Escute as feras

 

Trechos de “Escute as feras”, de Nastassja Martin. São Paulo: Editora 34, 2021.

Não existem mais absurdos, estranhezas, coincidências fortuitas. Existem apenas ressonâncias. (p. 16)

Eu me vejo novamente na iurta em Mílkovo, pouco tempo depois da minha chegada naquele verão, há quatro anos; a febre que me deixa de molho sobre a coberta de pele, Andrei e suas tisanas. O lugar entra em você, você vai ficar mais forte depois, ele tinha dito. Eu havia passado duas semanas, talvez três, enfurnada na iurta com ele, falando sobre o espírito dos animais, daqueles que nos escolhem antes mesmo que os encontremos. (p. 21)

Eu o ouço lembrando-me de nossas discussões durante meus delírios febris e alertando-me contra o espírito do urso, que me segue, que me espera, que me conhece. No entanto, ele não me detém. Ele não faz nenhum gesto para me impedir de subir os vulcões. E é por isso que Dária o recrimina. Que ele saiba, por mim, pelo urso, e que não faça nada. Que ele nunca tenha feito nada; ou melhor: que ele tenha dito tudo a uma fera que, por desafio, corria de todo modo para a sua perdição, ao encontro de sua iniciação, e que seja preciso a intervenção de um milagre para que ela sobreviva a tudo isso. Não, nada é culpa dele. O que ele fez: guiou meus passos para que eu fosse ao encontro do meu sonho.

Dária, ela também, sempre soube. Ela sabe quem me visita quando durmo; conto para ela de manhã cedo os ursos da minha noite, familiares, hostis, engraçados, perniciosos, afetuosos, inquietantes. Ela escuta em silêncio. Ri por me ver agachada nos arbustos de bagas com meus cabelos loiros que ficam por cima das folhagens, você tem como que uma pelagem, ela me diz toda vez. Ela compara o meu corpo musculoso com o da ursa, ela se pergunta qual das duas dorme na toca de seu duplo. Mas Dária tem alguma coisa que Andrei não tem, que Andrei nunca terá: ela é mãe. Uma mulher que conhece a dor em sua carne, a vida e a morte, e que mais do que tudo no mundo aspira a proteger aqueles que ama e a poupá-los do sofrimento. Dária também sabe ver entre os mundos. No entanto, ela nunca arrancaria um menino de seu ambiente familiar, ela não o levaria à floresta, não desenharia um círculo em torno dele dizendo você fique aí, não o confiaria ao mundo exterior durante uma lunação para que ele tecesse sob a pele as relações que mais tarde farão dele um homem. Esse é o papel do pai. De jogar o filho no mundo uma segunda vez. Não tenho pai desde a adolescência. Andrei de alguma forma se apoderou desse lugar que ficou vago, assumiu o papel daquele que inicia, empurrando a criança para fora da doçura e da evidência intrauterina. É precisamente por isso que Dária o detestará para sempre. (p. 22-23)

Mais tarde nessa noite, as linhas correm na página, eu escrevo e é um fluxo, uma evidência, escrevo porque estou profundamente afetada. Devo dizer que tenho dois cadernos de campo. Um é diurno. Ele é repleto de notas esparsas, descrições minuciosas, transcrições de diálogos ou de falas, opacos na maioria das vezes, até que eu volte para casa e confira a eles uma ordem; até que eu ordene esse amontoado de dados detalhados para fazer dele algo estável, inteligível, compartilhável. O outro é noturno. Seu conteúdo é parcial, fragmentário, instável. Eu o chamo de caderno preto, porque não sei definir bem o que vai dentro dele. O caderno diurno e o caderno noturno são a expressão da dualidade que me corrói; de uma ideia do objetivo e do subjetivo que preservo apesar de mim mesma. Eles são respectivamente o de dentro e o de fora; a escrita automática, imediata, pulsional, selvagem, que não tem outra vocação além de revelar o que me atravessa, um estado de corpo e alma um dado momento, e aquela, paradoxalmente menos bem-acabada, porém mais controlada, que será trabalhada em seguida para se tornar reflexiva, e que terminará nas páginas de um livro. Obviamente, depois do urso, nessa noite foi o caderno preto que eu peguei. (p. 26-27)

