Nosso acordo é viver: democracia e autonomia em terras zapatistas

Jovens zapatistas antes de uma partida de futebol no Encontro de Mulheres que Lutam.

Esse texto foi escrito originalmente para a segunda edição do livro Teoria Social, democracia e autonomia: uma interpretação da experiência de autogoverno zapatista, de Cassio Brancaleone, para trazer aspectos atuais do processo zapatista dez anos depois da pesquisa que deu origem ao livro.

Versión en español

 
 

Veja também:

– 1a edição do livro para download
– 2a edição do livro

– Mulheres em luta e, por alguns dias, sem medo: nosso acordo é viver
– Mulheres zapatistas e a saúde comunitária

 

 

Talvez, quando o encontro tenha acabado, quando regressem aos seus mundos,
aos seus tempos, às suas maneiras, alguém lhes pergunte se chegaram a algum acordo.
Porque eram muitos pensamentos diferentes que chegaram a essas terras zapatistas.
Talvez então vocês respondam que não.
Ou talvez respondam que sim, que sim fizemos um acordo.
E, talvez, quando lhes perguntem qual foi o acordo, vocês digam
“nosso acordo é viver, e como para nós viver é lutar,
pois combinamos lutar cada quem segundo seu jeito,
seu lugar e seu tempo”.

 

Essas palavras foram ditas no encerramento do I Encontro Internacional Político, Artístico, Esportivo e Cultural de Mulheres que Lutam, realizado em março de 2018 no Caracol de Morelia – ou Caracol IV, Redemoinho das Palavras, zona de Tzotz-Choj, Chiapas, sudeste mexicano. Dez anos depois da vivência que deu origem a esse livro, foi minha vez de experienciar as lutas zapatistas.

Cheguei com o pesado volume de autoria de Cassio Brancaleone na mochila, as dicas que ele havia me dado, e uma grande alegria por estar vivendo a história do nosso tempo, esse tempo coletivo que não se mede em uma vida individual. Uma sensação de estar no lugar certo e na hora certa, não à toa: o levantamento zapatista, em 1o de janeiro de 1994, é conhecido como um divisor de águas, um antes e depois frente ao neoliberalismo. E, 25 anos mais tarde, segue firme, radicalmente coerente e inspirando autonomias mundo afora.

De uma apatia frente à crença predominante no “fim da história”, segundo a qual o capitalismo seria o auge insuperável de evolução da humanidade, indígenas do sudeste mexicano inauguraram uma onda mundial de lutas que denunciaram a globalização capitalista como o mais refinado mecanismo de exploração dos seres humanos e não humanos. E, destacadamente no caso zapatista, não se restringiram à denúncia: transformaram seus mundos, atuando em seus territórios por meio da autonomia e do autogoverno em prol da justiça e da dignidade humana, em defesa de “um mundo em que caibam muitos mundos”, em que nenhum sistema que tenha como objetivo e prática hegemonizar e homogeneizar os modos de vida nesse ainda tão diverso planetinha consiga se impor. E, enquanto existir tal sistema opressor, haverá resistência. Haverá luta. Uma guerra para que não existam mais guerras, como anunciaram em seus comunicados.

A luta se exterioriza em resistência ao sistema capitalista e seus braços no Estado – o “mau governo” –, que a tudo tratora, que a tudo coisifica, que a todos e todas as de abaixo tenta silenciar. Seja esse governo de dita direita ou de dita esquerda, afinal, talvez em diferentes graus e com roupas de diferentes cores, a lógica vertical, predatória e colonial é a mesma.

A Revolução de Zapata e seus comparsas, nos idos do início do século XX, foi traída, apropriada pela estrutura partidária – e assim surge o PRI, Partido Revolucionário Institucional, que se confundiu (se confunde?) com o Estado mexicano por décadas. Além dessa lição histórica, o movimento zapatista aprendeu diretamente que não vale a pena tentar negociar com o Estado a partir da experiência com os engavetados Acordos de San Andrés, por meio dos quais se pretendia garantir oficialmente as autonomias indígenas no México.

