Cura

 

Já faz mais de um mês que estou num dos lugares mais encantados que conheci. Quase no fim do segundo jejum de 5 dias que me propus a fazer. No primeiro, a vontade de me abster era tanta que já deixei de comer no caminho pra cá. Meu corpo pedia. Eu sentia que o foco tinha que estar totalmente pra dentro. Pra cura.

E, no primeiro jejum, lembrei dessa imagem do filme “A montanha sagrada”, do Jodorowsky. Um homem dentro dos vidros alquímicos suando até transformar sua merda em ouro. O fato é que jejuando chega um momento em que você para de produzir merda! Já não há o que expelir. Que simbólico isso. E, ao parar de produzir merda, pode se transformar em ouro…

Um início de artrite, isso que me veio como resultado da checagem bioenergética. Depois de meses sentindo dores na lombar e bastante cansaço, de achar que era algo passageiro na coluna e, depois, inflamação na bexiga, me vem esse diagnóstico. Que faz todo sentido. Algo que eu traria ancestralmente, ligado a questões emocionais, cristalizado no corpo.

Depois do primeiro jejum, veio a desintoxicação de 21 dias que acompanha o tratamento da bioenergia. Toda uma rotina de autocuidado. Alimentação quase vegana e natural, sem açúcar, chás específicos, própolis, óleo de sucupira, mel de vespa, tintura de garra del diablo, espirulina, geleia real, banho gelado no rio, argila nas costas por no mínimo 3 horas ao dia (tenho usado o barro diretamente do barranco mais próximo). Yoga. Meditação. Tarot. Silêncio. Aty, meus rezos. O bom sono e o mistério dos sonhos.

E temazcais. Suando, cantando, entregando à terra o que já não me cabe. Em meio à solitude, a cura coletiva adentro do útero da Mãe Terra, esse cadinho ancestral que nos transmuta. O velho exercício de nos transformar para sermos quem realmente somos.

E agora mais um jejum para fechar esse ciclo, e os entendimentos vão vindo. Com alguma ajuda dos símbolos astrológicos e do método simples da bioenergia. Meu corpo, conectado com o cosmos, sabe.

Curar as raízes. Apropriar-se do poder de serpente. O corpo guiando o espírito.

Algumas das medicinas se acabaram, outras chegaram. Babosa com limão. Alho cru com cúrcuma. Kombucha. Copaíba. Mas a maior medicina é a natureza. A simplicidade. Sem luz elétrica, sem água encanada, banho de rio, fogo à lenha. Bosque encantado. As ovelhas, os pássaros e seus cantos loucos, os esquilos, as flores e até um veado!

As pequenas serpentes que cruzaram meu caminho, confirmando as escolhas. Os cachorros que acabei por cuidar. As lagartas e insetos psicodélicos. Vá lá, até as ratas!

San Mateo del Rio Hondo, com seu riozinho nada fundo, mas encravado em meio à montanha, gracias! Gracias por me acolher e me permitir olhar pra mim, me reconhecer em minha natureza. Gracias aos meus anfitriões, que me permitiram ser a guardiã do temazcal e estar em solitude, que compartilharam seus saberes e medicinas: que me apoiaram. Gracias às sábias mulheres medicina que me guiaram ao longo dessa trajetória de meses, que me ensinaram que eu sou minha maior guia. Gracias a todos os seres, visíveis e invisíveis.

Gracias ao bosque. Aos pinheiros. À luz do sol. Ao canto do rio. À beleza da chuva. Às profundezas da noite, poderosa e logo tão serena. Ao renascimento da vida a cada dia. À proteção do Grande Espírito, o Espírito que a tudo une.

Essa tal de troca de pele dói. É exigente. Mas como agradeço. O tão necessário mergulho profundo para alcançar discernimento. E definir o que vai e o que fica. Adeus, (algumas) ilusões. As sementes foram escolhidas.

San Mateo del Rio Hondo, Oaxaca, México.

10 de setembro de 2018.

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