[No hospital] Não tenho nenhuma vontade de estar aqui, penso, detendo-me diante da grande porta de vidro. Entro mesmo assim. O cheiro, o linóleo, as cores, os uniformes, as senhas de espera no guichê de recepção, tudo me causa repulsa. (p. 48)

Há três anos, Dária me contou sobre a derrocada da União Soviética. Ela me disse, Nástia, um dia a luz se apagou e os espíritos retornaram. E voltamos para a floresta. Sobre meu trenó na noite gélida, deixo meu pensamento vagar em torno da frase. De onde venho a luz não se apagou e os espíritos fugiram. Tenho muita vontade de apagar a luz. Eu também, nessa noite, volto para a floresta. (p. 73)

A criança possui uma coisa que o adulto procura desesperadamente ao longo de toda a sua existência: um refúgio. São as paredes do útero com todos os nutrientes afluindo cotidianamente e que é preciso às vezes conseguir reconstruir em torno de si. Tenho a estranha impressão de que, quando fracassamos, o mundo procura nos levar de volta a esse lugar por meio de um golpe do destino, alguma coisa exterior nos faz retornar à vida interior num confinamento a portas fechadas a priori lúgube, mas na realidade salvador. Quatro paredes apertadas, uma porta pequena e contatos restritos – Victor Hugo na ilha, na paróquia diante do mar, compõe seus versos; Soljenítsin nos bosques do Vermont se recupera da história russa; Trótski em suas prisões escapa da morte e escreve; Lowry em sua cabana diante do mar compila a agitação do mundo no entanto invisível dali onde ele se encontra. O que faço de diferente daquilo que eles realizaram, na minha floresta sob o vulcão, de volta da quase-morte que me espreitou? O que faço senão ousar dar um passo para o lado para ver melhor, ver os sinais que pulsam em mim e que anunciam a Época, suas contradições, seu furor, sua tragédia e sua impossível reprodução? Vi o mundo demasiado alter do bicho; o mundo demasiado humano dos hospitais. Perdi meu lugar, procuro um entre-meio. Um lugar onde me reconstituir. Esse recolhimento deve ajudar a alma a se reerguer. Porque será muito necessário construir essas pontes e portas entre os mundos […]. (p. 75-76)

Eis nossa situação atual, a do urso e a minha. Nós nos tornamos um foco de atenção sobre o qual todo mundo fala, mas ninguém capta. É precisamente por essa razão que não paro de tropeçar em interpretações redutoras, até mesmo trivais, por mais bem-intencionadas que sejam: porque estamos diante de um vazio semântico, de algo fora do enquadramento, que diz respeito a todos os coletivos e que lhes dá medo. Daí a pressa de uns e outros para rotular, para definir, delimitar, dar uma forma ao acontecimento. Não deixar pairar a incerteza a seu respeito é normalizá-lo para fazer com que entre no coletivo humano custe o que custar. E contudo. O urso e eu falamos de liminaridade, e, mesmo que seja assustador, ninguém mudará nada disso. Os galhos estalam atrás de mim, vem vindo alguém. Decido: eles dirão o que quiserem. Quanto a mim, vou permanecer nessa no man’s land. (p. 78)

Penso em Clarence, o velho sábio gwich’in de Fort Yukon, no Alasca, meu amigo e precioso interlocutor durante os anos em que morei em seu vilarejo. Sempre o observei com olhar entretido quando ele me dizia que tudo era constantemente “gravado” e que a floresta era “informada”. Everything is being recorded all the time, ele repetia. As árvores, os animais, os rios, cada parte do mundo guarda tudo o que se faz e tudo o que se diz, e até mesmo, às vezes, o que se sonha e o que se pensa. Por isso é preciso prestar muita atenção nos pensamentos que formulamos, porque o mundo não se esquece de nada, e cada um de seus elementos componentes vê, ouve, sabe. O que aconteceu, o que sucede, o que se prepara. Existe um sinal de alerta dos seres exteriores aos homens, sempre prontos a extrapolar suas expectativas. Além disso, cada forma-pensamento que depositamos fora de nós mesmos vem se misturar e se acrescentar às antigas histórias que informam o meio ambiente, bem como às disposições daqueles que o povoam.