A palavra dos de cima não foi cumprida, os ataques do exército e dos paramilitares aos indígenas, zapatistas e não zapatistas, continuaram – entre eles, o massacre de Acteal. Dessa desgastante e infrutífera tentativa de diálogo surge a 6a Declaração da Selva Lacandona, em que o movimento zapatista deixa bem clara a postura autonomista anti-Estado que sustenta até então.

Por primeira vez, em julho de 2018, un candidato dito de esquerda, mas cuja trajetória passou pelo PRI, ganhou as eleições presidenciais no México. E, também pela primeira vez, uma mulher indígena despartidarizada tentou concorrer a tais eleições, em nome de um Conselho Indígena de Governo formado a partir do CNI – Congresso Nacional Indígena.

A nada ortodoxa proposta de lançar uma candidatura indígena independente foi concebida nos escritórios selváticos zapatistas. Como assim? Mas essa gente mascarada não é anti-Estado? A estratégia gerou um curto-circuito cerebral em apoiadores do movimento, talvez até mesmo em alguns integrantes. Polêmicas à parte, a ideia nunca foi assumir a presidência – até porque, como já sabe quem não alimenta esperança no opressor e suas estruturas (quem são os ingênuos?), carta que não pode ser marcada não entra nesse velho jogo viciado. A proposta foi simplesmente causar, mobilizar, pautar o anticapitalismo a nível nacional e principalmente fortalecer os laços dentre as comunidades indígenas, as redes de apoio urbanas e o próprio CNI.

Ao mesmo tempo em que mobiliza para fora, a luta se corporifica para dentro: no fortalecimento das mulheres, da saúde e da educação comunitária, das cooperativas, da produção saudável para a terra e para as gentes, da criação de memória histórica e difusão de discursos próprios por meio das comunicações, do cultivo do imaginário através das artes e da prática cotidiana e comum da governança coletiva, sintetizada no termo autonomia. Ou, como dizem na sua 6a Declaração, da auto-aprendizagem e exercício do “mandar obedecendo”.

A luta também se tece entre; entre movimentos indígenas, lutas coletivas, indivíduos, indivíduas, individoas, todes que lutam por esse mundo onde caibam muitos mundos, anticapitalista, antipatriarcal; que alimentam, vivem e criam esses outros mundos. E uma maneira bastante interessante de se tecer essa rede, e na qual o zapatismo tem muita prática, é por meio de eventos, encontros, seminários e festivais.

Eis uma característica histórica do movimento, que em 1996 teceu seu primeiro grande encontro internacional – que muitos apontam como o principal antecedente dos levantes que ficaram conhecidos como “antiglobalização”, que talvez seja mais interessante denominar como uma outra globalização: globalização da solidariedade, globalização de lutas contra a expropriação neoliberal, globalização das rebeldias. Globalização da esperança em contraposição à globalização capitalista. Destas outras globalizações surgiram redes como a Ação Global dos Povos e o Fórum Social Mundial.

É notável a capacidade que esse movimento indígena do sudeste mexicano, tão territorializado, tem de tecer redes planetárias por meio de eventos presenciais e dinâmicas digitais. Artes zapatistas surgiram por todos os lados e a voz do Subcomandante Galeano, outrora Marcos, se ouve na música do Manu Chao – declarações rebeldes invadindo as rádios comerciais.

Sim, podemos dizer que o zapatismo é pop. Mas consegue atingir tal repercussão e permitir tais desdobramentos sem se deixar capturar, sem se deixar apropriar pelo Estado e pelo mercado – equilíbrio raro nas lutas sociais. E por isso segue firme até hoje. O fato de se assumirem e reassumirem como anticapitalistas, manterem sua autonomia frente ao Estado e se relacionarem com outros movimentos sem querer impor nada a eles, e nem deixar que eles imponham nada, certamente contribui para que sua popularização não implique em captura.

