A minha pele ficou pra trás.

Paisaje con estrellas y raíces, Paula Duró.

[trilha sonora para leitura]

 

A minha pele ficou pra trás.

Mestruar é trocar a pele do útero, todo mês. Mulheres serpente. Esse mês menstruei diferente. Encarei o calendário artificial da civilização bem na minha lua, não pude me permitir fazer como sempre faço (ou como sempre tenho feito nos últimos anos ao longo desse processo de me reconstruir mulher-em-matilha-ser-vivente-na-terra); não pude deixar as besteiras do calendário e do relógio de lado e vivenciar o trocar de pele, porque só assim de fato se troca de pele. Ou senão é um sangue que jorra incômodo, envergonhado, inconveniente. Mecânico. Sem poesia, sem profundidade, descarecido de sentido.

E esse dobrar-se às exigências, tempos e espaços do mundo civilizado, revirou tudo, inverteu os dias de fluxo forte, prolongou o sangrar. No dia anterior ao sangramento, não pude ou não quis cumprir com as demandas de fora, meu corpo não quis. E obedeci. Tenho aprendido a obedecer meu corpo. Ele sabe das coisas. De dia, descansei. De noite, tive insônia. Chorei. Chorei e chorei. No dia seguinte, o sangue que se mostra. E tudo faz sentido. Era isso então. Isso é trocar de pele. Se deparar com o que dói, com o que incomoda, e deixar jorrar. Deixar fluir. Limpar. Em lágrima. Em sangue. Abrir lugar.

Mas não é dessa troca de pele, mensal, que eu quero falar.

Também, mas além.

 

A minha pele ficou pra trás.

Um ciclo mais longo, um processo ainda mais profundo.

Jararacuçu. Que me apareceu me espelhando, imitando minha coluna vertebral, minha kundalini, minha energia vital. Que me fez me voltar pra mim, mergulhar na minha caverna, sentir dor, me afastar de tudo o que não faz sentido. Me cuidar. Que me conectou com meu lado animal, com minha verve ancestral. Dores femininas. Que me exigiu, e ainda me exige, assumir minhas verdades. As verdades que se me mostram.

A enfermedade chegou a mim. Sombras ancestrais, dores de mulheres reprimidas. Submetidas.

 

Depois de meses de metamorfose, de troca de pele,
jararacuçu ficou pra trás.

Alguma coisa ficou pra trás.

 

Contar histórias. Essa história.

Contar histórias segue tendo, cada vez mais, sentido (entre tanta coisa que perdeu sentido, algumas coisas permanecem, e se fortalecem, e seu sentido se renova).

“Oídas en los cruces de caminos como regalo de confianza entre viajeros, escurriéndose en la canción que creímos no haber atendido, cómodo fuego que habla desde el silencio de su arder pero que enciende espejos en nuestro proprio cine, suspiro de quien yace abrazado a su amor en la penumbra, invocación que muestra y mide, que impulsa y niega, las narraciones son tal vez la forma más ancestral de la metamorfosis. Al relatar traducimos y eso nos transforma. Vivimos contándonos historia tras historia porque cambiamos todo el tiempo. Cuando sentimos que cambiamos, cuando lo reconocemos, nace también una narración. Puede ser el reporte mínimo y quizá más atávico de nuestros contatos o toda la riqueza de nuestro ser con otros, pero en su cauce, por sus cauces, flota a la deriva su impulso: recrear, hacer sentido de la experiencia. En esta recreación que siempre es nueva vive la metamorfosis; la diversidad es su espírito, la identidad su centro y energía.” (Desde El libro de los saberes).

Eu canto porque o momento existe, já dizia Cecília poeta. Contar y cantar la vida, es mi manera de andar, diz Facundo Cabral ao trovar.

Um contar histórias que não é uma profissão, um saber especializado – nem jornalismo, nem  sociologia. Um pouco poesia. Um contar histórias que é uma maneira de caminhar. De estar no mundo. De cantar.

Histórias vivas e vividas. Eis minha maneira de andar.

Que não é só minha. Que se aprende de ancestras, comunidades, amizades; laços de afeto, de admiração, identificação. De comunhão, de estar em comum; de comunicação, de agir em comum.

Não é uma carreira, um título, um projeto de um livro. É a vida. A minha vida, que se tece em comum com outras vidas. Driblando a vala da profissionalização, da comercialização, da divulgação publicitária.

Não é produto, é poesia.

Não é propaganda. É diálogo.

Não é currículo, é vida.

É jorrar de sangue. É dar sentido ao vivido e compartilhar. É criar memória dos processos coletivos, da troca de pele que é individual, mas também comum. Porque tudo o que é individual é também comum. Nada mais entranhadamente universal do que aquilo que é mais íntimo.

“Si se cura una, nos curamos todas.” Forças femininas. Batalhas e redes de cuidados feministas.

Por meio de outros saberes. Saberes ancestrais. Outras medicinas. Autonomias. Aprender a escuta do corpo. O auto conhecimento. Ouvir e decidir, a partir do que se sente, do que se sabe, do que se intui. Apoiada por outras pessoas, por outras mulheres, por outros fazeres. Uma outra relação com a saúde, com o corpo – não mecânica, não reducionista, não hierarquizada, não autoritária.

Quando se cria tempo para se auto cuidar. Quando se pode contar com uma rede de apoio que se forma, que se modela, que se tece, que se metamorfoseia ao longo do caminhar.

Cuidar, de si e do outro, é resistir. Re-existir. A partir das ervas, das energias, dos rezos, das macumbas, das limpias. O que é considerado superstição é toda uma outra medicina, outras medicinas, comuns, antigas, subversivas. Não alimentar a indústria farmacêutica é um ato revolucionário. Não se render a ser mero “paciente”, impotente, subserviente, obediente, é um ato revolucionário. Buscar entender o processo profundo e comum da doença, ao invés de atacar os sintomas de forma agressiva e reducionista, é um ato revolucionário. Bruxarias. Rebeldias. Sabedorias ao alcance de todos, que não são mercadorias. Plantas sagradas. Apoio mútuo. Ancestralidades. Outras tecnologias.

 

Comunidade. Organização. Espiritualidade. Saberes ancestrais, coletivos. Cosmovisões. Agroecologia. Cuidar da terra, entender-se como parte dela. Autonomia. Alimento, saúde, ciclos da vida, laços comuns. Co-responsabilidade. Justiça.

Caminhos que se confirmam, que se distanciam de um fazer por fazer tão corrente, automático, hegemônico, que carece de sentido intrínseco. Que tem como fim um reconhecimento vazio. Superprodução de coisas vazias. Hiperconsumismo, falta de responsabilidade com os ciclos. Desperdício. Competição. Individualismo.

Todo um modo de viver que se impõe como natural, como único e necessário, e exerce pressão sobre todos, até mesmo sobre os que não se encaixam. Mas os outsiders, em sua diversidade, tecem suas redes. Se fortalecem.

Fazer menos. Com mais sentido. Respeitar os “recursos”, todas as energias, todas as formas de vida. Ser mais, mais canção, mais coração.

 

É preciso estar atenta e forte. De mãos dadas.

Radicalizar. Que nossa solidariedade, que nossa co-ação aponte novos velhos caminhos. Caminhos de verdade. Com sentido. Comum. Dentro e fora de cada um.

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