Águas

 

 

Lembrei que no México a expressão “aguas!” quer dizer “cuidado!”.

Águas!

Delicinha, fresca, líquida, convidativa mas… “aguas!”.

Águas…

 

Como vão os sentimentos? Fluindo para o mar?

Fiz essa pergunta há uns dias na chamada que escrevi pra cerimônia que teremos no próximo sábado. Equinócio de primavera. Entrada na estação das flores e das águas.

No momento da escrita eu estava cansada. Sangrando. Pós vivência entre mulheres. Construindo a casa fora, nos acolhendo entre e dentro. Intensidade das partilhas. E a Nury esteve nessa vivência.

“A Nury por si só é uma vivência”, tinha compartilhado com as hermanas no grupo no whats – porque não, a Nury não tem celular.

Falei pra ela que fiquei constipada e exausta pós vivência, com receio que ela também estivesse com esses sintomas… O fantasma do vírus. Nossa abuela. Ela estava ótima. Desejou melhoras e comentou: “é que foram muitas as emoções e águas rolaram…”.

Ela trabalhou consciência corporal com a gente. Acessar nossas profundezas através do corpo. Dentro do corpo. Pelo corpo.

Pisamos terra e água pra levantar a parede da minha casa. Barro. Colocado na parede com as mãos.

 

Acabou a vivência (para as manas), eu fiquei terminando as últimas coisas, guardando o que precisava ser guardado, dando aquele gás final antes da sequência de dias de chuva que se anunciava. Deixar tudo minimamente encaminhado. Obra, barro, tinta, cozinha coletiva, comidas. Fazer minha mudança de volta (eu estava acampando na obra), duas viagens montanha abaixo super carregada de coisas, a última com a gatinha na caixinha, já debaixo de chuva.

No final eu já tava carregando meu corpo no modo automático pensando “já vai acabar, já vou poder descansar”. E o corpo deu pane. Exaustão.

Parei tudo para me cuidar. Até porque não restava outra, era isso ou me dopar. À medida que a coisa ia se mostrando longa, fui desmarcando os combinados, desfazendo os planos pros próximos dias. Senti necessidade de me recolher. E, dia após dia, comecei a sentir as águas estagnadas. Que, finalmente, começam a aflorar.

 

“Se deixar ser rio e transbordar”, me disse Yxapy, ao tirar os maravilhosos arcanos guaraníticos para mim.

Transbordar. Primeiro por tristeza, carência, incompreensão, irritação. Depois… Simplesmente por emoção. Sentir, esse troço tão perigoso! Sentir é arriscar-se. Abrir-se. Diluir margens. Transfigurar-se.

Parece que a sensibilidade não cabe no modo de vida (bizarro, diga-se de passagem) que os humanos criaram, esses tais civilizados.

Que força o sentimento tem! Como a cachoeira depois que chove. O que fazer com essa doce fera que trazemos dentro? Como se reconstituir depois que a gente se dissolve?

“A gente quer gerar uma emoção bonita nas pessoas”, diz Luhli no documentário sobre ela e Lucina, dupla que estava entrando no jogo das gravadoras mas preferiu o circuito independente na década de 1970. E que viveu uma vida verdadeira, com muita emoção, quebrando vários tabus.

Rever esse documentário e, depois, ouvir e reouvir essa música, me fez transbordar. Muito. Não é nem tanto pelo significado da letra, não é nem por saudade (ou talvez aquela saudade de tudo o que já foi do que é e há de vir), talvez mais pela emoção da melodia, pela poesia, aquela coisa que a gente não explica, só dá um nó na garganta e jorra em lágrimas. Emoção pela vida.

 

Passei mais de dez dias na caverna. Minha primeira sinusite, demorei pra sacar. Talvez também Covid. Por via das dúvidas, fiz o isolamento.

Mas entendo que doença é sintoma.

 

O inevitável mergulho que a solitude (ou quase) traz. No início não tinha dimensão do processo que se passava dentro de mim. E à medida que fui entendendo cheguei a duvidar das minhas certezas. Mas agora tenho certeza da certeza, uma certeza que é um vislumbre. (Como o clarão do raio em meio às trevas, agora vejo…).

Quando eu não me dou o tempo/espaço que preciso, o corpo exige… Há de se cultivar os ritos de passagem. Saber seus momentos. As sabedorias ancestrais ensinam. O corpo também. Afinal, trazemos toda a ancestralidade da vida no corpo. Em cada célula.

Há de se cultivar os cuidados diários, uma rotina sã. Ter tempo para nós mesmas. Respeitar nosso entendimento, nossa intuição sobre os processos que estamos passando. Ninguém conhece melhor nosso corpo e nossa vida do que nós mesmas.

Entender que a doença abre um caminho de entendimento, que pode ser acessado ou simplesmente ignorado e se acumular. Entender que quando a doença aparece, o corpo está pedindo um tempo. Dar esse tempo.

