Cosmovisão indígena, comunidades e movimentos na América Latina

Davi Kopenawa e Raul Zibechi falam de re-existências na abertura do SINGA em Curitiba

Por Michele Torinelli / Vida Boa

 

O debate contou com a mediação da professora Eliane Tomiasi Paulino (UEL)

Teatro da Reitoria lotado na noite de quarta-feira, primeiro de setembro, véspera de feriado. A UFPR (Universidade Federal do Paraná) recebe o IX SINGA (Simpósio Internacional de Geografia Agrária), que reúne pesquisadores e ativistas da América Latina para discutir e fortalecer redes de rebeldias. Portanto, nada mais justo que abrir as atividades com Davi Kopenawa, liderança Yanomami e co-autor de A queda do céu, e Raul Zibechi, jornalista e escritor uruguayo.

 

Um novo ciclo de movimentos na América Latina

Enquanto a análise política costuma olhar para cima, Zibechi se propõe a “olhar para baixo, horizontalmente entre nós, onde estamos organizados”. O escritor cita vários exemplos de lutas latino-americanas atuais. Na Argentina, há mais de 400 fábricas recuperadas, ocupadas e geridas por trabalhadores e trabalhadoras, e 100 “bachis” – que são iniciativas populares de educação para jovens e adultos com ensino técnico e perspectiva crítica.

Também na comunicação as análises costumam se voltar para cima, para a grande mídia, mas Zibechi esclarece que, na Argentina, há cerca de 200 revistas autogestionadas, que alcançam 7 milhões de leitores – o que equivale a quase 20% da população do país. “Isso não é marginal, nosso mundo já não é marginal”, argumenta. “Foi essa realidade que manteve o caso de Santiago Maldonado vivo por mais de 2 meses, não foram os grandes meios”.

Depois de tantos exemplos do país vizinho, ele esclarece: “não sou da Argentina, sou do Uruguay, mas é a mesma coisa”, o que arrancou risadas do público. “É tudo América Latina”, agrega.

Na Colômbia, ele conta que há mais de 12 mil aquedutos comunitários – e, no México, milhares de empreendimentos também comunitários. No Brasil temos o exemplo dos territórios da reforma agrária, dos quilombolas, entre tantos outros. “É desse mundo que eu quero falar”, diz ele, que entretanto considera a categoria “movimentos sociais” inadequada para refletir todas essas experiências. “Essa é uma proposta que vem do norte, onde os movimentos, de modo geral, não são territorializados. Nós temos uma história de cinco séculos de territórios. Não podemos analisar nossa realidade com conceitos dos outros”, defende.

Zibechi indica que há velhos movimentos que conseguiram se reinventar – como é o caso Mapuche na Argentina e do zapatismo no México. Ele conta que a maioria absoluta dos zapatistas tem menos de 20 anos, portanto não era nem nascida em 1994, quando o movimento se mostrou para o mundo. Já os Mapuche, nas últimas duas décadas, recuperaram cerca de 250 mil hectares. “Não é à toa a perseguição aos Mapuche, e o que fizeram com Santiago Maldonado, não é porque Macri está louco”, adverte Zibechi.

Outro movimento que se renovou é o feminista, destacadamente com o Ni Una Menos. “O feminismo é o movimento decisivo, o mais importante dessa época, sem ele não é possível entender o tempo que vivemos”, avalia. Ele acredita que a matriz dos movimentos está sendo transformada pela lógica do feminino. “A alimentação, os cuidados que asseguram a sobrevivência, a festa, a morte, tudo isso está relacionado com o tema da reprodução, e sem reprodução não há vida, é o que sustenta a vida”, sintetiza.

Enquanto a reprodução da vida é o centro da resistência – porque quando resistimos, estamos lutando para reproduzir a vida –, a comunidade é a forma política da resistência. E Zibechi já não fala necessariamente da “velha” comunidade, mas de experiências em alguma medida externas ao sistema dominante, tradicionais ou não, urbanas ou rurais. Segundo o jornalista, “a cultura ocidental já não consegue lidar com os problemas que ela mesma cria”, e são essas outras (re)existências que podem superar a crise – que não é uma crise econômica ou ambiental, mas uma crise civilizacional, humanitária.

“Re-existentes e resilientes, assim devem ser os movimentos”, acredita, e mais que olhar para cima, para a conjuntura do poder dominador, precisam construir espaços próprios, ser como barcas capazes de navegar na tormenta. Por outro lado, essas experiências estão inter-relacionadas justamente por sua postura frente ao sistema hegemônico ao qual resistem – por serem antipatriarcais, anticoloniais, anticapitalistas. “Sem isso, parece que são movimentos isolados”, argumenta.

Para Zibechi, estamos num novo ciclo de movimentos na América Latina. “A sociedade pela qual lutamos já existe entre nós, em algumas partes, em pequenas proporções – esse outro mundo que queremos é um tecido dessas experiências”, sustenta. Ele defende que é preciso fugir da institucionalização, do “cálculo de conveniência” – como quando se diz “agora não luto porque estou pensando em 2018”, referindo-se às eleições… Essa seria a lição do ciclo dos governos de esquerda da América Latina: não se contentar com a “pequena política”, como dizia Antonio Gramsci

Ao considerar que “a institucionalidade é uma prisão”, Zibechi entende que isso não significa não se relacionar com instituições: se trata de não criar camadas verticais, de burocratas, dentro dos movimentos. Os modelos dados apontam ou para a institucionalidade ou para a fragmentação – o desafio é buscar outras maneiras, que possibilitem interconexões desinstitucionalizadas. Como? “Não sei e nem devo saber: precisamos criar”, instiga o escritor, para quem o papel do intelectual não é criar modelos, mas se debruçar sobre o que fazem as lutas sociais. Assim, os conceitos devem partir dos próprios movimentos.