Nesse último período, foram muitos os eventos. A fins de 2017 aconteceu o 2o ConCiencias pela Humanidade, com o tema “as ciências frente ao muro”, voltado para o meio acadêmico. Em março de 2018, o Encontro de Mulheres que Lutam, que contou com mais de cinco mil participantes de vários cantos do mundo. Em abril, onze dias de conversatório ou, como denominaram, semillero (que pode ser traduzido como “sementeira”), ou como quer que se diga, Proibido pensar?, no qual se avaliou a tentativa de candidatura de Marichuy, María Jesús Patricio Martínez, pelo CIG – Conselho Indígena de Governo, bem como o Encontro de Mulheres. Em agosto foi a vez da terceira edição do festival artístico CompArte pela Vida e pela Liberdade, imediatamente antecedido pelo Encontro de Redes de Apoio ao CIG. O 1o festival zapatista de cinema Puy Ta Cuxlejaltic, “Caracol de Nossa Vida” (quando se comemoravam 15 anos do surgimento dos caracóis), aconteceu em novembro. E, a fins de dezembro e começo de janeiro de 2019, um encontro, agora internacional, de redes de apoio ao CIG, seguido da celebração dos 25 anos do levantamento zapatista.

Ufa. Ano movimentado. Não por acaso as zapatistas, ao contrário do que haviam dito em 2018, decidiram não realizar o II Encontro Internacional de Mulheres que Lutam em março de 2019. Depois de um momento de abertura, anuncia-se um período de retração. Mas em pleno governo “progressista”? Justamente. Esse tal de progresso inclui megaprojetos, como o chamado “Trem Maia”, que colocam em xeque a autonomia dos povos da região. A já anunciada intensificação da militarização oficial no estado de Chiapas deixa claro que, dito de esquerda ou não, capitalismo é capitalismo – e que não existe bom governo dentro da estrutura de Estado.

 

Proibido pensar?

Nessa andarilhança que dialoga com o que Cassio denomina “sociologia andante” – que entendo como uma sociologia que caminha, escuta, aprende, se envolve, que atua conscientemente nesse mundo que não só observa como faz parte –, pude acompanhar os seminários que acontecem semanalmente no CIDECI-UniTierra, o Centro Indígena de Capacitação Integral, em San Cristobal de las Casas.

Toda quinta-feira à noite discutem-se notícias relacionadas às lutas sociais do mundo, a partir do exercício da escuta atenta e da palavra sincera. O resumo das notícias selecionadas para a ocasião, sempre distribuídas na semana anterior para que todxs possam ler, é apresentado primeiramente em tzotzil, idioma indígena predominante na região, e na sequência “na castilha”, ou seja, em espanhol. Trata-se de uma prática semanal de avaliar conjuntamente as lutas sociais no mundo e as ameaças desde acima, em que participam estudantes indígenas do CIDECI, gente das comunidades locais, apoiadores dos movimentos e ativistas de diversos lugares do mundo que transitam pela região.

O CIDECI também serve como base para a realização de eventos zapatistas em San Cristobal de las Casas, cidade transformada em epicentro de resistências anticapitalistas desde o levantamento de 1994. E foi lá que aconteceu o conversatório “Olhares, Escutas e Palavras: Proibido Pensar?”, realizado após o anúncio oficial de que a pré-candidatura de Marichuy não obteve a quantidade de assinaturas exigida pela lei eleitoral. Uma candidatura independente necessitaria de quase 870 mil assinaturas para viabilizar-se: foram coletadas mais de 260 mil.

El Sub entrevistando Marichuy no primeiro dia do Conversatório.

A própria Marichuy fez uma caravana pelo México, promovendo debates principalmente nas comunidades que integram o Congresso Nacional Indígena. Diversos coletivos se formaram ao redor do país para apoiar a candidatura da porta-voz do Conselho Indígena de Governo: colocaram suas banquinhas nas ruas, conversaram com pessoas e coletaram assinaturas. A princípio era necessário usar um aplicativo, e para isso ter um smartphone e sinal de internet, para validar cada uma delas. Evidentemente isso dificultou a coleta no meio rural, principalmente nas comunidades indígenas, e o sistema eleitoral passou a aceitar a documentação em papel, incluindo cópia do título de eleitor – o que também não foi tão fácil coletar. Cabe destacar que, apesar de que foi o movimento zapatista quem deu a ideia da candidatura independente, suas bases não contribuíram com as assinaturas. Afinal, não votam.

O Subcomandante Galeano declarou que em verdade nem esperavam ter a pré-candidatura validada, que pensavam que seguramente faltaria alguma cópia de algum documento solicitado em algum rodapé de alguma página do regulamento. Lançar uma pré-candidatura a partir de um Conselho Indígena de Governo, além de demonstrar que outras formas de organizar-se para além de partidos existem, foi uma aposta de denúncia desse sistema eleitoral excludente. Que se cumpre.

