Vivência aborígene

Bioconstrução, permacultura e agrofloresta no oeste catarinense

Por Michele Torinelli

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São Lourenço do Oeste, município catarinense na divisa com o Paraná. É lá que fica o sítio Aborígene, pequena propriedade familiar onde acontecem experimentos permaculturais. O sítio, que pertence à família desde 1957, é dividido entre irmãos. Eles cresceram todos na roça, mas alguns seguiram o caminho convencional: foram para a cidade estudar e trabalhar.

Hoje um deles, seu José Carlos Gava, mora lá no sítio com a esposa, dona Marlene, e toca a lida diária do campo. Já outros irmãos moram na cidade. Um deles é Leo, casado com Sedeneis. Eles vivem em Pato Branco (PR) e são os pais de Jakson, mais conhecido como Caxias. E é o Jakson que está levando essa pegada permacultural para os confins do oeste catarinense, junto com mais alguns comparsas.

Mas Jakson está consciente de que não se trata de converter ninguém, mas de trocar conhecimentos — incluir ao invés de segregar, como preconiza a permacultura. Por isso grande parte dos facilitadores da vivência que ocorreu de 13 a 15 de maio no sítio faz parte da família — a comunidade local, essas pessoas que têm toda uma vida de aprendizado no contato com a natureza. E, por outro lado, a experiência contou com pessoas ligadas à bioconstrução, permacultura, agrofloresta, e todos esses novos termos que dizem respeito a um modo muito antigo de viver em equilíbrio com o meio.

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Jakson com a mãe Sedeneis e Yale, que chegou para participar da vivência, na horta comunitária em Pato Branco (veja mais fotos aqui). Além de realizar atividades no sítio, o Instituto Aborígene atua com permacultura urbana. A visita ao local rendeu uma boa colheita de alimentos para a vivência.

Essa foi a segunda vivência realizada no local, e a proposta é seguir trocando saberes e multiplicando o cuidado com a terra. “Aqui ninguém quer ensinar ninguém, todo mundo tem alguma coisa pra trocar”, fala Caxias ao receber os participantes. O cronograma é apenas um esboço: tudo depende dos interesses e da dinâmica entre os presentes. “Se tiver algum problema, alguma sugestão, pode falar. Aqui nada é pré-definido, tudo pode se ajustar de acordo com o que as pessoas quiserem fazer e puderem contribuir”, ressalta.

Por isso que trata-se de uma vivência, não de um curso, e muito menos de voluntariado. A experiência é construída por cada um dos participantes e pela interação entre todos. Tem espaço pra tudo, desde técnicas permaculturais à espiritualidade e culinária. Basta querer compartilhar e fazer. Pratica-se a autogestão, em que tudo é responsabilidade de todos, desde a alimentação até a limpeza.

Não é um serviço comercial, em que compra-se um determinado produto, mas uma experiência de construção coletiva. Um desafio que cabe a cada um dos presentes assumir.

 

Erva mate

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Seu Zé e Pedro colocando a erva no forno.

O primeiro rolê da vivência foi com o tio Zé. Ele levou a gente pra conhecer a roda d’água que ele mesmo construiu e que serve pra moer o mate. Ela pode ser utilizada também para serraria, descascadeira e socadeira, permitindo descascar arroz, fazer farinha de milho e até mesmo móveis.

Depois ele mostrou pra gente o processo de secagem da erva-mate: é preciso “sapecar” as folhas (dar uma leve tostada no fogo), separar os ramos e colocar no forno pra secar. Ela fica lá por quatro dias sobre o fogo brando. Depois é moer no tacho e, por último, levar para a socadeira. Aí é só tomar e desfrutar. (Veja mais fotos do processo aqui).

 

Apicultura

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Outro tio do Jakson, seu Lourenço Gava, cria abelhas no seu sítio, também na região. Ele compartilhou um pouco da sua experiência: ensinou como fazer a caixa de abelhas e levou um pouco do seu delicioso mel pra galera provar.

