e nós em volta do tatá, o fogo sagrado. Salve a família, salve as medicinas!

Aos poucos volto a comer, renovada. Faz quase uma semana que esse processo acabou e eu ainda não comi sal, nem açúcar. Muito alimento agroecológico, fubá da nossa roça coletiva de milho ancestral, aipim da rede do bem viver. Saladinhas e pasta de semente de girassol. Limão do quintal com mel da coletividade. Desfruto do sagrado alimento, agora ainda mais. Como já tinha dito o Jodô, “o jejum ensina a comer”. E escolho seguir jejuando uma vez por semana, meu sabbath de terça-feira. Fiz isso ontem, bem quando chegou abundante e contínua a chuva, bem quando chegou minha lua, bem quando acabou a luz. Depois de muito me readaptar à vida cotidiana nos últimos dias – ajeitar coisas práticas, retomar comunicações, resolver pendências, lavar roupa, arrumar a casa, preparar alimento – um dia pra rever todo esse processo, agora desde fora. Desde dentro.

Meu objetivo nunca foi viver de luz. Eu amo a matéria, o alimento, quero desfrutar dele e dela enquanto estiver nesse plano. Mas transformar essa relação, rever a compulsão e a dependência, o medo, o apego, e dar uns passinhos a mais no sentido da escolha, da liberdade e da consciência… Isso sim me interessa. Me interessa experimentar a sutileza, vivenciar todo o espectro que se pode viver estando num corpo, poder tocar a transcendência de forma imanente, o espírito a partir do corpo (um dia eu ainda vou me redimir do pecado do intelectualismo, já me cantou o poeta Gil…).

Poder ir, sentir, ver, escutar, além. Ultrapassar limites auto-impostos. Uma experiência que o(s) corpo(s) – corpos físico, mental, emocional, espiritual e quantos houver – não esquecem. Um aprendizado profundo que se dá a nível molecular, subatômico – e por isso do tamanho e em sintonia com todo o universo. Talvez um dia eu faça de novo. Ou continue ~apenas~ com meus ritos de passagem ancestrais. Só sei que deixei alguma coisa pra trás, e sinto que sigo mais consciente. Mais presente. Os aprendizados vão se mostrando pouco a pouco. E a prova real do aprendizado segue no cotidiano.

Sigo, e seguimos, alimentando as sementinhas do Bem Viver. Sementes de Vida Boa. Eis o que tem sentido nesse caminhar. Honrando a sagrada terra, louvando o sagrado alimento. Exercendo a capacidade humana de viver em equilíbrio com a vida e se adaptar. Agradeço toda proteção nessa jornada, todo aprendizado, a receptividade desse território e o apoio da coletividade – em especial do super Rossa entrega total amor infinito. Com a força coletiva seguimos caminhando, cantando, dançando, lutando e plantando. Iporã eté! Ha’eweiiii!

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