Essa foi a primeira vez em que as eleições presidenciais do México contaram com a possibilidade de candidaturas independentes. Entretanto, a única pré-candidata que nunca teve passagem por partidos era Marichuy – além de ter sido a que teve menos assinaturas impugnadas pelo Instituto Nacional Eleitoral. Três pré-candidatos conseguiram reunir a quantidade de assinaturas necessárias: uma ex-primeira dama que deixou seu partido alguns dias antes de inscrever-se como independente, um senador (em licença) e um governador (também em licença), e foram encontradas irregularidades. Isso sem entrar na análise do quesito financiamento.

Ser mulher, indígena e falar o idioma de sua comunidade: esses eram os pré-requisitos delineados pelo CIG para a escolha de sua representante. Marichuy, além de cumprir com tais parâmetros, é casada e mãe. Essas últimas características foram destacadas pelo Sub no semillero para enfatizar que uma mulher não deve ter que escolher entre a vida pública ou a família, mas que a família e a comunidade precisam criar condições para que toda mulher possa exercer o papel político que lhe cabe.

Durante o Encontro de Mulheres, as zapatistas declararam que não querem nenhum patriarcado, nem capitalista, nem ancestral. Para isso as tradições também devem ser questionadas sempre que impeçam que qualquer grupo social ou pessoa tenha uma vida digna; quando são calcadas em exploração e relações de opressão de uns sobre outras – historicamente, de homens sobre mulheres (e todes que não cabem nessas duas categorias).

É importante lembrar que o capitalismo colonial aprofunda esse abuso patriarcal, e ainda agrega outros, como o de brancos sobre indígenas e de patrões sobre empregados. O que ocasiona que, tristemente, muitas vezes as relações de opressão se reproduzam entre mulheres, entre pessoas de outros gêneros e sexualidades não heteronormativas, entre indígenas, entre explorados. É preciso descolonizar o modo em que nos relacionamos, também abaixo e à esquerda.

Em sua 6a Declaração, o movimento zapatista reconheceu que sua principal falha consistia na ainda baixa participação das mulheres nas atividades políticas. Mesmo contando desde 1993 com a Lei Revolucionária de Mulheres – que reconhece seu direito à educação, ao trabalho, à remuneração justa, à vida política, a não serem obrigadas a casar nem a ter filhos, e de prever graves castigos aos abusadores sexuais –, poucas ocupavam cargos de direção.

A autocrítica não foi da boca para fora: o cenário mudou drasticamente, para melhor, nos últimos anos, e o Encontro de Mulheres ter sido organizado exclusivamente por elas é exemplo disso. Elas se orgulham, na carta que escreveram às mulheres do mundo explicando o porquê de não realizarem o II Encontro como planejado, de que em muitos anos nenhuma mulher foi assassinada em terras zapatistas. Considerando o processo de fortalecimento das mulheres de forma ampla, extrapolando o zapatismo e envolvendo o CNI, a candidatura de Marichuy é outro exemplo.

A convocatória para o semillero contava a história de um lugar qualquer, em que havia um grande e desgastado muro, cheio de rachaduras. Ali colado, um velho cartaz em que se lia: “a família feliz”, retratando um homem e uma mulher, com dois filhos, um menino e uma menina. Todos sorrindo. Talvez algum dia essa família tenha parecido feliz, ou quem sabe até existido e sido feliz, mas não há memória disso. Ninguém lembra. As pessoas passavam, apressadas, em frente ao muro. Às vezes uma parte dele caía, matava algumas delas, até mesmo comunidades inteiras; as pessoas se comoviam momentaneamente e logo voltavam para suas vidas apressadas. Até que chegava o momento das eleições do Encarregado de Cuidar do Cartaz, em que todos se agitavam, discutiam. Uma menina aparece e pede licença para falar. As autoridades e o público em geral questionam se uma criança deveria ter direito a voz em tão importante debate, se seria capacitada para tal, se não se tratava de uma maneira de desviar a atenção dessa tão importante disputa, se não acabaria influenciando a abstenção. No final a instituição responsável pela eleição do Encarregado de Cuidar do Cartaz decide que não, a menina não pode falar. Mesmo assim ela diz: VAI CAIR. “Mas ninguém escutou… um momento: ninguém?”, finaliza, interrogante, a convocatória.

