Devaneios de quarentena: eclipse solar em tempos de pandemia

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Esse eclipse solar não será total e nem poderemos ver desde esse continente, mas como tantas coisas na vida que não podemos ver, vai acontecer, e podemos sentir e sonhar

 

Esse ano vai ter eclipse solar no solstício de inverno. Um eclipse solar no solstício de inverno!!

Cultura ocidental que não entende muita coisa de ciclos diz que aí começa o inverno, mas na verdade é o ápice. O dia em que Sol e Terra estão mais distantes – no caso, no hemisfério Sul, devido ao eixo de rotação da Terra, que é inclinadinho, e fico pasma como a maioria das pessoas não tem a mínima noção dessas coisas e parece que nem quer ter. O que essa sociedade considera relevante ou não realmente me pasma – e me fala muito da falta de sentido dela.

Eclipses vistos desde esse planetinha rolam sempre quando Sol, Lua e Terra se alinham. O eclipse solar é quando a Lua está entre a Terra e o Sol, e o lunar quando a Terra está entre Lua e Sol e a Terra projeta sua sombra sobre a Lua. Entendi essas coisas, inclusive as fases da lua e porque a vemos como a vemos em suas distintas fases, num livro que fala de iluminação e fotografia, veja só. A Lua como um grande refletor (tipo os isopores usados pela galera de foto e vídeo) da potente lâmpada, o Sol, e nós aqui na Terra do ponto de vista da câmera. A informação de que a Lua cheia no inverno faz a mesma trajetória do Sol no verão e vice versa também é fascinante, mas isso eu ainda não entendi porque. Aos poucos, descolonizando.

O causo é que nessa data, o solstício de inverno, povos andinos comemoram a volta do Pai Sol, Tata Inti – apesar de que ouvi críticas desiludidoras na Bolivia de que a celebração conhecida como Inti Raymi seria uma invenção recente. Sempre é mais fácil se iludir e romantizar estando longe… Mas não se pode negar, tendo em consideração o ciclo da vida nesse planetinha, o sentido de celebrar solstícios e equinócios, presente em tantas culturas. Celebram essas datas porque se relacionam com a Terra, com a Vida. Sabem, e se importam em saber, que há momento que chove mais, há momento em que está mais seco, há o tempo propício pra plantar, pra colher, pra estar mais ativa, pra estar mais introspectiva. E que é preciso se relacionar conscientemente com essas forças. A dança cósmica da vida vivida desde essa Terra.

E agora que eu vou chegar no ponto que motiva essa reflexão, hehe, não é à toa que resolvi chamar de devaneios, mas é que a vida é assim, entrelaçada como as raízes, e as raízes de diferentes plantas se conectam entre si por redes incomensuráveis de fungos, e sim, no fim das contas tudo está interconectado (se é que em meio aos constantes milagres que denominamos vida se possa falar de contas e de um fim).

Um eclipse solar no dia em que o Sol está mais longe e volta a se aproximar, o dia da “volta do Pai Sol”! Diz tanto do tempo em que vivemos. No dia de celebrar o retorno da luz e do calor, ela é sombreada, eclipsada. Não vai dar pra ver daqui deste continente. Mas vai acontecer. Tanta coisa que a gente não consegue ver mas influencia a gente. A gente sente. Sonha. Como estão seus sonhos em tempos de pandemia?

Um pai teve a cruz que fincou pelo filho que não pode velar arrancada pela ignorância de gente truculenta que invade hospitais teleguiados pelo seu líder grotesco. Gente que parece que teve a consciência abduzida. Aliás, não teve né. Seria mais fácil pensar que sim. Mas é só o novo fruto da ignorância de um modo de viver ignorante, que se perpetua.

E essa noite quem acompanhou as notícias dormiu (ou não) com o temor de mais um golpe militar na América Latina… Será que não aprenderam nada? Será que não aprendemos nada? Não se tem memória? Insistem em apagá-la. Esconder os corpos. Não se pode nem contar os mortos. As Mães da Praça de Maio na Argentina, as mulheres do Chile no documentário genial Nostalgia de la Luz, que buscam corpos dos seus entes queridos jogados pela ditadura de Pinochet no deserto do Atacama. As muitas formas de ditadura, mesmo onde dizem que há democracia – as Mães de Maio da periferia paulistana que passaram a se organizar em 2006 pelas mortes de seus filhos e filhas, em suas maioria negros e negras, pelas mãos da polícia, pelas mãos de um Estado supostamente democrático.

Mães. Mulheres. Cuidando das suas e dos seus. Do seu entorno. Da reprodução cotidiana da vida, mães solteiras que não deixam faltar comida na mesa, que dão um jeito, que sempre dão um jeito, que seguram todas as barras, enquanto os homens exercem seus podres poderes. Mulheres trancafiadas com seus agressores, violências que aumentam em tempos de pandemia.

O policial que matou George Floyd teve sua fiança paga e está livre. O assassinato de mais uma vida negra que gerou revoltas nos EUA e no mundo. Impune. Menino Miguel. Miguel Otávio Santana da Silva. Patroa primeira dama do coronelismo do interior, que habita torres gêmeas na capital nordestina, pagou fiança. Respira livre. Menino Miguel assassinado pela irresponsabilidade da patroagem branca pandêmica, por um sistema de exploração de classe, de raça, de gênero. Mais um crime impune. Não conseguimos respirar.

