Guia de viagem

O guia desta viagem não é um roteiro pré-estabelecido, dentro de um tempo e um espaço delimitados. O que motiva a andarilhança é a vontade de conhecer, aprender, registrar e divulgar experiências de Bem Viver.

A ideia é vivenciar e documentar o cotidiano, as sabedorias e a luta de iniciativas que, a partir de conhecimentos muitas vezes esquecidos ou marginalizados, constroem esse outro mundo possível e necessário, como indica o lema do Fórum Social Mundial; um mundo onde caibam muitos mundos, como dizem os zapatistas; ou, simplesmente, uma Vida Boa.

Trata-se de uma vontade, mas também do diagnóstico de uma necessidade. É preciso construir, multiplicar e veicular narrativas de contraposição à visão predominante de mundo, tão difundida pela mídia e pela indústria cultural – visão esta que tem nos levado à catástrofe planetária, à crise civilizatória e à infelicidade humana.

Disseminar a esperança, denunciar a ganância, eis o papel da comunicação em prol de uma Vida Boa. Uma comunicação que não é só testemunha dos fatos, mas parte cocriadora da vida na Terra.

Comunidade, sabedorias ancestrais, autogestão, organização popular, permacultura, agroecologia, bioconstrução, comunicação compartilhada, luta social, direitos humanos, políticas públicas, educomunicação, culturas tradicionais, resistências periféricas, educação libertária, cultura digital, software livre, cosmovisões, saúde integral, conexão espiritual, atuação em rede – esses são alguns dos temas que conduzem essa jornada, aberta ao diálogo e à transformação.

 

Bem viver: a natureza subversiva de uma vida plena

Arte do Iconoclasistas. inspiração.

Arte dos Iconoclasistas. Inspiração.

Existem várias formas de se viver. Assim como paisagens, cores de pele, climas e espécies, o ser humano desenvolveu diversas maneiras de se relacionar com sua comunidade e seu meio – ou seja, com a vida. Só no território que hoje conhecemos como Brasil havia centenas de etnias indígenas antes da chegada das caravelas, revelando uma imensa diversidade cultural. Muitas resistem, outras tantas foram exterminadas, e do violento encontro entre povos em Abya Yala – América Latina, terra de sangue vital -, da truculência do invasor e da forçada diáspora africana, nos transformamos no que somos.

Mas parece que, entre tantas formas de viver, há algo que conecta os povos tradicionais e campesinos, algo que constitui a unidade em meio a toda essa diversidade: o respeito pelo ciclo da vida em suas distintas manifestações. Ao mesmo tempo em que é inspirada em suas cosmovisões, essa lógica comunitária, diferente daquela do lucro e da exploração, se reflete também nas práticas cotidianas.*

O que caracteriza o Bem Viver é justamente o entendimento de que enquanto humanidade somos apenas uma das muitas formas de manifestação da vida, que devemos honrar a terra, a lua e o sol e ter respeito por todos os seres. E que cada pessoa, além de estar inserida num planeta e num universo, também nasce, cresce e vive em meio a redes comunitárias – e que a felicidade individual só pode existir na harmonia entre essas relações.

Como explica Leonardo Boff em Sustentabilidade: o que é / o que não é, o ideal do Bem Viver, termo originário dos povos andinos, “visa uma ética da suficiência para toda a comunidade e não apenas para o indivíduo” e “pressupõe uma visão holística e integradora do ser humano inserido na grande comunidade terrenal” [ver mais]. A partir desse conceito as constituições da Bolívia e do Equador, reformuladas nos últimos anos, reconhecem os direitos da Pachamama, a Mãe Terra – o que deu visibilidade ao termo, apesar de a legitimidade dessa apropriação ser questionável, como aponta a socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui.

De qualquer maneira, o Bem Viver está longe de ser a realidade predominante no planeta; pelo contrário, resiste a duras penas. A lógica capitalista-produtivista, desconectada da dinâmica dos ciclos naturais e da justiça social, dizima as comunidades tradicionais e exaure o ambiente. Por isso vivemos hoje uma crise planetária, em que o equilíbrio da Terra e as condições de vida da espécie humana estão em xeque.

Para além dos povos tradicionais, outras experiências contemporâneas que se colocam contra a exploração da vida e atuam em prol da sustentabilidade e da solidariedade também são consideradas iniciativas de Bem Viver. Entre elas estão os movimentos sociais, comunidades intencionais e demais iniciativas políticas, culturais e espirituais que despertam a humanidade para uma vida plena, que enxergam além da competitividade, da desconexão com o todo e do consumismo característicos da lógica do mercado – e colocam essa perspectiva em prática.

As experiências de Bem Viver são inspirações para enfrentar a grave situação social, política, cultural e ambiental que vivenciamos. Não é à toa que esses laboratórios de Vida Boa frequentemente são perseguidos por aqueles que lucram com a miséria e com a degradação: sua prática é revolucionária. Por isso precisam ser cada vez mais popularizadas, para que se fortaleçam e motivem novas experiências; para que cada vez mais pessoas ajudem a construir uma Vida Boa, entre todos os seres.

 

*Perspectiva que pode ser encontrada em A memória biocultural: a importância ecológica das sabedorias tradicionais, de Víctor M. Toledo e Narciso Barrera-Bassols (Expressão Popular, 2015, 1a edição).