Segundo Clarence, existe um sem-limites que aflora à superfície do presente, um tempo do sonho que se alimenta de cada fragmento de história que continuamos a nele agregar. Há no mundo uma latência e uma ebulição, semelhantes à lava que espera sob o vulcão até que alguma coisa a force a sair da cratera. É precisamente por isso que Dária e Vássia abaixam a voz e sussurram na alvorada dentro da iurta sonolenta quando contam seus sonhos um ao outro. Você tem medo de acordar os outros?, pergunto certa manhã. Não, não quero que eles nos escutem, lá fora, responde Dária.

(p.80-81)

Faz nove anos que trabalho junto daqueles que “partem para sonhar mais além”, como diz Clarence. O que você está fazendo com a barraca nas costas?, eu lhe perguntava há cinco anos quando ele se distanciava sub-repticiamente para fora de Fort Yukon em direção à floresta. Não ouço nada aqui. Também não vejo nada. Muito falatório, muito conforto, muita família, e quase mais nada. Too much fuss! Saio para sonhar mais além. (p. 81)

É que para sonhar é preciso estar deslocado, ela me disse um dia. Por isso nunca fico muito tempo na minha casa, continuou. Você está tão longe da sua casa… Não surpreende que você veja tantas coisas, ela concluíra. (p. 82)

Dária diz que as imagens noturnas não são sempre puras projeções. Sonhos-lembranças ou sonhos-desejos. Existem outros sonhos, […] que não controlamos, mas que esperamos, porque eles estabelecem uma conexão com os seres do lado de fora e abrem a possibilidade de um diálogo. Por que isso é importante? Porque eles permitem que os humanos se orientem durante o dia; porque eles dão uma indicação sobre a tonalidade das relações por vir. Sonhar com significa ser informado. (p. 83)

[…] niguém escutou Antonin Artaud, que, no entanto, tinha razão. É preciso sair da alienação que nossa civilização produz. Mas a droga, o álcool, a melancolia e in fine a loucura e/ou a morte não são uma solução, é preciso encontrar outra coisa. Foi o que procurei nas florestas do Norte, o que encontrei apenas parcialmente, o que continuo a perseguir. (p. 85)

Quantos psicólogos me tomariam por louca se eu lhes dissesse que sou afetada pelo que acontece fora de mim? Que a aceleração do desastre me petrifica? Que tenho a impressão de não mais ter controle sobre nada? Ah, então esse é o motivo que leva você a se agarrar às montanhas! Sim, e a coisa fica grave é quando até mesmo a montanha está desabando. […] algo ressoa em mim, algo que dói e desorienta.

Teria sido tão simples se minha perturbação interior se resumisse a uma problemática familiar não resolvida, ao meu pai morto cedo demais, às expectativas não satisfeitas da minha mãe. Então eu poderia “resolver” minha depressão. Mas não. Meu problema é que meu problema não pertence apenas a mim. Que a melancolia que se exprime no meu corpo vem do mundo. Acredito que sim, é possível se tornar “o vento que sopra através de nós”, como dizia Lowry. E que é comum não voltar atrás, como ele, como tantos outros. Fui ter com os evens do Itcha e vivi na floresta com eles por uma razão bem distante de uma pesquisa comparativa. Entendi uma coisa: o mundo desmorona simultaneamente em todos os lugares, apesar das aparências. O que acontece em Tvaián é que se vive conscientemente em suas ruínas. (p. 86-87)

Escrevo há anos sobre os confins, a margem, a liminaridade, a zona fronteiriça, o espaço entre dois mundos; acerca desse lugar tão especial onde é possível encontrar uma potência outra, onde se assume o risco de se alterar, de onde é difícil voltar. Sempre disse a mim mesma que não se deve cair na armadilha da fascinação. O caçador, coberto dos cheiros de sua presa e usando suas vestes, modula a voz para adotar a do outro e, ao fazer isso, entra em seu mundo, mascarado, mas ainda ele mesmo sob a máscara. Eis o truque, eis o perigo. Toda a questão passa a ser então: conseguir matar para poder voltar – a si, aos seus. Ou então: falhar, deixar-se engolir pelo outro e deixar de estar vivo no mundo dos humanos. Escrevi essas coisas no Alasca; vim a vivê-las em Kamtchátka. Ironia do trabalho comparativo, piada dos dois blocos que se observam de um lado e do outro do estreito de Bering; estranheza do confronto entre meu espírito na América que observa meu corpo na Rússia.