Seu Lourenço explicou que não mexe no ninho, a caixa que fica embaixo, que é onde as abelhas moram e deixam seu estoque. Ele só tira o que é produzido nas caixas que ficam em cima, o excedente. O ninho deve possuir uma abertura, que nunca pode ficar voltada para o sul (onde tem menos sol e, consequentemente, menos calor e luz), mas para o leste, para pegar o sol da manhã. É a porta por onde elas entram e saem. Além disso, a caixa não deve ser feita com madeira tratada, por causa do veneno. Seu Lourenço utiliza madeira de pinheiro nativo.

Para recolher o mel é preciso fazer fumaça em torno da caixa, para as abelhas saírem — mas não pode ser fumaça de eucalipto, ou as abelhinhas morrem. Ele cria abelha do tipo europeu, que tem ferrão. Logo, é preciso se preocupar em não ser picado. Houve uma vez em que levou 69 picadas. “Me curei do rim”, conta ele. Há um tipo de terapia natural que utiliza picadas de abelhas. De qualquer maneira, é melhor estudar ou buscar alguém que entenda da técnica, porque as picadas de abelha, em grandes quantidades, podem até matar.

Fabiano Ostapiv, que facilitou os trabalhos com bambu na vivência, aproveitou para compartilhar seus conhecimentos acerca das abelhas. Ele indicou o livro A vida secreta das abelhas, de Sue Monk Kidd, e contou que elas vivem de 1 a 3 meses em média. Sua primeira tarefa, quando jovens, é fazer a limpeza da casa e alimentar os bebês-abelha. Depois, entram pro ramo da engenharia, construindo as colmeias, e pro exército, defendendo sua comunidade. No fim da vida, experiente, a abelha sai para coletar pólen — encontra as fontes e volta para chamar as outras para ir coletar.

A sociedade das abelhas funciona como um todo orgânico. Quem acompanha esse processo garante que é fascinante. Apesar de construírem grandes casas comunitárias, elas são nômades: frequentemente abandonam coletivamente a morada, deixando toda a sua produção, para começar tudo de novo em um outro local. Além de organização, ensinam o desapego e a abertura às mudanças.

 

Bioconstrução e bambu

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Fomos com o professor Ostapiv até o bambuzal para fazer um manejo e extrair alguns bambus para bioconstrução. Ele nos contou que o broto de bambu chega a crescer mais de um metro por dia. Se o broto for muito fino, significa que a touceira não está saudável. Também é preciso observar alguns fatores na hora de fazer o manejo: deve-se colher as varas maduras, que são mais resistentes. Pode-se identificá-las por terem fungos, localizarem-se ao centro da touceira e possuírem folhas verdes no topo. Já as novas possuem uma cera branca e podem trazer bainha (folha seca ao longo da vara).

O corte ideal é ao nível da terra com machado, mas, pela facilidade, costuma-se serrá-las logo acima do primeiro nó acessível (para que não acumulem água). Para replantar, deve-se cortar uma vara em idade reprodutiva (nem muito velha e nem muito nova), serrar ao redor de um nó, deixando espaço para os dois lados, e enterrar na horizontal. Outro cuidado importante é retirar as varas mortas do bambuzal, para que não apodreçam as outras.

Os bambus podem dar em touceiras ou serem alastrantes — estes devem ser manejados por meio de valetas, o único modo de conter suas raízes, que se espalham superficialmente a longas distâncias. Trata-se de um material abundante, leve, barato e versátil, sendo um importante elemento da bioconstrução.

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Cobertura de taquara, uma espécie de bambu fino bastante comum.

O bambu também é conhecido por ser uma planta sagrada no oriente: sua força está em saber curvar-se. Uma planta comunitária e sensível, que sente quando nos aproximamos desde longe, por meio de suas raízes. Ela é completa, integra o yin e o yang, o feminino e o masculino, e os quatro elementos — terra (na qual se firma), água (que se acumula em seus gomos), ar (suas longas varas e folhas balançam ao vento) e fogo (suas folhas acumulam energia solar, fazendo uma tapete de folhas secas no solo ao seu redor, muito eficazes para acender fogueiras).