 

O homem da cidade não conhece o povo indígena

Sons ininteligíveis para a maioria. Palavras da floresta. Depois da saudação de abertura ter sido enunciada não só em português e espanhol, mas também em guarani, Davi Kopenawa iniciou sua fala em yanomami. Um marco simbólico: os povos da floresta ocupam a universidade com seus idiomas historicamente silenciados. “Pra mim, a língua do branco é capitalista”, dispara Davi.

Ele se apresentou como xamã e liderança Yanomami, numa perspectiva em que política e espiritualidade se confundem. Cosmovisão. “Meu trabalho é articular na comunidade, pra fora da comunidade e com o outro mundo”, resume. Ele explicou que o território de seu povo fica em Roraima. “Nós Yanomami estamos muito preocupados com os problemas que o homem da cidade cria. Meu povo tá cercado entre Brasil, Venezuela e Guiana Francesa. Não temos para onde fugir. Por isso eu estou aqui contando a minha luta, eu tenho 35 anos de luta.”

Ele compartilhou um pouco do histórico de seus embates políticos com o homem branco e de sua perspectiva de vida. “Enfrentei 40 mil garimpeiros na terra Yanomami, foi muito difícil, o [então] presidente José Sarney não queria demarcar, dizia que índio não precisa de terra. Ao contrário do que falam, índio não é preguiçoso, senão não tinha sobrevivido. O índio trabalha pra alimentação. Não trabalha pra barragem, não trabalha pra mineração. Isso não é bom. Nós trabalha pra ficar bem. Quem deixa a gente triste é deputado, senador, esse povo do agronegócio – esse povo que não presta.” E entregou com todas as letras quem é o inimigo número um do seu povo: o senador Romero Jucá (PMDB).

Kopenawa defende a necessidade de luta em prol da sobrevivência da floresta e seus povos. “O presidente Temer vai lutar por nós? Ele não vai, ele tá vendendo o nosso país. Tá negociando a nossa terra, as nossas riquezas”, denuncia. “A responsabilidade do governo federal é cuidar do país, não ficar vendendo, negociando nosso território. Nossa terra é homologada, mas tem um problema. Nossa terra é rica, por isso os brancos tão de olho, todo mundo quer meter a mão. Nós, indígenas, estamos defendendo o nosso país”.

Os povos indígenas estão articulados para resistir às ofensivas ruralistas. “O movimento indígena é a APIB [Articulação dos Povos Indígenas do Brasil], em Brasília, lá que a gente se reúne. Eles usam arma pra espantar nós, pra fazer medo na gente. Não é fácil, mas nós estamos lutando pela terra, porque a terra é nossa mãe, a terra que cuida de nós. Nós povos indígenas sabemos disso, por isso não queremos deixar destruir. O branco, nós, todos os seres, temos que amar a terra. E a terra também ama nós. A Terra é uma só. Se destruirmos tudo, onde vamos achar outra? Sem a terra não tem vida.”

A liderança Yanomami acredita que essa é uma luta que interessa a todos, que é política, cultural, social, econômica e ambiental. “Tudo isso é pra nós preservar o nosso lugar, a natureza, a comunidade. Para nós, a floresta é muito importante, mais do que a cidade. Por isso nós índios defende, preserva. Nós precisamos do ambiente vivo para continuar morando. E isso não é só pra nós, Yanomami, mas para todos nós, no planeta Terra.”

E fica o recado pro pessoal do Simpósio se somar na luta: “Eu sou homem da floresta que defende a natureza, o meu povo, castanha, buriti, tudo que precisamos pra viver bem. Esse é o meu papel. No meu povo, são cinco os guerreiros que falam português, para enfrentar os garimpeiros. Mas o grupo que defende a comunidade tá crescendo. Vocês podem ajudar, vocês estudantes podem fazer uma carta e enviar pro presidente da república – então eu peço pra vocês, do SINGA, escrever uma carta e mandar pro presidente.”

 

SINGA

O Simpósio vai até o dia 05 de novembro, contando com grupos de trabalho, espaços de articulação, apresentações culturais, trabalho de campo, mostra de documentários e atividades na rua. Como disse Jorge Montenegro, coordenador do evento, esse é o SINGA do acolhimento, da rebeldia, de gente que defende seus territórios. “O Singa se faz em comunidade”, ressalta.

A programação está disponível aqui.

Um comentário sobre “Cosmovisão indígena, comunidades e movimentos na América Latina

  1. Su web es um canto a la vida. Es também una expresión muy concreta de la re- existencia, y de las otras maneiras de conceber e desarrollo por los pueblos del Sur. Sempre repito a Galeano. A quién desarrolla el desarrollo? Ese desarrollo que despoja y desterritorializa.

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