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Protesto que fizeram em Recife em frente ao prédio de luxo, onde espatifou-se o corpo do menino Miguel.

No Brasil, assim como no gigante do Norte, uma política irresponsável, aliás, genocida, frente à pandemia. Pessoas sendo incitadas a produzir, não importa o que, mas o sistema não pode parar. O consumo não pode parar. Milhares e milhares e milhares de mortes eclipsadas pelo desgoverno. Não pense, não sinta, produza! Consuma! O pior burguer do mundo está pronto para lhe atender, a entrega será feita por algum ser explorado que passa fome, possivelmente numa bicicleta do Itaú, enquanto leva a comida quentinha de alguém nas costas. Mas alguns entregadores dizem “já basta!”, se unem e se organizam. Ah, a resistência. Re-existência. Em meio a novas formas de poder, que corrói a vida e até mesmo a morte, se reinventa, e germina, como o musgo nas brechas do asfalto.

Será que ainda conseguimos conspirar? Respirar em comum? Juntes? Mesmo em isolamento? Quais os motivos válidos para romper o isolamento? Protestar? Cuidarmos umas das outras? Se alimentar? Fazer compras?

Antirracismo. Antifascismo. Vidas negras importam. Vidas indígenas importam. Ni una menos. No nos callan. Nosso acordo é viver. Os corpos-alvo são sempre os mesmos. E aquelxs que re-existem, também. A agricultura comunitária e familiar nossa que re-existe e seu alimento que nos dá hoje, assim é. Rebeldias e redes de apoio que se multiplicam em tempos de pandemia.

Fiquei sabendo numa conversa pessoal nos corredores dos aplicativos em que transitamos cada vez mais do racionamento de água em Curitiba. Nas redes sociais em que me comunico nesse meio digital, pouco ou nada se fala disso, apesar das minhas muitas relações nessa cidade.

Por não termos aprendido das muitas injustiças e tragédias humanas, ao longo dessa ínfima parcela de tempo da existência da vida no cosmos e na Terra em que existe o capitalismo, ou, expandindo um pouco mais, o colonialismo, um pouquinho mais, o patriarcado, ou ainda mais, a existência humana nesse planeta, estamos sofrendo essa profunda epidemia social em meio a epidemia de saúde. E as coisas nunca estão separadas. A crise é geral. E, não aprendendo dessa, a próxima crise possivelmente será a da água. Em alguns lugares, já foi e já é. Já ouviram falar da guerra da água na Bolivia? Conflitos em torno da exploração da água e resistência de comunidades acontecem agora no México. Acontece no sertão brasileiro desde séculos. Acontece no cinema, Bacurau.

Do jeito que está, não é “se faltar água”, é “e quando faltar água?”.

Estamos falando de poder respirar. Estamos falando de água. Uma mudança radical urge, dá pra perceber? Já é tardia. É pra ontem. E na falta de um ontem, na falta de memória, é pra agora!

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Índio-astrólogo-poeta, que sabe do caminho dos astros, dos ventos, dos ciclos e dos alimentos, desenho de Waman Puma em sua Primer Nueva Crónica y Buen Gobierno, carta que enviou dos Andes ao Rei de Espanha e de todas as colônias sob seus jugo lá nos idos de 1615.

Aprender da crise significa reinventar o sentido da existência humana na Terra. Para que tenha um sentido além de exploração, destruição, de morte ignorante. Um sentido que tem a ver com o cuidado com todas as forças e formas de vida, suas fontes, a terra, o ar, a água, as plantas, os animais, as pessoas. Um sentido que tem a ver com o que comemos, onde cagamos, o que fazemos com a merda toda, com nossos hábitos, com nossos valores. Um sentido que tem a ver com o respeito às mulheres, o cuidado mútuo e, em meio a tudo o que possa acontecer, manter a vida se reproduzindo ao nosso redor. Dentro e fora. Um sentido que tem a ver com as sabedorias ancestrais, com os povos que re-existem historicamente, com o bem viver, com viver bem, com a diversidade, com saber reconhecer e dialogar com os ciclos da vida, em comunidade. Com a dança cósmica. Com a Terra. Com a Lua. Com o Sol. Com os eclipses.

Esse solstício de inverno é uma oportunidade para praticar essa (re)conexão, refletir sobre os descaminhos e os possíveis caminhos da vida humana neste planetinha. Dentro. Ao nosso redor. No nosso cotidiano. Fora. Na vida em comum. No planeta.

Não adianta ter medo. É preciso ativar a responsabilidade. A capacidade de responder aos movimentos da vida e às crises, por piores que sejam. É nossa responsabilidade re-existir. Que possamos ativar a memória que carregamos em nossas células, memória ancestral de toda a vida dentro de nós. Conversar com os astros, com as forças da vida. Isso não podem tirar de nós.

 

Um comentário sobre “Devaneios de quarentena: eclipse solar em tempos de pandemia

  1. Há dois anos para cá que observo a trajetória da lua, sem pesquisar nada, e fiquei curioso quando o artigo fala que é semelhante a do sol. Despertou minha curiosidade para aprender.
    OS tempos que vivemos sempre são difíceis, principalmente quando não somos do topo da pirâmide.
    A vida é linda e aprendi a vive-la nos seus pequenos detalhes, que me dão sentido e prazer.
    Resistir é preciso.

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