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Parede de bambu com PET.

Com o bambu, construímos a estrutura da cobertura do viveiro e uma parede —  as varas foram unidas com tiras de garrafa PET, que levam mais de quatrocentos anos para se decompor; elas formam uma malha firme quando esquentadas (foi utilizado um secador industrial, mas poderia ter sido feito na fogueira), uma bela forma de fazer um uso inteligente desse resíduo, que se transforma num rico recurso. (Veja um pouco mais sobre a pesquisa de Ostapiv com bambu aqui e aqui).

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Mutirão pra levantar a cobertura do viveiro.

 

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O bambu também foi utilizado para fazer a trama do pau a pique. Pé e mão na massa para subir a parede do espaço de convivência do camping.

 

Shitake

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Outra maravilha do sítio Aborígene: cultivo de shitake. Jakson chamou seu amigo Celso Ferraz Bett, especialista no assunto, para iniciá-lo no processo. E nós participamos da colheita e da inoculação de uma nova leva.

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Celso (à direita) explicando o processo de inoculação.

O primeiro passo é conseguir as toras — no caso, de eucalipto. Elas devem ser inoculadas quando verdes,DSC_0207 logo após serem cortadas. Insere-se o micélio do fungo (é possível desenvolvê-lo artesanalmente ou comprá-lo, o que é mais comum hoje em dia) através de buracos na tora, que devem ser feitos com uma broca específica (compra-se via internet) e vedados com uma mistura de parafina e breu derretidos. As toras devem ser empilhadas na mata, num lugar onde haja sombra e umidade, até que colonizem – o que pode levar de seis meses a um ano.

 

Fabiana Moura, que também deu oficina de Tai Chi pelas manhãs, derretendo a mistura para vedar as toras.

 

Quando estiverem colonizadas, o que é possível ver pelos fungos que se espalham, é hora de submergir as toras na água fria do dia para a noite, por aproximadamente 24 horas, simulando assim uma chuva de grande volume. Esse processo induz os cogumelos a brotarem.

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A caverna dos cogus.

Depois da imersão em água, retira-se as toras, dá-se duas batidinhas nelas na vertical, no estilo “bater estaca” no chão, e coloca-se as toras na estufa. Assim os fungos passam por 3 choques: hídrico, mecânico e térmico (este último se dá por tirar da água fria e colocar na estufa quentinha).

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A estufa deve ser coberta, o ideal seria com sombrite (espécie de telinha), para permitir a ventilação, de modo que não entre muita claridade e mantenha-se a umidade. Mas a tradicional lona preta tem funcionado. Depois de sete dias na estufa, aproximadamente, os cogumelos estão no ponto de colheita.

 

Lindos e prontos para colher. As toras, já colonizadas, podem ser utilizadas novamente – é só reiniciar o processo a partir da imersão em água.

 

É importante monitorar todo o processo para manter o equilíbrio da umidade. Celso cultiva cogumelos desde 2011 e trabalha também com outras espécies, mas diz que o shitake é a origem do cultivo de cogumelos, o mais artesanal. (Veja mais do trabalho do Celso aqui).

 

Agrofloresta, mudas, horta e queijo

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Foi coisa demais em três dias, minha gente! Fizemos uma horta em formato de ferradura na roça da tia Marlene, que há anos cultiva a área, que, portanto, conta com um solo bastante fértil. Preparou-se a terra com cinza e cama de aviário, fez-se as leiras, cobriu-se com serragem e, no fim da tarde, plantou-se as mudinhas.

DSC_0014 Também fizemos mais uma linha de agrofloresta e preparamos uma horta mandala, que vai ficar descansando até a grossa camada de capim que colocamos por cima ter se decomposto e nutrido o solo. Aí será hora de plantar.

