Cambio de piel

[Trilha sonora para leitura]

 

No México perguntam muito “como vai seu coração?”

Como vai meu coração?

Vivo.

 

Diz que teve 2 temblores nessa última semana. Um eu acho que senti.

Terra treme, cospe fogo, jorra água.

Minha coluna treme, cuspo raiva, jorro lágrima. Temblor nas minhas costas. Serpente enrolada.

 

Achou que brincar com cobra era poético? “Xamânico”? Fofo?

Desde o começo foi evidente que não.

Arrancou a pele na faca?

Agora aguenta a troca.

 

Dói.

 

Reparei foi na cervical da tinhosa quando a despelei. Vertebrazinha atrás de vertebrazinha, tudo encaixada. Muitas. Delas despontavam finas espinhas de peixe.

O corpo é um milagre. Alta tecnologia.

 

A solidão da troca de pele.

No escuro. Na toca.

 

No fundo da caverna se encontra cada coisa que nem se lembrava.

Sabe essa tristeza aí? Igualzinha a da criança que nasceu e não se sentiu abrigada.

E assim seguimos, sonâmbulambulando, projeções e projeções permeadas de distrações.

 

Vai na origem. No teu nome.

Quem é como Deus?

No fundo no fundo todo mundo – já me disse São Miguel na igreja de San Juan Chamula, onde não tem Cristo no altar, mas o santo patrono; onde não tem banco na igreja, mas rama de pinheiro forrando o chão; onde são muitos santos, santas, Virgen de Guadalupe, muitas velas, muitas as oferendas e as gentes rezando nos seus muitos idiomas sentadas no chão. Onde turista já foi linchado por dar uma de besta e não respeitar a crença o templo o outro. Proibido tirar fotos.

 

Serpente planetária, manifestar a energia vital. Aperfeiçoar, produzir. Sobrevivência, instinto. A sabedoria do corpo. Não tem como fugir. O corpo mostra, aponta – é aqui!

 

México, México, tanta energia por digerir. Há de se aprender a distribuir. Conduzir.

Kundalini.

 

A beleza da queda. A maleabilidade da água. Serpente: terra e água. Inconsciente profundo. Pedras, galhos, matéria densa. Vida corporificada. Iluminada pela matéria ígnea, o fogo em forma de ar. Raio solar. Os feixes de luz resplandecem na água. Só existem porque mergulham nas trevas.

E luz e sombra – fogo, terra, água e ar – se tiram pra dançar.

 

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