O nome do evento faz referência ao que se considera debate eleitoral, e as diversas acusações dirigidas àqueles que se propõem a pensar além das eleições, e até mesmo denunciá-las. Mas já se dizia na 6a Declaração: não se trata de ser contra a política, mas sim de ser contra ESSA política. E aí entramos no mérito do que é política, do que é democracia. O zapatismo, assim como o Congresso Nacional Indígena, segue afirmando que não existe democracia sem organização popular, sem autonomia, sem autogoverno. Que não existe democracia onde alguns mandam e outros obedecem. E que não existe justiça social dentro do capitalismo que, cada vez mais, dá sinais de que já não se sustenta. Vai cair.

Alguns coletivos que se formaram nesse processo, conformando as Redes de Apoio ao CIG, entraram em crise existencial quando seu trabalho acabou. O conversatório foi um momento de avaliação entre os que participaram dessa trajetória, e outros encontros se seguiram para definir os próximos passos dessas redes.

Além das comunidades indígenas, dos intelectuais, ativistas, artistas, jornalistas e demais convidados, o conversatório também contou com o relato da avaliação que as mulheres de cada um dos cinco caracóis zapatistas fizeram do Encontro de Mulheres que Lutam, realizado cerca de um mês antes.

Como demanda a coerência, toda a estrutura necessária para que os eventos zapatistas sejam realizados é voluntária, ativista ou como quer que se chame. Algumas percepções pessoais: 1. Não tem personalismo nem glamour; 2. É tudo autogerido, ou seja, não vem dinheiro de nenhum lugar para ninguém e para nada; a coisa se dá no ativismo não remunerado em prol da causa; 3. Tem gente de todo mundo que contribui (assim como gente enraizada em Chiapas), em todas as frentes consideradas necessárias, como equipe técnica de som e imagem, tradução, segurança, transporte (para as pessoas convidadas que necessitam), montagem de exposições e por aí vai; inclusive um grupo responsável pela venda de comes e bebes, que é o que financia a equipe de apoio, ou seja, cobre seus gastos com gasolina e material; 4. É tudo muito discreto: à medida em que se vai mostrando engajamento genuíno e trabalho é que se vai ganhando confiança – e mais trabalho.

Há relatos diários do conversatório em formato escrito, acompanhado de fotos e do áudio de todas as falas, disponível na página digital da Rádio Zapatista. As declarações do I Encontro de Mulheres, assim como todos os comunicados, podem ser encontrados na página Enlace Zapatista. Partes da trama de uma outra rede de apoio, de comunicação, que constrói a memória do movimento e o difunde para os quatro ou quantos sejam os cantos do mundo.

Compartilho um trecho do relato do 10o e penúltimo dia de semillero, mais especificamente da participação de Yásnaya Aguilar, linguista, pesquisadora e ativista mixe de Oaxaca:

Yásnaya Aguilar irrumpió en el auditorio del CIDECI como un huracán dispuesto a sanar las heridas y la enfermedad contemporánea con el irreductible y originario remedio de la libertad. Si tomamos la domesticación del maíz como nuestro origen, lo alusivo a lo indígena apenas haría referencia a 200 de los 9,000 años transcurridos desde entonces, pues esta gran categoría fue creada por los Estados-Nación para encasillar, conjuntar y encapsular en un cajón único y supuestamente común distintas prácticas de vida y organización cuyo rasgo compartido era precisamente la negación a aceptar la idea de pertenecer a un Estado, es decir, a formar parte de algo mayor encima de los pueblos y practicar un estar juntxs falso e inocuo lejano al amor y cercano al impulso patológico de la muerte. Así, del torrente de palabras, miradas y escuchas compartidos por Yásnaya -lxs zapatistas de plano le pidieron su texto para seguirlo descubriendo con calma-, emergió ayer de nuestras heridas físicas y patológicas una pista enorme y vital para sobrevivir juntxs. “Eso que entiendo que los caracoles, que los compañeros zapatistas ya están haciendo, y disculpen si los contradigo, más que buscar un ‘nunca más un México sin nosotros’, están creando ya el ‘nosotrxs sin México’”, sonrió Yásnaya.