Fui até o fim do encontro arcaico, mas voltei porque não morri. Houve hibridização e, no entanto, continuo sendo eu mesma. Quer dizer, eu acho. Alguma coisa que se parece comigo, mais os traços da máscara animista: estou inside out. O fundo animista dos humanos é o rosto deformado da máscara. Metade homem metade foca; metade homem metade águia; metade homem metade lobo. Metade mulher metade urso. O que está por baixo do rosto, o fundo humano dos bichos é o que o urso vê nos olhos daquele que ele não devia olhar; é o que meu urso viu nos meus olhos. Sua parcela de humanidade; o rosto por baixo do seu rosto. (p. 90-91)

Para nós, os miêdka devem ser evitados e, acima de tudo, não se deve encostar nas coisas deles. Por quê? Sua tergiversação me irrita profundamente, fale por favor, não me esconda nada. Porque eles não são mais eles mesmos de fato, entende? Porque carregam parte do urso neles. Dária suspira. Para alguns, isso vai mais além. Dizem que eles ficam “perseguidos” pelo urso para o resto da vida. Perseguidos no sonho ou perseguidos de verdade?, pergunto. Os dois, diz Dária abaixando os olhos. É um pouco como se essas pessoas estivessem enfeitiçadas, você entende? Entendo. Uma lágrima escorre pela minha face. Dária puxa um pedaço de lençol e a enxuga. Então você também acredita que estou enfeitiçada? Se sou de fato miêdka e ser miêdka é ser tudo isso, então por que você não me evita também? Não acredito em nada disso, responde Dária. Tudo isso não passa de história. Aqui a gente vive com todas as almas, aquelas que erram, aquelas que viajam, os vivos e os mortos, os miêdka e os outros. Todo mundo. (p. 93)

Quer saber o que eu acho? Por favor, eu suspiro. Acho que você mesma não sabe o que a leva sempre a partir para lugares cada vez mais distantes. Talvez seja isso, concordo. Ou então talvez seja algo da ordem do indizível. Ou do intraduzível. Como uma outra língua, entende, um negócio que se vive, mas que escapa a qualquer explicação. Um negócio que ultrapassa, um negócio que ultrapassa você. Ivan balança a cabeça, ele balança a cabeça como se estivesse se livrando da tristeza que detesta sentir despontando em seu próprio corpo. Ele ri de novo. Você é engraçada. Você também. Um negócio como os sonhos? Sim. Um negócio como os sonhos. (p. 94)

Penso no primeiro sonho aqui e não respondo mais nada a Ivan porque não tenho nada mais a dizer. Não é um truque, e de todo modo não ganharei esse jogo contra ele, um caçador muito melhor do que eu. Tento. Tento ordenar as coisas pelo menos na minha cabeça. Essa coisa qualquer que emerge, essa espécie de resposta em forma de pergunta aberta, esse algo anterior ao aborrecimento e aos sonhos recorrentes que me fizeram fugir dessa floresta e, junto com ela, de seus habitantes e do lugar que eles quiseram me dar. Esse lugar que continuo não querendo, um lugar em meio aos xamãs que partiram cedo demais e aos miêdka que chegaram tarde demais. (p. 95)

Nesse dia 25 de agosto de 2015, o acontecimento não é: um urso ataca uma antropóloga francesa em algum lugar nas montanhas de Kamtchátka. O acontecimento é: um urso e uma mulher se encontram e as fronteiras entre os mundos implodem. Não apenas os limites físicos entre um humano e um bicho que, ao se confrontarem, abrem fendas no corpo e na cabeça. É também o tempo do mito que encontra a realidade; o outrora que encontra o atual; o sonho que encontra o encarnado. A cena acontece nos dias de hoje, mas poderia muito bem ter ocorrido há mil anos. Somos apenas eu e esse urso no mundo contemporâneo, indiferente às nossas ínfimas trajetórias pessoais; mas é também o confronto arquetípico, é o homem cambaleante com o sexo ereto diante do bisão ferido no poço de Lascaux. Como na cena do poço, é a incerteza quanto ao desfecho do combate que preside o acontecimento inacreditável que, contudo, se dá. Mas ao contrário da cena do poço, a continuação não é um mistério, pois nenhum de nós morre, pois retornamos do impossível que ocorreu.

