Dos sinos ao horário de verão (doc República Guarani)

Num trecho desse doc sobre as missões, um dos pesquisadores (o que me pareceu o mais razoável deles, com um bigode estilera, Caravaglia, se não me engano), fala de como os jesuítas utilizaram a artificialização do tempo para a catequização e colonização dos indígenas Guarani.

E para isso utilizaram um aparato à primeira vista inofensivo, e até poético: o sino. Blém, blém, blém. Hora de comer, hora de dormir, hora de rezar, e principalmente, hora de trabalhar! E assim incutiu-se um tempo artificial, que visa uma certa produtividade voltada para uma noção de mercado, que desarticulou a noção natural do tempo que sempre ditou o ritmo da vida entre os Guarani.

Os séculos passaram e, independentemente se está frio ou quente, noite ou dia, chovendo canivete ou calor de morrer, blém, blém, blém. Hora de fazer isso, hora de fazer aquilo, olha a hora! E de repente, de cima pra baixo, sem ninguém saber bem como foi definido, está decretado: adiantem seus relógios uma hora.

O relógio é uma convenção artificial à qual não ajudamos a definir – não nos convidaram pra essa festa nem tão pobre que já vem marcada bem antes da gente nascer. E que não é aleatória, nem neutra. Segue uma visão de mundo predominante, de uma razão instrumental que tem uma dificuldade imensa de questionar o sentido das coisas para além da produção em si.

Além e aquém dos sinos e relógios, é primavera no hemisfério sul, os dias ficam cada vez mais longos e quentes e é hora propícia para semear depois da hibernação do inverno.

As plantas, os bichos, os astros, não sabem que horas são, mas os ciclos naturais continuam sua dança pelo mundo.

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