Em tempos de Covid e fundamentalismos: sim, eu tomei a vacina. Preferi me tratar dos sintomas naturalmente, com fortes medicinas e muito autocuidado. Não tive sintomas graves, minha respiração esteve muito bem o tempo todo, não tive febre.

Mas não me restringi ao cuidado com o corpo. Afinal, não está separado.

 

Preparação pra primavera, estação das águas, saindo do inverno, estação da terra. Transição.

Água e terra, mangue. Entender a água estagnada no corpo como o caldo da criação, da onde brota a diversidade da vida (nesse inverno, honramos Nanã e Obaluayê, e tudo vai fazendo mais sentido).

Ressignificar essa água acumulada em terra. Dela que pode brotar a vida! Ela é profunda! Ela é ancestral! Ela nutre! Mas há de se ter cuidado pra não ser soterrada pelo mangue. Cuidado pra não atolar, e lá ficar.

Há de se ter tempo para ir até o mangue, caminhar com cuidado pelo lodo. Enfiar as mãos nesse barro. Pisar esse barro. Se deixar impregnar de lama. Submergir. Desintoxicar. Corpo alma mente espírito.

Até chegar a hora de fluir. E desaguar.

Quanta emoção!

 

que a preço de espera

eu seja a primavera

madurando em verão

 

bananeira no quintal

na boca o gosto da vida

no ar, temporal

 

bananeira no jardim

gosto da fruta madura

dentro de mim

 

Caem as águas. Do céu. Dos olhos.

Nesse exato momento, noite de domingo, enquanto escrevia essa última frase, chegou uma forte trovoada na floresta. Com tudo. Granizo. Estrondos. Pirotecnia.

Acabou a luz. Senti um pouco de receio de que o teto podre que me abriga pudesse cair. Mas o encantamento com o temporal foi – é – maior.

Desde criança gosto quando acaba a luz em meio às chuvas, parar tudo para estar e observar. Ser atirada de volta ao tempo real da vida. Acender a vela. Sentimento de primórdios nas entranhas e de poesia na cabeça – o cheiro de chuva, os sons da água e do vento nas árvores, as visões deslumbrantes da tempestade. Clarões. Vislumbres (seria vislumbre a soma de visão + deslumbre?).

Gosto de admirar a potência dos raios. Atravessa a gente, né?

Saiu uma forte cartinha entre os arcanos guaraníticos. Werá. O raio. Ele é poderoso. Às vezes assusta. Abre uma clareira em meio à mata. Coloca uma grande árvore seca em chamas. O poder dele é tanto que abre caminhos de luz a partir dessa árvore. Feixes na terra a partir desse eixo.

Conexão céu e terra.

Que eu possa não ter medo, receber essa força que desestabiliza e ser canal. Fazer caminho. Ser caminho.

Conectar com o que há de mais profundo e estagnado, com a lama, mas poder emergir e fluir e cantar e seguir dançando a dança da vida nesse plano, na matéria, nesse tempo. Nesse aqui agora.

Tempo desafiador. Todes estamos sentindo. Em nossas corpas, em nossa mente, em nossas entranhas. Em nossos corações, conturbadas emoções. Que a gente possa se cuidar. Se acolher. Contar com uma rede de apoio, ser uma rede de apoio. Nada é mais amorosamente revolucionário que cuidarmos de nós mesmas e umas às outras. Cuidar da vida. É o mais importante. (E que delícia ler o livro “Redes de cuidado: revoluções invisíveis por uma vida vivível” do Coletivo Etinerências nesse momento, recém saído do forno. Páginas de afeto e cuidado.).

E a vida é tão bonita. Que deslumbre é sentir.

 

Gracias hermanes que me trouxeram gengibre, própolis, ervas, elixires, mel, tantas coisas pra eu me cuidar. À Ananda que me aplicou reiki com ervas. Às hermanas que compartilharam desse momento à distância, dando aconchego nas mensagens e áudios.

Gracias, águas! Leva, lava, nutre, limpa. Cria lagos, mangues, canais. Escorre nos rios e cachoeiras. Desagua en la mar. Corre no nosso sangue, nossas lágrimas, nossa saliva, nosso suor.

Como aprendi no México nos tezmacais (o ventre da mãe terra):  “aramara, contigo todo, sin ti, nada”. Água, a primeira medicina. Desde o ventre de nossas mães.

 

Hoje armei um tambor lakota, uma hermana querida deu de presente pra gente, enviou todos os elementos já trabalhados, só faltava amarrar. Fui em jejum, depois de muito desaguar. Tinha deixado o couro de molho. Fiz um foguinho perto de casa. Acendi meu petyngua, fumei meu primeiro tabaquito depois de 14 dias. E já deu pra sentir as primeiras batidas desse novo coração. Agora tá secando. Em breve, a estreia coletiva, em celebração de primavera.

 

Renascer. Fluir.

Transbordar e florescer.

Bienvenida, primavera!

Dentro e fora.

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