Não é um pensamento que eu gostaria de verbalizar; prefiro escrevê-lo: hoje, sentada na beira do rio, na neve molhada, escrevo que existe uma lei implícita, silenciosa. Uma lei própria aos predadores que se procuram e se evitam nas profundezas das matas ou nas dorsais da terra. A lei é a seguinte: quando e se eles se encontram, seus territórios implodem, seus mundos se reviram, seus encaminhamentos usuais se alteram e seus vínculos se tornam indefectíveis. Existe uma suspensão do movimento uma retenção uma parada um estupor que se apossa das duas feras pegas no encontro arcaico – aquele que não se planeja, aquele que não se evita, aquele do qual não se foge. (p. 97-98)

Penso em todas essas histórias e em todos esses mitos que eu e tantos outros antropólogos transcrevemos cuidadosamente em nossas monografias sobre os povos que estudamos, em todas essas viagens de um mundo a outro que atiçam nosso interesse científico, em todos esses homens um tanto especiais, esses xamãs que perseguimos como os caçadores rastreiam os animais que os fascinam. Penso em todos esses seres que se embrenharam nas zonas sombrias e desconhecidas da alteridade e que delas voltaram, metamorfoseados, capazes de encarar “aquilo que vem” de maneira não convencional, eles agem agora a partir daquilo que lhes foi confiado debaixo do mar, debaixo da terra, no céu, debaixo do lago, no ventre, debaixo dos dentes. (p. 99)

DEBAIXO DA PELE

E eu? Sabia o que estava procurando com o urso? Sabia quem eu estava esperando e quem eu via em sonho? Sabia por que eu seguia as pistas dos seus rastros por toda parte e por que eu esperava secretamente um dia cruzar o seu olhar? Claro, não desse jeito. Não tão rápido, não tão forte. Partir, eu dizia. Um pouco de ar, de gelo, de rochas, o horizonte. Acrescentou-se o sangue. Ele me pegou desprevenida em minha espera. Seu beijo? Íntimo para além do imaginável. Meu olhar se turva e tudo fica desfocado, as cabeças de rena que cobrem o chão, os corpos decapitados que perdem o sangue, os homens atarefados em volta. Ivan pare com isso não aguento mais. Será possível viver sem esse furor que pulsa no fundo de nós, que ameaça periodicamente aniquilar tudo? Seria preciso ter sempre a certeza de poder voltar. Voltar do outro mundo, como Perséfone. Seis meses no alto, seis meses embaixo, prático. Mas fora do tempo do mito, o ciclo se interrompe, porque é assim, porque é a Época, porque é aquilo que todos nós encaramos. Seria preciso que os dois rostos da máscara animista parassem de matar um ao outro, que eles criassem a vida, que eles criassem outra coisa além de si mesmos. Seria preciso, não, é preciso a todo custo sair dessa dualidade reversível e mortífera. (p. 102)

[da editora, sobre a coleção “fábula”, na qual  o livro se insere]

FÁBULA: do verbo latino fari, “falar”, como a sugerir que a fabulação é extensão natural da fala e, assim, tão elementar, diversa e escapadiça quanto esta; donde também falatório, rumor, diz que diz, mas também enredo, trama completa do que se tem para contar (acta est fabula, diziam mais uma vez os latinos, para pôr fim a uma encenação teatral); “narração inventada e composta de sucessos que nem são verdadeiros, nem verossímeis, mas com curiosa novidade admiráveis”, define o padre Bluteau em seu Vocabulário português e latino; história para a infância, fora da medida da verdade, mas também história de deuses, heróis, gigantes, grei desmedida por definição; história sobre animais, para boi dormir, mas mesmo então todo cuidado é pouco, pois há sempre um lobo escondido (lupus in fabula) e, na verdade, “é de ti que trata a fábula”, como adverte Horácio; patranha, prodígio, patrimônio; conto de intenção moral, mentira deslavada ou quem sabe apenas “mentirada gentil do que me falta”, suspira Mário de Andrade em “Louvação da tarde”; início, com que Valéry ao dizer, em diapasão bíblico, que “no início era a fábula”; ou destino, como quer Cortázar ao insinuar, no Jogo da Amarelinha, que “tudo é escritura, quer dizer, fábula”; fábula dos poetas, das crianças, dos antigos, mas também dos filósofos, como sabe o Descartes do Discurso do método (“uma fábula”) ou o Descartes do retrato que lhe pinta J. B. Weenix em 1647, segurando um calhamaço onde se entrelê um espantoso Mundus est fabula; ficção, não ficção e assim infinitamente; prosa, poesia, pensamento.

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