Sua provocação vai em sentido contrário da palavra de ordem tão repetida no meio zapatista e do CNI – “nunca mais um México sem nós”, em que se reivindica um México que não marginalize os povos indígenas. Yásnaya questiona a própria categoria homogeneizante que o termo “indígena” implica, e o intuito de disputar um Estado-nação. “Indígenas somos as nações sem Estado”, diz ela, e os chamados “mestiços” são indígenas “desindigenizados”. Indígena não seria, portanto, um traço essencial – seria possível encontrar algo essencial a tantos povos tão diversos de tão distintos lugares, a não ser a própria negação do Estado nacional? –, mas um traço político, que existe devido às terríveis circunstâncias da colonização. Contudo, mesmo que utilizem o termo “indígena”, e mesmo que contradiga sua palavra de ordem, ela acredita que xs zapatistas, em seus caracóis, já estão criando “um nós sem México”.

Em resposta, o Sub disse que Yásnaya chegou a conclusões que xs zapatistas também estão chegando – e que já iniciam algumas de suas celebrações sem tocar o hino nacional e se percebem utilizando palavras que já não fazem sentido. Complementou que quando se está sozinho é fácil pensar que se está delirando, e que é muito bom perceber que há pessoas delirando na mesma frequência.

 

Tudo parece impossível na véspera

Quando as zapatistas lançaram a convocatória para o I Encontro Internacional Político, Artístico, Esportivo e Cultural de Mulheres que Lutam, não imaginaram que milhares de mulheres de partes tão distintas do mundo chegariam em suas terras para compartilhar suas vidas e lutas. Quando o EZLN – Exército Zapatista de Libertação Nacional lançou-se em armas recuperando terras, ocupando sedes municipais em Chiapas e espalhando sua palavra, num intento muitas vezes classificado, até por eles mesmos, como suicida, não imaginava que chegariam aos 25 anos pós insurreição armada com caracóis estruturados, sólidas bases e uma rede planetária de apoio. E sem nunca mais ter mobilizado seu exército para ataque nenhum.

Tudo parece impossível na véspera, como disseram em algum de seus comunicados. E o que segundo uma lógica instrumental calcada no conformismo se entende como delírio, imaturidade, romantismo, pode ser a capacidade de pensar além das correntes que nos prendem e o impulso inicial que nos permite mover para que nos livremos delas.

O zapatismo nos convida a delirar, juntxs, mas separadxs: que compartilhemos nossos sonhos, nossos delírios, mas respeitando nossas diferenças, nossa diversidade, nossos modos. Que coloquemos em prática o delírio democrático a partir da autonomia, do nosso jeito, a nosso tempo, a partir dos nossos lugares, tecendo diversos nós numa rede para que nunca mais exista um planeta sem todos nós.

Ao final do Encontro de Mulheres, as zapatistas não convocaram a que nos somemos a um plano mundial de derrocada do capitalismo – e do patriarcado – encabeçado por elas. Não acreditam na monocultura das lutas, mas que a força da vida se sustenta sobre a diversidade de modos de lutar e viver. Não querem ser vanguarda de nada, nem apresentar modelos para ninguém. Incitam apenas a que cada quem encontre maneiras locais e coletivas de sobreviver frente ao trator global, porque nos estão matando.

Estão matando mulheres; povos indígenas ou como quer que se diga; gays, lésbicas, bis, trans e outroas; pobres, trabalhadorxs, campesinxs, negrxs, esquerdalhas; intelectuais, artistas, ativistas, comunitaristas, ambientalistas; bosques, selvas, rios, animais, plantas, subsolos, montes, ares, terras, oceanos e mares; culturas, ideias, ideais, sonhos, idiomas, modos de ser e de existir.

Porque estão nos matando – e acabando com a diversidade da vida terráquea em prol do lucro, em nome do progresso e da civilização –, lutar é viver.

Registro do I Encontro Internacional de Mulheres que Lutam.

 

 

Michele Torinelli

México, fevereiro de 2019,

a cem anos do assassinato do lutador Emiliano Zapata.

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