Prazer, Michele Junana – ou porque resolvi deixar de usar meu sobrenome oficial

Cada coisa que eu faço poderia render um textão – sorte de vocês que eu não escrevo todos. Sorte minha. Escolhi viver mais a vida, fazer mais, pensar menos, ou pensar de maneira aliada a tudo que faço e me perder cada vez menos nos corredores da abstração. Uma filosofia de vida que se vive na prática – e quando se faz a própria comida, se esvazia o próprio balde de merda e de resíduos de alimentos, se planta, canta, estuda, reza, contempla, descansa, pratica o autocuidado, constrói a própria casa e, ainda, se organiza coletivamente e em redes, o tempo pra ficar divagando intelectualmente diminui.

Hoje, por exemplo, resolvi fazer pão. Eu não faço muito pão, apesar de gostar de cozinhar. E gostar de pão. Tenho uma certa resistência a comprar farinha de trigo. Quase todo o trigo que chega a nós é importado. O trigo é o símbolo da imposição cultural “civilizada” em forma de alimento. Isso se confirmou lendo a epopéia de vários volumes de “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo, que tô adorando ler e recomendo muito. No livro dá pra perceber como o trigo e o hábito de comer pão chegam junto com a “civilização”, diferenciando os cidadãos dos “selvagens comedores de abóbora e milho”. E quantos pequenos agricultores, deslumbrados com o sonho e promessas do trigo, deixaram sua diversidade de cultivos de lado, se endividaram, aderiram à monocultura e perderam suas terras.

Pois eu quero comer muita abóbora e muito milho. Mas um pãozinho de trigo de vez em quando cai bem, e essa farinha de trigo é especialmente maravilhosa e veio de uma compra coletiva que fizemos em rede aqui em Maquiné, cidade do litoral norte gaúcho em que habito em coletividade no Território Junana. Trigo orgânico, de uma família agricultora do estado que produz vários alimentos maravilhosos. E, já que apesar de não fazer, eu adoro quando alguém faz um bolinho ou um pãozinho, resolvi comprar. E assim ressignificamos o trigo colonizado com um trigo descolonizador, agroecológico e fortalecer de redes. E tudo isso passou pela minha cabeça enquanto eu fazia o pão a partir de receitas que pedi para amigues prendades.

Toda essa divagação é apenas um preâmbulo pra questã que eu realmente quero desenrolar em letrinhas, até pra (ou principalmente) eu mesma entender melhor: não tá mais fazendo sentido pra mim usar o sobrenome que me deram. Nada contra seu David Turinelli, que veio lá de Trento em mil oitocentos e lá vai bolinha numa aventura tresloucada (e colonial) para o desconhecido Vale do Itajaí, nem se trata de negar essa minha origem. Mas existem outras. Historicamente silenciadas por meio desse mecanismo patriarcal do sobrenome.

Eu só sei o sobrenome dos homens. Mesmo o sobrenome da minha mãe veio do pai dela, e o do pai dela veio do pai dele, e assim sucessivamente desde que o patriarcado se impõe violentamente no mundo. Sem falar que alguns sobrenomes foram negados, silenciados. Gente indígena e negra que foi “batizada”, cristianizada, que não tinham seus nomes de verdade aceitos nos cartórios. Que precisaram adotar nomes brancos pra sobreviver. Ademais das relações que foram proibidas, negadas, invisibilizadas. Pessoas que foram assassinadas. Por serem negras, indígenas, pobres.

Mais uma vez me remeto a “O tempo e o vento” (baita obra). No primeiro volume, conta-se de um Guarani que fugiu das Missões quando essas foram destruídas pelos colonizadores. Ele foi parar numa pequena estância no meio dos pampas, e era tão habilidoso que o pai da família anfitriã, mesmo com todo o preconceito que tinha, não conseguiu mandar ele embora, e ficou se aproveitando da mão de obra praticamente escrava dele. Acontece que a filha do patriarca se apaixonou pelo missioneiro, e ele por ela. Quando o pai e os irmãos descobriram, mataram ele. Ela já tava grávida. Teve um filho, que nunca veio a saber que o pai era Guarani, e que ele foi assassinado por seus tios e avô. Nem toda sua descendência veio a saber que tinha origem Guarani. A mãe dizia que o pai tinha morrido na guerra, e eram tantas guerras fronteiriças por essas bandas, e tantos homens que morriam nelas, que isso era aceito socialmente e a mulher conseguiu sobreviver e criar seu filho mesmo sendo solteira. Isso lá por mil setecentos e algo.

Así que todo mundo nesse continente é mestiço, só que essa mestiçagem não é cordial (como os poderes quiseram e querem fazer acreditar), mas carregada de injustiça, patriarcado, racismo, colonização e conflito. Ter consciência de que somos filhxs de um processo racista de estupros e preconceitos coloniais, de casamentos mais ou menos obrigados, e mulheres mais ou menos silenciadas, é o único modo de entendermos da onde viemos e vislumbrarmos para onde queremos ir. Como queremos viver que não desse modo.

Diz-se que em sociedades matriarcais, as pessoas carregam o nome da comunidade em que vivem. Em muitos povos indígenas, também. Esse é o sobrenome. O povo do qual fazem parte. Ailton Krenak, por exemplo. Ele é Krenak. E é o Ailton.

Por muito tempo não tinha muito apreço pelo meu nome Michele, mas em minha viagem pelo México me envolvi e conciliei com o seu significado – e isso daria um outro texto. Minha mãe e meu pai escolheram esse nome, eles tavam meio brigados, passei um tempo sem ter nome sendo chamada de “neném”, mas beleza, esse é meu nome, atendo por ele, sempre me chamaram assim e hoje em dia faz sentido. Mas carregar um sobrenome patriarcal e colonial já não tá mais fazendo sentido. Mas como me denominar então?

Eu habito uma comunidade, ou melhor, uma comum-diversidade. Uma coletividade. Um território. Me sinto parte disso. Aqui me conecto com as pessoas, com os ciclos da vida, com todos os seres, visíveis e invisíveis. Converso com a cachoeira e com a árvore. Planto milho e colho banana. Construo minha casa. Vivo as quatro estações. Então, pra mim, faz sentido carregar o nome dessa coletividade.

Me assumo agora, e pelo tempo que fizer sentido, como Michele Junana. Que é a continuidade da Michele Caroline Torinelli, e antecede algum outro nome ou o momento em que corpos e nomes já não me contenham nem definam. Compartilho essa reflexão porque ela não é só minha, e cada vez mais convivo com pessoas que adotaram outros nomes que não o do documento. Que bom poder escolher, e não me sentir presa a convenções que já não quero dar continuidade. (Eu tenho um nome espiritual também, que me deram no ciclo de plantio do awaxy eté, o milho sagrado Guarani Ñandewa de acordo com os ensinamentos da Tekowa Xiinguy, nome que eu honro muito e carrego comigo, mas prefiro preservar e utilizar apenas em momentos oportunos e/ou ao redor do fogo, em círculos de confiança. Essa história já rendeu alguns textos e certamente renderá outros.)

Talvez escrever esse texto na data em que convencionaram ser o dia das mães não seja mera coincidência. Viva o matriarcado de Pindorama! Salve a vida coletiva, a autonomia interdependente, as escolhas de como se quer viver e nomear, a consciência histórica e a relação com os ciclos da vida! Aguyjevete!

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