 

Fazendo agrofloresta.

 

Dona Marlene ensinou a fazer seu delicioso queijo que, junto com o shitake, compôs várias receitas ao longo da vivência.

E outro tio veio passar um pouco do seu conhecimento pra gente: o seu Odair Roberto Florencia, mais conhecido como Campuerê ou Daia. Ele trabalhou por cinco anos na CASA – Cooperativa Agropecuária de São Lourenço, coleta sementes nativas e diz que nunca comprou uma semente. “Cada semente tem um jeito. Uma deixa secar, outra tem que deixar na água, outra deixa na geladeira”, explica. Ele aprendeu com os outros e acredita que agora é hora de repassar.

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Jakson e tia Marlene.

Campuerê coordenou a construção da sementeira: primeiro delimita-se o perímetro, depois coloca-se uma camada de cascalho, outra de brita, areia, e por último uma camada de terra misturada com cama de aviário e um punhado de areia, a ponto de ficar bem soltinha, ideal para as sementinhas brotarem. Todas essas camadas impedem que fungos e bactérias do solo se proliferem entre as sementes, além de permitir o controle da umidade.

DSC_0076Ele também ensinou como preparar as mudas de erva-mate: tem que limpar a semente, lavar e secar. Fazer uma caixinha, colocar uns 5 cm de areia, jogar as sementes e botar outra camada da mesma espessura de areia por cima. Deixar lá e ir molhando até a semente quebrar na unha, o que leva de três a quatro semanas. Depois é tirar as sementes, lavar, enxugar, colocar num saquinho plástico e deixar por uns dois ou três dias, até mofar.

 

Campuerê compartilhando sua sabedoria

 

Quando parece que ela tá podre, branca, é porque tá boa. Então coloca-se na sementeira. Depois disso leva entre 30 a 45 dias para germinar. As sementes são colhidas em janeiro e, para selecioná-las, deve-se lavá-las num balde: as que afundarem são as boas; as que boiarem devem ser descartadas.

 

Tudo isso e um pouco mais

Para além da programação oficial, aprendemos a despolpar o fruto da palmeira juçara com o Pedro Henrique Pastorello, que nos ensinou um pouco sobre as qualidades dessa fruta incrível, com a qual se faz uma espécie de açaí, só que mais nutritivo. Ao invés de derrubá-la para fazer um nadinha de palmito, como tanto se fez e se faz e por isso a espécie corre risco de extinção, pode-se deixá-la viva e exuberante e utilizar seus frutos.

Pedro também puxou uma conversa sobre homeopatia (confira o material aqui) e tá começando um projeto comunitário no sítio Alto Caçador.

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Pedro fazendo um tapete de folha de taboa, capim do qual se tira um palmitinho, faz-se sal, entre outras coisas mais.

Além disso tudo teve Tai Chi matinal com a Fabi e com a Patrícia. Roda em volta da fogueira. Conversas sobre o sincronário da paz. Música. Leituras. Risadas. Improvisos. Estrelas. Lua. Trocas. E muito trabalho. Serviço, tem! Sem falar nas comidas deliciosas.

Pra finalizar, banho de cachoeira e uma grande chuva, após os dias de sol propícios para a lida: são as águas que lavam o corpo e a alma e nutrem a terra para que o plantio frutifique.

Por alguns dias parece que conseguimos ultrapassar um portal e experimentar na prática uma modo de vida mais cooperativo, integrado e produtivo. Que levemos um pouquinho desse espírito para o cotidiano — já terá valido a pena. E assim vamos construindo esse outro mundo que tanto queremos e precisamos.

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3 comentários sobre “Vivência aborígene

  1. Que maravilha de experiências. Lindas práticas!! Ha’ewete por compartilhar .. seguimos aprendendo!!! BjLuz!!!

  2. Boooaa galeraa !! Ahooo, avantee permaculturaa!!!

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